Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)
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Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)


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e, ao mesmo tempo são, a \u201cporta de saída\u201d
das ruas. Podem ser elaborados projetos como \u201cruas de lazer\u201d
ou \u201cesporte na madrugada\u201d, nos quais são oferecidas ativida-
des em momentos/contextos nos quais os adolescentes poderi-
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am, de outra forma, estar na rua.
Complementando o conjunto de serviços oferecidos aos
adolescentes em situação de rua, encontram-se os albergues,
destinados àqueles que possuem menor vinculação familiar.
Considerando que, nesses casos, os adolescentes retornam ao
lar apenas de forma esporádica ou em situações extremas, quan-
do não mais retornam, os albergues se apresentam como um
serviço de grande importância, oferecendo o local para repou-
so, higiene e alimentação. O papel do psicólogo nesse ambiente
é imprescindível, pois dependendo do fruto do seu trabalho, o
adolescente retornará para a rua ou entrará no processo de
reinclusão social junto às demais instituições. Por fim, são in-
corporadas à grande rede institucional de apoio as organiza-
ções de saúde pública, como hospitais, centros de saúde e
desintoxicação, postos de emergência etc. Não basta apenas
haver a instituição, é preciso que haja um serviço especial de
atendimento à população de rua, uma vez que, em muitos ca-
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sos, os adolescentes não estão de posse dos documentos ne-
cessários ao pronto atendimento. Por essas dificuldades, mui-
tas vezes pequenos males são menosprezados pelos próprios
jovens e se agravam até se tornarem casos de urgência. A
população de rua, devido à alta exposição aos riscos desse con-
texto, deve ter acesso a instituições voltadas ao atendimento de
acidentes, doenças infecciosas e sexualmente transmissíveis e
causadas pelo uso de drogas em geral.
Como é possível observar, o psicólogo possui grande
responsabilidade e trabalho não só dentro de cada uma das ins-
tituições aqui descritas, como também na integração de todas
elas. Faz-se necessário considerar que poucas são as cidades
brasileiras que possuem toda essa rede já implantada, cabendo
também ao profissional da psicologia oferecer grandes contri-
buições na potencialização dos recursos das organizações já
existentes ou na implantação daquelas ainda inexistentes.
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Capítulo XIII
Os adolescentes em conflito com a lei
Ana Luíza de Souza Castro
 F. tem quinze anos de
idade, sendo o penúltimo
filho de seis irmãos.
Cometeu um ato infracional
contra o patrimônio, o que
motivou seu internamento
provisório. Nascido no interior do estado, conta que tudo corria
bem em sua vida até o pai começar a beber; quando alcoolizado,
agredia fisicamente a esposa e os filhos. Quando F. estava com
10 anos de idade, a mãe \u201ccansou de apanhar\u201d e saiu de casa. Em
seguida, F. passou a usar inalantes, maconha, cocaína e,
ultimamente, crack. O pai desapareceu de casa dois anos
depois. F., então, foi internado através do Conselho Tutelar em
uma fazenda para dependentes químicos. Lá permaneceu
durante um ano. Quando teve alta, dirigiu-se à capital à procura
da mãe. Voltou a utilizar drogas e foi detido quando cometia o
delito. A mãe, que constituiu nova união, afirma ter saído de casa
face às surras freqüentes desferidas pelo marido. Tentou obter
a guarda dos filhos, porém somente obteve a do filho mais moço.
Sobre F., diz que sempre foi rebelde. Sente-se culpada pela atual
situação do filho, a quem tem visitado na instituição. Afirmando
que desconhecia o envolvimento de F. com drogas, manifesta o
desejo de auxiliá-lo e tê-lo em sua companhia.
O que leva um adolescente a cometer um ato
infracional? Os motivos são complexos e de várias ordens. Os
autores, de linhas diversas, concordam em um ponto: esse
adolescente, em um determinado período de sua vida, buscou
no delito alguma forma de reconhecimento, de pertencimento,
de obtenção de algo. A grande maioria desses jovens, ao
contrário do que pensa o senso comum, possui uma família.
Esta, porém, enfrenta grandes problemas para assumir seus
papéis. Alcoolismo, maus-tratos, abandonos, graves faltas
materiais, fragilidade ou inexistência da figura de autoridade ou
de uma substituta. Assis (1999a), após pesquisa realizada com
adolescentes privados de liberdade em três unidades do estado
do Rio de Janeiro, concluiu: o ato infracional de maior incidência
é contra o patrimônio (62,6%). Dos autores, 9% não possuía
registro de nascimento e 72% não estava estudando no momento
da internação. A situação familiar mostrou que somente 29,2%
provinham de lar composto pelo pai e pela mãe. A maioria dos
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Deborah
Realce
Deborah
Realce
adolescentes revelou que seus pais eram separados (71%).
Winnicott (1994) relaciona o fato da privação familiar e
negligência