Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)
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Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)


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com futuros cometimentos de delitos.
É sabido que a adolescência, pelo menos na cultura
ocidental, representa um período de transformações. O modelo
socioeconômico e cultural dominante, onde o grande valor,
insistentemente anunciado pela mídia, é possuir bens que a ampla
maioria das pessoas jamais terá, agrava ainda mais a situação
dos adolescentes brasileiros.
Hoje, no Brasil, a ampla maioria dos adolescentes
privados de liberdade é composta por excluídos sociais. Será
impreciso afirmar que a miséria, a penúria de bens materiais, a
falta de perspectivas causa o cometimento de atos infracionais.
Porém, podemos concluir existir aí uma condição de
vulnerabilidade. Assis (1999b) aponta como principais fatores
de risco o consumo de drogas, o círculo de amigos, os tipos de
lazer, a auto-estima, a posição entre irmãos, os princípios éticos
(reconhecimento dos limites entre o certo e o errado), a presença
de vínculos afetivos relacionados à escola e os sofrimentos de
violências infringidas pelos pais.
Quando um jovem comete um ato infracional grave,
houve inúmeras falhas: as políticas sociais básicas, o lazer, a
escola, o estado, a sociedade; todos nós estamos implicados.
Buscar soluções para esse problema é, portanto,
responsabilidade de todos esses setores e de cada um de nós.
Cabe lembrar a frase de uma campanha realizada pelo Conselho
Estadual de Direitos da Criança e do Adolescente do Estado do
Rio Grande do Sul: ninguém nasce infrator!
O Estatuto da Criança e do Adolescente
 e as mudanças de paradigma
F. é um adolescente, autor de um ato infracional contra
o patrimônio. Provavelmente, tivesse cometido o delito há quinze
anos, sob a vigência do Código de Menores, permaneceria
internado bem mais de 45 dias sem sentença, na companhia de
adolescentes simplesmente abandonados. Além de não ter suas
garantias básicas respeitadas, ao receber a medida, o largo tempo
decorrido entre o cometimento do delito e a sentença anularia o
efeito de socioeducação.
Há quase doze anos,
após uma grande discussão
com os operadores do
direito e com a sociedade
civil organizada, foi
promulgado o Estatuto da
Criança e do Adolescente
(ECA).Vários documentos nacionais e internacionais
questionavam a falta de respeito aos direitos humanos de
crianças e jovens brasileiros, a visão criminalizante da pobreza
e, portanto, a inadequação do código de Menores.
O ECA, como passou a ser chamado, foi um grande
avanço por vários motivos, entre eles: considerou crianças e
adolescentes \u201cseres humanos em desenvolvimento\u201d e \u201csujeitos\u201d
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de direitos e deveres. Por esse motivo, dado as mudanças
requisitarem sua contrapartida cultural, a nomenclatura
\u201cmenores\u201d não mais é aceitável. A mídia, ao cobrir um evento
para jovens, não costuma produzir manchetes do tipo \u201cmenores
lotam show de rock\u201d. Lamentavelmente, \u201cmenores\u201d continuam
sendo os adolescentes autores de ato infracional, \u201cpobres e
abandonados\u201d.
 Rompeu com a doutrina da \u201csituação irregular\u201d e
reafirmou a noção da \u201cproteção integral\u201d, pela qual todas as
criança e adolescentes, sem distinção, são prioridade absoluta
e dever da família, da sociedade e do Estado a sua proteção.
Saraiva (1999) situa a ideologia do estatuto no princípio segundo
o qual todas as crianças e os adolescentes desfrutam dos
mesmos direitos e deveres compatíveis com sua situação
peculiar de desenvolvimento, rompendo com a idéia, vigente
nos antigos \u201cjuizados de menores\u201d, da existência de uma \u201cjustiça\u201d
repressora para os pobres e, para os bem nascidos, uma
legislação absolutamente diferente.
