Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)
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Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)


DisciplinaDesenvolvimento na Adolescência14 materiais92 seguidores
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característico des-
sa fase. Chega a afirmar que é
\u201cerro pensar que a juventude muda conforme as épo-
cas ... acreditar que ela se identifica com sucessivos ves-
tuários de empréstimo e que cada geração tem sua ju-
ventude é uma ilusão de moralista amador e apressado
... por detrás do aspecto da juventude existe a juventude
eterna, notavelmente idêntica a si própria no decurso dos
séculos ...\u201d (pp.15-16).
Na América Latina e, particularmente, no Brasil,
Aberastury (1980) e Aberastury e Knobel (1981) são um mar-
co histórico no estudo da adolescência na perspectiva psicana-
lítica. Sem dúvida, influenciaram muito e são fontes de referên-
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cia para todos os que se preocupam com esse tema. Aberastury
considera a adolescência como \u201cum momento crucial na vida
do homem e constitui a etapa decisiva de um processo de des-
prendimento\u201d (1980, p. 15). Além disso, destaca esse período
como de \u201ccontradições, confuso, doloroso\u201d (p. 16). Ainda mais,
afirma que a \u201cadolescência é o momento mais difícil da vida do
homem...\u201d (p. 29). Knobel, ao introduzir a \u201csíndrome normal da
adolescência\u201d, traz uma grande contribuição dentro dessa pers-
pectiva, mas que merece algumas considerações.
Apesar de enfatizarem que \u201ctoda a adolescência leva,
além do selo individual, o selo de meio cultural e histórico\u201d
(Aberastury, 1981, p. 28), ambos acabam incorrendo no artifí-
cio de condicionar a realidade biopsicossocial a circunstânci-
as interiores ao afirmarem uma \u201ccrise essencial da adolescên-
cia\u201d (p.10). Além disso, Knobel parte de pressupostos de que
\u201co adolescente passa por desequilíbrios e instabilidades extre-
mas\u201d (p. 9) e que o \u201cadolescente apresenta uma vulnerabilidade
especial para assimilar os impactos projetivos de pais, irmãos,
amigos e de toda a sociedade\u201d (p. 11). Esses desequilíbrios e
instabilidades extremas e essa vulnerabilidade especial é o que
colocamos em dúvida. Essas características, colocadas como
inerentes ao jovem, é que nos incomodam. Elas pressupõem
uma crise preexistente no adolescente. Essa tradição que con-
sidera a adolescência como uma fase crítica é que colocamos
em questão e que deveria ser mais bem discutida. Estaremos
aqui refletindo sobre a concepção de adolescência da qual a
psicologia tradicional se apropriou e que marca esse período
de maneira universalizante, naturalizante e crítica.
Santos (1996), em um estudo que mapeou historica-
mente as concepções de infância e adolescência incluindo a
Teologia, a Filosofia, a Psicologia e as Ciências Sociais, identi-
fica em Rousseau a invenção da adolescência como um pe-
ríodo típico do desenvolvimento, marcado pela turbulência, no
qual o jovem não é nem criança nem adulto. Também aqui es-
tariam as raízes de uma visão naturalista, na medida em que a
infância e a adolescência são vistas como um estado, e não
como uma condição social. O autor destaca, também, o fato de
haver uma tendência à formulação de grandes teorias que cons-
truiriam conceitos amplos que podem ser questionados em sua
relevância social. Dentro dessa perspec-
tiva, Santos cita como exemplos Freud e
Piaget que, segundo ele, apresentam
deficiências pelo fato de desprezarem o
contexto social e cultural, tendendo a
identificar bases universais em suas pro-
posições. Apesar de mencionarem uma
inter-relação entre o biológico e o cultu-
ral, enfatizam as estruturas internas
como propulsionadoras do desenvolvimento. As crianças (e ado-
lescentes) parecem nascer e viver em um vacuum sociocultural.
Em estudo em fase de conclusão, que investiga as con-
cepções dos profissionais de psicologia que trabalham com ado-
lescentes sobre esta categoria, Ozella (1999) encontrou uma
ênfase naturalizante caracterizada por uma visão da adoles-
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cência mais como uma fase inerente ao desenvolvimento do
homem do que como um processo que se constrói historica-
mente.
