Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)
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Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)


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um mundo psíquico de
origem social, mas que possui uma dinâmica e uma estrutura
própria. Esse mundo psíquico está constituído por configura-
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ções pessoais, nas quais significações e afetos se mesclam para
dar um sentido às experiências do indivíduo. Os elementos des-
se mundo psíquico vêm do mundo social (atividades do homem
e linguagem), mas não são idênticos a ele.
Dentro de uma perspectiva sócio-histórica (Bock, 1997),
só é possível compreender qualquer fato a partir de sua inser-
ção na totalidade, na qual este fato foi produzido. Totalidade
esta que o constitui e lhe dá sentido. Assim, a adolescência
deve ser compreendida nessa inserção. É importante perceber
que a totalidade social é constitutiva da adolescência, ou seja,
sem as condições sociais, a adolescência não existiria ou não
seria essa da qual falamos. Não estamos nos referindo, portan-
to, às condições sociais que facilitam, contribuem ou dificultam
o desenvolvimento de determinadas características do jovem.
Estamos falando de condições sociais que constróem uma de-
terminada adolescência.
E como foi construída historicamente a adolescência?
Clímaco (1991), considera que, na sociedade moderna, o traba-
lho, com sua sofisticação tecnológica, passou a exigir um tem-
po prolongado de formação, adquirida na escola. Além disso, o
desemprego crônico/estrutural da sociedade capitalista trouxe
a exigência de retardar o ingresso dos jovens no mercado e
aumentar os requisitos para esse ingresso. A ciência, por outro
lado, resolveu muitos problemas do homem e ele teve a sua
vida prolongada, o que trouxe desafios para a sociedade, em
termos de mercado de trabalho e formas de sobrevivência.
Estavam dadas as condições para que se mantivesse a
criança mais tempo sob a tutela dos pais, sem ingressar no
mercado de trabalho. Mantê-las na escola foi a solução. A ex-
tensão do período escolar, o distanciamento dos pais e da famí-
lia, e a aproximação de um grupo de iguais foram as conseqü-
ências dessas exigências sociais. A sociedade assiste, então, à
criação de um novo grupo social com padrão coletivo de com-
portamento \u2013 a juventude/a adolescência. Outro fator impor-
tante é que a adolescência pode ser entendida também como
forma de justificativa da burguesia para manter seus filhos lon-
ge do trabalho.
A adolescência refere-se, assim, a esse período de
latência social constituída a partir da sociedade capitalista, ge-
rada por questões de ingresso no mercado de trabalho e exten-
são do período escolar, da necessidade do preparo técnico e da
necessidade de justificar o distanciamento do trabalho de um
determinado grupo social.
Essas questões sociais e históricas vão constituindo uma
fase de afastamento do trabalho e de preparo para a vida adul-
ta. As marcas do corpo e as possibilidades na relação com os
adultos vão sendo pinçadas para a construção das significa-
ções, para a qual é básica a contradição, que se configura nesta
vivência entre as necessidades dos jovens, as condições pesso-
ais e as possibilidades sociais de satisfação delas. É dessa rela-
ção e de sua vivência, enquanto contradição, que se retirará
grande parte das significações que compõem a adolescência: a
rebeldia, a moratória, a instabilidade, a busca da identidade e os
conflitos. Essas características, tão bem anotadas pela Psicolo-
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gia, ao contrário da naturalidade que se lhes atribui, são históri-
cas, isto é, foram geradas como características dessa adoles-
cência que aí está. Entende-se, assim, a adolescência como
constituída socialmente a partir de necessidades sociais e eco-
nômicas e de características que vão se constituindo no pro-
cesso.
 Os meios de comunicação de massa
 e a concepção de adolescente
A partir dessa concepção de adolescência, entendida
como uma construção histórica e não como uma fase natural
do desenvolvimento, e considerando os meios de comunicação
de massa como um determinante importante na construção de
vários significados sociais, não podemos ignorar a participação
da mídia nessa construção da concepção de adolescência nos
próprios jovens imersos nesse caldo de informações transmiti-
dos pela mídia. Isto é, um modelo de adolescente está sendo
passado pelos meios de comunicação que permite ao adoles-
cente a constituição de uma identidade própria, bem como
contribui para um posicionamento dos pais na mesma direção.
Se não veiculam uma definição única, fornecem ao menos uma
contribuição para a manutenção de algumas noções do que seja
o adolescente. Os meios de comunicação, portanto, desempe-
nham um papel importante na veiculação dessas concepções,
já que há um compartilhar pelos adolescentes dessas informa-
ções.
 Apesar de não haver um consenso na literatura a res-
peito do papel social dos meios de comunicação, há uma ten-
dência geral de reconhecer que eles devem ser considerados.
Intencionalmente ou não, as informações veiculadas afetam em
algum grau a visão de mundo, e de si mesmo, que o jovem
constrói.
Gostaríamos de destacar
que o fato de a mídia influenciar
a audiência ou seus consumidores
não significa que o adolescente
esteja passivo diante dessa
situação, apenas absorvendo o
conteúdo transmitido. Entretanto,
não podemos negar que a
possibilidade de uma leitura crítica
e de uma transformação do
conteúdo recebido não são muito
facilitadas, considerando a
massificação de informações transmitidas por ela.
O que gostaríamos de destacar é que os estudos sobre
os efeitos dos meios de comunicação, particularmente, a
televisão, dão pouca ênfase aos conteúdos transmitidos. Eles
ficam mais no nível da freqüência em que as crianças (mais do
que adolescentes) ficam expostas à televisão, características
dos programas, ideologia das mensagens, etc. Sem dúvida, esses
são pontos interessantes e importantes, mas não avançam na
questão específica da relação: conteúdo, adolescente, linguagem.
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Santos,