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Melanie Klein. 
 
 Quando se fala em psicanálise, é natural pensar em Freud. Sendo assim, 
acredito que seja interessante falar um pouco de Melanie Klein, já que meu primeiro texto 
faz referência a sua teoria. 
 Basicamente, Klein seguiu Freud. Acompanhou seus estudos, sua teoria. 
Freud considerava a análise algo para adultos. Já que nela entramos em contato com 
nossos conteúdos inconscientes e é necessário que se tenha uma estrutura psíquica 
formada para suportar estes conteúdos. A estrutura psíquica se forma na infância, 
principalmente na travessia das fases psicossexuais, e seus conflitos e características 
aparecem, com maior clareza, na vida adulta, quando a análise se faz necessária. 
Acontece que os conteúdos inconscientes aparecem na análise, são interpretados pelo 
analista e devolvidos ao analisando, mas cabe ao analista devolver a interpretação no 
momento oportuno, a fim de provocar uma reflexão ou caminhar para o objetivo da análise, 
qualquer que seja ele. O que tento dizer é que me parece não existir uma estrutura 
psíquica ideal, já que a interpretação dos conteúdos é feita [ou deve ser feita] com 
cuidado, gradativamente, respeitando os limites ainda existentes no analisando. 
 Outro argumento contrário à análise infantil, citado por Freud, é que as 
crianças não são passíveis de análise, porque não possuem linguagem desenvolvida. 
Impossibitando a associação livre, que é o principal instrumento utilizado nela. Melanie 
Klein, ao meu ver, faz sua maior separação dele aí, neste momento. Quando diz que as 
crianças podem, sim, ser analisadas. Elas não possuem a linguagem verbal desenvolvida, 
mas são detentoras de um outra forma de expressão que diz tanto de sua vida psíquica 
quando a linguagem verbal: o brincar. Campo explorado posteriormente por Winnicott. 
Klein afirma que o brincar da criança nos dá acesso, da mesma forma que a fala, aos 
conteúdos internos infantis. Pela brincadeira, a criança pode expressar ódio, medo, 
agressividade e qualquer outro sentimento que ela possua. Através da brincadeira, ela nos 
mostra seu mundo, a forma como ela vê o mundo. Obviamente o analista não vai fazer as 
interpretações à criança, mas aos pais dela, ou a quem por ela for responsável. Klein 
afirma, ainda, que a análise feita na infância, pode prevenir determinadas patologias, já 
que a estrutura psíquica está em formação. É muito mais fácil lidar com os conteúdos em 
formação, do que na vida adulta, onde o sofrimento já pode ter sido intenso. 
 Melanie Klein observa nas crianças a existência de ansiedades edípicas 
numa idade muito inferior à que Freud considerava. E é, basicamente, assim que Melanie 
Klein se "separa" de Freud. Quando isto ocorre, ela formula sua teoria, considerando a 
importância do primeiro ano de vida do bebê. Esmiuça o primeiro ano de vida da criança, 
traça conceitos como fantasia, inveja e outros bastante importantes, mas sua contribuição 
mais relevante, novamente ao meu ver, são suas teorias sobre posições. Posição esquizo-
paranóide, e posição depressiva 
 
