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1 TECNOLOGIA EM GASTRONOMIA GARDE MANGER Prof. Warison Albino 2018.2 2 Índice: Sociedade e alimentação 4 Produção X Consumo 4 Garde manger, a dispensa dos abastados 5 As guildas da Europa 6 O cozinheiro Garde manger 6 Atribuições do Garde manger 7 Armazenamento de insumos 7 Seleção de peixes 7 Seleção de carnes 9 Seleção de vegetais 10 Técnicas de conservação 11 Molhos e sopas frias 13 Emulsões 14 Aspic 15 Sopas frias 16 Saladas 19 Tipos de verduras 19 Tipos de saladas 22 Sanduíches frios 24 Aperitivos e hors-d’ouevre 25 Charcutaria, cura, defumagem, confit e rilette 29 Cura 30 Produtos comuns salgados 32 Defumação 37 Confit e Rilette 40 Diagrama dos confits e rilettes 41 Charcutaria 41 Farce 41 Tipos de salsicha 42 Ingredientes de salsicha 44 Ensacamento e invólucro 44 Terrines 46 Patês e Galatines 46 Foie Gras 48 Produção e tipos de queijo 48 Tipos de coalho 48 Produzindo queijo 51 Passos para a produção acrescida de coalhos e com coalho lático 52 Corte do queijo 53 Testes para enformagem 55 Enformagem 56 Prensagem 56 Salga 56 Amadurecimento 56 Tipos e queijo 57 Derretimento de queijos 60 3 Azeites e vinagres 60 Tipos de vinagre 60 Aromatização de vinagres e azeites 66 Picles e conservas 67 Desafios da cozinha fria 67 Food design 68 Cores 68 Alto e baixo 69 Configuração 72 Densidade 73 Iluminação textura e fundo 74 Direção 74 Profundidade 75 Isolamento 75 Modificações na apresentação dos pratos 75 Referências 76 Conteudista: Bruno Déde. 4 Sociedade e alimentação: A relação entre homem e a transformação de alimentos começa logo na pré- história, quando o ser humano começa a desenvolver técnicas para manipular alimentos obtidos de forma exploratória, antes consumidos crus e que em parte eram de difícil deglutição e digestão (principalmente carnes). A descoberta do controle do fogo foi fundamental para a evolução da raça humana, possibilitando o crescimento populacional em cavernas agora aquecidas, iluminadas e protegidas de predadores, além de possibilitar o desenvolvimento de utensílios mais precisamente fabricados que seriam posteriormente associados ao ato de cozer. Com o desenvolvimento do controle ígneo, passamos a gradativamente nos posicionar no topo da cadeia alimentar, utilizando da domesticação de animais e invenção de mecanismos mais modernos. De forma rudimentar inicialmente cozinhávamos os alimentos em gêiseres com o intuito principalmente de devolver o calor à caça, trazendo a impressão de um animal recém abatido, o que inconscientemente iniciou uma sequência de modificações em nosso organismo. Tais modificações foram acentuadas após o desenvolvimento de técnicas de pastoreio e plantio que possibilitaram um excedente de produção, associados ao desenvolvimento de utensílios como a panela fizeram com que nós, seres humanos, pudéssemos produzir alimentos com um pequeno prazo de validade, para uma maior quantidade de pessoas. Produção x consumo: Com a produção maior que o consumo a perda de insumos era inevitável, trazendo então a necessidade de desenvolvermos técnicas de conservação como salga, defumagem, prensa, cura, o desenvolvimento de queijos e de compotas. Evidências históricas indicam que a técnica de salga de peixes já era utilizada na Grécia nos anos 63 a.C, o que fazia com que os responsáveis por estas produções se tornassem extremamente valorizados, uma vez que eram imprescindíveis para o desenvolvimento das cidades estado e posteriormente aos grandes impérios como o romano. Apesar dos relatos na sociedade grega, existem comprovações que em 252 a.C no reino Shu Han, território da atual China, poços de água salgada foram perfurados com o intuito de preservar alimentos. Entretanto, tais fontes de água salgada já existem no território polonês descobertos desde 3500 a.C., além de serem os sumérios, habitantes da mesopotâmia, grandes desenvolvedores de técnicas de conserva, salga, 5 picles, cura e defumagem devido a sua grande produção, por se localizarem no crescente fértil. No período da idade média, após a queda do império romano, a população mundial era composta de aproximadamente 80% de camponeses que, em momentos específicos exerciam as técnicas de conservação de produção afim de fazer com que a mesma durasse tempo suficiente para que pudessem passar pelo período da entressafra sem escassez de alimentos, tendo como fonte de manutenção de tais técnicas a Igreja Católica e a Nobreza. Uma vez desenvolvidas e aplicadas as técnicas de conservação de alimentos, os mesmos puderam começar a ser comercializados mais longe de sua região de origem, o que fez com que alimentos curados como o presunto, ou coalhados e curados como o queijo se tornassem bastantes comuns dentro das cidades em suas feiras, muita das vezes utilizados como moeda de troca em escambos; dada a devida importância a estes insumos, normas começaram a ser estabelecidas com o intuito de regular as produções e a comercialização deste tipo de ingrediente e de serviços, visando evitar o monopólio e preços abusivos. Garde manger, a dispensa dos abastados: A mesa dos abastados sempre foi marcada pela extravagância, pelos excessos e pela singularidade. Insumos diversos eram utilizados em banquetes afim de demonstrar seu poder e sua posição de destaque, assim sendo necessário o desenvolvimento de técnicas de conservação de insumos para que pudessem ser utilizados sempre que desejados pela nobreza, dando então origem ao Garde Manger. Desenvolvido como a dispensa de castelos e casas de nobres abastados, o Garde Manger era uma área de extrema importância para um castelo ou mansão, uma vez que dele saiam todos os insumos que seriam consumidos pelos nobres e seus convidados. Aproveitando da temperatura controlada e mais amena do subsolo dos porões, os responsáveis pela manutenção das dispensas mantinham os alimentos armazenados e conservados em salmouras, curados, defumados, salgados, dentre outras técnicas que, sendo uma vez aplicadas de forma correta, eram mantidos em vasos de argila para serem consumidos depois. Outra técnica amplamente utilizada nas regiões mais geladas era a de extrair gelo de lagos congelados ou neve e misturar com feno, afim de fazer 6 com que não se derretesse rapidamente e pudesse ser utilizado para manter carnes, frutas e vegetais. Sabendo que este era um setor importante para a manutenção do bem-estar dentro dos castelos e mansões, apenas pessoas de extrema confiança eram atribuídas à manutenção do Garde Manger. As guildas na Europa: Com a normatização de técnicas, guildas começaram a surgir na Europa, desenvolvendo treinamentos para seus membros de forma bem organizada, iniciando- os como aprendizes e finalizando-os como mestres na arte. O período de aprendizagem em uma guilda podia ser de dois a sete anos para que um aprendiz se tornasse um membro da mesma, tendo após isso severos anos de trabalho até se tornarem mestres. Com o passar do tempo, a solidez das guildas começou a se tornar um problema pois, para ser reconhecido como um charcuteiro por exemplo, o indivíduo deveria passar por severos anos de treinamento e trabalho, sendo estas desfeitas na França durante a revolução, na Inglaterra em 1835 e na Alemanha, Itália e Áustriasomente no século XIX. Os garde manger apesar de serem de suma importância para o desenvolvimento da sociedade moderna não desenvolveram uma guilda para si, já que se encontravam empregados nas casas de nobres que, mantendo sua mesa abastada, necessitavam de pessoas capazes de manter em seus porões uma ampla dispensa, com insumos das mais diversas regiões e procedências. Com o início da revolução em 1791, muitos dos nobres franceses abandonaram suas casas e pertences temendo a guilhotina, o que fez com que, apesar de extremamente talentosos, os garde manger, assim como os chefs e cozinheiros começassem a trabalhar em restaurantes sem a solidez e estrutura das demais funções que, pertencentes a guildas, continham direitos bem estruturados. Após a abolição do sistema de guildas, o garde manger então foi fortalecido pelas técnicas e pelo conhecimento dos antigos membros dos charcuteiros, dando ainda mais importância e solidez para esta profissão que, após a divisão da brigada de cozinha por Auguste Escoffier (1846 – 1935) tornou-se um setor da cozinha de extrema importância e de técnicas apuradas. O cozinheiro Garde Manger: Responsáveis pelas dispensas, os membros do garde manger podem ser considerados híbridos, uma vez que, responsáveis por manter alimentos bons para consumo, deveriam ser exímios conhecedores de técnicas de sanitização e conservação, além de conhecedores de técnicas de cortes de carnes e preparação de alimentos. Tais conhecimentos trouxeram a eles uma grande responsabilidade, tornando-os 7 cozinheiros de extrema habilidade e confiança em buffets, banquetes e nos restaurantes a la carte. Com a evolução da tecnologia, o setor de garde manger não deixou de ser responsável pelo armazenamento e manipulação de alimentos frios, conservas e compotas por exemplo, porém agregaram a suas atribuições tecnologias que fizeram com que seu trabalho se tornasse mais eficaz. Nos dias atuais, o setor do garde manger pode ser responsável pela produção de saladas, entradas frias e sobremesas como em bistrôs, ou, além disso, responsáveis pela manipulação e produção de preparações como sanduíches frios, montagem de mesas de frios e frutas para banquetes, cafés da manhã, coffee breaks e brunchs. Vale salientar que, em alguns estabelecimentos, o setor e seus responsáveis são conhecidos como “cozinheiros da cozinha fria”. Atribuições e habilidades do Garde Manger: 1 – Armazenamento de insumos: Uma vez responsáveis pelo armazenamento de insumos, o profissional da cozinha fria tem por obrigação aprender sobre técnicas de armazenamento e conservação afim de fazer com que os mesmos tenham uma vida útil prolongada. Existem diversas técnicas que podem ampliar o tempo de prateleira de ingredientes, porém, um fator importante anterior à execução das técnicas é a seleção correta e consciente de insumos. 1.1 – Selecionando peixes e frutos do mar: Na seleção de peixes e frutos do mar, existem alguns detalhes importantes, sendo estes presentes em elementos frescos e de boa qualidade. Para selecionar peixes devemos: Verificar se os mesmos têm olhos inteiros, úmidos, brilhantes e salientes. A presença de manchas brancas, concavidade, ressecamento e falta de brilho são características de peixes velhos. As brânquias devem ser vermelhas e brilhantes, não apresentando coloração cinza e viscosidade. 8 O corpo do peixe deve estar firme, sem protuberâncias, rígido, com as escamas bem aderidas além de apresentar pele brilhante e úmida. Peixes que não apresentam manchas devido a sua espécie não devem contê-las. Já para a seleção de peixes filetados, a pele deve ser úmida e elástica, além do peixe conter cheiro não repugnante e textura firme. 9 Para a seleção de frutos do mar, sendo estes crustáceos, devem ter o exoesqueleto e pinças inteiras e se forem comprados ainda vivos, devem ter peso condizente com seu tamanho e serem ativos. Já os moluscos, devem ser comprados preferencialmente vivos, com cascas inteiras, sem rachaduras e sem a presença excessiva de lodo, não sendo utilizados aqueles que não se fechem caso tocados. Se forem comprados congelados, não utilize aqueles que estejam abertos. Caso sejam comprados fora de suas cascas, analise o cheiro dos mesmos e verifique a firmeza de sua carne. Já em relação ao armazenamento de peixes e frutos do mar, os mesmos devem ser mantidos em temperatura controlada preferencialmente cobertos por gelo, sendo manuseados o mínimo possível até o momento em que serão servidos. Caso já estejam filetados, é indicado que os mesmos sejam armazenados em recipientes em aço inoxidável para que o contato direto com o gelo seja evitado, afim de não ressecar e retirar parte do sabor do mesmo. Moluscos devem evitar ser congelados sem que sejam pré-cozidos. 1.2 – Selecionando carnes: Agora selecionando carnes, é importante verificar: A simples seleção de estabelecimentos de confiança e de movimentação frequente pode ser um passo inicial na seleção de carnes, pois isso diminui o risco de aquisição de insumos de grande tempo de exposição, aumentando a chance de encontrar carnes frescas. Outro elemento importante é a verificação das técnicas aplicadas no manuseio das peças. Devem ser bem divididas, sem a presença excessiva de tendões, com ossos não fraturados. Peças que permitem a presença uniforme de gordura como o contrafilé, devem tê-la, sendo esta gordura de cor creme e macia (gado criado em pasto pode ter gordura de cor mais amarelada). Além disso, as carnes devem ser vermelhas, úmidas e brilhantes. 10 Para armazenamento é importante salientar que, se houver a possibilidade de consumo rápido, o resfriamento é um mecanismo vantajoso pois este não alterará a textura e a suculência da carne. Caso haja a necessidade do congelamento, se este for executado de forma rápida fará com que as alterações sejam minimizadas. A tecnologia de embalagem a vácuo traz a possibilidade de armazenamento resfriado por tempo prolongado. 1.3 – Selecionando vegetais: A seleção de vegetais também é importante no setor de garde manger, já que os mesmos são imprescindíveis na elaboração de sopas frias, saladas e picles por exemplo. Um fator extremamente importante é a seleção de insumos da região e que estejam em sua época de safra, pois assim estes se encontrarão mais frescos, com melhor qualidade, sendo mais saborosos, com melhor teor nutritivo e com menor incidência de agrotóxicos. Vegetais que são comprados com folhas podem ser selecionados através delas, sendo estes brilhantes. Aqueles vegetais que possuem folhas murchas, escurecidas, que estejam esfolados e com sua polpa amassada devem ser evitados. Tubérculos devem ter peles lisas sem manchas e serem firmes, em relação a frutas e legumes devemos evitar aqueles que estejam 11 flácidos, moles e enrugados. Evite a compra de vegetais que estejam brotando, pois isto indica um insumo velho. Técnicas de conservação: A história leva a crer que o homem começou a conservar alimentos, principalmente as proteínas, de forma não intencional, através de técnicas diversas como a imersão de peixes abertos em água salgada e secagem ao sol ou defumagem próxima às fogueiras levando os mesmos a defumar e secar. O intuito dos processos de conservação dos alimentos, como o próprio termo já diz, é o de mantê-los aptos para o consumo por um tempo maior do que quando mantido sem nenhum processo, tendo comoa chave para o resultado a manipulação de quatro pontos cruciais na proliferação de microrganismos: Temperatura, acidez, atividade de água e exposição ao oxigênio. Inicialmente, estes processos eram aplicados já que a falta de tecnologia não garantia produção de ingredientes durante todo o ano, além de que, sem a possibilidade de refrigeração, insumos não duravam por longos períodos. Após o desenvolvimento de tais tecnologias, a arte da conservação não deixou de ser usada, pois os sabores texturas e aromas conseguidos se tornaram do paladar da sociedade. 