Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)
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Adolescencia e Psicologia (Contini et. al.)


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(Orgs.), Adolescência,
prevenção e risco. São Paulo - SP. Atheneu.
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Capítulo IX
Violência doméstica e comunitária
Clarissa De Antoni
Sílvia Helena Koller
 A violência tem sido uma
constante na vida atual moderna,
expressa pelo alto índice de
criminalidade, especialmente en-
tre os adolescentes. Fatores es-
truturais e conjunturais devem ser
considerados no entendimento da
violência, mas não esgotam todas
as causas. A modernização cultural, por exemplo, tem gerado o
esvaziamento da preocupação ética nas relações e falhado na
preservação de valores culturais e históricos específicos de cada
um dos grupos sociais. O individualismo desta sociedade mo-
derna provoca transformações culturais e econômicas, geran-
do conflitos, exacerbados pela própria banalização das situa-
ções de violência, pela desigualdade social, econômica e cultu-
ral, pela prática de atividades ilícitas e pela cultura de consumo.
Esses fatos são intensificados pela ineficácia do sistema públi-
co em garantir a cidadania, gerir e manter a ordem pública,
atendendo às demandas sociais, principalmente daquelas ca-
madas da população que precisam lutar para manter sua segu-
rança e sobrevivência (Peralva, 2000; Velho, 2000). No caso
de crianças e adolescentes, a violência social expressa-se no
funcionamento de instituições que não cumprem as diretrizes
do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) ou cultivam
padrões culturais de aceitação e valorização de comportamen-
tos hostis e punitivos nas famílias, justificando-os como prática
disciplinar e baseados na crença de que os pais têm posse so-
bre os filhos. A seqüência de violações dos direitos do outro, a
desconsideração dele como ser humano e cidadão de direitos,
discrimina-o, às vezes, por idade, gênero, etnia, religião, orien-
tação sexual ou nível socioeconômico expressando relações de
exclusão, subordinação e desigualdade, que são comumente
antecedentes de atos violentos (Lisboa & Koller, 2001).
 Ser vítima, testemunha ou agente de violência são
condições que podem ser tecidas na história do desenvolvimento
de uma pessoa. Mesmo as experiências não vividas
pessoalmente são trazidas à tona em detalhes pela mídia, ou
seja, a exposição às drogas, gangs, armas, problemas raciais,
atividades terroristas, e mesmo os desastres naturais. Esses
eventos geram, ao mesmo tempo, o medo e o costume com a
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violência, prejudicando a visão de um mundo seguro (Dlugokinski
& Allen, 1997). O caos instaurado nas relações comunitárias
violentas interage com aquela experimentada no ambiente
doméstico. Em algumas famílias, a forma de estabelecer relações
envolve a força e o abuso de poder entre os membros. O padrão
estabelecido nessas relações primárias tende a ser transposto
para relações sociais mais amplas. Por outro lado, os problemas
enfrentados em situações sociais provocam o retorno ao
ambiente doméstico de pessoas frustradas e vulneráveis, a
expressar agressividade.
 Estudos no campo da psicologia do desenvolvimento
têm sido realizados para entender, avaliar e propor interven-
ções eficazes e amenizar os problemas decorrentes de situa-
ções de \u201cmaus tratos\u201d ou \u201cabusos\u201d contra mulheres, crianças e
adolescentes (por exemplo: De Antoni & Koller, 2000). Segun-
do Koller (1999), essa violência tem sido definida como \u201cações
e/ou omissões que podem cessar, impedir, deter ou retardar o
desenvolvimento pleno dos seres humanos\u201d (p. 33). Estão pre-
sentes em relações assimétricas e de subordinação da vítima
ao violador, que avalia apenas as suas próprias necessidades e
desejos. Maus tratos são atos que infringem sofrimentos ou
danos a alguém, exercidos, geralmente, por adultos que deveri-
am ser, a princípio, os responsáveis pela segurança, supervisão
e proteção da criança e do adolescente. No entanto, falham
nessas tarefas, não estabelecendo relações recíprocas e apre-
sentando desequilíbrio nas funções relativas ao poder. Caracte-
riza-se por ser um ato repetido e intencional, que deve ser ana-
lisado em relação à sua freqüência, intensidade, severidade e
duração. Se a criança é submetida, desde cedo, a situações de
abuso, maior será o comprometimento em relação ao seu de-
senvolvimento.
 A grande maioria dos casos de maus tratos ocorre na
residência do adolescente desde a sua infância. Em mais da
metade dos casos, o agressor tem parentesco (pai, mãe, pa-
drasto, madrasta, tio, irmão mais velho) com o abusado. Em
mais da metade dos casos, as vítimas são meninas e o abusador
apontado com maior incidência é o pai. Quanto mais próxima
da idade da adolescência, maior é o risco de abuso sexual para
as meninas e de negligência para os meninos.
 A seguir serão descritas, brevemente, algumas formas
de violência doméstica mais comuns, tais como: 1) física, 2)
sexual, 3) emocional ou psicológica, 4) negligência e 5)
exploração de mais valia.
 1) Violência física: É detectada pela presença de le-
sões orgânicas diagnosticáveis, tais como lesões cutâneas, neu-
rológicas, oculares e ósseas, provocadas por queimaduras, mor-
didas, tapas ou espancamento;
 2) Violência emocional ou psicológica: é evidenciada
pelo prejuízo à competência emocional do adolescente. São atos
de hostilidade e agressividade que podem influenciar na moti-
vação, na auto-imagem e na auto-estima. As formas mais co-
muns de abuso emocional envolvem: humilhação, degradação,
rejeição, isolamento, terrorismo, corrupção, exploração e agres-
são verbal. Cabe ressaltar que esse tipo de violência está sem-
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pre presente nas outras formas de abuso e é muito difícil de
comprovar sua existência, quando isolada;
 3) Violência sexual: corresponde aos atos de natureza
sexual impostos a uma criança ou adolescente por um adulto
que explora seu poder hierarquicamente superior, sob a forma
de assédio verbal, invasão de limites corporais ou psicológicos
com toques ou palavras e relações sexuais genitais, orais ou
anais. No abuso sexual, as atividades sexuais não estão sintoni-
zadas com o nível de desenvolvimento do adolescente, o qual é
incapaz de dar o seu consentimento. O abusador poderá envol-
ver a vítima em situações de voyeurismo, estupro, incesto e
exploração sexual;
 4) Negligência: é evidenciada pela falta da oferta de
nutrientes e estímulos emocionais necessários à integridade fí-
sica, intelectual, moral e social do adolescente, com prejuízo ao
seu desenvolvimento e ao sentimento de bem-estar. O abando-
no é uma das formas mais graves de negligência, ocorrendo
quando os responsáveis anunciam que não têm mais interesse
ou condição de cuidar do indivíduo, seja criança, adolescente
ou idoso;
 5) Exploração de mais valia: exigência de desempe-
nho, por indução ou coação, a participar de ações, com prejuízo
à integridade física, psicológica e moral do adolescente. Desta-
ca-se a exploração sexual infanto-juvenil, o uso e tráfico de
drogas e a exploração no trabalho. Essas ações são comanda-
das por pessoas que, muitas vezes, convencem