Melanie Klein 
 
 Uma analista leiga educada na Alemanha, Melanie Klein (1882-1960) 
desenvolveu uma escola de psicanálise na Inglaterra. Ela foi uma teórica das relações de 
objeto, autora da teoria do "desenvolvimento psicossexual e piscopatologia" embasada em 
eventos intrapsíquicos e interpessoais que supostamente ocorrem durante o primeiro ano 
de vida. Sua teoria da psicopatologia, baseada na observação de brinquedo livre de 
crianças, diz que a agressão inata excessiva ou a reação psíquica à agressão era a causa 
de distúrbios emocionais severos como os transtornos psicóticos. Ela tentou lidar com as 
forças intrapsíquicas com a técnica analítica clássica e interpretação precoce de impulsos 
inconscientes. Assim como Anna Freud, ela foi uma pioneira em análise infantil, mas, ao 
contrário de Anna Freud, ela excluiu os pais do tratamento porque acreditava que o 
problema fundamental era intrapsíquico. As principais contribuições de Klein estão em sua 
ênfase sobre a importância das relações de objeto iniciais, a demonstração da função do 
superego cedo no desenvolvimento psíquico, sua descrição das defesas primitivas 
características do transtorno de personalidade limítrofe e psicose e seu uso do brinquedo 
das crianças com um meio para a interpretação. 
 TEORIA DA PERSONALIDADE. Melanie Klein concordou com Sigmund 
Freud que a agressão e a libido são os dois instintos básicos. Ela também concordou com 
Freud que o instinto agressivo é uma extensão do instinto de morte e a libido uma 
extensão do instinto de vida. Klein divergiu de Freud na suposição de que o ego existe ao 
nascimento. Ela acreditava que o instinto de morte é traduzido após o nascimento em 
sadismo oral, o qual, projetado para fora, dá lugar às fantasias de um seio mau, destrutivo, 
devorador. Tanto agressão como libido são expressas desde o nascimento em diante por 
fantasias inconscientes. Klein diferenciou inveja, ganância e ciúme como manifestações do 
instinto agressivo. Inveja é o sentimento raivoso de que alguém mais tem e desfruta de 
algo desejável; a resposta invejosa é tomar isso ou estragá-lo. Inveja oral, por exemplo, 
resulta da fantasia de que o seio frustrante retém deliberadamente. Ela conduz a esforços 
de danificar o seio frustrante e torná-lo menos desejável. Esta inveja primária dá lugar a 
outras formas de inveja, incluindo a inveja do pênis. Em um nível mais maduro, a inveja é 
voltada em direção à criatividade dos outros e frustra o desenvolvimento da criatividade 
pessoal devido ao medo da inveja projetada sobre os outros. Ganância é a manifestação 
da insaciabilidade humana; sua meta é a absorção destrutiva do objeto desejado. Ciúme é 
o medo de perder o que se tem. Ela se desenvolve a partir de relacionamentos 
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triangulares, como na situação edípica; a terceira pessoa é odiada porque esta pessoa 
recebe amor ou atenção e potencialmente diminui a disponibilidade das provisões 
libidinais. Embora o instinto de morte seja em grande parte projetado como medos 
paranóides, parte dele funde-se com a libido, dando lugar a tendências masoquistas. 
 Desde o momento do nascimento, o ego tenta preservar uma visão de si 
mesmo como apenas uma fonte de prazer e sentimentos positivos; tensão e desprazer são 
projetados sobre objetos que são então vistos como persecutórios. O bebê fica grato 
quando é física ou emocionalmente saciado. Esta gratidão, a manifestação mais precoce 
do instinto de vida é a base do amor e da generosidade. Libido é investida em objetos 
como o seio. O seio gratificante é então introjetado como a base para um sentimento do 
self como bom. A projeção do objeto interno bom sobre objetos recém-experimentados é a 
base da confiança, o que torna a aprendizagem e o acúmulo de conhecimento possíveis. 
 Teoria do ego. O ego tanto experimenta como se defende contra a 
ansiedade. Ele desenvolve e mantém relações de objeto e tem funções integrativas e 
sintéticas. A ansiedade é a resposta do ego ao instinto de morte. Ela é reforçada pela 
separação do nascimento e por necessidades corporais frustrantes como a fome. A 
princípio, o medo de objetos persecutórios, a ansiedade posteriormente torna-se o medo 
de objetos maus introjetados que são a origem da ansiedade de superego primitiva. Medos 
de ser devorado no estágio oral do desenvolvimento tornam-se medos do estágio anal de 
ser controlado e envenenado e os medos edípicos de castração. 
 Os principais meios de crescimento do ego e defesa de ego são projeção e 
introjeção, os quais integram o egoe neutralizam o instinto de morte. Projeção de tensões 
internas e percepção de estímulos externos dolorosos resulta em medos paranóides. Sua 
projeção resulta em objetos persecutórios internalizados. A projeção de estados 
prazerosos dá lugar à confiança. A introjeção de experiências positivas torna possível 
desenvolver bons objetos internos que são a base para o crescimento do ego. 
Anteriormente objetos no ambiente, tais como a mãe, são reconhecidos como tal, 
determinados aspectos, como o seio, são tratados como objetos. Assim, um estágio 
transicional nas relações de objeto é relações de objeto parciais. 
 Experiências desagradáveis e emoções associadas a objetos externos e 
introjetados são dissociadas de experiências e emoções agradáveis através de um 
processo de cisão. À medida que a criança amadurece, a cisão diminui, a síntese de bons 
e maus aspectos de objetos ocorre e relacionamentos ambivalentes tomam-se possíveis. 
Relações de objeto parciais caracterizam o estágio mais inicial do desenvolvimento,a 
posição paranóide-esquizóide; as relações de objeto totais caracterizam a posição 
depressiva. A eventual síntese de bons e maus objetos parciais capacita o crescimento de 
ego e a integração da realidade. Se a agressão predomina sobre a libido, a idealização 
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ocorre e a cisão é reforçada. O reforço de cisão pode interferir com a percepção acurada e 
pode resultar na eventual negação da realidade. 
 Idealização é uma operação defensiva que preserva objetos internos e 
externos todos bons, deste modo satisfazendo fantasias de gratificação ilimitada, como um 
seio inexaurível para proteger contra frustração. Objetos externos idealizados também 
protegem contra objetos persecutórios. Fuga em direção a um objeto interno bom 
idealizado pode proteger a pessoa da realidade, mas pode fazer isso ao custo de testagem 
de realidade prejudicada e pode dar lugar a estados psicóticos exaltados ou messiânicos. 
 Identificação projetiva, o protótipo de todos os mecanismos projetivos, a 
projeção de partes dissociadas de um objeto interno sobre uma outra pessoa é usada 
principalmente para expelir maus objetos internos e partes más do self. A pessoa sobre 
quem a projeção de impulsos sádicos é feita passa a ser vista como um perseguidor que 
deve ser controlado. Tentativas de controlar o perseguidor percebido então se tornam um 
veículo para a atuação de sadismo contra o perseguidor imaginado. 
 Embora Klein concordasse que fatores ambientais podem desempenhar um 
papel em estimular a agressão excessiva, ela enfatizou como a causa de distúrbio 
emocional a força inata da agressão, aliada à formação de ansiedade excessiva do ego e 
baixa tolerância de ansiedade. 
 Posições esquizo-paranóide e depressiva. O termo "posição foi preferido por 
Klein em relação a "estágio" porque ele enfatiza o efeito do ponto de vista da criança sobre 
suas relações de objeto. A posição paranóide-esquizóide e a posição depressiva ocorrem 
na primeira e segunda metade, respectivamente, do primeiro ano de vida. Elas também 
podem ocorrer em diversos momentos na vida como constelações defensivas e estão 
envolvidas em conflitos relacionados a todos os níveis psicossexuias. 
 A posição paranóide-esquizóide é caracterizada por dissociação, 
idealização, negação, identificação projetiva, relações de objeto parciais e uma 
preocupação básica ou ansiedade persecutórias sobre a sobrevivência do self. 
 Os medos persecutórios são impulsos oral-sádicos e anal-sádicos 
projetados. Se eles não são superintensos, a posição esquizo-paranóide dá lugar, nos 
segundos seis meses de vida, à posição depressiva. Se, no entanto, a agressão inata é 
abertamente forte e se maus introjetos predominam, a dissociação secundária dos maus 
introjetos pode levar a projeção sobre muitos objetos externos, resultando em muitos 
perseguidores externos. A dissociação pode persistir e fragmentar experiências afetivas, 
levando a despersonalização ou superficialidade afetiva. Ela pode também interferir na 
percepção acurada e conduzir a negação da realidade. Na posição depressiva, a libido 
predomina sobre a agressão, o bebê reconhece que sua mãe tanto gratifica como frustra e 
ele se torna ciente de sua própria agressão voltada em direção a ela. O reconhecimento 
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da mãe como uma pessoa integral torna a criança vulnerável à perda, especialmente 
perda causada pela agressão da criança. O mecanismo da idealização evolui durante o 
período depressivo na idealização do objeto bom (mãe) como uma defesa contra a 
agressão da criança em direção a ela e sua culpa acompanhante. Este tipo de idealização 
conduz a uma superdependência sobre outros. Os maus aspectos de pessoas necessárias 
são negados, levando a um empobrecimento tanto da experiência de realidade como da 
testagem de realidade. A posição depressiva também mobiliza defesas maníacas, cuja 
principal característica é a negação de realidades psíquicas dolorosas. Sentimentos 
ambivalentes e dependência de outros são negados; objetos são onipotentemente 
controlados e tratados com desprezo, de modo que a sua perda não dá lugar a dor ou 
culpa. 
 TEORIA DO SUPEREGO. O superego kleiniano funciona como o superego 
freudiano clássico. Ele coloca valor sobre o comportamento e ele pune ou proíbe o 
comportamento que ele considera ser errado ou mau. Klein sustentou que o 
desenvolvimento do superego começa durante a posição depressiva; a pressão de 
superego excessiva causa regressão para a posição esquizo-paranóide. O superego 
desenvolve-se de maus objetos projetados cindidos experimentados como persecutórios, 
que são posteriormente introjetados. Culpa é a reação aos impulsos sádicos atribuída a 
estes introjetos que se tornam parte do self. No período depressivo, os objetos são 
introjetados tanto no ego como no superego. O ego assimila os objetos com os quais ele 
pode identificar-se positivamente. O superego assimila os aspectos proibitivos exigentes 
destes objetos. O predomínio normal de amor sobre ódio na posição depressiva resulta na 
internalização de objetos principalmente bons no superego. Estes objetos bons 
neutralizam os objetos internos maus, mas mesmo sob circunstâncias ideais 
predominantemente bons objetos de superego são contaminados pelos objetos maus. O 
superego, portanto, tem qualidades persecutórias (derivadas de introjetos persecutórios) e 
exigentes (derivadas dos aspectos exigentes dos pais bons idealizados). 
 Através da culpa ou preocupação em relação à perda de amor parental, o 
superego protege seus objetos bons introjetados. Quanto mais idealizados são os bons 
objetos contidos no superego, mais perfeccionistas são as exigências do superego. A 
idealização de objetos internos bons geralmente conduz a bom comportamento e a 
compensação pelo mau comportamento. 
 ESTÁGIOS INICIAIS DO COMPLEXO DE ÉDIPO. Os estágios iniciais do 
complexo de Édipo começam durante a posição depressiva. Klein supôs um conhecimento 
inato dos genitais de ambos sexos, com fantasias orais e genitais influentes desde o 
nascimento em diante. O desejo por dependência oral da mãe é deslocado para o pai. 
Ansiar pelo seio bom torna-se um desejo pelo pênis do pai. O seio mau é também 
deslocado para o pênis mau. A predominância nos meninos de uma boa imagem do pênis 
do pai promove o desenvolvimento do complexo de Édipo positivo; confiar em um pai bom 
e dotar a mãe com um pênis bom inicia um complexo deÉdipo positivo em meninas. 
Quando a agressão predomina, o menino edípico vê o pai como um perigoso castrador 
potencial. O medo de castração é, de fato, o medo do desejo oral-sádico projetado de 
destruir o pênis do pai. Este medo torna a identificação com o pai difícil e predispõe à 
inibição sexual e medo de mulheres. Culpa em relação à agressão em direção ao pai 
reforça a repressão do complexo de Édipo. Boas experiências orais em meninas resultam 
na expectativa de um pênis bom; esta expectativa baseia-se na experiência de um seio 
bom. Agressão excessiva em meninas pode dar lugar a fantasias inconscientes de roubar 
a mãe do amor, do pênis e dos bebês do pai e pode estimular medos de retaliação 
materna. Em meninas, os desejos orais e genitais pelo pênis do pai combinam com inveja 
do pênis desenvolvendo-se como um derivativo da inveja do seio interior. Deste modo, a 
inveja do pênis deriva de sadismo oral e não é uma inveja primária dos genitais 
masculinos ou um aspecto primário da sexualidade feminina. 
 À medida que a cisão decresce durante o primeiro ano de vida, a criança 
torna-se ciente de que bons e maus objetos externos são em realidade um só. Os bebês 
então reconhecem sua agressão em direção ao objeto bom e também reconhecem os 
aspectos bons das pessoas a quem eles atacaram por ser más. Este reconhecimento 
corta o mecanismo de projeção. Além disso, as crianças tornam-se cientes das suas 
próprias partes infernais, mas, em contraste com o medo de prejuízo externo encontrado 
na posição esquizo-paranóide, o medo principal na posição depressiva é de prejudicar os 
objetos externos e internos bons daí a necessidade para o superego. 
 A tarefa emocional principal da posição depressiva é lidar com o medo do 
ego de perder os objetos externos e internos bons. As reações emocionais 
correspondentes são ansiedade e culpa. A preservação de objetos bons torna-se mais 
importante do que preservar o próprio ego. Objetos maus internalizados que foram 
anteriormente projetados compõem o ego primário, o qual ataca o ego com sentimentos de 
culpa. Os maus objetos dentro do superego, conforme observado acima, podem 
contaminar os bons objetos internos do superego que se tornaram incorporados no 
superego devido às suas demandas por determinados tipos de comportamento (eu amarei 
você se você fizer bem as suas tarefas; eu aceitarei você apenas se você trabalhar duro). 
 MECANISMOS DE RESOLUÇÃO DO TRABALHAR. Normalmente, os 
mecanismos de reparação, aumentados pela testagem de realidade, aceitação de 
ambivalência, gratidão e luto capacitam a criança a resolver o período depressivo. A 
reparação, o antecedente da sublimação, é um esforço saudável para reduzir culpa em 
relação a ter atacado o objeto bom tentando reparar o dano, expressando amor e gratidão 
e assim, preservando-o. A criança chora, corre para a mãe, joga seus braços ao redor dela 
e diz "desculpa". 
 A testagem de realidade aumentada resulta de cisão reduzida e da 
capacidade crescente de avaliar objetos inteiros e o self total. Os objetos introjetados são 
vistos como inteiros e vivos, ao invés de como fragmentos autônomos. Através de ser 
amadas, as crianças vêm a enxergar a si mesmas e a seus objetos internos como bons. A 
crescente percepção de amar e odiar a mesma pessoa promove a capacidade de 
experimentar e tolerar ambivalência, idealmente com uma preponderância de amor sobre 
ódio. Klein acreditou que o luto normalmente reativa a culpa da posição depressiva, a 
diferença sendo que, durante o desmame na posição depressiva, a mãe boa real ainda 
está presente e ajuda o bebê a reconstituir e consolidar objetos internos bons. 
 PSICOPATOLOGIA. Muitos tipos de psicopatologia severa são atribuídos à 
fixação em uma das duas posições kleinianas. A fixação na posição esquizo-paranóide 
conduz a alguns transtornos psicóticos. Os transtornos psicóticos em geral negam a 
realidade, usam projeção extensamente e engajam-se em dissociação. Escape para um 
objeto interno idealizado conduz a estados exaltados autistas; dissociação generalizada e 
reintrojeção de objetos fragmentados múltiplos conduz a estados de confusão. Medo 
predominante de perseguidores externos é a marca registrada do transtorno delirante; 
projeção de perseguidores sobre o próprio corpo resulta em hipocondríase. As pessoas 
com transtorno de personalidade esquizóide são emocionalmente superficiais e 
intolerantes de culpa, tendem a experimentar os outros como hostis e retraem-se de 
relações de objeto. 
 A partir da fixação, na posição depressiva vem o luto patológico (depressão) 
ou o desenvolvimento excessivo de defesas maníacas. O luto patológico resulta da 
destruição fantasiada por ataque sádico de objetos internos e externos bons. Os objetos 
internos maus que permanecem funcionam como um superego sádico primitivo evocando 
culpa excessiva e estimulando o sentimento de que todos os objetos bons estão mortos e 
que o mundo não tem amor. O superego sádico é cruel, exige perfeição e opõe-se aos 
instintos. Tentativas são feitas para idealizar objetos externos como um meio de 
autopreservação; deste modo, quaisquer reprovações são feitas contra o eu, ao invés de 
aos outros. O suicídio pode incorporar a noção de que o objeto externo bom pode ser 
preservado apenas através da destruição do self mau. 
 Síndromes hipomaníacas e maníacas são promovidas por um predomínio de 
defesas maníacas, incluindo onipotência, identificação com o superego, introjeção, o 
triunfo maníaco e idealização maníaca. A onipotência resulta da identificação com um 
objeto bom idealizado e negação do resto da realidade. A identificação com um superego 
sádico permite que objetos externos sejam tratados com desprezo. A introjeção é 
manifestada como fome de objeto, com negação de perigo para e dos objetos; triunfo 
maníaco é manifestado por um senso de ter conquistado o mundo; e idealização maníaca 
é manifestada por fantasias de fusão com Deus. 
 TÉCNICA. Klein acreditava que todas as situações produtoras de ansiedade, 
incluindo a hora analítica, reativam ansiedades das posições paranóide, esquizóide e 
depressiva. As defesas e medos primitivos são interpretados da primeira sessão em diante 
tão profundamente quanto possível e envolvem material tanto de transferência (você 
deseja me aniquilar) como de não transferência (você desejou eliminar o seio mau da sua 
mãe). A mesma técnica é usada com todos os pacientes, focalizando sobre fantasias 
inconscientes que representam o conteúdo e as operações defensivas nos níveis mais 
primitivos da mente. A técnica foi usada até mesmo com crianças com menos de 6 anos 
de idade, usando seu brinquedo livre como a base para a interpretação em sessões de 50 
minutos cinco dias por semana. Para Klein, o brinquedo livre de uma criança era análogo 
as livre-associações de um adulto. Suas visões opuseram-se às de Anna Freud, a outra 
analista infantil dominante do dia que sustentava que a análise do complexo de Édipo de 
crianças pré latência não é possível, já que ela pode interferir com relacionamentos 
parentais; a análise desta criança é em grande parte uma experiência educacional para a 
criança; que uma neurose de transferência não pode ser efetuada devido à atividade dos 
pais na vida diária da criança; e que o analista deveria fazer todo o esforço para obter a 
confiança da criança. Klein sustentou que uma neurose de transferência pode ser efetuada 
e então resolvida por interpretação. Ao invés de tentar obter favor com a criança, Klein 
imediatamente interpretava transferências negativas (você quer se ver livre de mim) e 
verificou que fazer isso aliviava a ansiedade ao invés de intensificá-la.Terapeutas kleinianos são interessados em tratar pacientes nos quais 
conflitos e defesas primitivos predominam. Eles fazem isso assumindo uma posição 
estritamente interpretativa, interpretando tanto aspectos negativos como positivos da 
transferência, mas especialmente enfatizando os aspectos negativos. 
 