12 O sal é um ingrediente crucial para a conservação. É através dele que parte dos processos ocorrem, uma vez que o mesmo diminui a quantidade de líquidos, água ou sangue, do interior dos alimentos, diminuindo assim a atividade de água, dificultando a proliferação de microrganismos. Através da osmose, o sal faz com que os líquidos internos do alimento sejam extraídos pela presença de compostos com uma menor quantidade de água na parte externa dos mesmos. A desidratação resultante da exposição ao sal não somente pode ocorrer devido a isto, sendo possível alcançar através de prensagem e exposição a temperatura controlada ou ao ar por tempo determinado para que os líquidos presentes evaporem do alimento. É importante salientar que, estes processos que dependem da desidratação do alimento causam uma perda significativa no peso inicial do ingrediente. Todos estes processos são responsáveis por controlar a proliferação de microrganismos através da diminuição da atividade de água. 13 Em alguns momentos a proliferação de microrganismos pode ser utilizada para conservar alimentos. A fermentação é um exemplo de como isso pode ser vantajoso, já que se utiliza de microrganismos não patogênicos que consomem compostos químicos do alimento e os transformam em gases e compostos orgânicos. Em alguns casos os gases ficam armazenados no alimento, gaseificando bebidas, inchando pães e gerando bolsões de ar em queijos. A modificação responsável pela conservação do alimento é a diminuição do pH do mesmo, tornando-o mais ácido e consequentemente menos propício à proliferação de microrganismos. O sal também pode ser utilizado neste caso como regulador de fermentação, uma vez que diminuem a quantidade de “água livre” para consumo do fermento. Uma observação importante sobre a conservação de alimentos através de cura, fermentação, salga e defumação é a desnaturação de proteínas, que de forma bem superficial nada mais é que a modificação estrutural dos alimentos, modificando suas texturas e aparências, devido a mudanças nas fibras de suas proteínas, que se alongam ou encurtam através destes processos. Para vegetais existem métodos mais comumente usados para ampliar sua validade. A produção de picles, chutneys, coulis, geleias e compotas são cruciais para manter o sabor destes alimentos frágeis presentes na mesa. 2 – Molhos e sopas frias: A produção de molhos frios na cozinha é importante para complementar as preparações. Acrescentam sabor, cor, textura, brilho e untuosidade, tornando os pratos mais complexos e intensos. 14 2.1 – Emulsões: Um dos tipos importantes de molhos da cozinha fria são as emulsões. Estáveis, instáveis ou semi-estáveis, são compostas pela junção de líquidos não miscíveis inicialmente que, através de um processo mecânico se misturam mesmo que temporariamente. Esta mistura normalmente não ocorre, pois, os líquidos envolvidos são de estruturas moleculares diferentes, sendo polares e apolares. A diferença desta estrutura faz com que suas moléculas não se unam através de ligações químicas pois em uma das estruturas existem polos nas moléculas, porém a outra não contem, sendo assim impossível a ligação intermolecular. 15 Durante o processo de emulsificação, a energia mecânica possibilita a formação de pequenas gotículas dentro do outro composto, formando assim a emulsão. A nomenclatura sobre a emulsão e seus compostos traz a divisão em duas fases, a dispersa e a contínua. - Fase dispersa: Líquido que se dispersa dentro do outro. - Fase contínua: Líquido que recebe em seu interior as gotículas do outro insumo. 2.1.1 - As emulsões dadas como estáveis só podem se manter devido a um elemento: os agentes emulsificantes, ou tensoativos. Estas substâncias são responsáveis por unir estas moléculas, uma vez que contendo um lado polar e outro apolar, possibilita a ligação entre as estruturas, formando emulsões estáveis. Dentro dos emulsificantes usados na cozinha temos o mel, a mostarda, alguns temperos secos, amidos naturais como os presentes no alho, ou amidos modificados como o amido de milho. Na formação de emulsões estáveis, é importante o controle dos elementos utilizados, já que o excesso de um dos ingredientes pode impedir o processo. Um grande exemplo de emulsão estável é a maionese, sendo importante a dosagem do óleo vegetal utilizado, pois se este for adicionado todo de uma vez pode fazer com que as gotículas não se formem como necessário, dando aparência talhada à mesma. Um método interessante para reaver uma maionese que não deu certo é o 16 acréscimo de um pouco de água ou ácido (suco de limão ou vinagre por exemplo) para ralear a mesma. 2.1.2 – As emulsões dadas como instáveis são aquelas que, justamente pela ausência de um emulsificante se desfazem após o tempo, já que as moléculas não mantêm uma interação química, sendo necessária a emulsão sempre que for ser utilizada. Um exemplo de emulsão instável é o vinagrete, mistura de óleo e ácido na proporção de 3:1 onde ¼ do volume da emulsão deve ser formada por ácido e ¾ por óleo. Exemplo: Vinagrete de laranja 200mL de suco de laranja 600mL de óleo de canola A proporção de 3:1 é apenas uma diretriz na formação do vinagrete, já que se utilizados ácidos muito fortes, sua diluição em caldo de legumes por exemplo é válida, ou em casos de produção de vinagretes com baixo teor de gordura, a substituição de 2/3 da quantidade de óleo por caldo ou um suco espesso é possível. Assim como na produção de emulsões estáveis, as instáveis devem ser um processo gradual, onde a mistura dos insumos deve ocorrer de forma lenta, afim de gerar emulsões com gotículas finas e bem distribuídas. Presença do tensoativo impede a separação dos líquidos 17 2.1.2 – As emulsões dadas como semi-estáveis são aquelas que, permanecem estabilizadas por um tempo considerável, porém se separam naturalmente. Um grande exemplo deste tipo de emulsão é o molho holandês. 2.2 – Aspic: O aspic é um molho para revestir. Sua produção não é tão comum mais, porém é de bastante utilidade para canapés e outros hors-d’oeuvres. Pode ser considerado uma mistura de cozinha quente e fria onde, por ser uma gelatinização de molhos salgados, passa por um momento quente (a produção do molho e a diluição da gelatina) e um momento frio (gelatinização e serviço). 2.2 – Sopas frias: As sopas produzidas pelo garde manger são aquelas que vão à mesa frias. Sua preparação pode passar por três processos de produção gerando diferentes texturas, aparências e sabores. 2.2.1 – Sopas de vegetais e frutas: Esta categoria de sopas normalmente é servida em locais de alta temperatura ou durante o verão em países de clima temperado. Suas texturas são variadas, a depender 18das frutas e vegetais usados. Estas produções podem ter a adição de caldos ou sucos de frutas afim de dar a textura desejada à mesma. 2.2.1 – Sopas creme: A categoria de sopas creme é aquela que, assim como as sopas cremosas quentes, tem textura aveludada e grossa devido à utilização de ingredientes processados ou de molhos já engrossados como o bechamel, além de ingredientes cremosos como creme de leite ou liason (espessante resultante da mistura de creme de leite e gema de ovo). É importante ater à textura ainda durante a produção da sopa, pois ainda quente a textura da mesma será mais rala, engrossando ao final do resfriamento, o que pode gerar erros de produção. Normalmente este tipo de sopa tem um elemento principal de sabor, sendo este o determinador do sabor final da sopa como por exemplo uma sopa de couve flor. 2.2.1 – Sopas claras: Estas são as sopas mais simples, geradas preferencialmente através de caldos fortificados, com sabor intenso já que não contém uma grande quantidade de ingredientes envolvidos na degustação. O consomé por exemplo é um tipo de sopa clara. Tal categoria não contém nenhum espessante, sendo assim imprescindível a presença de sabores bem marcantes no caldo utilizado. 19 3 – Saladas: As saladas com certeza são um ponto bastante importante no garde manger. Sempre que pensamos na cozinha fria pensamos em belas saladas com ingredientes frescos e saborosos, o que nos faz relembrar de pontos cruciais no setor: 1 – Dê preferência para alimentos que estejam em sua época de safra, pois os mesmos estarão com melhor qualidade e menor quantidade de agrotóxicos e conservantes. 2 – Procure consumir ingredientes produzidos em sua região, pois assim trará desenvolvimento socioeconômico para ela, além de valorizar os produtos e a gastronomia regional. Na produção de saladas é importante que saibamos diferenciar os ingredientes e suas características de sabor e aroma afim de, quando montar uma salada, conseguir complementar sabores, tornando-a assim mais harmoniosa e marcante. 3.1 – Tipos de vegetais: 3.1.1 – Verduras leves: As verduras leves são aquelas de sabor mais suave. Grande parte das verduras leves correspondem às alfaces. Têm como característica sabor extremamente suave, sendo de fácil associação às demais verduras. 3.1.2: Verduras amargas e chicórias: As verduras amargas são aquelas que, como o próprio nome já diz são de sabor amargo e forte. Sua textura mais tenra permite que a mesma seja consumida em saladas “in natura” assim como associadas a um método de cocção como salteadas, grelhadas, cozidas. Vale salientar que tais verduras trazem a produção de saliva durante o consumo, o que beneficia o sistema digestivo. 3.1.3: Verduras picantes: Verduras picantes são extremamente marcantes na produção de saladas. Seu sabor é muito mais intenso que sua resistência ao calor, sendo não recomendadas para 20 processos de cocção. A rúcula é um grande exemplo de verdura picante presente em nosso dia a dia. Dica: Quanto mais jovem for a verdura picante, menor sua intensidade de sabor. Uma observação importante sobre as verduras picantes e amargas é que, existem verduras que fazem parte das duas categorias. OBSERVAÇÃO: Verduras frágeis que serão consumidas cruas não devem ser cortadas preferencialmente, e sim rasgadas, pois assim a oxidação e escurecimento ocorrerá de forma mais lenta e gradual. 3.1.4: Ervas: Ervas são folhas de plantas que contêm um aroma intenso o suficiente para ser utilizado como elemento aromático. Podem ser utilizados frescas ou secas a depender da necessidade da preparação. Ervas secas têm sabor mais acentuado que as frescas. Dica: Ervas frescas são utilizadas normalmente em finalizações ou produções de cocção rápida, pois se expostas ao calor prolongado amargam e escurecem. 3.1.5: Flores comestíveis: As flores além de trazer beleza para a decoração de ambientes também embelezam pratos na gastronomia, tornando preparações comuns em belas e singulares. Um fator importante na seleção e mensuração da quantidade de flor utilizada em um preparo é a intensidade de sabor da mesma, sendo indicada a degustação antes de utilizar na preparação. As flores comestíveis são divididas em flores de jardim como a capuchinha, e flores de ervas como a de alecrim. 3.1.6: Brotos: Ricos em fibras, os brotos são extremamente úteis para a digestão, melhorando o funcionamento do aparelho digestivo, além de auxiliar na eliminação de toxinas do nosso organismo, tudo isto associado a valor calórico baixo. A produção de brotos é simples, sendo necessário somente fazer germinar a semente. 21 3.17 – Tubérculos, raízes, rizomas e bulbos: Os tubérculos, raízes, rizomas e bulbos são modificações geradas a partir do caule das plantas utilizadas como reservas energéticas para as mesmas, tendo diferenças em relação a sua estrutura para a planta. No caso dos bulbos, têm uma estrutura em formato arredondado de onde cresce o caule acima e as raízes abaixo, que fixam o alimento ao solo. Já as raízes que são consumidas por nós, conhecidas como tuberosas, crescem para baixo na terra e fixam a planta ao solo. Os rizomas também se desenvolvem no interior da terra, são considerados caules subterrâneos, dão origem a novas plantas e atrofiam após o processo. Finalmente em relação aos tubérculos, pode- se afirmar que são aéreos ou subterrâneos e propiciam o brotamento de novos ramos na parte superior e novas raízes na parte inferior. Raiz tuberosa: Cenoura, beterraba, inhame. Não possuem “olhos”, ou seja, não geram novas plantas Tubérculo: Batata inglesa, Batata doce. Possuem “olhos” para desenvolvimento de novas plantas, podendo brotar. Rizoma: Gengibre, bananeira. Espécie de caule subterrâneo, geram novas plantas acima da terra. Bulbo: Cebola, alho, funcho. Modificação no caule em formato arredondado, ficam acima da terra com raízes abaixo da mesma. 22 Fonte: Google.com 3.18 – Cogumelos: Os cogumelos não pertencem ao reino vegetal e é importante frisar que nem todos são comestíveis. Pertencentes ao reino Fungi se desenvolvem da decomposição de matéria orgânica em locais úmidos e escuros normalmente. Existem diversos tipos de cogumelos comestíveis, dos mais conhecidos temos: Shitake; Shimeji; Champignon; 3.2 – Tipos de saladas: 3.2.1 – Saladas verdes: Este tipo de saladas, também conhecida como saladas mistas ou jardineiras, são aquelas compostas por vegetais, tendo mistura dos molhos planejada de acordo com a necessidade. Nos casos de saladas cruas os molhos podem ser acrescidos a qualquer momento, já em saladas com ingredientes que passam por cocção, podem ter seu molho acrescido com os ingredientes ainda mornos (para absorção mais intensa de sabor principalmente no caso dos tubérculos), ou resfriados antes. É importante salientar que, para acrescentar os molhos é imprescindível a secagem dos ingredientes antes, para não ralear o mesmo. 3.2.2 – Saladas de frutas: 23 As saladas de frutas são muito utilizadas em hotéis em cafés da manhã, almoços e jantares. Alguns dos ingredientes desta categoria são extremamente frágeis e perecíveis como por exemplo a framboesa e a banana, tendo como indicação a mistura destes o mais próximo do momento de servir. Outro fator importante para análise é a oxidação das frutas que as escurece; para evitar isto, utilizam-se sucos de frutas cítricasque, devido à sua acidez retardam o processo. 