Antônio Gomes da Costa (1999), avaliando o processo
de implantação do ECA, enumera vários avanços: a estrutura
de \u201cparticipação necessária\u201d para o cumprimento da Lei, já
implantada nos estados e em grande parte dos municípios, a
desativação da chamada \u201cpolítica nacional de bem-estar do
menor\u201d (cujo órgão máximo, a FUNABEM, foi extinto), o
Ministério Público assumindo suas novas atribuições na área
da infância e juventude, o movimento social em defesa das
crianças e adolescente continuando ativo, os municípios
assumindo grande parte dos programas etc. Como problemas,
enumera: parte considerável dos Conselhos de Direitos e
Tutelares ainda não funcionarem dentro do princípios do ECA,
velhas FEBEMS criadas no modelo assistencialista, correcional
e repressivo, ainda persistirem, embora com novas roupagens,
os programas e as ações desenvolvidos nas áreas de educação
e saúde para a população infanto-juvenil ainda não considerarem,
como é necessário, a perspectiva do Estatuto da Criança e do
Adolescente. Finalmente, situa como obstaculizadoras dos
avanços da legislação as seguintes culturas: cultura política
predominantemente clientelista e fisiológica, cultura
administrativa, marcadamente burocrática e corporativa, cultura
técnica fortemente auto-suficiente e formalista, cultura jurídica
ainda muito contaminada pelos resíduos da velha doutrina da
\u201csituação irregular\u201d e cultura cidadã emoldurada por uma história
secular de passividade e conformismo.
O ECA considera \u201cato infracional\u201d a conduta descrita
como crime ou contravenção penal. Os inimputáveis são os
adolescentes entre 12 e 18 anos, considerando a idade na data
do fato. As crianças até doze anos incompletos receberão uma
das medidas de proteção.
No Capítulo II - Dos Direitos Individuais, Artigo 106
determina que nenhum adolescente será privado de liberdade
senão em flagrante de ato infracional ou por ordem escrita e
fundamentada da autoridade judiciária. Prossegue o ECA, no
Artigo 11o, que nenhum adolescente será privado de sua
liberdade sem o processo legal. São asseguradas ao adolescente:
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pleno e formal conhecimento da atribuição de ato infracional,
igualdade na relação processual, defesa técnica por advogado,
assistência judiciária gratuita e integral aos necessitados, direito
de ser ouvido pessoalmente pela autoridade competente e direito
de solicitar a presença de seus pais ou responsáveis.
 Comprovada a prática do ato infracional pelo
adolescente, poderão ser aplicadas as seguintes medidas:
1) Sem privação de liberdade: a) advertência que
consiste na admoestação verbal pela autoridade judiciária; b)
obrigação de reparar o dano, indicada para atos infrações com
reflexos patrimoniais. A autoridade determinará que o
adolescente restitua a coisa, promova o ressarcimento do dano
ou compense o prejuízo da vítima; c) prestação de serviços à
comunidade, que consiste na realização de tarefas gratuitas de
interesse geral, por período não excedente a seis meses, junto a
entidades assistenciais, hospitais, programas comunitários ou
governamentais. As tarefas serão atribuídas conforme as
aptidões do adolescente, devendo ser cumpridas durante jornada
máxima de oito horas semanais, não prejudicando a freqüência
à escola ou à jornada normal de trabalho, e d) liberdade assistida,
que consiste no acompanhamento, auxílio e orientação ao
adolescente. A autoridade judiciária designará pessoa capacitada
para acompanhar o caso, a qual poderá ser recomendada por
entidade ou programa de atendimento. São incumbências do
orientador entre outras: promover socialmente o adolescente e
sua família inserindo-os, quando for o caso, em programa oficial
ou comunitário, supervisionar a freqüência e o aproveitamento
escolar, realizar diligências no sentido da profissionalização do
adolescente e de sua inserção no mercado de trabalho e
apresentar relatório do caso.
2) Medidas com privação de liberdade: a) semiliberdade,
que consiste na permanência do adolescente em
estabelecimento socioeducativo, onde as atividades externas são
realizadas independentemente de autorização judicial. São