Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)
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Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)


DisciplinaDesenvolvimento na Adolescência14 materiais92 seguidores
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obrigatórias a escolarização e a profissionalização, sempre que
possível através dos recursos existentes na comunidade. O
regime de semiliberdade pode ser determinado desde o início
ou como forma de transição para o meio aberto; b) internação,
que consiste em
medida privativa da
liberdade, sujeita aos
princípios de brevidade,
excepcionalidade e
respeito à condição
peculiar de pessoa em
desenvolvimento. A
naõ ser que haja expressa determinação em contrário, não será
permitida a realização de atividades externas. A medida não
possui prazo determinado. A manutenção deverá ser reavaliada,
mediante decisão fundamentada, no máximo a cada seis meses.
O período máximo de internação em nenhuma hipótese excederá
a três anos. Quando atingido o limite máximo, o adolescente
deverá ser liberado, colocado em regime de semiliberdade ou
de liberdade assistida. A liberação será compulsória aos vinte e
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um anos de idade. A desinternação será precedida de autorização
e ouvido o Ministério Público. A medida de internação só poderá
ser determinada quando tratar-se de ato infracional cometido
mediante grave ameaça ou violência à pessoa, por reiteração
no cometimento de outras infrações graves ou por
descumprimento reiterado e injustificável da medida
anteriormente aplicada. A internação deverá ser cumprida em
entidade exclusiva para adolescentes, em local distinto daquele
destinado ao abrigo, obedecida rigorosa separação por critérios
de idade, compleição física e gravidade da infração, e durante o
período de internação serão obrigatórias atividades pedagógicas.
O Artigo 124 refere-se aos seguintes direitos do adolescente
privado de liberdade: entrevistar-se pessoalmente com o
representante do Ministério Publico, peticionar diretamente a
qualquer autoridade, avistar-se pessoalmente com seu defensor,
ser informado de sua situação processual, ser tratado com
respeito e dignidade, permanecer internado na mesma localidade
ou naquela mais próxima ao domicílio de seus pais ou
responsável, receber visitas, ao menos semanalmente,
corresponder-se com seus familiares e amigos, ter acesso aos
objetos necessários de higiene, habitar alojamento em condições
adequadas de higiene e salubridade, receber escolarização e
profissionalização, realizar atividades culturais, esportivas e de
lazer, ter acesso aos meios de comunicação social, receber
assistência religiosa, segundo sua crença e desde que assim o
deseje, manter a posse de objetos pessoais e dispor de local
seguro para guardá-los, receber, quando for desinternado, os
documentos pessoais indispensáveis à vida em sociedade.
Por fim, determina que, em nenhum caso haverá
incomunicabilidade, podendo a autoridade judiciária suspender
a visita se existirem motivos sérios e fundados de sua
prejudicialidade aos interesses do adolescente e que é dever do
Estado zelar pela integridade física e mental dos internos,
cabendo-lhe adotar as medidas adequadas de contenção e
segurança. Como se pode perceber, o caráter fundamental das
medidas é a possibilidade de reinserção social. Para tanto, faz
se necessária uma avaliação técnica especializada que
efetivamente aponte as condições subjetivas do adolescente,
sua família, suas potencialidades, a fim de que a decisão seja a
mais eficaz para aquele adolescente.
A medida de internação significa privar o adolescente
do direito de ir e vir, o que é algo muito grave para o mesmo,
ainda que seja em um estabelecimento exatamente como
descrito no ECA. Portanto, é fundamental que sua utilização
ocorra quando não existir outra possibilidade
Hoje, no Brasil, mais de 20 mil adolescentes estão
privados de liberdade. Experiências positivas existem, nas quais
a capacidade das unidades não ultrapassa 40 internos, localizadas
perto de sua comunidade de origem, onde há atendimento
médico, psicológico, trabalho educativo, lazer, atividades
culturais, onde situações de maus tratos são punidas e, acima
de tudo, onde há um plano individual de atendimento que, desde
a entrada prepare o retorno do adolescente para a sociedade.