3.2.3 – Saladas quentes: Saladas quentes são aquelas compostas por ingredientes servidos juntamente com um molho quente, fazendo com que todos os ingredientes estejam ligeiramente mornos. Uma boa dica para este tipo de salada é a associação de itens quentes a uma salada fria para gerar contraste de temperatura. 3.2.4 – Saladas compostas: Saladas mais complexas, são aquelas geradas a partir da junção de outros tipos de ingredientes como queijos, pães, proteínas e massas. Este tipo de salada deve ser cuidadosamente pensado para que haja: Contraste de cores; Contraste de texturas; Complementação de sabores; Balanço de sabores para que um não se destaque em relação ao outro. 3.2.5 – Usos de saladas: As saladas podem ser usadas em diversos momentos da refeição, e este uso é importante para mensurar quais são as características esperadas para a mesma. Normalmente saladas que acompanham mais de um prato assim como uma digestiva (servida ao fim da refeição na França e Itália), preferencialmente devem ser compostas por folhas e molhos leves. Em casos de complementação de uma produção como um grelhado, devem ter contraste de textura e sabor, além de complementar os nutrientes da preparação. Saladas servidas como entrada devem ser mais leves e em porções menores, tendo o cuidado de não repetir ingredientes presentes nos pratos que estão por vir. 24 Em casos de prato principal devem ser compostas por uma porção maior e se possível conter uma fonte de carboidrato, uma de proteína e complementada por vegetais como por exemplo um mix de folhas com frango desfiado e torradas. 4 – Sanduíches frios Os sanduíches fazem parte da cozinha do homem desde antes do surgimento da escrita. Sua importância se tornou tão grande que, em 1940 Louis P. De Guoy publicou um livro, Sandwich Manual for Professionals detalhando técnicas e receitas de cozinha profissional relacionadas à produção de sanduíches. Usado como refeição, como entrada ou acompanhamentos, têm como estrutura bem definida: Recheio saboroso envolto ou sobre pão ou um invólucro similar. Existem três categorias de sanduíches: 1 – Sanduíches quentes. 2 – Sanduíches frios. 3 – Minisanduíches. Sanduíches no mundo são extremamente variados, produzidos com diversos ingredientes, de sabores inusitados ou tradicionais, tendo como elementos comuns a presença de pães ou invólucros, molhos, recheios e guarnições. 4.1 – Pães: Os pães para sanduíches têm como característica importante a textura e grossura. Pães muito grossos tendem a ser secos, tornando sanduíches difíceis de comer, porém se finos demais não sustentarão o recheio. A firmeza do pão deve ser suficiente para que o mesmo não se desfaça no momento de comer também. Uma dica importante para a produção de sanduíches é a caramelização da parte interna dos pães, pois assim enrijecemos e selamos a mesma, evitando que ao colocar elementos suculentos como a carne ou cremosos como os molhos, os mesmos penetrem no pão, tornando o sanduíche “melado”. 4.2 – Molhos: Os molhos para sanduíches têm como função impedir juntamente com a selagem da parte interna do pão, a penetração dos líquidos, além de conferir sabor e dar firmeza ao sanduíche, fazendo com que ele não se desfaça ao ser prensado para consumo, além de melhorar sua textura e o resultado final. 4.3 – Recheio: O recheio normalmente é o ponto focal do sanduíche. É a partir dele que determinamos o sabor mais importante, dando a ele um nome e determinando qual a expectativa do cliente ao consumi-lo. É importante salientar que o elemento que primeiramente deve ser pensado é o recheio, já que este irá influenciar diretamente em todos os demais elementos. 25 4.4 – Guarnições: As guarnições podem estar presentes tanto dentro quanto fora da estrutura do sanduíche. Ela é responsável por acertar detalhes, complementando sabores, dando contrastes de textura e inserindo cores afim de tornar o sanduíche único e saboroso. É importante salientar que os sanduíches podem ser abertos ou fechados, como exemplo as bruschetas e os hambúrgueres. 5 – Aperitivos e hors-d’oeuvre Tanto os aperitivos quanto os hors-d’oeuvre são preparações servidas em porções pequenas, tendo como principal diferencial o momento de serviço do mesmo. 5.1 – Hors-‘doeuvre: As preparações desta categoria são classificadas como pequenas porções servidas em momentos onde não seriam servidas refeições tradicionalmente, porém vale salientar que segundo o Instituto Americano de Culinária, pode ser servido nas lacunas do menu com o intuito de “excitar o apetite” do comensal afim de fazer com que o mesmo consiga ter uma melhor experiência gastronômica dentro do menu ofertado. Características: 1 – Preparações pequenas. 2 – Elaboração melhor planejadas em relação a sabor, cor, forma. 3 – Guarnições pequenas. 4 – Temperatura de serviço bem estabelecida. 5 – Caso o hour-d’ouevre seja servido para divisão em mesa pelos clientes, certifique-se que é possível esta divisão ou então sirva porcionado por cliente. Exemplos de Hors-d’ouevre: Salgadinhos: Produzidos de acordo com a tradição de cada país, os salgadinhos podem ter apresentação, sabor e massa variados pois não há um padrão quanto a isso. O mais importante é compreender que a produção destes tipos de salgados se diferencia daqueles servidos em lanchonetes pelo tamanho principalmente. No Brasil os salgadinhos preferidos são os empanados e fritos como croquetes, coxinhas, bolinhas de queijo e etc. 26 Fonte: Pinterest.com Canapés: Os canapés são pequenos sanduíches feitos para ser consumidos com uma ou no máximo duas mordidas (finger food), podendo ser consumidos quentes ou frios. São compostos por: base, pasta, recheio e decoração. A base do canapé mais tradicional são pedaços de pão cortados com formato padrão, porém pode ser um legume como abobrinha grelhada por exemplo. A pasta assim como no sanduíche é um elemento cremoso responsável por manter a estrutura do canapé, unindo a base ao recheio. Pastas comuns são queijos cremosos como o cream cheese, maionese, manteiga saborizada ou não, além de cremes à base de creme de leite. O recheio seguindo o mesmo raciocínio é o elemento principal do canapé, dando a ele a característica mais marcante. A decoração é um ponto importante para o canapé, dando ao mesmo beleza e “arrematando” seu design, podendo ser associado ou não ao recheio. Crudites: Legumes e vegetais servidos crus, cortados de maneira uniforme normalmente acompanhados de algum molho cremoso como por exemplo maionese de ervas. Fonte: goop.com Barquetes e tortinhas: Fonte: pinterest.com 27 Preparações feitas com uma base comestível recheadas com cremes salgados ou doces. Fonte: http://buffetdecrepesp.blogspot.com.br/ Profiteróles: Bolas ocas de massa choux (massa cremosa feita de água, farinha e manteiga batida com ovos inteiros) assadas sendo muitas vezes recheadas com elementos macios como mousse e podendo também ser cobertas com caldas. Torre de profiteróles Fonte: http://prazeresdamesa.uol.com.br/ Hours-d’ouevre de colher: 28 A utilização de colheres como base para alguns hour-d’ouevre é bastante razoável por dois motivos principais: com colheres podemos servir elementos líquidos que não irão alterar a textura final do produto como fariam amolecendo a base de canapés ou detortinhas, além de possibilitar que os clientes consigam degustar da finger food sem exatamente tocar dos dedos no alimento, evitando que sujem as mãos por exemplo. Outra possível conceituação em hors- d’ouevre de colher são as pequenas porções de preparações servidas em louças pequenas para degustação Ovas de peixe: Presentes em muitos buffets, as ovas de peixe são bastante utilizadas como hours-d’ouevre. Podem ser utilizadas como decoração de alguns canapés ou servidas associadas a creme azedo com batatas aperitivo por exemplo. Fonte: Facebook.com/bruno.dede.98 29 5.2 – Aperitivos: Os aperitivos possuem as mesmas características dos hour’- douevre, porém, estes associados a menus. É importante salientar que se deve tomar cuidado para que as associações destas preparações com pratos principais sejam possíveis, pois não há como precisar exatamente quais serão os aperitivos pedidos pelo comensal em um restaurante à la carte por exemplo. Em caso de aperitivos que serão servidos a mais de um comensal, tome cuidado para que o mesmo seja de fácil acesso a todos à mesa, além de, se caso precisem de temperatura controlada, este controle seja possível, como por exemplo em frutos do mar servidos em esculturas de gelo. Em caso de serviços já previamente acertados como por exemplo o menu degustação, há uma possibilidade de planejamento mais intenso por parte do garde manger, o que traz uma responsabilidade maior em relação à associação de sabores, cores e texturas durante todo o menu, para trazer ao comensal uma experiência gastronômica completa e singular. 6 – Charcutaria, cura, defumagem, confits e rillettes. A charcutaria no que se refere ao conceito tradicional contempla a produção de alimentos à base de carne, principalmente de porco como linguiças, presuntos, bacon, patês e terrines. Tais alimentos são produzidos e mantidos resfriados até serem preparados ou servidos frios. Os produtos que são produzidos na charcutaria têm associados a eles muita das vezes as técnicas de cura e defumagem, chegando a produzir ingredientes bastante marcantes na sociedade como o presunto parma. Fonte: pinterest.com 30 Como já abordado anteriormente, a aplicação de sal em conservação é extremamente importante por diminuir a atividade de água dos ingredientes, sendo também aplicada em produções da charcutaria. 6.1 – Cura: No que tange a cura, existem elementos que devem ser bem medidos em sua utilização por serem perigosos se utilizados em excesso como os nitratos e nitritos. Sua utilização é importantíssima para a prevenção do botulismo, já que inibem a proliferação da bactéria Clostridium botulinum, porém, ao se decomporem, nitratos e nitritos dão origem a nitrosamina, elemento cancerígeno. Estudos comprovam que a decomposição de nitratos e nitritos ocorre em maior intensidade sob exposição a calor excessivo. Estes compostos que dão origem à nitrosamina estão presentes no sal não refinado. Observação: Caso utilize de nitratos ou nitritos puramente, não associar a mistura de temperos e utilizar de apenas uma parte da mistura, pois assim não é possível dosar sua aplicação. 6.1.2 – Temperos associados à cura: A cura em alimentos muitas das vezes geram sabores extremamente fortes nos ingredientes que podem ser pouco atrativos, com isso o balanço de sabores é recomendado associando ingredientes como ervas, condimentos e açúcares por exemplo. A associação de açúcares não necessariamente se refere à utilização de açúcar refinado, mas também a mel, xaropes e glucose por exemplo. Na cura são muito úteis para: 1- Neutralizar o sabor forte de sal na cura. 2- Balancear os sabores. 3- Amenizar sabores amargos presentes em curas que contenham fígado. 4- Manter a cor do alimento. 5- Auxiliar na manutenção da água no ingrediente. 6.2 – Cura seca: A cura seca pode ocorrer com a associação puramente de sal ao alimento, porém uma mistura de ervas, especiarias, sal e açúcar é mais vantajosa por gerar resultados mais elaborados. Na aplicação deste tipo de cura, devemos simplesmente esfregar a mistura ao alimento, tendo o cuidado de manter a mistura em contato com toda a área do alimento. Neste tipo de cura é necessário que os ingredientes a cada dois dias sejam virados ou rodados, podendo esfregar a mistura da cura várias vezes durante o processo. Uma proporção base para a cura é de 5% do peso do ingrediente no caso de carnes. 31 6.3 – Salmoura: A diluição dos ingredientes da cura em um líquido é conhecida como salmoura. A utilização de água aromatizada com ervas com sal diluído pode passar pelo processo de fervura para que a infusão de sabores e aromas no líquido ocorra mais intensamente. Vale salientar que a salmoura deve ocorrer somente após o resfriamento do líquido. Itens pequenos podem ser submersos na salmoura de forma a ficar totalmente dentro do líquido durante todo o processo, colocando por exemplo um peso para mantê-lo imerso. Já em peças grandes, a imersão em salmoura é insuficiente para evitar a proliferação bacteriana já que a parte interna do ingrediente ficará sem receber a mistura que está em contato com a parte externa. 6.3.1 – Solução para salmoura em ingredientes grandes: Em 1973 uma técnica para salmoura em ingredientes grandes como pernil ou peru foi desenvolvida por um agente funerário neozelandês onde a salmoura é injetada através de veias e artérias grandes presentes no animal e através do sistema circulatório se espalha através de veias menores e vasos capilares alcançando as áreas internas do ingrediente. Fonte: Garde Manger - A Arte e o ofício da cozinha fria. Fonte: Garde Manger - A Arte e o ofício da cozinha fria. 32 Outra técnica desenvolvida foi a utilização de pressão, onde ao embalar o alimento a vácuo faz com que a salmoura seja forçada a entrar no alimento. 