Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)
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Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)


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a ansiedade e a angústia permeiam os
sentimentos da pessoa envolvida. O aconselhamento pré-teste
é um momento de intervenção importante para a prevenção da
saúde mental. É o momento para revelações das fantasias com
relação ao HIV, de esclarecimento de dúvidas, de informações
sobre as possibilidades de tratamento, de criação de estratégias
de enfrentamento da soropositividade e convivência com o di-
agnóstico/doença. É um momento crucial para o estabeleci-
mento de vínculo.
A revelação do diagnóstico é outro momento de grande
ansiedade. Esclarecer o paciente sobre essa ansiedade e seus
mecanismos de maneira clara e objetiva, valorizando os sintomas
psicológicos e acolhendo seu sofrimento psíquico é tão
fundamental quanto a assistência clínica.
No transcorrer da doença, outros episódios de
ansiedade estarão presentes. O acompanhamento do paciente
com Aids deve, também, proporcionar um diagnóstico diferencial
constante com outras situações que geram sintomas
semelhantes: afecções neurológicas relacionadas a Aids,
doenças secundárias e efeitos colaterais dos antiretrovirais. Os
medicamentos antiretrovirais são responsáveis por sintomas
como insônia, cefaléia, fadiga, parestesias e mal-estar difuso
que estão diretamente ligados com os sintomas sugestivos de
ansiedade.
Outra situação ansiogênica é decidir se vai contar, com
quem dividir essa informação e a forma de contar. Em geral,
nesse momento o paciente sente-se inseguro quanto à postura
e à disponibilidade afetiva dos interlocutores. É interessante uma
investigação acerca das relações dele com os familiares e
amigos, se está dividindo suas angústias e medos com alguém e
como tem sido a qualidade dessa acolhida. \u201cO conhecimento
dessas relações pessoais constitui em uma ferramenta
importante no desenho do
projeto terapêutico voltado
para a reversão do quadro
ansioso\u201d (Coordenação
Nacional de DST/Aids, 2000,
p. 24). Em geral, nesses casos,
a assistência psicológica e
acompanhamento são
suficientes para a manutenção
do equilíbrio psicológico,
gerando conforto e garantias de
que ele siga as orientações terapêuticas.
Um agravamento na situação psicológica do portador
do HIV pode levá-lo a desenvolver uma crise de depressão. A
incidência da depressão aumenta à medida em que a doença
progride e/ou pode ocorrer como efeito colateral das medicações.
Vale lembrar que a situação de se descobrir portador e/ou doente
de Aids já é uma vivência de situação de perda, concreta ou
simbólica, e pressupõe um processo de luto.
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O estabelecimento de uma crise depressiva vai exigir
um manejo específico. A investigação minuciosa pode ajudar
no diagnóstico diferencial. Devem ser investigados a existência
de fadiga crônica, irritabilidade renitente, choro fácil, alterações
no apetite, desejo sexual ou sono, a existência de outros sintomas
associados e se existe e como tem sido feito o uso de
medicações.
 Nos quadros depressivos moderados que não regridam
com psicoterapia ou grupo de apoio, pode ser indicado o uso da
medicação antidepressiva. Nesse caso, o encaminhamento do
paciente a um psiquiatra é recomendado.
Não é rara a ocorrência de surto psicótico em algum
momento do desenvolvimento da doença ou durante o
aparecimento de infecção oportunista do Sistema Nervoso
Central (SNC). Ao avaliar um paciente agitado, devemos
considerar a orientação espacial e temporal, a presença de
delírios, se a mudança de comportamento foi abrupta, se existem
antecedentes de transtornos psiquiátricos e suas condições
físicas gerais. O encaminhamento ao psiquiatra também é aqui
recomendado. Além do surto psicótico de base orgânica são
comuns, também, quadros delirantes persecutórios (paranóide),
quadro maníaco ou hipomaníaco e quadros psicóticos agudos
ou reativos.
