Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)
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Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)


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ouvimos
os anseios e necessidades dos adolescentes em suas relações
com os pais, levando em conta o
mundo em que se situam, seus
compromissos e responsabilidades. O
desenvolvimento de práticas com
famílias envolve não só as questões
sobre a ampliação de suas condições
concretas de existência, como a
representação que temos delas e o
modo como elas próprias se vêem.
Elas constróem uma idéia de si, no
enfrentamento de suas experiências, mas também a partir de
como delas se falam. A expressiva desigualdade social produz
marcas profundas na auto-imagem de grande parte da população
que se apresenta nos serviços públicos, isto porque a inferioridade
naturalizada, a imagem de núcleo doméstico incompetente,
incompleto, faz com que acreditem menos nas possibilidades
de contribuir para criar saídas, ficando mais fragilizadas frente
aos discursos instituídos sobre elas.
Direitos e afetos compõem uma noção de família, que
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possibilita pensar em um projeto mais democrático de sociedade,
implicando serviços que têm como desafio a construção de uma
cidadania ativa, em que reivindicações de si e dos outros estão
em pauta, produzindo alternativas compartilhadas entre
profissionais e comunidade assistida. Assim, interessa-nos
indagar em relação às famílias: quais suas questões e que
iniciativas vêm adotando para o enfrentamento das problemáticas
que surgem no dia-a-dia? Que experiências vêm fortalecendo
os seus vínculos internos e com a comunidade, auxiliando na
formação de redes solidárias?
A educação escolar, para grande parte da população
brasileira, produz um conjunto de relações marcadas pela tensão,
descontinuidade e desvalorização das crianças e dos
adolescentes que nela ingressam. O que ocorre é um
desencontro entre as esperanças construídas pelas famílias em
torno do valor da escola e as aspirações juvenis \u2013 ascensão
social, melhoria das condições de vida. Para o jovem, o
desencontro das expectativas iniciais gestadas na família e a
experiência cotidiana vivida nas escolas, que nega essas
aspirações, pode gerar desinteresse, indisciplina e violência, na
medida em que a trajetória na escolarização gera insucesso e
exclusão. Dependendo do seu modo de funcionamento, a escola
pode ou não vir a contribuir para a estruturação efetiva de
referências e a questão está na sua capacidade de propiciar
arranjos que assegurem um conjunto de relações sociais
significativas para os adolescentes e suas famílias (Patto, 1993).
Em sua forma de funcionamento tradicional, a escola não
vem agenciando uma ação socializadora sobre grande parte de
seus alunos, crianças ou adolescentes, que mantêm, antes, uma
relação hierárquica de distanciamento construída na condição
de aluno. Porém, é importante evidenciar que tal perspectiva
não incide somente sobre o aluno, pois o modo de gestão e a
organização do processo de trabalho escolar estão atravessa-
dos pela exclusão do próprio professor, que não interfere nas
regras de seu próprio ofício. Se está na relação professor-aluno
grande parte das expectativas de inserção do aluno e de mu-
danças no processo de ensino-aprendizagem, é de fundamental
importância que o professor possa conquistar um outro lugar no
interior da escola (Machado & Souza, 1997). A questão não se
reduz, então, a sugerir um novo/velho aparato técnico para o
cotidiano educacional. O desafio é a gestão coletiva do sentido
da vida escolar, ou seja, da política que orientará aquela comu-
nidade e o processo de ensino-aprendizagem a partir do qual
serão estabelecidos os objetivos do trabalho, o modo de funcio-
namento dos dispositivos criados e a dinâmica de relação e in-
tervenção dos diferentes segmentos.
A mudança no sistema educacional tem que partir da
resignificação de conceitos como cooperação, autonomia e
eficiência, que hoje estão baseados em concepções imediatistas
vinculadas à lógica empresarial. Tais conceitos são utilizados
para acelerar processos de mudança, mas trazem como correlato
a segregação, o desprestígio e a precarização da tarefa docente.
O ato de cooperar, que deveria estar ligado a uma prática coletiva
construída através da análise da realidade, de seus conflitos e
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da elaboração de alternativas, está vinculado à execução de
tarefas. A autonomia dos indivíduos é uma construção que tem
início no processo de autonomização dos grupos que, pelo
exercício ético-político de suas práticas, criam sentidos comuns
para seu fazer. A eficiência esperada a partir da burocracia
funcional não está na qualidade do processo, mas vinculada à
competitividade e à racionalização que, na prática, se traduzem
pelo menor tempo e menor custo em obter o máximo de
resultados, sendo que estes se referem às estatísticas de
aprovação. Desse modo, a mudança da realidade escolar está
implicada com a possibilidade de um trabalho institucional na
escola, cuja meta está na organização de processos de análise
e discussão com os diferentes segmentos, sobre as condições
de trabalho, seus efeitos para a saúde/adoecimento, constituição
de projetos, contextualização das práticas, emfin, no
estabelecimento de um processo de gestão coletiva, que articule
direitos e afetos da comunidade envolvida (Rocha, 2001).
Para falarmos de saúde de educadores, de alunos e de
familiares, é fundamental mapear a noção de saúde de forma
mais aprofundada. Segundo a Organização Mundial de Saúde
(OMS), a saúde não se caracteriza unicamente pela ausência
de doença, mas implica um estado de bem-estar físico, mental
e social integral. A partir dessa perspectiva, Dejours, Dessors
e Desriaux (1993) questionam o que seria um estado de completo
bem-estar, tendo em vista ser humanamente impossível atingir
tal ponto de plenitude. Mais fecundo seria pensar a saúde como
um objetivo a ser atingido. Dejours e colaboradores ressaltam a
variância a que estão submetidos os organismos humanos e,
portanto, que não há nada de fixo ou de constante em um
organismo vivendo normalmente, mas um constante movimento.
A saúde não pode ser descrita como um estado ideal, uniforme,
mas como a busca permanente de mobilização das forças ativas,
das energias necessárias para viver. Desse modo, falar em saúde
é falar de uma sucessão de compromissos que assumimos com
a realidade, e que se alteram, que se reconquistam, se definem
a cada momento. Saúde é um
campo de negociação cotidiana
para tornar a vida viável.
 Se a promoção de saúde
dos educadores está diretamente
ligada à organização do trabalho,
pois dela dependem a viabilização
das alternativas de atuação dos
trabalhadores e a reapropriação
do saber e do poder decisório do
trabalho, isso não é diferente para os trabalhadores dos serviços
de saúde.
Reconstruindo modos de funcionamento na saúde
A construção de relações entre os membros de um serviço
tem início no estabelecimento dos problemas comuns, na
aglutinação de profissionais e de idéias e na análise coletiva do
cotidiano. É com a perspectiva de conhecer e articular novas
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questões que se consolidam vínculos que possibilitam buscar
outras vias de ação. Assim, a problematização coletiva das
questões deve nortear as práticas da equipe multidisciplinar
(incluindo também os profissionais de nível médio e elementar)
frente às diferentes demandas individualizadas ou institucionais,
norteando novas relações com a família, com a escola e com
outros grupos institucionais. Não se trata somente de
conhecimentos e habilidades a dominar, ou seja, de competências
específicas a desenvolver, mas, antes de tudo, de viabilizar um
trabalho de equipe que possibilite uma metodologia de ação que
permita ao grupo estabelecer metas, buscar novas informações,
análises e soluções