6.4 – Produtos comuns salgados: 6.4.1 – Bacalhau: O bacalhau tem dentro de sua categoria uma pequena confusão sobre seu conceito por, em alguns países, ser considerado como uma técnica de salga, enquanto em outros, como Brasil e Portugal, é considerado um grupo de peixes específicos que passam por esta técnica de salga. Conhecido em português como bacalhau, este tem em países de língua inglesa o nome de Codfish, ou simplesmente cod. A variedade de peixes que são aceitos no Brasil como bacalhau são aqueles da família “gadidae”, composta por uma seleção de mais de 30 espécies de peixes de águas profundas e geladas do atlântico norte e do círculo polar. Gadus morhua (Cod ou Bacalhau Porto): Espécie de bacalhau dada como “premium”, é considerado o mais nobre de todos os tipos de bacalhau. Sua espécie é aquela que possibilita retirada de postas maiores, e após cozido, gera belas lascas que se soltam ao degustar. Esta categoria também é conhecida como bacalhau do Porto, pois o mesmo era comercializado pelos portugueses provenientes da Cidade do Porto em Portugal. Assim como qualquer espécie animal, o Gadus morhua sofre mutações relevantes devido às condições do habitat onde vivem. Tais mutações podem ser as cores dos peixes, que pode variar de amarelo, verde, marrom ou cinza. Uma espécie específica de Cod do Canadá pode chegar a pesar 90 quilos. Gadus macrocephalus (Codinho, Bacalhau do Pacífico ou Portinho): Peixe proveniente da região do pacífico norte, tem como características marcantes uma cabeçamaior (daí o nome “macrocephalus”) além de sua carne mais fibrosa e barbatanas com uma espécie de “bordado branco” em suas extremidades. Além disso, é um peixe mais claro que o morhua. Fonte: Cartilha orientativa Ministério da Saúde Fonte: Cartilha orientativa Ministério da Saúde 33 Saithe: De nome científico “Pollachius virens”, possui carne bem mais fibrosa que os anteriores, sabor mais intenso e coloração mais escura. Este peixe é muito utilizado pelos brasileiros como bacalhau, ainda que não pertencente à família dos gadidae na produção de bolinhos de bacalhau e recheios de tortas por exemplo, justificado pelo seu preço bem mais em conta que as demais categorias. Este tipo de peixe deve ser anunciado como “peixe tipo bacalhau” por não se tratar de um gadidae. Ling: O “Molva molva”, comumente chamado de Ling, é um peixe comercializado no Brasil como “tipo bacalhau” também. Possui corpo estreito e mais claro que os demais, podendo chegar a até dois metros de comprimento. Zarbo: “Brosme brosme” é o nome científico desta espécie. Este se diferencia das demais espécies por ser menor que as outras e é habitante de águas de média profundidade. Também é conhecido como bolota, sendo um parente distante do bacalhau. Vale salientar que a produção de bacalhau fora do Brasil é também possível com outros tipos de peixes além das espécies Gadidæ, por ser considerado em alguns países uma técnica, e não uma técnica de salga aplicada a uma específica família de peixes. Fonte: Cartilha orientativa Ministério da Saúde Fonte: Cartilha orientativa Ministério da Saúde Fonte: Cartilha orientativa Ministério da Saúde 34 6.4.1.1 – Seleção e consumo: Para selecionar e consumir o bacalhau devemos tomar cuidado em detalhes minuciosos que podem trazer aos nossos consumidores uma melhor experiência gastronômica. Formações perceptíveis de bolor ou vermelhidão na carne não podem acontecer, pois denotam um excesso de ou calor no armazenamento do peixe salgado, assim como limosidade ao toque, amolecimento da carne e odor pútrido, pois estas são características de deterioração por bactérias. 6.4.1.2 – Tempo de dessalga: A dessalga de bacalhau deve ocorrer em água fria e dentro da geladeira para que não perca sua textura e tenha pouco risco de estragar. O cheiro exalado pelo peixe durante o processo pode ser forte caso executado fora da geladeira, mais um motivo para dessalgar refrigerado. Vermelhidão na carne. Fonte: Cartilha orientativa Ministério da Saúde Bolor na carne. Fonte: Cartilha orientativa Ministério da Saúde 35 6.4.2 – Carnes curadas: A salga de carnes é um dos primeiros processos de conservação de alimentos desenvolvido pelo homem. Maias e Astecas já conheciam e aplicavam a técnica nas Américas, assim como asiáticos e africanos. Por se tratar de um alimento extremamente perecível, estas técnicas foram extremamente úteis. O processo de cura das carnes pode se dar através de manteação, salga, escorrimento de salmoura, lavagem, exposição ao sol ou ao vento (carne serenada), prensa e embalagem. As categorias de carnes curadas / salgadas no Brasil são: Carne de sol: Carne salgada de pequeno prazo de validade, a carne de sol é muito comum no nordeste brasileiro e pode ser feita de cortes nobres bovinos e em alguns raros casos de caprinos e suínos. Muitas das vezes feito de maneira artesanal, sua vida de prateleira é de aproximadamente três a quatro dias, sendo extremamente frágil se comparado com as demais categorias. Produzido através de cura seca, chega a perder de 7 a 12% de seu peso devido à desidratação. O processo tradicional conta com a exposição ao sol, porém em alguns locais a mesma não passa por este processo para facilitar a produção. Fonte: Cartilha orientativa Ministério da Saúde 36 Segundo Vieira, a composição da carne de sol no Brasil tem como média a presença de 7,1% de NaCl (sal) em seu peso, podendo conter de 4,69 a 8,45% da concentração do mesmo, resultando em atividade de água elevada, ou seja, alto teor de umidade. Carne serenada: A carne serenada é uma variação da carne de sol tendo como principal diferencial a exposição ao vento ou sereno durante as noites afim de auxiliar no processo de cura. A exposição nos varais pode chegar a uma noite inteira. Carne seca: A carne seca tem como característica a associação da cura seca e a prensagem para sua produção. Muito produzida em regiões menos secas que o semiárido nordestino, contém o processo de prensa na carne através do empilhamento das mantas, fazendo com que o peso da própria carne auxilie na saída dos líquidos. Charque: Processo de cura industrializada, tem uma maior atenção ao controle higiênico sanitário por este encontrar-se dentro de registros da ANVISA. Sua produção é feita através de salga úmida com teor de sal maior que os anteriores e, se comparado à produção da carne seca, tem uma maior quantidade de sal aplicada e mais extenso tempo de exposição ao sol, passando também pelo empilhamento. Tem como perda de peso aproximada a 20%. 37 Jerked Beef: Produto parecido com o charque, tem como principal diferença a associação de aditivos afim de melhorar o processo de cura (nitritos e nitratos). A adição destes compostos faz com que o alimento mantenha sua cor e seu teor de umidade. Uma observação importante é que a temperatura ideal para salga é a de 15ºC pois a penetração de sais não é tão efetiva em temperaturas baixas ou altas. Outro fator importante é o tamanho dos cristais de sal utilizados, sendo o sal fino de mais rápida penetração que o grosso, porém podendo coagular proteínas e dificultar o processo, o que não ocorre com o sal grosso. Jerked beef vem embalado a vácuo, o que também facilita sua conservação e aumenta sua vida útil. Fonte: Dossiê Técnico Rede de Tecnologia da Bahia – RECTEC/BA 6.4.3 – Gravlax: Produzido na região dos países nórdicos, o gravlax é um tipo de cura utilizado especificamente no salmão. Utilizando de ervas aromáticas e de pressão, o processo garante a absorção de sabores e aromas do alimento e a perda de água através da pressão. A história vem da Idade Média, quando pescadores curavam os alimentos enterrados na areia das praias do norte da Europa, cobertos por temperos como semente de mostarda e endro e devido ao peso da terra acima do filé, o ingrediente perde água e recebe os sabores e aromas dos aromáticos. Sua produção demora aproximadamente sessenta horas. 6.5 – Defumação: A defumação é utilizada pelo ser humano desde o momento em que se descobriu que a exposição das carnes próximas às fogueiras as fazia durar mais e secar mais rapidamente. A utilização da fumaça além de criar uma barreira protetora, traz ao alimento sabor e característica marcante, gerando os produtos tradicionais defumados como o inconfundível bacon por exemplo. É importante salientar que devemos primeiramente expor o alimento a um processo de secagem ao ar em busca de gerar uma película viscosa, responsável por aderir a fumaça ao alimento. 38 Para defumar é necessário: 1- Fumaça. 2- Uma câmara de defumação. 3- Mecanismo de circulação e ventilação. Um fator crucial na produção de alimentos defumados é a seleção das madeiras utilizadas para o processo, pois existem aquelas que ao queimarem podem deixar sabor de fuligem ou extremamente amargo, ou em casos específicos, produzirmuito alcatrão, sendo possivelmente nocivo. Nunca se pode utilizar de madeiras que foram tratadas com químicos, óleos ou tratadas sob pressão pois estas podem causar sérios danos ao consumidor. 6.5.1 – Defumação a frio: Neste processo a exposição à fumaça acontece em temperatura controladamente baixa, sendo menor do que 38ºC. As vantagens deste processo são uma grande absorção de sabor defumado por parte do alimento, assim como a manutenção da umidade do ingrediente e em casos de produtos cárneos, os Fonte: Garde manger, a arte e o ofício da cozinha fria 39 mesmos não desnaturam suas proteínas, evitando a textura esfarelada que ocorre em defumagens quentes. Na aquisição de produtos que passaram por defumação fria vale salientar a necessidade de cocção do ingrediente antes do serviço. 6.5.2 – Defumação quente: Neste processo de defumação, o alimento além de exposto a fumaça é colocado em temperatura alta, entre 85 e 121ºC. A vantagem deste processo é a possibilidade de consumo do alimento in natura após defumado pelo mesmo alcançar os mínimos 70ºC de temperatura interna. As desvantagens vêm do baixo rendimento de produção pois o ingrediente perde peso equivalente a gordura e a água extraídas no processo. 6.5.3 – Defumação no forno: Alguns fornos são propícios a produção de alimentos defumados como por exemplo os fornos defumadores, fornos a lenha ou fogo de chão. Tem como pré- requisito a exposição do alimento a temperatura de 85 a 121ºC e produzir fumaça. Um outro processo que pode ser utilizado é a disposição de uma assadeira com lascas de madeira ao fundo de um forno convencional para que as mesmas queimem gradativamente e produzam fumaça para o ingrediente. 6.5.4 – Defumação na assadeira: Este processo é uma adaptação barata e prática para produções em pequena escala por necessitar somente de duas assadeiras de alumínio, uma grade (grelha) e o material para a fumaça (serragem, lascas de madeira e no caso da cataplana portuguesa, um pouco de ervas secas). Este processo é prático, mas pouco controlado, pois não há como mensurar com exatidão a quantidade de fumaça gerada e o sabor final do alimento pode tornar-se um pouco mais amargo. 40 6.5.5 – Diagrama da defumação: 6.5.6 – Secagem: O processo de secagem não somente deve ser associado à defumação, podendo ser utilizado como único processo de conservação do alimento. Processo extremamente controlado e minucioso, a secagem deve ser realizada em locais de fácil monitoramento de temperatura e umidade, além de verificar as condições da legislação sanitária vigente para a produção. Presuntos famosos como o di Parma são expostos à defumação fria e posteriormente podem passar por longos períodos de secagem controlada (podendo chegar a anos por exemplo). 6.6 – Confits e Rillettes: O processo de produção do confit e do rillette é extremamente parecido, tendo como elemento crucial para a extensão da vida útil do alimento a retirada do contato com o oxigênio dos elementos mais sensíveis do alimento. O processo começa com um cozimento por um período longo e logo após isto, a disposição em terrinas ou potes e cobertos com gordura, formando uma capa protetora Alimento Secagem Defumação fria Defumação quente Defumação no forno Defumação na assadeira Consumo Cocção 41 na parte de cima do alimento. Esta cobertura possibilita uma barreira protetora de oxigênio, fazendo com que o alimento não se degrade devido à oxidação e proliferação de bactérias aeróbias. A diferença entre o confit e o rillette é a utilização de aromáticos e o processamento da carne para formação de uma pasta no caso do rillette. 6.6.1 – Diagrama dos Confits e Rillettes: 6.7 – Charcutaria: A charcutaria surgiu na Roma e Grécia antiga, onde ingredientes tidos como muitas das vezes escassos (no caso a carne) eram salgados, daí o nome “salsicha” do latim “salsus”, que significa com aplicação de sal. A então salsicha viajou pela Europa juntamente com a expansão do império romano e alcançou países do continente, se tornando então um produto comum e muito apreciado pelos habitantes do velho mundo. Era de se esperar que a migração desta iguaria traria então nomes diferentes em alguns países como em Portugal e consequentemente no Brasil, onde é então chamado de linguiça. 6.7.1 – Farce: A farce é um elemento base da charcutaria. Nada mais é que uma emulsão de carne magra com gordura que ocorre devido a moagem, processamento e coagem ou mesmo batidos em purês. As farces podem apresentar características distintas de acordo com sua intenção de uso. Farces podem ser lisas e uniformes ou grosseiras, Carne Cozimento em gordura Processada e formada pasta Colocada em terrina ou pote Armazenamento imerso em gordura RILLETTE CONFIT 42 tendo como único ponto crucial a emulsão dos ingredientes envolvidos, já que, se não agregados, não trarão unidade ao produto gerado com ela. Além de linguiças, a farce é usada também em quenelles, salsichas, patês, terrines, roulades, galantines ou recheios. Os tipos de farce são: Farce simples: Composta somente pela carne e gordura, deve ser processada progressivamente para garantir a total emulsão entre os insumos. Farce estilo camponês: Farce mais grossa, contém textura um pouco menos aveludada e pode ter em sua composição fígado. Farce gratin: Farce composta por carne e gordura processada tendo como diferencial da farce simples a cocção anterior de parte da carne, sendo importante o resfriamento da carne salteada antes de processar. Mousseline: Normalmente feita de carnes leves como o peixe, tem como substituto à gordura de porco o creme de leite fresco e a inclusão de gema de ovo afim de dar uma textura aveludada e cremosa à preparação. Vale salientar que no caso das farces muito difíceis de se ligar como a camponesa e a gratin, pode haver a inclusão de elementos ligantes secundários para garantir a unidade no creme produzido. Estes elementos podem ser: Ingredientes com muito amido como purê de arroz ou batata, pão encharcado no leite, massa de farinha, água, manteiga ou ovos. 6.7.2 – Tipos de salsicha A iguaria salsicha pode ser dividida em subcategorias: 1 – Salsicha fresca: Charcutaria feita de carne processada e condimentos que não vai a nenhum processo de cocção durante sua produção. É apenas feito o processo de encher a linguiça e amarrar. Este tipo de salsicha deve passar por processo de cocção antes do consumo. Fonte: www.vitrinesdocomercio.com 43 2 – Salsicha cozida: Charcutaria feita através do processo de encher linguiça e posteriormente cozida no vapor ou escalfadas após o molde. Podem ser consumidas com ou sem processo de cocção prévio. 3 – Salsicha defumada: Charcutaria que passa pelo processo de defumação e secagem (sendo a frio ou quente) e deixadas para terminar o processo através da cura até atingirem o ponto desejado. Assim como as cozidas, podem ser servidas cruas ou com processo de cocção atrelado. 