Teoria das posições de Melanie Klein 
 
Pesquisa apresentada para a avalição na disciplina Desdobramentos da teoria 
Psicanalítica, do curso de Psicologia da Universidade Paulista – UNIP, campus de 
Araraquara, ministrada pelo professor José Renato. 
Klein (1935/1991, 1946/1990 apud Leitão, 1999) descreveu dois estágios no 
desenvolvimento emocional durante o primeiro ano de vida do bebê: a posição esquizo-
paranóide e a posição depressiva. 
De acordo com Melanie Klein (1991-1997), quando o bebê nasce não espera da 
mãe somente alimento, mas amor e compreensão também. Nos estágios mais iniciais, 
amor e compreensão são expressos através do modo de lidar com o bebê e levam um 
sentimento de unicidade que se baseia no fato de o inconsciente da mãe e o inconsciente 
da criança estar em relação íntima um com o outro. O sentimento resultante que o bebê 
tem de ser compreendido dá origem à primeira fundamental relação em sua vida, a relação 
com a mãe. Ao mesmo tempo a frustração, o desconforto e a dor, que são vivenciados 
como perseguição, também entram nos seus sentimentos para com sua mãe, porque nos 
primeiros meses de vida ela representa para a criança todo o mundo externo. Assim, tanto 
o que é bom, quanto o que é mau vêm como provindos dela. 
Os impulsos destrutivos desperatam ansiedade persecutória no bebê, junto com 
seus correlatos – tais como o ressentimento devido a frustração, o ódio provocado por ela, 
a capacidade de reconciliar-se e a inveja do objeto todo poderoso, a mãe, de quem 
dependem sua vida e seu bem-estar. 
O ego, de acordo com Freud, é a parte organizada do self, constantemente 
influenciada por impulsos instintivos, porém mantendo-os sob controle pela repressão. 
Além disso o ego dirige todas as atividades e estabelece a mantém a relação com o 
mundo externo. O termo self é utilizado para abranger toda a personalidade, o que inclui o 
ID, nomeado por Freud, e toda a vida pulsional. 
De acordo com Melanie Klein, o ego existe e opera desde o nascimento e que, 
além das funções mencionadas por Freud, tem a importante tarefa de defender-se contra a 
ansiedade suscitada pela luta interna e por influências internas. Ele inicia também uma 
série de processos como introjeção e projeção. 
Operando desde o nascimento, introjeção e projeção funcionam desde o início da 
vida pós-natal como algumas das primeiras atividades do ego. A introjeção significa que o 
mundo externo, seu impacto, as situações que o bebê atravessa e os objetos que ele 
encontra são vivenciados apenas como externos, mas são levados para dentro do self, 
vindo a fazer parte da vida interior. Essa vida interior, mesmo no adulto, não pode ser 
avaliada sem esses acréscimos à personalidade derivados da introjeção contínua. A 
projeção ocorre simultaneamente, implica que há uma capacidade na criança de atribuir a 
outras pessoas a sua volta sentimentos de diversos tipos, predominantemente o amor e o 
ódio. 
Formando a concepção de que o amor e o ódio dirigidos à mãe estão intimamente 
ligados à capacidade do bebê de projetar todas as emoções sobre ela, convertendo-a 
desse modo em um objeto bom, assim como em um objeto perigoso. 
O projeto de introjeção e projeção contribui para a interação entre fatores 
externos e internos. E, sem nunca perder sua importância, continuam através da vida e 
transformam-se no decorrer da maturação. 
A mãe é introjetada no bebê, e isso é um fator fundamental no desenvolvimento. A 
mãe e seus bons aspectos é o primeiro objeto bom que o bebe torna parte de seu mundo 
interno. Se a mãe é assimilada ao mundo interno da criança como objeto bom do qual ele 
pode depender, um elemento de força é unido ao ego. Uma forte identificação com a mãe 
torna-se fácil para a criança identificar-se também com um pai bom e, mais tarde, com 
outras figuras amistosas. 
No entanto, a agressividade e o ódio se mantém em atividade, por mais que sejam 
bons os sentimentos da criança em relação a ambos os pais. 
Existe uma tendência do ego infantil em separar impulsos e objetos, Melanie Klein 
considera esta como sendo mais uma das atividades primordiais dele. Essa tendência 
para cindir resulta em parte do fato de faltar em grande medida coesão ao ego arcaico. 
Mas a ansiedade persecutória reforça a necessidade de manter o objeto amado separado 
do objeto amado separado do objeto perigoso e, portanto, a necessidade de separar o 
amor do ódio. 
O processo de cisão muda em forma e conteúdo à medida que prossegue o 
desenvolvimento, mas nunca é inteiramente abandonado. Klein cita que os impulsos 
destrutivos onipotentes, a ansiedade persecutória e a cisão predominam nos primeiros três 
meses de vida; ela descreveu essa combinação sendo a posição esquizo-paranóide. Os 
correlatos dos sentimentos destrutivos são de grande importância nesse estagio inicial. A 
voracidade e a inveja são destacadas aqui como fatores perturbadores, primeiramente em 
relação com a mãe, mais tarde com outros membros da família. 
A voracidade varia de um bebe para o outro, há bebês que nunca podem estar 
satisfeitos porque sua verocidade excede tudo o que possam receber. Ela é incrementada 
pela ansiedade. O bebe que é tão voraz por amor e atenção é também inseguro sobre sua 
própria capacidade de amar, e todas essas ansiedades reforçam a verocidade. 
Na inveja, sempre que a criança está faminta ou se sente negligenciada, sua 
frustração leva a fantasia de que o leite e o amor são deliberadamente recusados a ela ou 
retirados pela mãe em benefício da própria mãe, o que constituem a base da inveja. Faz 
parte do sentimento de inveja não apenas o desejo da posse mas também uma forte 
necessidade de estragar o prazer que as outras pessoas têm como o objeto cobiçado, e 
essa necessidade tende a estragar o próprio objeto. Se a inveja é intensa, aquilo que é 
bom não pode ser assimilado, não pode se tornar parte da vida interior e, desse modo, dar 
origem à gratidão. 
No desenvolvimento normal, com a integração crescente do ego, os processos de 
cisão diminuem e a maior capacidade para entender a realidade externa e para, em 
alguma medida, conciliar os impulsos contraditórios do bebê leva também a uma síntese 
maior dos aspectos bons e maus do objeto. 
O superego inicia-se mais cedo, de acordo com Klein, por volta do quinto ou sexto 
mês de vida; onde o bebe começa a temer pelo estrago que seus impulsos destrutivos e 
sua voracidade podem causar, ou podem ser causa, aos seus objetos amados. Ele 
vivencia sentimentos de culpa e a necessidade presente de preservar esses objetos e de 
repará-los pelo dano feito. A ansiedade agora vivenciada é de natureza 
predominantemente depressiva. Klein reconheceu as emoções que a acompanham, assim 
como as defesas desenvolvidas contra elas, como fazendo parte do desenvolvimentos 
normal, e cunhou o termo posição depressiva. 
Com o aumento da adaptação à realidade o bebê adquire uma imagem menos 
fantasiosa do mundo ao seu redor. A experiência recorrente da mãe indo embora e 
voltando para ele torna a ausência dela menos aterrorizadora e, portanto, diminui a 
suspeita do bebe de que ela o deixe. Dessa forma ele vai elaborando seus medos arcaicos 
e chega a uma aceitação de seus impulsos e emoções conflitantes. Nesse estágio a 
ansiedade depressiva predomina e a ansiedade persecutória diminui. 
As ansiedades depressivas e persecutórias nunca são totalmente superadas. Elas 
podem reaparecer temporariamentesob pressão interna ou externa, embora uma pessoa 
relativamente normal possa suportar essa recorrência e recuperar seu equilíbrio. 
 
