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Gentrificação- Estratágias de enobrecimento do solo urbano_William Lauriano (dissertação)

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1970 e final do século, observando a evolução do papel desempenhado pela cultura na 
produção das cidades. Sua argumentação explicita o encontro entre cultura e economia, 
molduras para os processos políticos dominantes nas sociedades urbanas contemporâneas, há 
também o debate sobre a crescente centralidade da cultura num processo comandado pelo 
Capital, além de se destacar a convergência para a produção de uma nova configuração 
urbana, a cidade-empresa-cultural e assinalar que o atual pensamento único do fazer cidade, a 
cidade empreendimento, não é uma mera fatalidade da hegemonia global. 
No ensaio seguinte, Carlos Vainer mostra que tais fatalidades são intencionalmente 
fabricadas. Para o autor, tal pensamento único também é denominado de Planejamento 
Estratégico Urbano, pois transpõe para o espaço urbano (público até que se determine o 
contrário) os conceitos e metodologias do planejamento estratégico empresarial. Resulta em 
um projeto de cidade articulado por três analogias constitutivas: a cidade é uma mercadoria, 
uma empresa e uma pátria. 
A construção de consensos se dá através da afirmação de que não é o pensamento 
que é único, mas de que o contexto é global e a realidade é uma só para todas as cidades. Este 
consenso é desmanchado por Ermínia Maricato. A autora observa que unanimidade 
econômico-liberal dos tempos atuais tem origem no caráter intocável e funesto da propriedade 
do solo desde a Lei de Terras de 1850. A evolução do planejamento urbano, atualmente, é 
orientada pelo glamour gerencialista do urbanismo de resultados, cujo principal resultado 
continua sendo o exponencial crescimento da cidade ilegal e a gigantesca expansão espacial 
da pobreza, desamparo e violência. O “lugar fora das ideias e as ideias fora do lugar” é a 
cidade invisível cultural e politicamente, cuja ausência faz parte das estratégias de dominação 
próprias do capitalismo periférico e do urbanismo de mercado, como se a pobreza urbana não 
fizesse parte da cidade reinventada para os negócios. Além disso, a dissimulação intencional e 
o desconhecimento a respeito da cidade ilegal mostram a falta de vontade política de enfrentar 
a questão da propriedade da terra. 
A compreensão da estrutura de mercado que forma cidade ilegal é feita a partir dos 
estudos de Pedro Abramo (ABRAMO, 2007). Com o retorno do que o autor denomina “mão 
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inoxidável do mercado” atuando no processo de produção e reprodução do espaço urbano 
formal e informal, o que se observa é a formação de uma cidade ao mesmo tempo compacta e 
difusa. Para Abramo, nos países sul-americanos a lógica da necessidade emerge como um 
terceiro componente, além do Estado e do Mercado, na produção da cidade. Com a lacuna 
deixada pelo Estado, a importância do “mercado” reaparece como principal mecanismo de 
coordenação da produção da cidade e da edificação de sua materialidade. 
A partir das abordagens sobre gentrificação, subúrbio, metrópoles, planejamento 
urbano e mercado do solo urbano, a próxima etapa é verificar a ocorrência da gentrificação. 
A intensão é verificar brevemente o que houve no terreno da Indústria Cerâmica São 
Caetano. Não somente nesta localidade, mas em todos os lugares onde há uma intervenção 
urbanística, há gentrificação. A industrialização acelerou e explicitou este processo. É um 
exemplo considerado “normal”, o mesmo visto em diversas localidades que se 
desindustrializaram. 
De, para. De algo, para algo. A maioria das cidades nasce em decorrência, em função 
do desenvolvimento. Brasília, mais do que isso, além de nascer em decorrência de algo, do 
desenvolvimento nacional, nasceu para algo. Para promover o desenvolvimento e integração 
da nação. Por isso pode ser considerada uma cidade funcional, não apenas uma cidade de 
operários políticos-administrativos, mas uma cidade que tem a função nata de promover o 
desenvolvimento do país. 
De onde começa até onde chega. Nesse sentido, a gentrificação começa com os 
primeiros tijolos de barro da industrialização e urbanização contemporânea, e chega a 
Brasília. Será feito um esforço para verificar se Brasília se tornou gentrificada após sua 
criação. 
 
Aplicação teórica 
Percorridas as abordagens sobre o desenvolvimento das cidades na era pós-industrial, 
sobre as estratégias de ocupação urbana, valorização e enobrecimento urbano, articulações 
entre público e privado, etc., retoma-se o foco na gentrificação no Brasil, utilizando como 
referência o livro de Nabil Bonduki “Intervenções urbanas na recuperação de centros 
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históricos” (BONDUKI, 2012), editado pelo IPHAN, observando o carro-chefe das políticas 
urbanas nos últimos anos e as intervenções em centros históricos. 
Abre-se um parêntese para simbolizar as origens do enobrecimento urbano por meio 
da industrialização do subúrbio paulistano, localizando a ocorrência da gentrificação no 
terreno onde funcionou uma indústria que foi de propriedade da família do Sr. Roberto 
Simonsen, patrono da industrialização brasileira. 
Partindo das origens, no subúrbio paulistano, adiante, será verificado se o discurso 
igualitário de Lúcio Costa foi alcançado, ou se em Brasília houve segregação espacial 
socioeconômica, elitização cultural, entre outros problemas relacionados à gentrificação. 
Até a época de criação de Brasília, a valorização e preservação urbana tanto não era 
valorizada quanto não estava na agenda do poder público. Apesar de estar em escalas 
diferentes, de capital do país para centro de cidades, prevaleceram as intervenções baseadas 
no embelezamento, no saneamento e na renovação urbana (BONDUKI, 2012, p. 318). 
O que aconteceu nos centros históricos, em escala muito maior aconteceu na Capital. 
A história urbana brasileira tem incontáveis exemplos de intervenções que, sob o signo da 
modernidade, aliaram a destruição do passado constituído historicamente com a renovação 
urbana e exclusão da população moradora de baixa renda. 
A nova capital brasileira não foi capaz de lidar adequadamente com a rápida 
urbanização e o crescimento populacional. A estrutura espacial de sua região metropolitana é 
completamente diferente comparada a outras regiões, de acordo com a percepção dos 
pesquisadores estrangeiros, David Dowall e Paavo Monkkonen
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, a distinção maior está no 
mercado de terras, que apresenta vários condicionantes distintos. O controle do solo pelo 
poder público é uma situação quase única. Nas demais cidades brasileiras não há estoque ou 
controle fundiário como no Distrito Federal, feito pela Terracap
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. Para estes, as políticas 
restritivas de desenvolvimento territorial resultaram numa forma espraiada, dispersa de 
ocupação territorial, e por isso, acarretando em custos (entre outros) de transporte à habitação 
mais elevados, o que prejudica a qualidade de vida da população e afeta com mais intensidade 
aqueles com menores oportunidade e renda (DOWALL & MONKKONEN, 2007). Estas 
 
5
 Pesquisadores do Institute of Urban and Regional Development, University of California. Este texto teve como 
principal referência outro estudo resultado da parceria entre pesquisadores do Banco Mundial, Instituto de 
Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Universidade da Califórnia (SERRA, et al., 2004). 
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 Companhia Imobiliária de Brasília, hoje em dia designada como Agência de Desenvolvimento do DF. 
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particularidades são somadas ao preço por metro quadrado do solo urbano, resultando em um 
dos maiores do país. Ainda que justificado, em parte devido à alta renda per capita da 
população brasiliense, o planejamento e o controle governamental do mercado de terras em 
Brasília contribuíram(em) profundamente para o alto custo da habitação.