4 – Salsicha fermentada secas e semissecas: A salsicha dada fermentada é aquela que passa por um processo de fermentação da farce durante o tempo de produção, tendo como resultado o sabor mais forte produzido pelo ácido lático consequente da fermentação.Sua vida de prateleira é maior devido à acidez maior gerada na fermentação e em casos como o salaminho, componentes da fumaça presentes no produto final. Em casos de salsichas fermentadas, uma espécie de cultivo de bactérias pode ser adicionado para iniciar a fermentação da farce assim como utilizamos de fermento biológico para fabricação de pães. Este tipo de charcutaria é de grande dificuldade devido à necessidade de balancear sal (que inibe fermentação, mas também dificulta o desenvolvimento de bactérias nocivas) e açúcar (que acelera a fermentação, porém também facilita o desenvolvimento de patogenias). Salsichas semissecas e secas além de terem um pH ácido, tem perda de até 30% de seu peso durante a fabricação devido à perda de água, fazendo com que a atividade de água seja diminuída, aumentando a vida útil do produto. Elementos comuns que inibem o desenvolvimento de bactérias nocivas: Sal, nitratos e nitritos, alho, cravo, canela e em pequena escala pimentão vermelho. Fonte: www.catira.com.br 44 5 – Salsicha emulsionada: As salsichas conhecidas como emulsionadas são aquelas resultado da produção de uma farce com proporção predefinida (5-4-3) onde utiliza-se de uma medida padrão em proporção de 5x a medida em carne, 4x em gordura e 3x em água sólida (gelo) para moer. Exemplo: Mortadela e salsicha de cachorro quente. 6.7.3 – Ingredientes de salsicha: Para a produção de salsichas há uma regra a se seguir, tendo como elementos base de sua composição a carne moída crua (podendo ser de porco, frango, boi ou até mesmo peixe) sal e temperos em geral. Uma vez feita a moagem e mistura dos insumos dá-se início ao processo que conhecemos como encher linguiça. A moagem da carne é um processo crucial para o resultado final da salsicha produzida. A seleção de músculos pouco trabalhados durante a vida do animal como a picanha ou o filé mignon por exemplo, não agrega muito sabor à preparação, já que, principalmente no caso do filé, este padrão de carne é menos saboroso se comparado a porções mais trabalhadas como a paleta suína por exemplo. Vale salientar que neste caso não há a preocupação com a dureza apresentada pela proteína, uma vez que o processo de moer a carne irá quebrar as fibras da mesma e torna-la macia. A seguir algumas informações sobre a importância dos ingredientes envolvidos no processo: Carne certificada: A carne que será utilizada para produção de salsichas deve ser de boa procedência, uma vez que durante a produção, nem sempre haverá processo de cocção associado à mesma, sendo a salsicha mantida em geladeira até o momento de cocção para consumo (como nas salsichas cruas). Procure sempre fornecedores certificados e verifique a qualidade do lote utilizado para evitar que seu produto seja um veículo de transmissão de doenças associadas à carne. Gordura: Elemento ligante e de sabor para a salsicha, a gordura é extremamente importante uma vez que atrela sabor e ligação no recheio da mesma. Uma proporção hoje utilizada na preparação é de 30% do peso em gordura e 70% do peso em carne, tendo como exemplo: 700g de paleta suína moída e 300g de gordura. Esta gordura utilizada não necessariamente deve ser de origem animal, mas a mais utilizada hoje é a de porco (principalmente da panceta e da papada, podendo ser utilizado o bacon). 45 Misturas de cura: Para a produção de salsichas um elemento imprescindível é o sal. Podendo ser de cozinha, kosher, ou sal marinho, este elemento é importantíssimo para a produção de linguiças uma vez que aguça o sabor dos elementos envolvidos na produção. Vale salientar que aquelas salsichas que serão curadas, secas ou defumadas a inserção de uma mistura de nitrato e nitrito é importante para garantir sua procedência e evitar patogenias associadas. Para balancear o sabor salgado gerado pelos sais e garantir mais umidade interna nas salsichas, xaropes, dextrose e açúcares são utilizados como mistura de cura destes alimentos. Especiarias, ervas e condimentos: Estes ingredientes são responsáveis por dar as características mais marcantes ao paladar. Podem ser ervas, temperos, raspas de frutas cítricas ou grãos torrados como gergelim. É através deles que conseguimos deixar nosso insumo singular e único, atingindo sabores e aromas únicos na cozinha. Vale salientar que no caso de ervas há uma grande preocupação quanto ao procedimento de utilização, uma vez que, se forem usadas frescas devem ser devidamente higienizadas e impreterivelmente secas antes de introduzidas na farce para a salsicha. Ingredientes líquidos: É importante nesta categoria de ingredientes salientar que o exagero na proporção de líquidos pode trazer dificuldades quanto a textura da farce além de, no caso de líquidos como o vinagre, dar textura granulosa à salsicha devido à desidratação pela acidez. 6.7.4 – Ensacamento e invólucro: O processo de “ensacar” a carne moída pode acontecer em diversos invólucros, desde o intestino e estômagos dos animais, como porcos por exemplo, até invólucros artificiais podendo estes serem comestíveis ou não. 6.7.5 – Observações: A moagem da carne deve ser feita em temperatura baixa e em pedaços pequenos para facilitar o processo. Após a moagem, a carne deve ser misturada inicialmente em velocidade baixa, sendo progressivamente aumentada para formar um produto homogêneo, sendo finalizado o processo assim que os ingredientes se distribuam uniformemente. O processo de moagem e mistura devem ser feitos sempre em temperatura baixa, podendo ser feita em recipientes sobrepostos a cubas com gelo, além de utilizar de utensílios e equipamentos como colheres e moedores refrigerados para o processo, afim de não superaquecer a carne. 46 A moagem deve ser feita e o mais rápido possível colocada no invólucro, tendo a farce uma textura viscosa ao final do processo de produção. Ingredientes líquidos devem ser adicionados com cuidado para não deixar a textura errada. Quanto ao invólucro, vale salientar que pode ser de origem natural ou sintético. Os invólucros sintéticos têm como vantagens a uniformidade de seu tamanho, possibilitando a produção de salsichas com peso e tamanho padrão, além de terem maior proteção microbiológica, menor perda de peso devido à impermeabilidade dos invólucros, que podem ser de colágeno, plástico, papel e polpa de madeira. Já aqueles naturais são feitos de intestinos e estômagos de animais, tendo como grande incentivador de sua utilização a tradição e os costumes atrelados à profissão. São menos uniformes e têm um processo de retirada e armazenamento mais complexo, porém trazem a vantagem de associar a utilização integral de insumos no abatimento animal. Na utilização de invólucros naturais já comprados prontos, deve o mesmo ser reidratado com água fria e retirado do mesmo o excesso de sal que é utilizado para seu armazenamento por longos períodos. No momento de rechear deve-se tomar cuidado para que o invólucro esteja devidamente hidratado, no caso dos naturais, além de a retirada das bolhas de ar que podem vir a ocorrer na salsicha com o auxílio de um alfinete ou agulha, pois isto pode fazer com que a salsicha estoure em momentos de aquecimento por exemplo. 6.8 – Terrines: Terrines nada mais são que produções de farces que, ao invés de serem colocadas em invólucros como as salsichas são assadas. Seu nome vem de uma abreviação de “patê de terrine” tendo origem no equipamento onde inicialmente era assado, a terracota. O equipamento terracota era uma forma feita de argila para a produção de terrines, sendo esta substituídapor formas de metal nos dias atuais. Para produzir a terrine é importante seguir os passos: Primeiramente forrar a terracota ou forma de metal com ingredientes afim de facilitar o processo de desenformar. O “casaco” mais comum para terrines é o toucinho, porém pode ser substituído por bacon, presunto, crepes, folhas de alho poró ou até mesmo plástico filme PVC. Fonte: www.etsy.com 47 Após o forrar, recheie com a farce pressionando-a com o auxílio de uma espátula afim de retirar todas bolhas de ar que podem se formar. O nível de farce não pode ser muito alto na terracota, uma vez que haverá a necessidade de cobrir a farce com o casaco que foi utilizado para forrar a forma. Agora totalmente montado e coberto haverá a necessidade de assar em banho maria. Um método crucial para este banho maria é a utilização de um pano como nivelador e distanciador da terracota do fundo da forma, uma vez que a farce não poderá ser cozida em temperaturas extremas. Em casos como no Brasil, onde não é permitida a utilização de panos de prato nos restaurantes, faz-se uma camada de papel absorvente no fundo da forma e então adiciona-se água quente para cobrir 2/3 da terracota. Logo após é então colocada ao forno em uma temperatura de aproximadamente 150ºC, tendo o cuidado de não permitir que a água seque ou ultrapasse a temperatura de 77ºC. Com a ajuda de um termômetro espeto, meça a temperatura interna de sua terrine antes de retirar do forno, tendo como referência a temperatura de segurança da legislação vigente. Retirada do forno, a terrine deve ser refrigerada antes do serviço, podendo ser comprimida com o auxílio de um peso e uma placa para deixa-la mais firme e sólida. 6.9 – Patês: Patês nada mais são que ricas farces de carne, frutos do mar ou vegetais que passaram por um processo de cocção, seja este em massa, formas ou prato sendo posteriormente servidos frios ou quentes. 6.10 – Galantine: O produto Galatine teve sua origem durante o período da revolução francesa, onde o chefe da casa do marquês de Brancas utilizou de sua criatividade para inventar um produto que utilizava da pele de aves desossada para “reconstruir” as mesmas. O processo consiste na retirada cuidadosa da pele das aves afim de utilizar como invólucro da farce, muita das vezes feita com o próprio frango, sendo posteriormente escalfada e servida quente ou fria. Um produto parecido com a galatine é o ballotine, sendo originário do mesmo processo da galatine, diferenciado somente pelo processo de cocção associado ao mesmo, assado ao invés de escalfado e sempre são servidos quentes. Outro produto que teve sua origem na galatine foi o roulade, tendo processo extremamente parecido, porém o invólucro usado para o procedimento pode ser uma musselina ou filme PVC e não são exclusivamente utilizados para acompanhar produtos à base da ave em questão. 48 6.10 – Foie gras: O foie gras é um produto que foi desenvolvido em meados do ano de 5.000 a.C onde egípcios alimentavam gansos com fígo afim de dar sabor característico e textura aos fígados de seus animais. Com o passar do tempo o foie gras deixou de ser produzido exclusivamente com fígado de ganso, abrindo espaço para a produção com fígado de pato, sendo os mesmos alimentados forçadamente por meio de sonda, afim de desenvolver o fígado dos animais e deixá-los extremamente cremosos e amanteigados. 7 – Produção e tipos de queijo O leite é um alimento heterogêneo, de pH neutro e com a presença de bactérias naturais do próprio produto, o que faz com que sua validade seja curta, sendo fermentado pelas suas próprias bactérias se mantido em temperatura ambiente, podendo separar seus sólidos do soro, formando a massa de queijo. A história da produção de queijo remonta a 7.000 a.C na região da Mesopotâmia, onde então habitantes da região produziam um líquido fermentado parecido com o iogurte ao armazenar o leite, fazendo com que ele devido as altas temperaturas e a presença de suas próprias bactérias fermentasse. Uma massa formada pela coagulação dos sólidos do leite (proteínas, gordura) decantava dando origem a um queijo bem simples. Com o desenvolver das técnicas de produção de queijo, produtores pioneiros começaram a utilizar de um líquido presente no estômago dos ruminantes que podia coagular o leite de forma rápida, sendo assim extraído para produzir queijos de melhor qualidade. Este líquido deve ser extraído dos ruminantes que ainda estão em processo de amamentação, pois é neste momento que seu suco gástrico contém uma grande quantidade de quimosina, substância química que consomem a lactose e produz o ácido lático, coagulando o leite. 7.1 – Tipos de coalho: 7.1.1 – Coalho de bezerro: Coalho de origem animal, o coalho de bezerro é extraído do quarto estômago dos ruminantes (abomaso) e é utilizado na coagulação do leite. A grande presença de quimosina no líquido extraído acontece devido à necessidade de coagulação do leite no estômago do animal para que o líquido permaneça mais tempo em seu estômago, permitindo uma digestão mais prolongada e uma absorção maior dos nutrientes. A extração do coalho ocorre em casos artesanais durante o sacrifício de bezerros enquanto os mesmos ainda se alimentam de leite, onde o próprio abomaso é extraído e mantido sob imersão em solução de cloreto de sódio. Após a extração do coalho, o mesmo é purificado por processos químicos e deve ser mantido sob abrigo da luz e ser diluído para sua utilização. 49 7.1.2 – Coalho de Pepsina: Coalho de estômago de bois adultos, tem como característica a presença de pepsina, enzima que também coagula leite assim como a quimosina, sendo um pouco menos efetivo em temperaturas mais altas e pHs mais ácidos, fazendo seu tempo de coagulação maior do que em coalho de bezerro, além de ter sua produção de menor rendimento. 7.1.3 – Coalhos microbianos: Com o aumento na produção de leite e queijo e as duras críticas à extração de coalhos de bezerros e bois, fungos e bactérias começaram a ser utilizadas na coagulação do leite. Esta produção de queijos pode ser controlada pela adição de sal no processo, aumentando o tempo de coagulação. 7.1.4 – Coalho industrial: O coalho industrial é produzido através de culturas de fungos, leveduras e bactérias geneticamente modificadas que produzem a quimosina. Seu desenvolvimento deu pela incapacidade de manutenção e aumento da produção de queijos com coalho de bezerro e a impossibilidade de produção de alguns tipos de queijo com coalhos microbianos. Por se tratar de um produto de origem transgênica, o coalho industrial foi aceito pelos órgãos de segurança alimentar no fim dos anos 90. Por ser composto de 100% de quimosina, sua produtividade é maior e melhor controlada. 7.1.4 – Coalho vegetal: Produzido do extrato de alguns vegetais como figueira é utilizada para produção de queijos para vegetarianos porém não é muito utilizado. 