Em resumo 
Klein (1935/1991, 1946/1990) descreveu dois estágios no desenvolvimento 
emocional durante o primeiro ano de vida: a posição esquizo-paranóide e a posição 
depressiva. 
Inicialmente, os impulsos destrutivos têm maior predominância na mente da 
criança e, consequentemente, a criança percebe o mundo externo também como 
destrutivo e persecutório. Na posição esquizo-paranóide os impulsos destrutivos e a 
ansiedade persecutória estão no seu auge e o conflito se dá em função da sobrevivência 
do ego. 
Com o passar do tempo, e sob a influência dos impulsos amorosos dirigidos para 
o mundo externo, um relacionamento mais positivo com a mãe se desenvolve e a criança 
se torna consciente de sua própria ambivalência. A ansiedade da criança nesta fase está 
relacionada ao medo de que seus próprios impulsos destrutivos possam destruir sua mãe 
amada. A percepção de sua própria ambivalência leva a criança a intensos sentimentos de 
responsabilidade, desespero, ansiedade e culpa. Neste sentido, a posição depressiva 
inaugura um modo mais maduro de relacionamento com o outro, o qual possibilita uma 
nova forma de moralidade. 
Se na posição esquizo-paranóide a criança está preocupada apenas com o bem-
estar do ego, na posição depressiva ela está preocupada também com o bem-estar do 
outro. Desde que na posição depressiva o ego se torna mais identificado com o outro, a 
preservação do outro é sentida como garantia da preservação do próprio ego. Além disso, 
na posição depressiva existe a possibilidade de uma preocupação real com o bem-estar 
do outro, independentemente do ego. 
Na teoria de Klein, a ansiedade depressiva é a fonte da verdadeira capacidade de 
amar, a qual é inicialmente expressa através de ansiedade pela destruição do outro, culpa, 
remorso, desejo de reparar o dano feito, responsabilidade em preservar o outro e tristeza 
relacionada com a possibilidade de perdê-lo. O amor resulta, portanto, da capacidade de 
identificação com o outro na posição depressiva. Gradualmente a criança se torna capaz 
de encontrar outros objetos de interesse e o seu amor é dirigido também para outras 
pessoas e coisas. 
A culpa pode envolver elementos da posição esquizo-paranóide e/ou da posição 
depressiva. Segundo Hinshelwood (1989 apud Leitão 1999), Klein descreveu dois tipos de 
culpa: a culpa persecutória, associada com a preocupação esquizo-paranóide com o 
bem-estar do self; e a culpa depressiva, associada com a preocupação depressiva com o 
bem-estar do outro. Na posição esquizo-paranóide a culpa é persecutória, retaliativa e 
punitiva. A posição depressiva faz surgir um sentimento de culpa propriamente dito, no 
qual predomina o medo pelo outro amado e pelo relacionamento com ele. Na teoria 
Kleiniana, portanto, a culpa é considerada num contexto interpessoal. 
 
Aula: A Teoria das Posições de Melanie Klein 
 
A TEORIA DAS POSIÇÕES 
 
Teoria do desenvolvimento mental: 
É uma teoria da mente e seus modos predominantes de funcionamento; uma 
teoria de como as pessoas usam suas mentes para perceber, negar, alterar ou refletir 
sobre a realidade. 
Cada vivencia emocional adquire um significado de acordo com as características 
destes objetos internos. Klein destaca o papel que este mundo interno desempenha sobre 
todas as nossas reações e formas de lidar com as situações internas e externas 
determinando sobremaneira a forma de viver cada experiência. 
 
A teoria das posições é em relação ao objeto 
As fases de Freud são em relação à libido 
 
São processos e não entidades estáticas, por isso, não é possível dizer de uma 
entrada na posição tal, talvez seja possível dizer que se alcance uma predominância de 
um modo depressivo de operar, incluindo sempre uma possibilidade de que para alguns 
aspectos da vida se opere de um modo SZN. 
 
As Posições: 
· São dinâmicas psíquicas que, alternando-se ao longo da vida, geram maneiras 
de ser e de experienciar o mundo. É desta alternância das posições que resultaria a 
estruturação do sujeito. 
· São duas formas básicas de organização das ansiedades, defesas e modos 
de estabelecer relações com os objetos. 
· Rompe com a idéia de tempo cronológico e desenvolvimento linear, pois 
busca privilegiar duas grandes possibilidades de experienciar a si mesmo e ao mundo; 
· Trata-se de uma espécie de óptica que norteia a percepção de si mesmo e 
das experiências; 
· Trata-se de um certo modo de organizar-se frente às vivências que faz com 
que estas adquiram sentidos diferentes dependendo da óptica usada. 
O modo de ver o mundo é determinado por um conjunto de ansiedade, defesas, 
fantasias e formas de se relacionar que propiciam um modo de perceber e compreender a 
realidade. 
Conceber o desenvolvimento como operando com duas posições básicas, é pesá-
lo como duas atitudes mentais diferentes a partir das quais as experiências podem ser 
vividas. As posições são, assim, conceituações sobre as organizações psíquicas que 
geram formas de ser e experienciar o mundo. 
Para Klein, existe uma flutuação entre as duas posições, dependendo sempre da 
capacidade do ego de suportar as angústias decorrentes dos aspectos ambivalentes da 
experiência. 
- estas formas de organização psíquica não são nunca superadas ou deixadas 
para trás; o que é possível, com maior ou menor sucesso, é manter uma relação dialética 
entre elas, uma relação na qual cada estado cria, preserva ou nega o outro. 
 
POSIÇÃO ESQUIZOPARANÓIDE 
 
· O primeiro instrumento do bebê para estruturar suas experiências; 
· Divisão do ego: 
. Bom: gratifica- idealização/introjeção 
. Mau: frustra – projeta 
· Não percebe o objeto como uma unidade – desenvolve o amor e o ódio 
isoladamente; 
· Predomina a onipotência; 
· Díade – narcisismo 
· Não há reflexão – pensamento 
· Não reconheço o que é ruim como sendo meu – projeção; 
· Cisão do objeto interno; 
· A ansiedade é paranóide/persecutória, pois o ego é frágil para lidar com o 
desconforto, com o ódio e com a frustração; 
· O ego é fragmentado; 
· Utilização de mecanismos de defesa primitivo: spliting (cisão), projeção, 
introjeção, negação, identificação projetiva; 
. Para se organizar e se sentir segura diante da ameaça de caos advinda de sua 
fragilidade para significar essas experiências, o ego recorre aos mecanismos primitivos de 
defesa. 
. O mecanismo de defesa é uma construção teórica para dar conta de uma 
fantasia operada pelo ego para se proteger. 
. Na PE o ego tenta defender-se do que Klein chama de ansiedade de 
aniquilamento – uma experiência catastrófica que parece ser sentida como ameaça à sua 
sobrevivência. 
A fantasia de não ser capaz de dar conta e de conviver com os aspectos 
contraditórios de si mesmo e do objeto, assim como a angustia, vivida como insuportável, 
de integrar as experiências sentidas como más e como boas, faz com que, em fantasia, 
haja uma tendência a expulsar as experiências más, localizando-as fora de si, e ao mesmo 
tempo tentar incorporar e identificar-se com as experiências sentidas como boas. 
Assim, a ansiedade predominante é a persecutória (paranóide) e o estado 
predominante do ego é fragmentado e cindido (esquizo). 
Klein destaca que há uma tendência à integração do ego que se alterna com uma 
desintegração defensiva, um movimento de vida que leva à integração e um de morte que 
leva à desintegração. (PV x PM) 
Cisão: 
· É falar de uma vivencia de que o que sinto como ruim não me pertence, não é 
da minha responsabilidade e, o que ébom, é meu. 
·O sujeito vivendo de modo SZN, estrutura suas percepções do mundo de 
maneira a dividir o mundo em “bom” – que ele tenta ser e possuir (por introjeção), e “mau” 
– que ele expulsa e localiza fora de si (por projeção), no objeto. 
o Assim: 
§ “BOM” = “mim” 
§ “MAU” = “não-eu” 
· A cisão permite ao sujeito amar e odiar com segurança, protegido das angústias 
decorrentes da ambivalência, pois um aspecto da experiÊncia está sempre fora do 
alcance; 
· A cisão torna impossível a percepção de que podem provir do mesmo objeto 
tanto a gratificação quanto a frustração. 
. A mãe que frustra passa a ser vivida como outra, diferente da que gratifica, oq 
eu permite odiá-la com mais segurança e propriedade. 
 
POSIÇÃO DEPRESSIVA 
 
· Implica a possibilidade de viver a subjetividade e a historicidade, 
percebendo a ambivalência na relação com o objeto e podendo dar conta das emoções 
dela decorrentes. 
· Em oposição à PE, na qual a experiência é parcial, tanto em relação a si 
mesmo como ao objeto, na PD é possível perceber-se como um objeto total – amando e 
odiando, possuindo qualidades e defeitos, valores antagônicos, etc – além de perceber-se 
em relações com objetos também totais e que, portanto, satisfazem e frustram, sem que 
isto implique ativar um splitting defensivo. Tal mudança permite acompanhar a 
continuidade da experiência de si mesmo e do outro. 
· Amplia o conhecimento do mundo e de si mesmo, mas também expõe o 
sujeito a novas ansiedades. 
o Como aceitar em mim mesmo aspectos indesejáveis? 
o Como conviver com a percepção de que posso pôr em risco a relação com as 
pessoas ou valores que eu amo? 
o Como preservar o objeto amado dos riscos de mim mesmo? 
o Como aceitar que a pessoas amada tem momentos em que posso odiá-la? 
o Como conceber este novo modelo de relação? 
o Como aceitar que ela tenha uma existência separada da minha e que possa 
viver não exclusivamente para mim? 
o Como conviver com a percepção da minha impotência para controlá-la? 
· Um elemento importante na PD é a possibilidade de elaborar a culpa; a 
confiança na capacidade de reparar joga um relevante papel para permitir que a culpa seja 
vivida como responsabilidade. 
· Na elaboração da PD: 
o Reconhecimento da dependência; 
o Perda da onipotência; 
o Culpa; 
o Reconhecimento da própria hostilidade; 
o Anseio pela repação. 
· Integrar é ter ou poder vivier a culpa e esta se liga à consciência do 
impulso destrutivo dirigido ao objeto amado, à percepção de que é o próprio eu quem pode 
pôr em risco o amor. Portanto, integração implica responsabilidade. 
o Culpa gera perseguição 
o Responsabilidade gera trabalho e ocupação. 
§ Talvez seja possível superar a culpa que se transforma em perseguição, 
alcançar a culpa vivida como responsabilidade. 
§ Culpa e perseguição teriam como oriegem um SE severo e a responsabilidade, 
mais realista, seria uma função egóica. 
· Reparação: é sempre um trabalho penoso, pois implica reconhecer que 
possa ter colocado em risco uma relação e responsabiulizar-se por isto; reconhecer-se 
amando e querendo manter a relação; inseguro quanto aos estragos realizados; 
esperançoso, porém, não onipotente, de ser capaz de remediar e, assim, estar atento a si 
e ao outro para acompanhar os efeitos dessa reparação. 
· Com a passagem pela PD é possível a relação dual, é possível viver o 
Édipo e se iniciar na vida simbólica, no jogo e no brincar. 
· Podemos resumir a PD: 
o Por volta dos 6 meses; 
o Reconhece a realidade interna e externa 
o Mãe como objeto total – completa e real 
o Ambivalência – culpa – reparação 
o Possibilita viver a subjetividade 
o Tríade – Édipo 
o Reconheço a dependência 
o Diminuição da onipotência 
o Reconhecimento da própria hositilidade 
o Dor ao perceber os sentimentos contraditórios em relação ao mesmo objeto 
o Ansiedade é depressiva 
o Suporta a não exclusividade 
o Elabora a culpa – responsabilidade 
o Percebe que o objeto não está sob seu controle 
 
aula: Complexo de Édipo e Superego na visão kleniana 
Complexo de Édipo e Superego 
 
Freud: 
Freud preconiza a situação edípica como uma das problemáticas funda-mentais à 
teoria psicanalítica, visto que este é o momento no qual se dará a constituição do sujeito. 
Nesse sentido, como aponta Moreira (2004), a importância da passagem pelo Édi-po e sua 
condição estruturante nos remete a pensar a constituição do sujeito a partir da 
incontestável presença do outro. Ora, se a triangulação edípica não prescinde da 
exis-tência de um casal de pais, seja real ou sim-bólico, torna-se imperativo a inscrição do 
outro na estruturação do sujeito. 
O sujeito, por conseqüência do que é vivenciado no Édipo, sai com determinadas 
identificações. É a par-tir destas identificações que será possível a constituição do 
superego. 
“O superego resulta de um processo identificatório com a lei, da qual o pai é o 
representante.” (Moreira, 2004, p. 224). 
A dissolução do Complexo de Édipo desempenha papel fundamental na 
estru-turação da personalidade e na orientação do desejo humano, além de ser a principal 
temática de referência no que diz respeito às psicopatologias. 
Freud concedeu ao complexo de castração o eixo central para a compreensão do 
Complexo de Édipo. Dife-rentemente, Melanie Klein descreveu a situ-ação edípica com 
foco nas fantasias primá-rias. 
 
