Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)
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Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)


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tem exigido do profissional de psicologia um envolvimento maior
nas diversas etapas da assistência e prevenção do HIV/Aids.
A ação do psicólogo tem sido ampliada, deixando de ser apenas
o acompanhamento do processo de morte. Ele pode tentar
diminuir a vulnerabilidade social através de ações educativas
intra e extra muros, promover o aconselhamento pré e pós teste,
fazer o acompanhamento dos pacientes soropositivos, participar
da revelação do diagnóstico e do processo de comunicação a
parceiros e à família, quando solicitado e coordenar grupos
terapêuticos ou de adesão ao tratamento.
Neste texto, pretendemos abordar os aspectos mais
atuais e emergentes da Aids em nosso país, que são as questões
relativas à evolução da infecção pelo HIV, a vulnerabilidade, a
adesão ao tratamento, a terapia antiretroviral, os sentidos do
risco, os transtornos mentais que ocorrem com adolescentes
portadores de HIV/Aids e os direitos dos portadores do vírus.
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Evolução natural da doença
Para o psicólogo que acompanha pacientes com Aids,
torna-se necessário conhecer a evolução natural da doença,
uma vez que esta tem se tornado doença crônica, com longo
período de evolução e exigências específicas no seu manejo,
como exames laboratoriais e clínicos regulares, especificidades
ligadas à medicação, ao preconceito social etc.
O vírus da imunodeficiência humana (HIV) é o agente
etiológico da Aids e foi descoberto em 1983 por Luc Montagnier,
tendo sido classificado como retrovírus. Sendo um retrovírus
(RNA), o HIV não consegue se reproduzir sem antes ser trans-
crito por um DNA. Em 1986, foi identificado na África um
segundo agente e determinou-se a classificação desses vírus
como HIV I e HIV II respectivamente.
O HIV possui glicoproteínas cujas estruturas têm a
função de acoplar o HIV às células CD4 que apresentam
receptores compatíveis. As células humanas, que possuem na
sua superfície receptores CD4 em grande quantidade, são os
linfócitos auxiliares ou linfócitos CD4 que, dentro do sistema
imunológico, cumprem um papel fundamental na distribuição
direta de agentes invasores e no desempenho da função de
desencadear respostas imunes de maior complexidade. Com a
contaminação, a concentração de vírus tende a aumentar, a
reposição de células de CD4 torna-se declinante e o processo
de falência do sistema imunológico começa a se estabelecer.
Há um lento processo de desequilíbrio que, se não houver
interferência, através da introdução dos medicamentos, levará,
após alguns anos, a um estado de profundo comprometimento
imunológico cujo desfecho será a manifestação da infecção,
até então não aparente.
O diagnóstico da presença do vírus no organismo é feito
através da pesquisa de anticorpos anti-HIV no sangue, mas
devemos considerar o tempo entre a exposição ao vírus e a
possibilidade de serem encontrados anticorpos anti-HIV no
sangue (de duas semanas a três meses). A esse período
chamamos de janela imunológica; o indivíduo pode estar infectado
e o exame apresentar-se negativo.
Dois exames laboratoriais servem de parâmetros para
a avaliação da condição imunológica do portador: a contagem
de linfócitos CD4 e o exame da carga viral plasmática que de-
termina o número de partículas virais que estão circulando no
sangue periférico do infectado. Quanto maior esse número,
maior a destruição do sistema imunológico.
Quando assintomático, o indivíduo é considerado
soropositivo ou portador do vírus. Quando surgem os sintomas,
ele passa à condição de doente de Aids. Quando o diagnóstico
é realizado antes da instalação da doença, pode ser feito o
controle dos níveis de CD4, de carga viral e iniciada a medicação
antiretroviral sem ter havido ainda a manifestação dos sintomas
clínicos. Em geral, esse controle é feito pelo infectologista de
quatro em quatro meses. Alguns pacientes acompanham os
resultados com bastante ansiedade e expectativa, outros
preferem ignorar.