7.2 – Leite para queijo: As características do queijo vêm das características do leite utilizado para sua produção. Rico em proteínas, gordura e açúcares, este líquido heterogêneo tem em sua composição todos os nutrientes necessários para o desenvolvimento inicial de filhotes, e através da ciência e da cultura, nós seres humanos, desenvolvemos técnicas de solidificação deste líquido para extrair o que hoje conhecemos como queijo. 50 Em média, os leites de ovelha são os mais gordurosos dentre os que normalmente consumimos e produzimos queijos, sendo este leite aquele que tem maior rendimento de produção. Vale salientar que práticas de criação do rebanho podem influenciarno percentual de gordura, proteínas e açúcares tornando estes índices maiores ou menores. A produção de queijos que inicialmente se dava de forma artesanal foi sendo aperfeiçoada pelos produtores em técnicas de maturação, produção e envase que deram diversas características ao produto que fizeram com que os mesmos fossem cada vez mais apreciados e comercializados, daí então problemas maiores começaram a surgir. Problemas de saúde associados ao queijo começaram a aparecer como por exemplo intoxicações alimentares causadas pelo produto. Foi então que no século XVII o pesquisador Louis Pasteur através de suas pesquisas conseguiu provar que microrganismos não cresciam de forma espontânea nos alimentos, e sim ali já se encontravam e devido às características privilegiadas destes ambientes como temperatura, atividade de água, presença de alimentos e pH, os microrganismos se desenvolviam, concebendo assim o processo de Pasteurização. Esta pesquisa trouxe para a produção de queijos um grande avanço, pois através de leites pasteurizados microrganismos patogênicos eram eliminados do leite, tornando assim o leite e o queijo alimentos mais seguros, o que levou a países como o Brasil a criar leis sobre a produção de queijos somente com leite pasteurizado em território nacional. Louis Pasteur – Fonte: www.boigraphy.com 51 O processo de pasteurização consiste no aquecimento do leite a uma temperatura de até 63ºC mantendo-o a esta temperatura por 30 minutos sempre sendo mexido, logo após o mesmo é esfriado a uma temperatura de no mínimo 10ºC rapidamente. 7.3 – Produzindo queijo: A produção de queijos em escala artesanal é um processo razoavelmente simples, necessitando de equipamentos comuns com chaleiras a vapor, termômetros digitais e batedores tipo fouet. O leite dado como ideal para a produção de queijo é aquele recém extraído do animal, ainda em temperatura de extração pois o leite depois de armazenado começa um processo de degradação de suas proteínas, além de uma proliferação significativa de bactérias presentes no leite. Caso não tenha acesso ao leite cru, há a possibilidade de utilizar de leites pasteurizados como saída para produção caseira. Um ingrediente importante para estes casos é o Cloreto de Cálcio (CaCl2) que ao ser misturado ao leite, corrige parte da degradação que ocorreu nas proteínas do leite durante seu armazenamento e pasteurização, sendo o cloreto possível de se encontrar em casas especializadas para produção de queijo. Assim como vinhos, os queijos devem ser manuseados com cuidado, evitando agitar os leites que darão origem a eles, monitorando a temperatura do leite e do queijo pronto, além de controlar a umidade do local de amadurecimento do queijo. Um fator importante para a produção de queijos é a temperatura, que deve estar dentro dos limites de proliferação dos microrganismos responsáveis pela coagulação das proteínas do leite, tendo como cuidado o não superaquecimento do mesmo, que traria a desnaturação destas proteínas, que impossibilitaria a produção do queijo pela desestruturação do leite e pela inibição dos microrganismos devido às altas temperaturas. Existem três principais processos diferentes na produção de queijos: 1 – Introdução de ácido para a produção de queijo: Neste processo o leite é aquecido e quando o mesmo se encontra em alta temperatura é nele introduzido um ácido (vinagre, suco de limão, laranja) e o mesmo imediatamente coagula as proteínas formando a massa de queijo. Este tipo de queijo é preferencialmente consumido imediatamente. Um queijo conhecido que passa por este processo é a ricota. 2 – Introdução de coalho para solidificação: Neste processo, um dos tipos de coalho já citados é introduzido para solidificar o queijo, sendo o tipo de coalho utilizado importantíssimo para as características finais do queijo produzido. 3 – Coalho lático: 52 Este processo se dá em longos períodos onde a acidificação natural do leite é responsável por coagular o mesmo e formar a massa. Este processo pode durar 18 horas, tendo a ele acrescida uma pequena quantidade de coalho para firmar a massa e impedir a formação da nata acima do leite. 7.3.1 – Passos para produção acrescida de coalhos e com coalho lático: Inoculação: Este é o momento de inserção do coalho no leite. É importante trazer o líquido à temperatura ideal de ação do coalho, 20 a 31ºC para estirpes mesofílicas (culturas de coalho que não sobrevivem a altas temperaturas) e de 35 a 41ºC para estirpes termofílicas (que suportam altas temperaturas). No caso dos coalhos desidratados, deixe a mesma hidratar no leite por cerca de 4 minutos e depois misture-o no leite com movimentos para cima e para baixo afim de misturar e diluir bem o coalho no leite. O leite começará a coalhar com cerca de 25 a 60 minutos. Coagulação: A coagulação do leite ocorre devido à pepsina e quimosina (enzimas presente nos coalhos), que coagulam a proteína caseína do leite. CASEÍNA QUIMOSINA OU PEPSINA PROCESSO DE COAGULAÇÃO 53 Uma vez introduzidas as enzimas há a necessidade de movimentação inicial do leite em temperatura crescente para diluir e distribuir homogeneamente o coalho em todo o líquido, sendo necessário que, após esta mistura do coalho no leite o líquido seja parado e permaneça assim durante todo o processo. Haverá um processo de floculação visível no líquido tendo o leite terá aspecto de gel sendo formado. De forma geral, o tempo de coagulação é um múltiplo do tempo de floculação, que se dá em uma proporção de 4 vezes o de floculação. Durante o processo de coagulação é importante que o leite permaneça parado já que a coagulação da caseína do leite se dá através da ligação de suas moléculas e que, se o mesmo permanecer em movimento, pode dificultar a ligação das mesmas. Assim como nos demais processos de coagulação, a coagulação pelo coalho lático deve também manter as condições de temperatura controlada, sendo neste caso o tempo de controle maior, pois o coalho endurecerá mais lentamente. Corte do queijo: Após o processo de coagulação deve-se realizar o que chamamos de corte do queijo. O corte do coalho é importante para acelerar o processo de separação entre os sólidos gerados pela coagulação e o soro do leite. Após o corte, o soro do leite irá subir e os sólidos irão descer. Fonte: Garde Manger: a arte e o ofício da cozinha fria Fonte: Garde Manger: a arte e o ofício da cozinha fria Floculação em 5 minutos Coagulação em 20 minutos 54 As figuras acima mostram o processo de corte e onde no passo 1 é feita a verificação da estrutura do coalho, tendo como resultado esperado a formação de uma abertura retilínea e firme, mostrando a estruturação do queijo. No passo 2, faz-se o corte do queijo, para que o soro possa subir e a massa descer. No passo 3 há a enformagem do queijo para escorrer o soro que ainda permanece na massa, sendo imprescindível o cuidado com o mesmo. Já na figura acima, em casos onde os queijos são macios e não formam uma estrutura muito densa de coalho há a necessidade de utilização de uma musselina (pano de gaze ou malha fina usado para coar queijos). Fonte: Garde Manger: a arte e o ofício da cozinha fria Fonte: Garde Manger: a arte e o ofício da cozinha fria 55 Teste para enformagem: Antes de enformar o queijoexiste um teste determinante para verificar o momento certo do processo. Utilizando uma das mãos pegue um pouco de coalho e pressione levemente. Uma massa deve se formar, essa se separando facilmente ainda. Enformagem: Para enformar o queijo há a necessidade de separação da massa e do soro. Podemos escorrer o soro rapidamente do coalho ou com o auxílio de uma concha retirar o coalho de dentro do soro, tendo cada um destes processos um resultado específico. Um ponto importante para este processo é a medição do pH do soro para verificar se a acidez desejada foi alcançada no processo. As figuras acima mostram o processo de enformagem de queijo com a utilização da musselina inicialmente para escorrer o coalho e posteriormente a utilização da forma com furos. Fonte: Garde Manger: a arte e o ofício da cozinha fria Fonte: Garde Manger: a arte e o ofício da cozinha fria 56 Prensagem: O processo de prensa serve para gerar queijos mais duros, com menos soro. Existem diversas formas de prensa, desde pesos acima da forma até alavancas de prensa. É importante salientar que os queijos mesmo sendo prensados devem ser virados. Outro passo importante é a medição do pH do soro durante o processo pois, devem apresentar aumento de acidez. Salga: A salga dos queijos é um processo importante para o desenvolvimento do sabor e da textura da massa, podendo ocorrer antes da enformagem (ainda no coalho como na figura abaixo) ou após enformado e escorrido. O sal além de auxiliar no sabor também diminui a possibilidade de desenvolvimento microbiano, por diminuir a atividade de água da massa. Neste tipo de salga é preferencial que se use de sais sem a adição de iodo, dando preferência por exemplo ao sal kosher, por conter grandes flocos que o permitem ser dissolvido e penetrado gradativamente no queijo. A salga da massa após o processo de prensa e dreno pode ocorrer por meio de sais sólidos (salga seca) ou salmouras, assim como as carnes. Amadurecimento: O amadurecimento de um queijo é um processo crucial para a finalização do mesmo. Rugas e rachaduras são sinais de amadurecimento feito em condições incompatíveis de clima. A umidade do ar e a temperatura devem ser monitoradas assim como a distribuição de umidade dentro do próprio queijo. Para que a umidade não fique desigual na massa, há a necessidade de que o queijo seja virado pelo menos a cada 2 dias, pois devido à gravidade, há a tendência dos líquidos se concentrarem na parte de baixo do queijo, trazendo uma maior possibilidade de desenvolvimento microbiano, podendo estragar a produção. Vale salientar que o processo de amadurecimento dos queijos ocorre de fora para dentro, fazendo com que peças grandes demorem mais para amadurecer, sendo plenamente visível nos casos dos queijos cremosos onde sua camada mais externa é de cor amarelada e um pouco mais rígida que a parte interna, branca e mais cremosa. 7.4 – Tipos de queijo: Queijos frescos: 57 Queijos úmidos e macios, não são maturados e normalmente têm sabor suave. Devido a seu alto teor de umidade têm uma validade menos extensa que os demais, levando-os a muita das vezes serem armazenados em salmoura. Tem em sua maioria a coloração branco pálida, podendo variar a textura de sólidos como o queijo coalho, até os mais cremosos como o cream cheese; Esta diferença se dá devido ao tempo de drenagem aplicado a cada um deles. Quanto ao aroma, deve ser próximo ao de leite, tendo cuidado com a presença de cheiro de mofo, que pode indicar o desenvolvimento do mesmo. A textura dos queijos frescos é vantajosa para aquecimento, uma vez que a presença grande de umidade impede seu derretimento, além de em casos específicos, não conterem grande quantidade de gordura, impedindo sua separação ao aquecer. Seus sabores e aromas vem muito mais da fermentação do leite em questão. Queijos maturados de casca macia: Queijos que desenvolvem bolor na parte externa, têm sua casca comestível, mesmo que alguns comensais não as aprecie devido ao sabor acentuado. Tem em seu interior uma pasta mole e quase aguada. Para sua produção, inicialmente um borrifamento de bolor para então maturar e desenvolver sua casca, e absorver os filamentos do bolor em sua parte interna. Visualmente a casca de mofo deve envolver integralmente o queijo e no caso de queijos de casca macia mais envelhecidos, haverá um enrijecimento maior da casca que deve permanecer firmemente unida à massa interna, não sendo facilmente retirada da parte interna. De aroma terroso e semelhante a cogumelos na casca, tem um forte aroma de leite em seu interior. Se exalar aroma de amônia, frutado ou azedo, pode ser que tenha sido amadurecido de forma inadequada. Normalmente as notas mais pronunciadas nestes queijos são: Doce, salgado e ácido, podendo em alguns casos desenvolver sabor pouco amargo. Queijos de pasta semidura: Queijos com textura intermediária, não são facilmente ralados pois ainda contém grande umidade, tendo como principal método de corte as fatias. Muitas das vezes são revestidos com cascas de cera comestíveis para evitar a desidratação e prolongar a vida de prateleira, contem amadurecimento intermediário e sabor suave ainda oriundo da fermentação com toques de sabor produzidos através do amadurecimento. Esta é a primeira categoria a ser prensada para produção. 58 Podem ser maturados de 3 formas: Casca lavada: Queijos que são periodicamente lavados com líquidos diversos (vinho, brandy, cerveja). Queijos com maior complexidade aromática, tendem a ter características visuais e táteis marcantes, não podendo ser lodosos ou rachados além de terem textura interna macia, porém nunca liquefeita. Queijos lavados costumam ter aroma extremamente marcante, não podendo ser pútrido. São conhecidos como os queijos “fedidos” devido às bebidas muitas das vezes utilizadas têm bactérias comuns em pele humana, gerando o famoso “cheiro de chulé”. Os queijos lavados contêm sabor muito diverso, sendo sempre bem marcante na categoria ao qual está atrelada (salgado, doce, picante). Além de bastante variado no sabor e aroma, sua textura não tem padrão muito estabelecido por ter como grande influenciador o processo anterior ao amadurecimento e lavagem da casca. Casca natural: Queijos que formam naturalmente uma casca durante o processo. Os queijos de casca natural, podem apresentar descontinuidade na casca formada a sua volta, uma vez que ela depende das culturas de mofos e fermentos presentes no ambiente de produção. Pode apresentar variação de coloração de casca, porém deve ser isento de rachaduras e imperfeições. A casca não deve apresentar textura enrugada, tendo de ser lisa. Os aromas esperados de queijos deste tipo são terrosos, amendoados, caramelizados, picante ou de frutas. Cuidado com o aroma de amônia, pois pode indicar putrefação. O sabor desta categoria varia muito, podendo ser adocicado e amendoado, até picante salgado. A falta de sabor amargo pode denunciar problemas no processo. Casca de cera: Queijos encerados antes do processo de amadurecimento. A cera utilizada no processo impede a entrada de microrganismos e mofo durante o processo de amadurecimento do queijo fazendo com que o processo de amadurecimento possa ocorrer por mais tempo. Em alguns casos produtores aplicam a embalagem a vácuo ao invés da cera para o processo de amadurecimento, tendo a cera ou o vácuo como processos facilitadores de maturação, pois impedem desidratação ou ressecamento mesmo sob refrigeração. Observação:Ceras pretas indicam queijos que passarão por processo longo de maturação. Ceras vermelhas são usadas para aqueles que passarão por maturação curta, queijos jovens. 