Klein: 
A hipótese do superego arcaico já havia obrigado Melanie Klein a antecipar o 
início do complexo de Édipo para o começo do segundo ano de vida. Mais tarde, ela 
desvincularia o surgimento do superego arcaico da questão edípica e acabaria por 
antecipar o próprio complexo de Édipo em sua dimensão mais arcaica para os seis meses 
de idade, quando surge a primeira "posição depressiva". 
Segundo Klein (1945/1996), o Com-plexo de Édipo começa paralelamente com 
início da “posição depressiva”, uma vez que é nesta fase que os sentimentos amorosos 
passam a ocupar cada vez mais espaço, no lugar dos sentimentos persecutórios e 
des­truidores, característicos da “posição es­quizoparanóide”. E seu declínio coincidirá 
exatamente com a prevalência dos sen­timentos característicos da “posição depres­siva”, 
o amor da criança pelos pais, o desejo de preservá-los e não mais de destruí-los. Isto 
torna visível como é central a questão edipiana no desenvolvimento da criança, já que a 
transição da “posição esquizoparanói­de” para a “posição depressiva” se dá neste contexto 
e é favorecida por ele. Os impulsos sexuais são direcionados para uma forma de reparar 
efeitos da agressividade, o que induz ao nascimento de fantasias reparado-ras, de 
extrema importância para a sexuali-dade adulta. 
Klein (1925/1996) ainda afirma que os sentimentos de culpa têm origem nos 
de-sejos sádico-orais, e não são conseqüências do Édipo, mas sim um dos fatores que 
acompanham o desenvolvimento edipiano. 
Já a origem do Superego, como afirma Marta Rezende (2002), se localiza já nos 
primeiros es-tágios do conflito edípico. Sua formação se inicia desde muito cedo, “e o que 
faz com que ele apareça é o advento do Complexo de Édipo” (Cardoso, 2002, pág. 55.). 
Melanie (1945/1996) revela que a criança introjeta objetos em cada fase de sua 
organização li-bidinal, e o superego é construído a partir destes elementos introjetados. “O 
superego se desenvolve a partir dessas figuras introje-tadas – as identificações da criança 
– influen­ciando, por sua vez, a relação com os pais e todo o desenvolvimento sexual.” 
(Klein, 1945/1996, págs 463-4). 
Como Melanie Klein descreveua situ-ação edípica com foco nas fantasias 
primá-rias, pode-se dizer que, ao conseguir distinguir objetos to-tais, a existência dos pais 
como pessoas que possuem seus próprios desejos e que se voltam para outros campos 
que não a crian-ça, essa começa a direcionar seus impulsos e fantasias a estes, o que 
instala o cenário para o início do Complexo de Édipo. 
Assim, é possível verificar a relação intrínseca entre o desenvolvimento edipia-no 
e a formação do superego, e entre estes fatores e a passagem da “posição 
esquizopa­ranóide” para a “posição depressiva”, fatores esses que incidirão diretamente 
da estrutu-ração da personalidade do sujeito. 
De acordo com Fi-gueiredo e Cintra (2008), é a partir do atra-vessamento da 
posição depressiva e a so-lução do complexo edipiano que o sujeito amplia a capacidade 
de experimentar rela-ções complexas e ambivalentes com obje-tos integrais, admitindo a 
relativa autonomia destes objetos e suas ligações com os outros e com eles próprios. 
Há uma alternância entre objetos internos e ex-ternos ao se perceber a realidade, 
por parte do bebê, o que interliga intrinsecamente o complexo de Édipo à formação do 
supere-go. 
A partir da análise de crianças pequenas (3 a 6 anos), Klein pôde constatar que as 
tendências edipianas são despertadas pelo desmame (entre o primeiro e o segundo ano 
de vida). Esta frustração oral é reforçada pelas subseqüentes frustrações anais e também 
pelas diferenças anatômicas que existem entre os sexos, o que faz necessário explicar o 
desenvolvimento do menino e da menina separadamente. 
 
CE meninos: 
em sua posição feminina ou homossexual, há uma equivalência inicial do pênis do 
pai ao seio da mãe, passando ser, este último, objeto de desejo, de ser sugado, engolido e 
incorpo­rado oralmente e também por seu ânus e seu pênis, “o menino deseja penetrar 
com seu próprio pênis no corpo do pai pela boca, ânus e órgão genital. Na última parte do 
pri-meiro ano, o desejo de receber um filho do pai desempenha importante papel” 
(Hei-mann, 1986, pág. 55). Sendo assim, nesta po-sição a mãe torna-se uma rival para o 
me-nino. Instauram-se neste período fantasias sobre a vagina materna, e desejos e atacá-
la e destruí-la. No entanto, os desejos de reparação anteriormente citados característicos 
da posição depressiva fazem surgir impul-sos de compensar a mãe, pelo fato do bebê ter 
medo de perdê-la. Assim, passa a dese-jar dar-lhe prazer e filhos, o que restabele-ce a 
genitalidade heterossexual no menino, fazendo com que sinta agora ódio contra o pai e 
medo de retaliação por parte deste último, o medo da castração. Posteriormen-te o menino 
fantasia a relação sexual dos pais, sendo esta o mesmo motivo pelo qual a criança passa 
a desejar um dos pais e a que-rer destruir um deles, como um rival, o que lhe causa 
grande ansiedade. De acordo com Heimann (1996), mais tarde, a observação de seu 
próprio pênis somados à sua função criadora e reparadora que a criança possui 
inconscientemente, às fantasias de relação sexual com a mãe e ao prazer da 
masturba-ção, possibilitam ao menino possuir um des-prezo pelo órgão genital feminino, 
mas seu temor em relação à castração ainda persis-te. 
Existe um sentimento de culpa associado às fixações pré-genitais, que decorrem 
das tendências edipianas. Isto ocorre, pois o despertar das tendências edipianas em um 
momento precoce são acompanhadas da introjeção dos objetos amorosos, dos quais 
decorre o sentimento de culpa. Estas identificações infantis são contraditórias, 
comportando características boas e muito severas ao mesmo tempo. Isto pode ser 
explicado pelas fantasias da criança de 01 ano, que deseja devorar e destruir seus 
objetos. Entretanto, após introjetá-los, surge a culpa e o medo de perseguição, 
proporcional a agressividade que foi inicialmente direcionada a estes objetos. 
Assim, é importante ressaltar que a formação do superego ocorre durante um 
momento de predominância de impulsos sádicos (pois o superego é formado pela 
introjeção inicial dos objetos amorosos edipianos). Entretanto, a presença de um superego 
sádico, em ação contra um ego ainda incipiente, leva o ego a recorrer a mecanismos de 
repressão intensos contra este superego sádico. 
Existe um desejo de ter filhos, destruir futuros irmãos e o próprio pai. O menino 
vivencia o desejo de possuir um órgão especial, ligado a fecundação, como o seio 
provedor de leite, a vagina, ou outros órgãos que ele liga a capacidade de ter bebês. O 
menino teme ser punido por seus desejos de destruição do corpo materno. Assim, sofre 
uma ansiedade que seu corpo seja mutilado. Neste momento, a mãe, ao manipular as 
fezes da criança, se transforma em um castrador. 
O menino tem um pavor de ser castrado pelo pai e um desejo de destruir o pênis 
do pai, que se dirige ao útero, onde o pênis do pai estaria. Em contrapartida, o menino 
experimenta um superego mutilador e devorador. Enfim, o menino se sente em 
desvantagem, devido à incapacidade de ter filhos. 
Ocorre, neste momento, uma fusão entre o desejo de ter filhos e o impulso 
epistemofílico. Deste movimento decorre um deslocamento, no menino, deste desejo de 
ter filhos para o plano intelectual. O menino também demonstra uma tendência à 
agressividade, que visa ocultar a ansiedade e ignorância que experimenta durante esta 
fase de indefinição. A agressividade também é um protesto contra o papel feminino. 
Assim, a disputa entre homens tende a ter um caráter mais próximo do genital, enquanto 
que o conflito com as mulheres é pré-genital, com fixações sádicas. 
O menino começa a experimentar uma luta entre os impulsos pré-genitais e 
genitais. A repulsa a feminilidade o empurra para a identificação com o pai. O medo de ser 
castrado o faz retornar às fixações sádico-anais. A influência da genitalidade constitucional 
se faz sentir neste momento. Esta luta pode permanecer indefinida, levando a distúrbios 
de potência. 
O menino também possui, durante a fase da feminilidade, a influência de um 
superego materno, com identificações cruéis e bondosas. Depois, entretanto, ele retorna a 
identificação com o pai. No menino, é o superego paterno que exerce a derradeira 
influência. O pai é um personagem sublime, mas alcançável, pois o menino é feito a sua 
imagem. A menina padece de um pavor de ter sua feminilidade danificada. Ela acaba 
dando valor excessivo para o pênis, o que o torna uma fonte de ansiedade mais óbvia, 
mascarando a ansiedade em relação à própria feminilidade. 
 