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O tratamento atual da infecção pelo HIV fundamenta-
se no uso de drogas antiretrovirais específicas e de antibióticos
ou quimioterápicos utilizados para o manejo das infecções
oportunistas e neoplasias. A terapêutica antiretroviral tem como
objetivo a supressão da replicação do HIV, através do bloqueio
de diferentes etapas do ciclo reprodutivo viral. Atualmente
existem três grupos de drogas. Os chamados coquetéis são
combinações entre remédios de três grupos. Em geral é utilizada
a terapia dupla, tripla ou quádrupla. A monoterapia não é
recomendada. Quando o paciente apresenta falhas nos primeiros
esquemas, pode haver outras combinações e associações
denominadas de terapia de resgate.
O uso do coquetel representa um aumento no tempo e
na qualidade de vida, mas causa inúmeros efeitos colaterais
que podem limitar a utilização dos medicamentos para muitos
pacientes. Esses efeitos variam de pessoa a pessoa e, na maioria
das vezes, são toleráveis.
As falhas no tratamento podem ocorrer em razão da
seleção natural de cepas mutantes ou serem facilitadas pelo
uso errado dos medicamentos. Quando alguém atrasa ou pára
de tomar a medicação, o vírus volta a se multiplicar com a mesma
força que tinha antes de os remédios atuarem. Surgem novos
vírus com pequenas mudanças (mutações), que não são sensíveis
à medicação, fazendo com que o efeito do tratamento diminua.
A adesão ao tratamento é fundamental. A exposição a subdoses
do medicamento ou a regimes de uso intermitente acelera a
emergência do vírus, inviabilizando o uso de diversas drogas do
\u2018arsenal\u2019 e, muitas vezes, deixando o paciente sem nenhuma
alternativa de tratamento.
Terapia antiretroviral
A terapia antiretroviral tem demonstrado eficácia em
fazer crescer os níveis de CD4 e em decrescer os níveis de
carga viral em grande número dos casos. \u201cCom a terapêutica
antiviral adequada, espera-se que a carga viral se torne
indetectável pelos níveis atuais, controlando a progressão da
doença \u201d (Coordenação Nacional de DST/Aids, 2000, p. 18).
No acompanhamento de pacientes soropositivos,
percebemos o incremento da angústia e da ansiedade por
ocasião da introdução da terapêutica antiretroviral. Até esse
momento, o indivíduo é, muitas vezes, assintomático e não tem
concretas evidências da
doença a não ser no plano
emocional e social. O
coquetel traz a concretude
no aqui e agora e cria
situações novas como:
necessidade de adequar a
dieta para o uso de alguns
remédios, decisão de tomar ou não na frente de amigos, criação
de estratégias para que ninguém veja e pergunte por que tantos
remédios, \u201cescravidão\u201d aos horários, abstinência alcoólica,
mudança na rotina de vida e o manejo dos efeitos colaterais nos
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primeiros meses. Alguns relatam esse momento como uma
sensação de \u201ccomeço do fim\u201d, de acordo com o trabalho de
Teixeira, Paiva e Shima (2000).
No adolescente, deve-se acrescer os horários de aula
e prova, a decisão de deixar que os colegas saibam ou não, a
pressão da família para não contar e/ou a superproteção dos
pais, que passam a não permitir algumas particularidades porque
agora acham que têm que vigiar a ingestão dos remédios e
outras situações.
A adolescência é um período marcado por mudanças
corporais e pelo exercício mais explícito da sexualidade.
Paquerar, namorar, apaixonar-se passa a fazer parte da vida
social e afetiva. A presença do HIV na vida de um adolescente
pode transformar esses momentos em situações de crise.
Contar, ou não, para o parceiro(a)? Quando contar? Até onde
contar? Ter uma vida \u201cnormal\u201d como os outros ou esconder-se
destas experiências? Como a família lida com essas situações?
O psicólogo, estando atento, pode facilitar a elaboração desses
e de outros questionamentos.
Adesão ao tratamento