O profissional de psicologia que trabalha nos serviços
de Aids deve estar apto ainda para identificar e diferenciar os
sintomas que indicam afecções neurológicas para proceder
ao encaminhamento devido. Faz-se necessário o conhecimento
da fase evolutiva da infeção retroviral para estabelecimento
dos possíveis diagnósticos. As afecções neurológicas são de
alta freqüência, chegando a cifras de 50 a 90% em crianças e
adolescentes. Essas afecções podem comprometer o Sistema
Nervoso Central ou o Sistema Nervoso Periférico, a depender
do estágio clínico imunológico evolutivo da infecção e podem
estar diretamente relacionadas ao HIV ou serem secundárias
\u2013 responsabilidade de outras etiologias favorecidas pela
imunossupressão \u2013 ou serem efeitos colaterais pelo uso de
drogas antiretrovirais.
Uma afecção neurológica que tem relação causal com
o HIV e que acomete a muitas crianças e adolescentes com
Aids é o Complexo Cognitivo Motor relacionado ao HIV (CCM
HIV), também denominado, demência associada ao HIV, ca-
racterizada principalmente pela lentificação dos processos men-
tais. Apesar de a demência poder surgir de forma abrupta, em
muitos casos podem ser observados distúrbios cognitivos mais
brandos e estáveis, desde a fase assintomática e na fase sinto-
mática inicial, caracterizada por comprometimento da tensão e
concentração e por uma certa lentidão no desempenho mental,
que podem ser evidenciados por testes psicológicos. O paci-
ente mantém suas atividades, mas com maior dificuldade na
realização das tarefas. Quando há um recrudescimento do CCM
HIV, pode haver lentidão psicomotora, apatia, isolamento social
e abandono das atividades habituais. Os pacientes começam se
queixando de certa queda no rendimento, de dificuldades em
atividades corriqueiras como leitura, resolução de problemas,
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de distúrbios leves na memória. Às vezes, as queixas são vagas
e isoladas. Podem se assemelhar a um distúrbio depressivo,
mas a diferença é que, na demência, há mais apatia e desinte-
resse do que tristeza. Muitas vezes, a queixa é do familiar ou do
acompanhante. A intervenção, nesse caso, deve ser a mais pre-
coce possível devido às repercussões na qualidade de vida do
paciente e sua sobrevida e na possibilidade de tratamento. Um
encaminhamento a uma avaliação
neurológica mais acurada é funda-
mental, inclusive porque quadros
como toxoplasmose cerebral e me-
ningite tuberculosa e outros também
podem gerar sintomas parecidos
com a demência.
Muitos déficits cognitivos
estabilizam ou regridem com a
terapia antiretroviral. \u201cMedidas
gerais que auxiliem o paciente a
compensar a queda de seu rendimento mental podem ser de
grande utilidade, assim como a orientação de seus familiares.
A psicoterapia para indivíduos com distúrbios cognitivos pode
ser de grande valia; devem ser feitas, todavia, adaptações
técnicas que considerem o padrão de funcionamento mental
dos pacientes\u201d (Coordenação Nacional de DST/Aids, 2000, p.
47).
Outro grupo afetado pela Aids é aquele constituído por
pessoas que, por medo, desinformação ou maior vulnerabilidade
psicológica sentem-se infectadas, mesmo apresentando sorologia
negativa. Na maioria das vezes, essas pessoas não trazem
história de comportamento de risco, mas desenvolveram a
convicção de estarem contaminadas mesmo com vários
resultados sorológicos negativos. Podem apresentar sintomas
como crises de pânico, distúrbios obsessivo-compulsivos,
vivências hipocondríacas e ansiedade generalizada e apresentar
quadros nos quais os sintomas da doença são mimetizados \u2013
diarréia, perda de peso, perda de apetite, doenças de pele e
queda de cabelo. A argumentação lógica não é suficiente. Uma
boa relação entre a equipe dos serviços de Aids e o paciente
aflito com as fantasias de infecção ou doença é determinante
para o sucesso do encaminhamento deste para os serviços
especializados. A paciência,