CE meninas: 
Esta possui sensações vaginais inten-sas neste período, e que estas estimulam 
fortemente o desejo que a menina possui de receber o pênis do pai, e afastando-a da mãe, 
como já citado anteriormente. Klein (1945/1996), afirma que o bebê do sexo feminino 
possui uma idéia inconsciente de que seu corpo contém o que a autora deno-mina de 
“bebês em potencial”, e o pênis do pai torna-se ainda mais um objeto de desejo por ter a 
capacidade de criar crianças. Além de adquirir o pênis paterno, a menina dese-ja também 
receber um filho do pai. 
À medida que estes desejos são frus-trados, a menina deseja possuir um pênis e 
se volta para o corpo materno, na tenta-tiva de atacar, mutilar, aniquilar este corpo e 
roubar dele o pênis do pai e os bebês da mãe que, em suas fantasias, se encontram no 
interior do corpo materno. No entanto, ao desejar destruir o corpo da mãe, esses ataques 
se voltam para a própria menina, e ela fantasia que seu órgão genital será des-truído, 
havendo, portanto temor de uma mãe retaliadora. Ela sente também que lhe falta um 
pênis. No entanto, a frustração de seus desejos femininos faz com que a menina sinta 
raiva e temor pelo pai, direcionando-a novamente para a mãe. 
Posteriormente,a menina fantasia a existência de um pênis interior, e alme-ja que 
este se desenvolva. Neste período ocorre uma supervalorização do falo em de-trimento da 
valorização de sua vagina, que passa então a ser repudiada. Porém, o não 
desenvolvimento de um órgão masculino causa novo desapontamento, fazendo com que 
essa sinta ressentimentos contra a mãe, que se torna responsável pela incompletu-de da 
menina. Neste momento, então, há um predomínio da faceta heterossexual. 
A menina, ao passar pelo desmame, se afasta da mãe. O desenvolvimento da 
menina se completa com o deslocamento da libido oral para a genital, mantendo o objetivo 
receptivo, que condiz com a genitalidade feminina. Aí se encontra uma influência na 
escolha do pai como objeto amoroso. A menina possui uma noção inconsciente de vagina, 
despertada pelas tendências edipianas. A masturbação, no caso feminino, não leva a uma 
satisfação tão adequada quanto para o menino, o que gera uma gratificação acumulada. 
Portanto, o ódio e inveja da menina em relação à mãe a empurra para o pai. A 
ansiedade de castração que o menino experimenta está ausente na menina. O impulso 
epistemofílico da menina é despertado pelo complexo de Édipo, pela descoberta de não 
possuir um pênis. A falta do pênis é um motivo adicional para odiar a mãe e se sentir 
punida por esta ao mesmo tempo. É a privação do seio, portanto, que leva a escolha do 
pai como objeto amoroso, e não a ausência do pênis, como dizia Freud. 
O ódio e a rivalidade que a menina sente em relação à mãe fazem com que sua 
identificação com o pai seja abandonada, transformando-o em um objeto para amar e ser 
amada por ele. Um forte motivo para possuir o pai é o ódio e a inveja sentida em relação à 
mãe. Se no desenvolvimento da menina, as fixações sádicas permanecerem, estas 
interferirão na relação homem – mulher. Por outro lado, se a relação com a mãe for 
calcada em uma posição genital, a mulher estará menos presa a um sentimento de culpa 
com relação aos filhos. O marido poderá ser sentido como um bebê adorado levando a 
mulher a assumir a postura de uma mãe provedora. 
Com relação à sexualidade, quando a menina alcança a satisfação total de seus 
impulsos amorosos (o que lhe parecia impossível), através do coito, ela sente uma 
admiração e uma gratidão pelo fim da privação acumulada, que remete a época do 
onanismo. Esta gratidão explica a grande capacidade feminina para se entregar de forma 
total e duradoura a um objeto amoroso, como o primeiro amor. 
Algo que prejudica o desenvolvimento da menina é que ela sofre o desejo 
insaciado de ser mãe. O menino, por sua vez, encontra um apoio no fato de possuir um 
pênis. A menina, vivendo esta incerteza com relação à possibilidade do desejo de ser mãe, 
acaba sendo prejudicada por sentimentos de ansiedade e culpa que decorrem das 
tendências destrutivas que ela dirigiu contra a mãe. Isto ajuda a explicar a preocupação 
feminina com a beleza, pois esta poderá ser destruída pela mãe, que foi anteriormente 
atacada. 
Este medo de destruição interna que a menina vivencia explica a tendência 
feminina para a histeria de conversão e certos distúrbios orgânicos. A menina, ao não 
encontrar o apoio da posse do pênis, acaba por depreciar sua capacidade de maternidade, 
antes altamente valorizada. A grande ansiedade feminina está em torno da feminilidade, 
enquanto o menino o sente em relação ao pênis, pois de fato possui um. O menino 
experimenta uma ansiedade aguda, enquanto o processo da menina é crônico. 
A mulher possui uma grande capacidade para o altruísmo, pois na menina o 
superego é formado pela imago materna, que é mais ameaçadora que a paterna. Se a 
identificação genital da menina se estabiliza, surge um ideal de bondade, derivado do ideal 
da mãe boa. Portanto, esta capacidade depende da resolução dos conflitos pré-genitais e 
genitais. Quando a mulher se dedica a uma ação social, esta depende de um ideal de ego 
paterno. A menina sente uma admiração pela atividade genital do pai, o que a leva a 
metas difíceis de atingir. A própria impossibilidade de atingi-las, associada à capacidade 
de auto-sacríficio derivada do superego materno, pode levar a mulheres com uma 
capacidade para realizações excepcionais no plano intuitivo. 
Com relação a certas experiências iniciais da infância, algumas considerações são 
importantes. Quando a observação do coito ocorre em uma época posterior, pode se 
configurar um trauma. Se a observação é precoce, pode gerar fixações no 
desenvolvimento sexual, atrapalhando a formação do superego, devido à predominância 
de identificações sádicas. Quando ocorrem atos sexuais entre crianças, como felação, se 
tocar e outros, o ato assume a característica de um Édipo realizado, pois a outra criança é 
percebida como a mãe, o pai, ou ambos. Deste fato surge uma grande culpa, associada a 
uma necessidade de punição, associada à compulsão a repetição, que pode levar a 
repetição de traumas sexuais. 
Concluindo, as idéias do texto são consideradas por Klein como um 
desenvolvimento das de Freud. O texto aponta o surgimento de um complexo de Édipo 
precoce, derivado do desmame, dominado pelas fases pré-genitais. Estes fatos 
influenciam a formação precoce do superego, com aspectos sádicos. Tais conclusões, 
retiradas da análise de crianças, possuem validade teórica, comprovada também na 
análise de adultos. 
 
A Inveja segundo Melanie Klein 
 
Que a "inveja é uma m****", todo mundo sabe. 
 A "inveja mata" é outro jargão muito utilizado no senso comum, assim como frases 
escritas em carros e parachoques de caminhão do tipo: 
"sua inveja é o combustível do meu sucesso", ou 
"se sua estrela não brilha, não tente apagar a minha". 
Mas no âmbito da psicologia, como tratar o assunto? Assunto aliás que não é tão simples 
assim, pois mexe com sentimentos que todos nós temos e raramente assumimos. 
 Klein aponta que a inveja é uma emoção muito arcaica que remonta ao nascimento. 
Ela surge no momento em que o bebê percebe-se impotente perante sua mãe (ou 
cuidador), no que concerne ao seu bem-estar, ou seja: quando ele precisa de cuidados ou 
alimento e seu cuidador não o gratifica de imediato, surge então um sentimento de inveja. 
A inveja daquela fonte criadora de bem-estar, daquele seio farto do qual o bebê depende. 
 Seguindo esta linha de raciocínio, chegamos ao X da questão, ou seja: a inveja é 
caracterizada por desejar algo que o outro tem e que não se pode ter. 
 Porém Klein vai ainda mais longe quando trata da destruição: Segundo ela a criança 
na posição esquizo-paranoide deseja destruir esse seio que ora lhe parece bom, ora lhe 
parece mau, para não ter de passar novamente por situações de frustração. 
 Sendo assim, a destruição do bom, do belo justifica-se pela inveja. 
 Claro que isto é uma simplificação. Os conceitos são mais amplos. 
 
Observe que temos uma cadeia 
frustração -> raiva -> destruição 
 A Frustração todos conhecemos (quem não conhece que atire a primeira pedra). A 
raiva é um sentimento absurdamente natural e que somos ensinados a reprimir como se 
fosse um pecado. O desejo de destruição também é natural, afinal incomoda muito 
perceber que o outro tem algo que não se pode ter e que muito se deseja; daí a vontade 
de destruir esse objeto de desejo (seja ele de que natureza for). 
 A inveja na sociedade contemporânea se manifesta de várias formas, algumas 
quase inperceptíveis. apenas alguns exemplos deste último caso. Mas não generalizemos, 
por favor... 
 Pessoas muito zelosas, que controlam excessivamente os outros, por medo de que 
estas sofram algum tipo de dano, podem estar sentindo inveja... inveja da coragem que o 
outro tem de se atirar na vida... 
 A inveja mais comum éaquela que é caracterizada pela negação e pela 
racionalização: 
" eu não queria mesmo...." 
" nem reparei que você tingiu o cabelo" 
 Claro que em muitos casos estas negações e racionalizações podem ter outros 
motivos mais conscientes e palpáveis, mas..... 
Lidar com pessoas invejosas não é fácil, uma vez que estas querem sempre destruir algo 
em nós. Não dá pra tratá-las com a intimidade que se trata um irmão, mas não dá pra 
fazer de conta que não existem, afinal são destruidoras, agressivas e vorazes. 
Uma alternativa pra lidar com isso deixar a própria inveja de lado, raiva e ressentimentos e 
verifique as razões pelas quais a pessoa invejosa se porta dessa maneira. De onde vem 
essa vontade de destruir? É pra não ver? Não ver o que? Porque? 
Porém, jamais se deixe levar pelas pessoas destrutivas, mesmo que sejam "amigas". 
 