Apesar de estudos antropológicos que, desde Margareth
Mead (1945), têm questionado a universalidade dos conflitos
adolescentes, a psicologia convencional insiste em negligenciar
a inserção histórica do jovem e suas condições objetivas de
vida. Ao supor uma igualdade de oportunidades entre todos os
adolescentes, a psicologia que se encontra presente nos manuais
de Psicologia do Desenvolvimento, dissimula, oculta e legitima
as desigualdades presentes nas relações sociais, situa a
responsabilidade de suas ações no próprio jovem: se ideologiza
(Bock, 1997; Climaco, 1991).
Osório (1992), ao colocar a questão de a adolescência
ter um caráter universal, responde afirmativamente, apesar de
fazer algumas ressalvas, considerando que, ao se referir à cri-
se de identidade do adolescente, localiza-a naqueles jovens de
classes sociais mais privilegiadas que não têm a preocupação
com a luta pela sobrevivência. Entretanto, a seguir faz conside-
rações que indicam alguma contradição. Afirma ele:
\u201cMesmo em condições de vida extremamente adver-
sas, desde que assegurada a satisfação das necessida-
des básicas de alimentação e agasalho, podemos encon-
trar a seqüência dos eventos psicodinâmicos que confi-
guram o processo adolescente e a crise de identidade
que o caracteriza\u201d (p. 21).
Peres (1998), ao investigar a concepção de adolescente/
adolescência no discurso da Saúde Pública, identifica também
a noção de universalidade do fenômeno, bem como a noção da
adolescência como um período crítico no desenvolvimento
humano. Da mesma forma, Bock (1997), considera que a
universalidade \u201ctraz implícita a idéia de uma evolução natural
do ser humano, linear, independente das condições concretas
de sua existência\u201d (p. 64). Por outro lado, Peres ressalta que a
idéia da adolescência como um período de crise se sustenta
pela concepção da ciência positiva que permeia a psicologia,
que exclui a contradição, no sentido de que:
\u201ca noção de crise permite dar a idéia de um desarranjo,
pois a \u201charmonia\u201d é pressuposta como sendo de direito
... A \u201ccrise\u201d serve, assim, para opor uma ordem ideal a
uma desordem real, na qual a norma ou a lei é contrariada
pelo acontecimento ... Na concepção de adolescência,
essa leitura faz sentido, na medida em que, dentro da
evolução referida, a crise é apresentada como um desvio
ou perigo do curso natural do desenvolvimento, que deve
ser cuidado para a retomada da ordem natural (social)\u201d
(p.72).
Estudiosos na Espanha levantaram a questão da
insistência em considerar a adolescência como um momento de
crise. Herrán (1997) considera que haja alguma concordância
entre autores e linhas teóricas sobre o fato de a adolescência ser
um período de transição marcado por mudanças físicas e
cognitivas. O mesmo ocorre no que diz respeito à construção de
uma identidade nova (o que acontece durante toda a vida, pois
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a identidade está em constante transformação). O mesmo se dá
quando se referem à adolescência como um prolongamento do
período de aprendizagem que permitirá sua inserção no mundo
adulto. Observa entretanto que esse período tem sido marcado
por estereótipos que caracterizariam uma suposta síndrome
normal da adolescência, na qual se enfatizam: a rebeldia, a
instabilidade afetiva, a tendência grupal, as crises religiosas, as
contradições, as crises de identidade (Knobel, 1981), para citar
apenas algumas marcas da adolescência. Uma das marcas mais
fortes nessa concepção de
adolescência \u2013 a rebeldia \u2013 é
enfatizada por Osório (1992) com a
afirmação de que...\u201cSem rebeldia e
sem contestação não há
adolescência normal... O
adolescente submisso é que é a
exceção à normalidade\u201d (p. 47).
Santos (1996) faz algumas
reflexões interessantes sobre as
implicações contemporâneas das
concepções modernas de infância
e adolescência