Esse talvez seja o maior paradoxo: não há reinserção sem
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sociedade e, portanto, o confinamento e a completude
institucional em nada auxiliam o processo de desligamento.
Sem dúvida, não é um trabalho fácil. Disputa-se
diariamente a construção de um novo caminho e de novos valores
(para o adolescente). Porém, infelizmente, a sociedade a que
ele retornará é aquela mesma em que um traficante de drogas
lhe oferecerá, por uma semana de tráfico, o mesmo que um
trabalhador assalariado percebe por um mês de trabalho, além
de grande parte da sociedade não o acolher, questionar até a
quantidade de comida, o banho quente ou frio nas unidades de
internação e não desejar a construção de unidades perto de sua
casa, nem mesmo para crianças e jovens vítimas de abandono.
Cabe salientar, infelizmente, que as novas instituições convivem
com as velhas: superlotadas, fisicamente inadequadas,
depositários de adolescentes, às vezes piores que muitos
presídios. Ainda não se pode falar em uma política de internação
brasileira.
O mito do rebaixamento da idade penal
Inicialmente, é importante esclarecer que, na maioria
dos países ditos desenvolvidos, a idade penal é de 18 anos
(Alemanha, França, Itália etc.). Em alguns estados norte-
americanos, como Califórnia, Arkansas e Wyoming, a idade
penal esta fixada entre 19 e 21 anos. Na contramão estão Egito,
Paraguai e Índia, que a fixam em 15 anos.
Sem dúvida, hoje no Brasil os adolescentes são as
maiores vítimas de violência, inclusive de homicídios.
Responsabilizá-los pelo aumento da violência, além de carecer
de qualquer base técnica, contribui para encobrir os graves
problemas de distribuição de renda do país.
Portanto, a questão real é a implantação efetiva do ECA
e o seu aprimoramento no que se fizer necessário,
implementando políticas sociais básicas, medidas de proteção e
medidas socioeducativas sem privação de liberdade. As
FEBEMs são como os manicômios: o ideal é que não existam.
Talvez a grande mudança proposta pelo ECA seja a
idéia de que, sem uma rede articulada e solidária entre todos os
envolvidos (judiciário, governos, conselhos de direitos, sociedade
etc.), tornam-se improváveis intervenções bem sucedidas com
os adolescentes que cometem atos inflacionais.
Os psicólogos e a Psicologia têm muito a contribuir,
realizando uma intervenção técnica qualificada, sem precon-
ceitos e estigmas, que respeite a subjetividade de cada adoles-
cente em conflito com a lei. O psicólogo deve, junto a outros
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profissionais que atuam com essa população, conhecer mais
profundamente o ECA para poder participar mais diretamente,
tanto nos Órgãos de Controle Social, nos Conselhos de Direitos
e Tutelares, na efetiva construção e implementação das políti-
cas públicas de atendimento à infância e à adolescência, como
as da Educação e da Saúde, como nas políticas sociais inclusi-
vas que possam responder de imediato à miséria e ao abandono
a que estão submetidos a grande maioria dos nossos jovens.
A propósito, F., após permanecer 30 dias em internação
provisória, recebeu as medidas socioeducativas de Prestação
de Serviços à Comunidade e Liberdade Assistida. Vem cumprido
as medidas. Há 40 dias não comete novos atos infracionais.
Está em atendimento ambulatorial para drogadição e em
abstinência. A mãe tem conseguido acompanhá-lo, mostrando-
se atenta e afetiva.
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Referências
Assis, S. (1999a). Os adolescentes infratores do Rio de Janeiro e as instituições que os \u201cressocializam\u201d. A perpetuação do descaso.
Caderno de Saúde Pública, Outubro, 835-838.
Assis, S. (1999b). Traçando caminhos de uma sociedade