Melanie Klein: Inveja e Gratidão 
 
«O ciúme teme perder o que possui; a inveja sofre ao ver o outro possuir o que 
quer para si. O invejoso não suporta a visão da fruição. Sente-se à vontade apenas com o 
infortúnio dos outros. Assim, todos os esforços para satisfazer um invejoso são infrutíferos. 
O ciúme é uma paixão nobre ou ignóbil, em função do objecto. No primeiro caso, é 
emulação aguçada pelo medo. No segundo caso, é voracidade estimulada pelo medo. A 
inveja é sempre uma paixão vil, arrastando consigo as piores paixões». (Crabb) 
Os portugueses conhecem bem esta paixão vil que é a inveja e que, na 
linguagem popular, é denominada "mal de inveja". Teixeira de Pascoaes viu nela um dos 
maiores defeitos da "alma pátria": "Somos fantasmas querendo iludir a sua oca e triste 
condição. Por isso, o valor alheio nos tortura, revelando, com mais clareza, a nossa própria 
nulidade". Porém, na sua ingenuidade, não soube elaborar uma psicopatologia 
portuguesa e, deste modo, descobrir o mal radical que habita plenamente a alma 
portuguesa. A inveja é destrutiva e, se ela é "um esqueleto de hiena visionando um 
cemitério", como diz Pascoaes, então Portugal é esse mesmo cemitério, do qual a 
esperança foi sempre-já expulsa. A História de Portugal está ferida de morte desde o 
seu começo: o matricídio cometido por Afonso Henriques foi introjectado e, 
posteriormente, projectado por todos os portugueses nutridos no e pelo mau seio e, desse 
modo, incapazes de retomar o bom seio, o da gratidão. Pascoaes não compreendeu que 
a inveja é, como diz Klein, "o sentimento raivoso de que outra pessoa possui e desfruta 
algo desejável, sendo o impulso invejoso o de tirar este algo ou de estragá-lo". A inveja 
pressupõe a relação do indivíduo com uma só pessoa e esta relação origina-se na relação 
primordial e arcaica com a mãe. Embora esteja fundado na inveja, o ciúme envolve uma 
relação com duas pessoas, no mínimo, e diz respeito "ao amor que o indivíduo sente como 
lhe sendo devido e que lhe foi roubado, ou está em perigo de sê-lo, pelo seu rival". 
Melanie Klein (1882-1960) concedeu à inveja uma posição de importância central, 
tanto na compreensão da psicopatologia como no processo de tratamento, na sua 
concepção do conflito que está na origem do desenvolvimento. Aparentemente distante de 
Freud, mas talvez mais próxima de Rank ou de Ferenczi, Klein interessa-se 
pelos momentos pré-edipianos deste desenvolvimento e coloca em jogo a complexidade 
das relações que se estabelecem entre a mãe e a criança antes da intervenção do pai que 
provocará a violência do complexo de Édipo. Deste modo, Klein é levada a mostrar que a 
figura da mãe é ambivalente. A mãe pode tanto recompensar como frustrar a criança e, 
por isso, aparece sucessivamente como "bom" e "mau" objecto: quer dizer que o 
mesmo objecto é, para a criança, bom e mau, que amá-lo é também querer destruí-lo e 
que a figura da mãe reúne e evoca todos os sentimentos da criança, até mesmo os mais 
contraditórios. A presença da contradição no sujeito tende a apagar-se em proveito do 
nascimento de um conflito no interior dos laços privilegiados que ligam a mãe e o filho. A 
mãe é, portanto, o próprio modelo de toda a ambivalência. 
As origens da inveja derivam da agressão constitucional e a inveja precoce 
representa uma forma particularmente maligna e desastrosa de agressão inata. Todas as 
outras formas de ódio da criança são dirigidas para maus objectos que são sentidos 
como perseguidores e maus. Por isso, a criança odeia-os e fantasia com a sua tortura e 
destruição. A inveja é, pelo contrário, ódio dirigido contra bons objectos. A criança sente 
a bondade e os cuidados que a mãe lhe oferece, mas sente-os como insuficientes e 
ressente-se com o controle onipotente da mãe, capaz de a alimentar, de a libertar dos 
impulsos destrutivos e da ansiedade persecutória e de a proteger de toda a dor e males 
provenientes de fontes internas e externas. Ora, o primeiro objecto a ser invejado é o "seio 
nutridor": o bebé sente que o seio possui tudo o que deseja e que é dotado de um fluxo 
ilimitado de leite e de amor que guarda para a sua própria gratificação. Porém, oseio 
materno fornece o leite em quantidade limitada e depois pára. Na fantasia da criança, no 
seu mundo interior povoado de fantasmas, o seio é sentido como guardando 
avaramente o leite para os seus próprios objectivos. O ressentimento e o ódio associam-
se a esta fantasia do seio inexaurível e o resultado é uma relação perturbada com a 
mãe. A inveja primária do seio materno desencadeia ataques sádicos ao seio materno, 
determinados pelos impulsos destrutivos, que visam estragar o objecto: o seio é odiado e 
invejado pelo facto do bebé sentir que é um seio mesquinho e malévolo. Nas suas formas 
subsequentes, a inveja deixa de estar focalizada no seio e é deslocada para a mãe que 
recebe o pénis do pai, que possui bebés dentro dela, que dá à luz esses bebés e que é 
capaz de amamentá-los, e, nos estágios iniciais do complexo de Édipo (quarto e sexto 
mês de vida), para o pai, visto como um intruso hostil e acusado de ter raptado o seio 
nutritivo e a própria mãe, dando início ao desenvolvimento do ciúme. 
Klein distingue a inveja da voracidade, na qual o bebé quer ter todos os 
conteúdos dobom seio somente para si, sem se importar com as consequências para o 
seio, que imagina sugar até o secar. Para o bebé voraz, a destruição não é o motivo mas a 
consequência da ganância. Na inveja, a criança quer destruir o seio e estragá-lo, não 
porque seja mau, mas porque é bom. Como a riqueza do seio está fora do seu controle, 
a criança não pode tolerar a sua bondade e, por isso, deseja estragá-lo. O dano causado 
por esta inveja resulta da corrosão da primeira cisão entre seio bom e seio mau: as 
cisões e dispersões de objectos em bons e maus, internos e externos, precipitam e 
correspondem a cisões dentro do próprio self. No ódio não-invejoso, a destruição é 
dirigida contra os objectos maus: os objectos bons são protegidos pela cisão e, por 
conseguinte, o bebé pode sentir-se, pelo menos uma vez ou outra, protegido e seguro. 
Porém, em virtude da inveja, a criança destrói os bons objectos, a cisão é desfeita e ocorre 
um aumento da ansiedade persecutória e do terror. A inveja destrói a possibilidade 
de esperança. Se o objectivo da voracidade é a introjecção destrutiva, isto é, escavar 
completamente, sugar até deixar seco e devorar o seio, a inveja "procura não apenas 
despojar dessa maneira, mas também depositar maldade, primordialmente excrementos 
maus e partes más do self, dentro da mãe, acima de tudo dentro do seu seio, a fim de 
estragá-la e destruí-la". Isto significa que a inveja visa "destruir a criatividade da mãe". 
Este processo que deriva de impulsos sádico-uretrais e sádico-anais constitui um aspecto 
destrutivo da identificação projectiva, conceito usado por Kleinpara descrever as 
extensões de cisão nas quais partes ou segmentos reais do ego são separadas do resto 
do self e projectadas nos objectos. Klein traça a linha divisória entre inveja e voracidade, 
dizendo que "a voracidade está ligada principalmente à introjecçãoe a inveja 
à projecção". A pessoa invejosa é insaciável, destrutiva, ladra, maldosa e fraca. 
A inveja intensa do seio nutridor interfere com a capacidade de satisfação e, por 
conseguinte, solapa o desenvolvimento da gratidão: a voracidade, a inveja e a ansiedade 
persecutória estão interligadas e intensificam-se reciprocamente. A inveja estraga 
oobjecto bom originário e alimenta os ataques sádicos ao seio, que, em face disso, 
perde o seu valor e torna-se mau por ter sido mordido e envenenado pela urina e pelas 
fezes. Com a capacidade de fruição arruinada, a inveja torna-se persistente e a gratidão 
não se desenvolve para mitigar os impulsos destrutivos. Devido à inveja persistente, a 
criança torna-se incapaz de construir seguramente um objecto bom interno. Pelo 
contrário, a criança com uma forte capacidade de amor tem "uma relação profundamente 
enraizada com um objecto bom e pode suportar, sem ficar profundamente danificada, 
estados temporários de inveja, ódio e ressentimento que surgem mesmo em crianças que 
são amadas e recebem bons cuidados maternos". Mas, como estes estados negativos são 
transitórios, a criança pode recuperar facilmente o objecto bom, sem prejudicar o 
estabelecimento das bases da estabilidade emocional e cognitiva e de um self forte. 
Esta relação positiva com o seio materno constitui, no decurso do desenvolvimento, a base 
sólida para a dedicação e a vinculação a pessoas, valores e causas, que absorvem, em 
certa medida, uma parte do amor que era inicialmente sentido pelo objecto originário. 
O sentimento de gratidão deriva da capacidade de amar e, conforme observa 
Klein, é fundamental para "a construção da relação com o objecto bom" e para avaliar e 
apreciar o que há de bom nos outros e em si mesmo. A pessoa invejosa não pode 
realizar esta tarefa de reparar o objecto bom, por ser demasiado influenciável e, portanto, 
incapaz de confiar no seu próprio julgamento. De modo diferente de Freud, Klein considera 
que aansiedade primordial derivada do trauma do nascimento (Rank) constitui a 
ameaça de aniquilamento pela pulsão de morte interna: o ego que "existe desde o início 
da vida pós-natal", e cuja primeira e principal função "é lidar com a ansiedade", está ao 
serviço da pulsão de vida e, nesta luta primordial entre as pulsões de vida e de morte, 
compete-lhe deflectir essa ameaça para fora, de modo a preservar a sua identidade e a 
sentir que possui uma "bondade" própria. Enquanto a capacidade de amar promove as 
tendências integradoras e o sucesso da cisão primordial entre o seio bom e o seio mau, 
protegendo o self das identificações indiscriminadas com uma variedade de objectos e 
dando-lhe uma sensação de que possui bondade própria, a inveja excessiva interfere na 
cisão fundamental e no sucesso da estruturação de um objecto bom, donde resultam 
oenfraquecimento do self e a perturbação das relações de objecto. Assim, as crianças 
com capacidade de amar forte sentem menos necessidade de idealizar do que as crianças 
dominadas por impulsos destrutivos e pela ansiedade persecutória: "a idealização é, 
portanto, um corolário da ansiedade persecutória e o seio ideal é a contrapartida do seio 
devorador". Com a danificação da capacidade de selecção e de discriminação, o self 
fraco do indivíduo invejoso é levado a trocar constantemente de objecto amado, porque 
nenhum objecto pode preencher integralmente as expectativas: o objecto idealizado 
anterior é sempre sentido como um perseguidor e nele é projectada a atitude invejosa e 
crítica do sujeito. "Tudo isto leva, como diz Klein, à instabilidade dos relacionamentos". 
Além disso, a inveja excessiva interfere na gratificação oral adequada, 
estimulando a intensificação dos desejos e tendências genitais. Este início prematuro da 
genitalidade é frequentemente "causa da masturbação compulsiva e da promiscuidade 
sexual" e, em virtude da inveja excessiva do seio nutritivo e do sentimento de ter 
estragado a sua bondade através de ataques sádicos invejosos, pode estar ligado à 
ocorrência precoce daculpa. Segundo Klein, a atitude invejosa e destrutiva em relação 
ao seio nutritivo está na base da crítica destrutiva, descrita como "mordaz" e "perniciosa", 
dirigida contra acriatividade, cuja contrapartida benéfica e saudável é a crítica 
construtiva que visa ajudar a outra pessoa a aperfeiçoar o seu trabalho. Enfim, para não 
prolongar muito mais este post, diremos que a inveja está ao serviço da pulsão da morte e, 
nessa missão, constitui uma força destrutiva da vida e da criatividade: proíbe o sonhar 
acordado e paralisa o movimento de ir para a frente, como se verifica facilmente ao longo 
da História de Portugal, cujo objecto idealizado é a ideologia sebastianista que 
culmina no antiprojecto do Quinto Império de Fernando Pessoa e que se manifesta 
regressivamente no reino da imitação invejosa e maldosa: o luso-reino "simiesco" 
(Pascoaes) em que o espírito de iniciativa e as forças criadoras cedem o seu lugar 
ao espírito imitativo e aopensamento de rebanho, porque, "sempre que o homem hesita 
na sua humanidade, aparece o macaco" (Pascoaes), ou melhor, o homem 
metabolicamente reduzido. As forças criativas nacionais estão condenadas à morte em 
vida ou ao êxodo, porque a inveja portuguesa corrompe Portugal e fecha 
sistematicamente as portas ao advento de um futuro inteiramente novo. 
 