59 Queijo de pasta dura: De consistência firme e pasta mais dura que os anteriores, queijos com maturação lenta e gradual devido à pequena atividade de água presente na massa. Tem como resultado sabores mais intensos devido à pequena quantidade de água diluindo as moléculas de sabor e o tempo de maturação muito longo. Dentro da categoria dos queijos de pasta dura, existe aquela conhecida como “extra dura” ou “para ralar”, tendo sabores e aromas bem mais intensos. Queijos de veios azuis: Resultado de injeção de culturas específicas de bolor no interior do queijo, os queijos de veios azuis são inicialmente acrescidos da cultura e depois colocados para maturar em local escuro, frio e úmido (diferentemente dos demais). Visualmente todos os queijos azuis devem ser porosos devido à permeabilidade da massa ao bolor. Na sua parte interna deve haver uma distribuição uniforme de veios azuis. São queijos mais macios normalmente, e com alto teor de umidade, sendo muita das vezes embrulhados em papel alumínio. Seus aromas são bem marcantes, lembrando terra e notas metálicas. Seu sabor é na maioria das vezes terroso. Em geral são um pouco mais salgados que os demais queijos, dando leves toques de doçura. A textura desta categoria varia de mais firme (queijos pouco envelhecidos) a mais cremosos (mais maduros) devido à exposição mais prolongada a umidade e até mesmo à sua própria umidade difundindo-se na massa. Queijos de massa filada: Os queijos conhecidos como de massa filada são aqueles que passam por um processo de aquecimento da massa e filagem durante sua fabricação. Este processo dá a ele estrutura filamentosa e fibrosa, dando consistência elástica como na muçarela por 60 exemplo. Este processo consiste na sova da massa do queijo em temperatura elevada afim de formar fios de massa. Resultado da filagem do queijo: www.oquedoqueijo.com 7.5 – Derretimento de queijo: O derretimento de queijos é um processo que tem como fator determinante a caseína e sua formação na estrutura molecular. Queijos que têm a difusão da caseína de forma mais homogênea em sua massa tendem a derreter de maneira uniforme, porém em casos como do parmesão, seu pH muito ácido e sua desidratação intensa impedem um bom derretimento como o do queijo muçarela por exemplo. O Brasil permite queijo com leite cru, porém deve maturar por no mínimo 60 dias a no mínimo 7ºC de temperatura sendo necessário um controle do rebanho. 8 – Azeites e vinagres: 8.1 – Azeite: A azeitona é um produto conhecido pela humanidade há milhares de anos. Juntamente com a videira, é uma das árvores mais emblemáticas da humanidade sendo a oliveira domesticada pelo homem aproximadamente a 8.000 anos. Sua comercialização já passava por regulamentação desde o código de Hamurabi, código criado pelo rei Hamurabi na Mesopotâmia. Sua importância foi tão notória que o azeite foi utilizado em rituais religiosos, tendo até versículos da bíblia citando o produto emblemático. Uma história interessante sobre o azeite é a de Aníbal general de Cartago que, visando provocar os soldados romanos durante a expansão do império, utilizou do azeite para proteger seus soldados do frio para que pudessem atravessar o rio Trébia em um rigoroso inverno, o que fez com que os romanos ao atravessar o rio afim de punir a insolência dos cartagineses sem o “segredo” de Aníbal, chegando debilitados e sendo então derrotados. 61 Produto fruto principalmente da cultura mediterrânica, teve seu reconhecimento e valorização notoriamente presente nesta região, haja visto que na Grécia antiga já haviam códigos de defesa e conduta em relação à oliveira. Durante a civilização grega o azeite era utilizado para medicina, perfumaria, iluminação, rituais funerários e até mesmo como lubrificante. Além destas utilizações, o azeite também era valorizado para consumo, tendo reconhecidas suas propriedades nutricionais, o que fez com que os gregos levassem para a Itália a oliveira no século VIII a.C. Apesar de bastante divulgado pela região mediterrânica, a oliveira tem a região da atual Turquia como a mais provável região de domesticação, além da região de possível criação do azeite, sendo muito expandida a cultura do azeite também devido aos árabes no mundo. Sendo os mesmos responsáveis por levar a Espanha e ao norte da África a cultura do azeite. Durante a expansão para o novo mundo, Espanhóis foram grandes incentivadores da difusão da oliveira, levando-a para países como o México, Peru e Chile, diferentemente de Portugal que chegou até mesmo a ordenar a poda de todas as possíveis oliveiras que pudessem estar em território da colônia. O azeite notoriamente tem propriedades importantes para a saúde humana, a começar pela sua composição. Rico em ácidos graxos monoinsaturados, o azeite é um óleo que auxilia na redução do “colesterol ruim” (LDL) sem afetar o nível de “colesterol bom” (HDL), facilitando o equilíbrio dos dois tipos no organismo humano. Além dos ácidos, o azeite contém também antioxidantes, que através da diminuição dos radicais livres, previne envelhecimento precoce não só de pele, mas também de veias e artérias, o que diminui a possibilidade de problemas graves associados à circulação, como arteriosclerose. 8.1.1 – Azeitona: Existem cerca de 270 tipos de azeitonas em todo mundo, sendo todas estas de cor preta quando maduras. As azeitonas vendidas no mercado que são verdes são aquelas que não amadureceram completamente antes de serem colhidas e tratadas para consumo. 8.1.2 – Produção do óleo: A produção do azeite é um processo complexo e delicado, feito através de processos minuciosos: – Colheita: A colheita das azeitonas pode ocorrer de diversas formas, sendo manuais ou mecânicas, dando características ao óleo produzida. Azeites colhidos manualmente normalmente apresentam características mais interessantes, pois ocorre de forma mais 62 delicada, o que evita o rompimento da pele da azeitona e o risco de sua possível fermentação que irá atrapalhar o processo de extração dos óleos. A colheita pode ser realizada em momentos diversos do dia como por exemplo à noite, dando toques diferenciados ao azeite devido às mais baixas temperaturas de colheita, que dificultam ainda mais o processo de fermentação das azeitonas. – Seleção e lavagem: Uma vez colhidas, as azeitonas passam por um processo de seleção que visa retirar da produção aqueles frutos que apresentarem defeitos que podem interferir na qualidade do azeite, como aqueles que se encontram fermentados. Uma vez selecionados, os frutos são lavados e deixados a “descansar” por até 48 horas para dar- se início ao processo de moagem. – Moagem: Já lavados e armazenados por tempo determinado, os frutos passam por um processo de moagem a frio afim de não saturar os óleos presentes na azeitona, uma vez que estes são mais sensíveis e dados como o principal valor agregado ao óleo. Uma vez gerada a pasta de azeitona, esta irá para o processo de centrifugação. – Centrifugação: Já formada a pasta inicia-se o processo de centrifugação afim de separar os resíduos sólidos (cascas e caroços) dos óleos, sendo em alguns casos realizada uma segunda centrifugação caso haja uma quantidade residual de água considerável. Em caso de produção de azeites de qualidade intermediária como os da categoria virgem, pode-se utilizar de termo batedeirasdurante o processo de moagem afim de potencializar a extração de óleos, aumentando assim o rendimento do processo, porém diminuindo um pouco a qualidade do produto gerado. – Classificação: Os azeites uma vez já centrifugados serão então analisados por especialistas afim De classifica-los quanto a acidez, sabores e aromas presentes, podendo também haver profissionais especializados na mistura (blenders) de azeites afim de balancear e padronizar características do azeite. Um dos parâmetros utilizados para diferenciar os azeites utilizados é o grau de acidez, que na verdade não pode ser medido através do paladar e sim quimicamente, por determinar a quantidade de ácido graxo livre no líquido em relação a sua quantidade de ácido oleico. O grau de acidez de um azeite em países como o Brasil não pode ser superior a 0,8% para que o mesmo seja considerado extra virgem, categoria que sequer existe em alguns países. Vale salientar que o grau de acidez não determina se o azeite é bom ou ruim, sendo de responsabilidade da azeitona as características sensoriais do óleo. 63 Outro parâmetro usado é o grau de peróxido presente, que demonstra o grau de oxidação inicial do azeite e sua possível deterioração. Além dos primeiros dois parâmetros, mecanismos mais modernos como a luz ultravioleta pode ser utilizada afim de detectar componentes anormais ao azeite, verificando possíveis fraudes. A cor do azeite, contrariamente ao que muitos acreditam, não é um fator determinante da qualidade dos azeites, pois os mesmos podem variar de uma cor esverdeada a um amarelo dourado, podendo ser mais ou menos translúcidos devido ao processo de filtragem após a centrifugação afim de retirar os últimos resíduos do óleo. Vale salientar, porém, que cores alaranjadas já não devem ser toleradas, uma vez que representam o processo de oxidação do óleo. Fonte: Portfólio Cozinhando com Gallo 64 Possíveis classificações: A legislação brasileira permite a divisão do azeite em três categorias distintas: Extra virgem – Azeite produzido somente com prensa a frio com grau de acidez de até no máximo 0,8% e são aprovados nos processos de análise sensorial de suas devidas empresas. Azeite virgem – Azeite produzido com ou sem a adição de processos que potencializam a extração de óleos da azeitona com grau de acides de no mínimo 0,9% e no máximo 1,9%. Azeites que contêm acidez maior que 2% são conhecidos como óleos lampantes, sendo os mesmos impróprios para o consumo devido às suas características químicas são perigosas, necessitando passar por um processo de refino e diluição em outros óleos para se tornarem próprios para o consumo novamente. Outro fator que pode categorizar um óleo de oliva como lampante é o excesso de defeitos no óleo como acidez acentuada, amargor muito presente dentre outros. O processo de refinamento retiras estes defeitos deixando-o praticamente sem aroma e sabor, porém também o faz perder praticamente todas as características benéficas do azeite. Um dos produtos resultantes do refinamento do azeite lampante é o óleo composto, muita das vezes comprado como azeite, porém sendo este resultado do refinamento de um óleo de baixa qualidade acrescido a um percentual considerável de outros óleos como o de soja, podendo chegar a uma proporção de até 97% de óleo de soja e 3% de óleo lampante refinado. Vale salientar que se utilizado de forma correta o azeite é um bom produto para pratos que passam por um tratamento térmico brando, pois sua produção de acroleína é pequena se comparada a outros óleos. 8.2 – Vinagre: A origem do termo vinagre vem de “vin aigre” que em francês significa vinho ácido. O vinagre é o resultado da acidificação de bebidas fermentadas que transformam o ácido proveniente da fermentação em ácido acético. Intimamente ligado à história do vinho, o vinagre já era há muito tempo conhecido, porém não haviam condições e nem conhecimento científico suficiente para uma produção em larga escala, até que o cientista francês Louis Pasteur através de suas pesquisas conseguiu desenvolver mecanismos que possibilitaram a produção industrial do vinagre. Além de um excelente tempero, o vinagre traz para o organismo do ser humano facilidade na digestão de alimentos, principalmente aqueles mais fibrosos. Nosso sistema digestivo funciona de forma mais efetiva com a inserção do vinagre por torna- los mais digestíveis, além de estimular as células pancreáticas. 65 Além de consumido, o vinagre também tem grande utilidade para conservas, uma vez que seu grau de acidez inibe a proliferação de bactérias. Sua origem remonta a aproximadamente 8.000 anos a.C sendo utilizado como bebida refrescante e condimento para alimentos, sendo também utilizado em sua história como medicamento. 8.2.1 – Vinhos para vinagre: Para a produção do vinagre, ao contrário do que alguns pensam, não se pode usar qualquer vinho, tendo de ser este próprio para consumo, isentos de cheiros incomuns e em bom estado de produção. O teor alcóolico desejado para a produção de vinagre é de 8 a 10%, pois se o vinho conter elevado grau alcóolico, o álcool pode inibir o crescimento das bactérias responsáveis pelo processo, tornando-o lento. 8.2.2 – Tipos de vinagre: Vinagre balsâmico: O vinagre balsâmico é um produto único e singular, ao ponto de ter como um de seus grandes representantes, o “Vinagre Balsâmico Tradicional de Modena” como produto com denominação de origem desde 1983. Um grande impulsionador para a geração deste tipo de vinagre na região de Modena são as características climáticas da região, o que impedia a produção de vinhos com graduação alcóolica interessante para consumo, porém bons vinhos para produção de vinagres. Produto da fermentação e acidificação de mosto da uva Trebbiano cozido, tem como resultado vinagres mais adocicados em casos de mostos mais cozidos, reduzindo o volume de mosto em uma faixa de 22 a 30%. Sua produção demora no mínimo 20 anos, podendo chegar a 50, onde as atividades das bactérias acéticas transformam gradativamente o álcool em ácido enquanto o líquido adquire coloração escura, sabor adocicado e ácido, e textura xaroposa. Vinagre de vinho: Produto da fermentação e acidificação de uvas em geral tem sabor marcante e coloração condizente com o processo de fermentação do mosto. Vinagre de maçã: Vinagre feito a partir da fermentação e acidificação de suco de maçã, tem sabor mais suave que os vinagres de vinho. 