Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)
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Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)


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B. R. dos (1996). A emergência da concepção moderna de infância e adolescência. Mapeamento, documentação e
reflexão sobre as principais teorias. Dissertação de Mestrado não publicada. Curso de Pós-Graduação em Ciências
Sociais (Antropologia). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo - SP.
Referências
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Capítulo II
Contexto do adolescente
Marisa Lopes da Rocha
Se pretendemos trabalhar
com o adolescente concreto, ou
seja, se buscamos dar um caráter
sócio-histórico ao conceito
generalizante, constituído por
etapas de desenvolvimento
psicológico e pedagógico, é
imprescindível falar em condição
juvenil como ponto de partida, a
fim de facultar a compreensão da
heterogeneidade de situações e experiências que marcam a
diversidade de modos de inserção social. Assim, questões como
o que é ser criança e adolescente nessa comunidade, o que se
constitui como questão para eles, o que vem servindo de elo
entre eles, criando um código comum que serve de suporte para
o enfrentamento dos conflitos atravessados nas suas vidas
cotidianas, são importantes para o conhecimento da população
com a qual trabalhamos, facultando a adequação do planejamento
(Rocha, 2001).
A contextualização da adolescência é fundamental,
considerando que o processo de formação nos dias atuais se vê
diante de fatores de diferentes ordens: a instantaneidade
temporal provocada pela velocidade tecnológica, que acarreta
uma certa superficialidade na aquisição de conhecimentos, a
cultura do consumo, geradora de múltiplas necessidades
rapidamente descartáveis, o quadro recessivo, que amplia a
exclusão social, associado à pulverização das relações coletivas,
levando à individualização e ao desinteresse na esfera pública e
política. A partir desse panorama, ocorre o desmapeamento, ou
seja, a perda de referenciais que se configuram, enquanto efeito,
significando a fragilização frente à vulnerabilidade das
referências e dos laços sócio-culturais (Castro, 1998). E novas
questões se colocam para as diferentes instituições que
trabalham com adolescentes como possibilidade de encontrar
alternativas: o que favoreceria a experiência social dos
adolescentes? Em torno de que interesses e práticas se
viabilizaria a construção de grupos solidários com certa
estabilização, desdobramento e avaliação de ações, possibilitando
formas comuns de compreensão da realidade?
A saída da infância ocorre na interação permanente entre
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Deborah
Realce
Deborah
Realce
agências socializadoras encarregadas de preparar o jovem para
a vida adulta. A diversificação de laços e referências em
contínua relação com o mundo familiar trará aos adolescentes
a possibilidade de construir sua autonomia. Nesse sentido, o
processo de singularização do sujeito se inscreve na relativização
das referências familiares, o que implica que a instituição familiar
não se constitua apenas como nós, mas também na presença
do outro, condição indispensável da existência do nós. À família
enquanto rede de proteção, de amparo, núcleo estruturante, cabe
abrir espaço para o outro, acolhendo as novas experiências e a
aceitação do conflito que se instala entre os vínculos de
pertinência e relações de apego estabelecidas no espaço
doméstico e as investidas para a construção da autonomia. Será
criando oposições que, gradativamente, o adolescente se irá
diferenciando, fazendo do conflito uma ferramenta indispensável
para tornar-se sujeito (Ribeiro & Ribeiro, 1995).
 Se é durante a adolescência que se intensificam as pro-
duções de projetos de vida e que se desenvolvem as estratégias
e ações para que sonhos se transformem em realidade, como
favorecer a expressão de ideais, de frustrações, considerando
os limites e as possibilidades do contexto em que vive o jovem?
O que se constitui para os adolescentes desafios e problemas
na sociedade atual? Que diferenças trazem a partir das suas
condições concretas de existência e das diversas experiências
vividas no seu cotidiano em relação com a família, com os ami-
gos e com a escola?
 As transformações aceleradas da vida contemporânea
e a crescente complexidade social trazem como conseqüência
as dificuldades de compreender a realidade na sua
transformação e a diversidade de formas de existência que se
atualizam nas múltiplas redes de valores, afetos, tradições e
perspectivas. A fragilização dos espaços públicos pela violência,
insegurança e pelo individualismo exacerbado, vem gerando a
multiplicação das práticas de autodefesa, de desagregação
social, reduzindo a oportunidade de intensificação da
convivência, de trocas e de experiências. Do mesmo modo, o
aumento das dificuldades econômicas e suas conseqüências
sobre a inserção social e profissional de grande parcela da
população atingem de forma dramática os jovens no meio urbano
(Valla & Stotz, 1996).
 É nesse contexto que os serviços de atendimento à saúde
e os especialistas passam a se constituir uma escuta privilegiada
dos jovens e famílias isolados de uma rede de solidariedade.
Em meio à multiplicação das demandas por cuidados, questões
essenciais precisam ser problematizadas nos serviços.
 As famílias, principalmente de classes populares, pela
precarização de recursos e informações, pelo excesso de
trabalho e escassez de tempo, vivem relações de abandono, de
insegurança e de dúvidas no trato com os filhos. Para buscar
modificações na situação dos adolescentes num mundo tão
conturbado como o atual, é de fundamental importância pensar
o adolescente na família e não isoladamente, o que aponta para
uma atuação com o jovem e com o núcleo ao qual pertence,
estabelecendo o que se constitui como vulnerabilidade e como
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possibilidades. Pela sua função de núcleo socializador da prole,
o exercício da autoridade dos pais comporta tanto relações
assimétricas, quanto complementares, e nem sempre tem se
mostrado uma tarefa fácil estabelecer os limites do que é ou
não negociável nas relações domésticas. Nesse sentido, atuar
junto à família é favorecer o conhecimento sobre os recursos
de que dispõe para ajudar os adolescentes e a si própria (Ribeiro
& Ribeiro, 1993).
 A sociedade contemporânea apresenta questões que não
podem ser desprezadas para a compreensão do que se passa
na vida privada, e aqui podemos ressaltar as relações entre
gênero, entre gerações, as influências dos meios de comunica-
ção, dos discursos e práticas médicas, pedagógicas, jurídicas.
Assim, a família constitui um espaço de complexidade e não
pode ser pensada de forma isolada e nem descontextualizada,
na medida em que outras esferas intervêm na sua intimidade,
retirando muitas de suas funções e impondo modelos de funci-
onamento normatizados e normalizadores. É importante perce-
ber que tendemos a reconhecer como núcleo doméstico aquilo
que nos é familiar, fruto de nossas experiências, o que inviabiliza
o reconhecimento de referenciais diversos advindos de outros
modos de existência. Naturalizamos modelos de relações e pas-
samos a classificar o que se apresenta diante de nós como nor-
mal ou patológico, não levando em conta que a família se define
pelas relações de sentido que consegue estabelecer entre seus
membros (Szymanski, 1992). A questão é: o quanto potencializam
ações que compatibilizam o reconhecimento de cada um e a
existência do próprio núcleo?
O conjunto de profissionais que atua com famílias precisa
ter em mente que o discurso que fazemos sobre essa instituição,
o modo como a encaramos, estabelece o sentido de nossa ação.
Esse é o caminho para que possamos potencializá-la a enfrentar
suas vulnerabilidades, sem reforçar os dispositivos de poder que
atuam sobre elas, culpando-as. A questão está em como