66 Vinagre de malte: De Coloração escura, o vinagre de malte pode ser feito a partir de mosto de malte de cevada. Tem uso comum na Inglaterra e sabor diferenciado. Vinagre de arroz: Vinagre desenvolvido por japoneses, tem como matéria prima o arroz. Suave e ligeiramente adocicado, é muito usado na comida japonesa na produção do arroz. No caso dos vinagres de arroz chineses, estes tendem a ser mais fortes. 8.3 – Aromatização de vinagres e azeites: A aromatização de vinagres e azeites é interessante, pois através dela conseguimos dar características singulares a molhos ou até mesmo ao próprio vinagre/azeite para complementar nossas preparações. É importante verificar quais são as características já presentes no líquido a ser aromatizado, uma vez que devemos inserir sabores e aromas que combinem com o que já existe, além de pensar em qual será a finalidade do produto, para sobremesas, entradas, pratos principais ou molhos. Infusão morna: Neste processo de aromatização, o líquidoé aquecido em fogo baixo ou em banho maria para que os aromas se misturem. Aqueça-o até que o aroma se torne evidente e logo após retire-o do fogo. Cuidado, pois, panelas com alto calor residual podem superaquecer principalmente azeites, desnaturando sua estrutura. Caso queira, poderá coar o líquido para que não haja sedimento ou pedaços dos aromáticos dentro do líquido. Infusão fria: Neste processo há a simples mistura dos aromáticos devidamente higienizados em recipientes esterilizados com o líquido (azeite ou vinagre) e deixado para apurar. Este processo é mais perigoso devido ao risco de intoxicação alimentar, sendo principalmente neste caso indicado o armazenamento em refrigeração. Deve-se tomar o cuidado de deixar todos os sólidos completamente imersos no líquido afim de que não desenvolvam nenhum tipo de bactéria que estragará o vinagre/azeite. Caso queira, no início do processo, há a possibilidade de aquecer levemente o líquido antes de misturar no recipiente juntamente com os aromáticos. Purê: Faz-se um purê de ervas, vegetais ou frutas que passaram por processos de cocção ou não, podendo ser reduzidos para concentrar sabor. Neste método pode-se deixar as fibras e resíduos sólidos na mistura ou coar afim de utilizar somente o líquido. 67 9 – Picles e conservas: 9.1 – Picles: Originária da Mesopotâmia, a técnica de conservação dos picles foi introduzida na Europa durante a expansão do império Romano que trouxeram da região da Índia o produto conservado em vinagre. Em todo o mundo a conservação de alimentos imersos se difundiu devido à sua versatilidade e facilidade de produção, onde uma simples imersão em salmoura faz com que o alimento dure mais do que o normal. Uma diferença das conservas tradicionais europeias para as Indianas e do restante da Ásia é o líquido usado, sendo na Europa mais comum os óleos (azeite por exemplo) como elemento conservador, enquanto na Ásia utiliza-se do vinagre. Chutney: A definição de chutney é um molho picante de origem indiana que é muito utilizado como acompanhamento de carnes frias, assadas, grelhados e fondues. Molho espesso e grosso feito com frutas, legumes, açúcar, vinagre, pimenta e especiarias, é um termo genérico para conservas compostas por frutas (doce), ácido (oriundo principalmente de limão e vinagre), legumes e especiarias. Sua textura é grosseira, contendo muita das vezes ainda pedaços dos insumos utilizados. Relish: Extremamente parecido com o chutney, o relish também é composto por especiarias, frutas ou legumes, ácido e açúcar, porém estes têm consistência cremosa, uniforme. É bastante utilizada tanto nos serviços frios quanto quentes. Os desafios da cozinha fria: A gastronomia envolve os cinco sentidos, pois durante o processo de degustação todos eles são estimulados, alguns mais intensamente que outros, fazendo com que a associação dos estímulos dos mesmos traga para nós o que conhecemos como “experiência gastronômica”. Tal associação é um pouco mais complexa quando falamos do setor da cozinha fria pois, assim como na confeitaria, as preparações servidas frias não estimulam com intensidade o olfato, trazendo a necessidade do desenvolvimento de técnicas mais apuradas e delicadas de decoração para os setores em questão, sendo de extrema importância que os membros do garde manger consigam fazer preparações belas sem exageros, afim de encantar os comensais com cores, formas e texturas. Um momento extremamente importante no setor de garde manger no que diz respeito ao food design foi a década de 70. O desenvolvimento da nouvelle cuisine trouxe para a cozinha um patamar artístico, trazendo beleza, forma, solidez e unidade 68 aos pratos relativos à sua apresentação, sendo importantíssimo para a melhoria nas apresentações das preparações e a valorização da arte da cozinha. Food design: Uma vez dadas asas a arte, estudos mais aprofundados sobre o assunto se tornaram necessários para surpreender os comensais com apresentações dignas de uma estrela Michellin. Dentro da estética dos pratos existem pontos importantes que devem ser levados em consideração. 1 – Equilíbrio visual: Segundo Rudolf, nós seres humanos temos o que é conhecido como “medição com juízos visuais”, onde através de comparações de tamanhos podemos mensurá-los de forma intrínseca, sem a utilização de medidores como réguas. Através desta qualidade, podemos nos ater a detalhes importantes na cozinha como por exemplo a padronização de cortes. Ainda em Rudolf, segundo estudos artísticos, temos como “peso” de uma apresentação como a profundidade visual alcançada por uma área de campo visual, além das cores atreladas a ela. Cores claras tendem a ser mais pesadas em relação à sua capacidade de chamar atenção, enquanto cores escuras são mais leves. Portanto, trazendo este conceito para a gastronomia, devemos nos ater à quantidade de informação, tamanhos, formas das preparações e cores presentes para que a apresentação não seja desbalanceada. O posicionamento das informações em uma apresentação também contribui para o equilíbrio da mesma como podemos visualizar na imagem a seguir: 69 É importante visualizarmos que o simples deslocamento do centro do quadrado traz uma ideia de desequilíbrio, como se houvesse interação entre as bordas direita e superior maior que as bordas inferior e esquerda. Para que este conflito não ocorra, devemos nos preocupar com o posicionamento do elemento mais pesado de maneira equilibrada ao centro do prato, evitando a sensação de desequilíbrio. É importante salientar que, caso haja mais de um elemento pesado na preparação, o simples equilíbrio de posicionamento pode balancear a mesma, evitando a sensação de desequilíbrio de apresentação. 2 – Cores: A diversidade de tons e cores presentes no espetro nos faz muitas das vezes nos perder em relação a quais combinações fazer. A utilização de cores não complementares, ou o confronto entre cores muito vibrantes pode estragar um trabalho intenso de pesquisa, desenvolvimento e produção de preparações, assim como a utilização de cores pouco percebidas, pode diminuir o impacto visual. Uma ferramenta bastante construtiva para tais situações é o círculo cromático. 70 Sabendo utilizar esta ferramenta, podemos trabalhar melhor cores de uma única matriz, assim como a associação de cores de diferentes matrizes cromáticas, como a associação de cores complementares, análogas e a tríade de cores. 2.1 – Tom sobre tom: Cores de uma mesma matriz cromática são possíveis de se combinar sem que haja confronto direto entre elas, pois pertencentes a uma mesma região do círculo cromático, não trarão desconforto aos olhos do observador. 2.2 – Cores complementares: Cores que se encontram em lados opostos do círculo cromático podem ser associadas gerando combinações mais ousadas e perigosas. Neste tipo de harmonização, devemos tomar cuidado com os exageros não propositais, evitando a utilização de cores muito saturadas em conjunto pois, caso não seja feita de forma eficaz pode trazer resultados pouco interessantes. 71 2.3 – Cores análogas: Cores vizinhas no círculo cromático também podem ser associadas em busca de gerar resultados belos ainda que são estas cores pouco contrastantes. 2.3 – Associação por tríade: Cores que estão posicionadas de forma equidistante entre si formando um triângulo no círculocromático podem ser associadas, uma vez que são harmoniosas. Uma dica interessante também é a seleção de uma cor como a principal, sendo esta mais vibrante, utilizando-se das outras para detalhes. 72 3 – Alto e baixo: Rudolf trabalha um conceito que está presente na vivência de nós seres humanos onde colocamos em nossa consciência a presença de elementos mais pesados na base de nossas produções, porém, novos estudos de artes, arquitetura e porquê não gastronomia, começam a valorizar a presença de elementos pesados em pontos mais altos da produção, para que haja um equilíbrio vertical de peso na preparação, fato este que já pode ser observado na confeitaria com a ascensão dos naked cakes. Normalmente a região mais alta tende a elementos leves, porém podemos ousar utilizar alguns elementos pesados nesta posição. – Maior e menor: Elementos maiores tendem a ser dados como mais pesados, sendo assim normalmente mais chamativos, enquanto elementos menores são mais leves. 73 5 – Configuração: Apresentações simples são mais facilmente absorvidas pelo cérebro, sendo muita das vezes uma forma de garantir uma apresentação bela, o que não necessariamente obriga-nos a apresentar sempre produções simples. Com o desenvolver da experiência, preparações mais complexas e belas serão produzidas. 6 – Densidade: As formas mais densas tendem a pesar mais nas apresentações. Neste caso, o que chamamos de densidade não só quer dizer sobre por exemplo a leveza de uma espuma, mas também o raio de ocupação daquela imagem na apresentação. Portanto podemos utilizar de preparações mais densas (maiores) quando esta é aquela que deve ser o foco da preparação. 7 – Iluminação, textura e fundo: A utilização de pratos de diversas cores, molhos, e bases podem ser elementos de destaque para sua produção. O posicionamento dos elementos fazem diferença na 74 hora de definir se estes acabam se destacando ou sendo ofuscados pelo contexto. Molhos claros ou escuros podem ser utilizados em alimentos claros ou escuros. O contexto claro tende a deixar elementos de cores mais escuras como mais fortes e vice versa. Um fundo escuro destaca as cores claras, sendo assim, quando utilizar-se de molhos escuros em produtos claros, devemos tender a posicioná-los como contexto, como base, para que não interfira na apresentação do elemento. 8 – Direção: Nós seres humanos temos a tendência a seguir caminhos. Setas, formas de cometas e olhares atraem nossa atenção a pontos específicos e podem ser usados na gastronomia. Uma sequência de gotas de uma redução podem dar a impressão de movimento ao prato, sendo mais chamativo em pratos quadriláteros (quadrados, retangulares) se forem posicionados do quadrante 1 ao 4 como na figura a seguir: Q.1 Q.2 Q.3 Q.4 75 9 – Profundidade: Imagens em decrescimento tendem a fazer uma imagem dimensional, onde da-se a profundidade. 10 – Isolamento: Elementos isolados tendem a pesar, sendo assim, interessante utilizarmos em alguns casos, para fortalecer ainda mais o elemento, levando diretamente o observador a visualizá-lo. Assim devemos ter cuidado ao utilizarmos elementos de cores fortes (cores que são dadas como puras) isolados e centralizados pois os mesmos tendem a chamar muita atenção, podendo atrapalhar a visualização. 76 Modificações na apresentação dos pratos: Assim como tudo que envolve a sociedade humana, o conceito de belo evoluiu juntamente com a sociedade e os acontecimentos históricos levando o food design (ou food styling) a sofrer mudanças. No modelo ao lado, podemos visualizar o padrão de apresentação de pratos nos anos 90, onde havia uma divisão bem delimitada entre os elementos da preparação. A proteína e as guarnições não se misturavam, além de, ao serem apresentados aos comensais, deveria ser apresentada a proteína diretamente à frente do cliente obrigatoriamente. Já como podemos ver, no início dos anos 2000, uma mudança considerável ocorreu no food design das preparações, onde as produções tomaram uma estrutura mais sólida e tridimensional, tendo como referência um ponto focal, dando altura à preparação com o intuito de destacar o elemento principal. 77 REFERÊNCIAS: http://www.agronegocios.eu/noticias/producao-de-queijo-origem-dos-coalhos/ Garde Manger. A arte e o ofício da cozinha fria. – Instituto Americano de Culinária. Modern Garde Manger. A Global Perspective / Second Edition. Cengage Learning. Chef Profissional. – Instituto Americano de Culinária. Todas as Técnicas Culinárias de Le Cordon Bleu. O verdadeiro bacalhau na gastronomia. - Helena Maria Simonard-Loureiro. Cartilha Orientativa Comercialização de Pescado Salgado e Pescado Salgado Seco. – ABRAS. 400g / Betty Kövesi... [et. Al.] – São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2007. Arte & Percepção visual; Uma psicologia da visão criadora: Nova Versão/ Rudolph Arsmeim: Tradução de Ivone Terezinha de Faria. –São Paulo: Pioneira Thonsom Learning, 2005. Gastronomia e Culinária, Walgra Melo. Food Design: Estética e composição de pratos na gastronomia. Professor Anderson Luiz da Silva. Teoria de gestalt; Disponível em: http://www.linguagemvisual.com.br/gestalt.php - acesso em 08/08/2016. O mito da acidez dos azeites; O que realmente significa a graduação de acidez de um óleo de oliva? http://revistaadega.uol.com.br/artigo/o-mito-da-acidez-dos-azeites_1053.html Avaliação da oxidação de óleos, gorduras e azeites comestíveis em processo de fritura. – Heloisa Correia Sarmento Rios. Avaliação de parâmetros de qualidade de doce cremoso, geleias, chutney e relish de vegetais – F. L. Franzen Azeite de Oliva e suas propriedades em preparações quentes: revisão da literatura. - Carlos Alberto Nogueira-de-Almeida. Elaboração de vinagre. – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Fundamentos básicos da produção de queijos. – Eduardo Reis Peres Dutra; Tempo, 2017; Juiz de Fora. Imagens retiradas da internet. Felippe, Gil. 2012. Gaia – O lado oculto das plantas: tubérculos, rizomas, raízes e bulbos. Editora Tapioca, São Paulo 118 pp.