Entendendo a inveja na visão kleiniana 
 
 A inveja é um sentimento extremamente primitivo, imediato e voraz. A ação 
invejosa tem sempre, por trás, um conteúdo agressivo. Inicialmente, o bebê tem o seio da 
mãe como objeto ideal. Então ele passa a querer ter o seio. Quando a mãe sai, desperta 
no bebê um desespero. Ele fica constantemente ansioso e quer reter a mãe. Klein 
encontra aí as raízes primitivas da inveja - o movimento de arrancar do outro para ter para 
si. 
 O comportamento invejoso visa retirar a bondade dos objetos a fim de 
introjetá-la. Ao se questinar sobre a necessidade de ter algo que deseja, a conclusão nos 
diz que aquilo vai nos trazer algo de bom. Entre mulheres, por exemplo, é comum que uma 
amiga elogie o sapato da outra e pergunte onde ela comprou porque deseja um igual, ou 
do mesmo estilo, ou da mesma cor. Essa parte é até saudável. Agora, no movimento 
agressivo de retirar do outro, o objeto bom e ideal se torna mau e destruído. O bebê 
introjeta objetos destruídos, o que gera um ciclo prejudicial. Ao ter os mundos interno e 
externo destruídos, o ego se estilhaça buscando um objeto de gratificação. Já falamos 
sobre estilhaçamento de ego no texto sobre posição esquizo-paranóide. 
 O que diferencia, basicamente, a inveja do ciúme é que o ciúme é uma 
relação de três elementos (eu, o outro, e um terceiro que me ameaça de perder o outro), e 
a inveja, de dois (eu e algo que quero ter ou ser). 
 Existe uma relação saudável com o sentimento de inveja, indo além do 
significado comum que a palavra tinha até então. Inveja é algo que todos sentem, mas 
sentir é diferente de atuar sobre ela. Sentir inveja não faz de alguém um invejoso. A 
voracidade e agressividade existentes por trás de um comportamento invejoso é o que é 
extremamente prejudicial e negativo. Já que você quer o objeto para si e para isso realiza 
comportamentos agressivos. 
 Todos têm inveja, todos desejam algo que não têm. Isso é natural, humano. 
O que nos diferencia do bebê é nossa capacidade de reconhecer a inveja que sentimos e 
não alimentá-la, ou canalizá-la. O bebê não podedizer: -"Nossa, eu quero muito isso. Mas 
posso trabalhar para conseguir e não preciso arrancar do outro." Nós podemos. Mesmo 
que se queira muito um objeto, tirar do outro nem sempre é a única maneira de ter. 
 Parece contraditório, mas é preciso reconhecer sentir a inveja para não se 
tornar um invejoso. . 
 
Posição esquizo-paranóide 
 
 Na posição esquizo-paranóide, descrita pela psicanalista Melanie Klein, em 
resumo, existe a ansiedade paranóide. O ego se encontra fragmentado, em busca de um 
objeto gratificador. Essa fragmentação do ego se dá por sua estrutura, composta por muito 
mais frustrações que gratificações. O ego se estilhaça em busca de algo que possa dar 
gratificação a ao menos um de seus "pedaços". O estilhaçamento do ego é como uma 
tentativa desesperada de escapar da patologia. A quantidade excessiva de frustrações traz 
ao ego uma sensação de aniquilação. 
 O bebê enxerga o seio da mãe como primeiro objeto. No caso da posição 
esquizo-paranóide, este objeto foi muito mais frustrador do que gratificador (é o que Klein 
chama, em sua teoria, de seio mau). Ele pode ter demorado demais para atender aos seus 
desejos, pode não ter sido nutritivo, acolhedor, amoroso. Então é gerada uma ansiedade 
extrema por algo que seja bom. Mas todos os objetos introjetados pelo bebê são maus, e 
isso é externalizado. Ao passo em que ele projeta no seio sua frustração, 
responsabilizando-o por sua frustração. E então tem fantasias agressivas de arranhões, 
mordidas, rejeição a este seio. 
 O excesso de gratificação também não é positivo. Na adolescência, por 
exemplo, onde todos os limites são contextados. Se não houver limites, o perigo se instala. 
O excesso de gratificações pode fortalecer a fantasia onipotente do bebê. Fantasia 
onipotente é outro traço bastante relevante na posição esquizo-paranóide, a sensação de 
onipotência é perigosa. Por outro lado, quando a frustração é excessiva, gera a fantasia de 
agressão ou a agressão de fato. 
 Nas mulheres há uma relação ambivalente. Ao mesmo tempo em que a mãe 
é um objeto de amor, é um de ódio. Há rivalidades e diferenças grandes com esta mãe. O 
que faz a menina tender a uma opção heterossexual, inclusive. Entender a importância da 
passagem por esta posição, possibilita-nos compreender a formação, a estrutura psíquica 
que constitui o indivíduo. O que refletirá, sem dúvida, em situações futuras. Traçando 
um paralelo com a prática, porque a psicanálise exige de nós uma capacidade de 
abstração que, reconheço, é difícil alcançar limitando-nos à teoria, falarei do filme "Uma 
Mente Brilhante", que ilustra muito bem a teoria de Melanie Klein acerca do tema em 
questão. 
 O filme trata da vida de John Nash, que é um matemático americano genial. 
Ele se encontra na posição esquizo-paranóide. Nash era esquizofrênico e apresentava 
alucinações visuais. Ele tinha idéias delirantes, que consistiam em falsas crenças, não 
corrigidas pela confrontação com a realidade, que tendiam a se difundir e ir tomando conta 
da mente. No caso tratado, Nash via, principalmente, três pessoas (Charles, sua sobrinha 
e Parker), mas seu delírio mais preocupante era o de perseguição. Havia, no seu 
entendimento, uma conspiração e ele estava empenhado em descobri-la. O interessante é 
que somos colocados dentro da mente de Nash. O filme trata a esquizofrenia do ponto de 
vista do esquizofrênico. Todas as visões que ele tem nos parecem reais também. O 
espectador acredita nas visões de Nash. 
 Quando está no auge de seu problema psiquiátrico, Nash acredita estar 
trabalhando para o serviço de inteligência americano, contra os russos. Assim, nada mais 
parece ter importância, nem a família, nem a continuidade de sua vida acadêmica. Tudo o 
que ele quer é descobrir uma bomba que vai explodir em qualquer lugar dos EUA. Nash 
acredita que, com sua inteligência, só ele poderia decifrar códigos publicados em revistas. 
O que nos dá mais uma pista da posição esquizo-paranóide em que ele se encontra, o 
delírio de grandeza, sua fantasia onipotente, sua megalomania. 
 Os três personagens que Nash vê podem ser entendidos como sua 
personalidade dividida, cada um representando um aspecto. Charles, tudo o que Nash 
gostaria de ser, seu ideal de ego. A menina, um superego infantilizado. E Parker, seu Id, 
dando vazão a sua megalomania, o fazendo acreditar que era o único que detinha o poder 
de decifrar os códigos para o governo. O que gera, mais à frente, seu delírio de 
perseguição. 
 Em meio a tudo isso, existe Alícia, sua esposa, que é quem procura mostrar a ele 
tudo o que é real. É seu objeto bom, gratificador. E em determinado momento do filme, ela 
lhe dá um lenço, que é a representação simbólica do objeto bom introjetado. E é com a 
ajuda dela que ele consegue aprender a separar o que é real da fantasia. Por fim, ele não 
deixa de ter as alucinações, mas aprende a lidar com elas de forma que não o perturbem 
mais. Alicia nos confirma a idéia da importância da gratificação para um ego extremamente 
fragilizado e fragmentado. É seu objeto de amor que o ajuda a, de alguma forma, vencer a 
patologia. 
 
Posição Depressiva 
 
 Brevemente, na posição depressiva, descrita por Melanie Klein, tratamos de 
um ego extremamente organizado. Os objetos de amor não são favorecedores à 
gratificação, estão indisponíveis para o ego. Isto gera uma ansiedade extrema. E então 
ergue-se uma defesa maníaca, para não permitir o contato com objetos de amor, que ele 
já espera serem frustradores. E evita-se o contado com a dependência dos objetos, não se 
assume precisar deles, pois precisar é, de certa forma, depender. E depender é perder o 
controle sobre o outro. E não poder controlar é não poder garantir que o outro será 
gratificador, possibilitando a frustração. Se esta defesa é muito radical, extrema, torna-se 
patológica. O Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) é um exemplo de defesa maníaca. 
 Os indivíduos em posição depressiva têm problemas na expressão do afeto. Então 
há uma depreciação dos objetos de amor (“Quem desdenha, quer comprar”). Assim, o 
indivíduo se mantém no controle das situações e não reconhece sua dependência de algo 
ou alguém. Um mecanismo de defesa presente na posição depressiva é a sublimação. A 
energia pulsional canalizada para outra direção. A fim de satisfazer seus desejos de uma 
outra forma, já que a original não lhe é possível. 
Seguindo a linha de raciocínio, também trago um filme que nos mostra claramente 
um ego em posição depressiva. 
Melvin é um escritor muito bem-sucedido, adorado pelas mulheres pela forma 
como escreve sobre o universo feminino. Mas seu comportamento social é estranho. Seus 
vizinhos procuram evitá-lo. Melvin é um obsessivo, que tem rituais para fechar a porta, 
lavar as mãos, andar nas ruas, pisar no chão, só frequenta um único restaurante, para 
onde vai carregando os seus próprios talheres de plástico e onde exige ser sempre 
atendido pela mesma garçonete, Carol. 
 Esta enfrenta uma série de problemas por ser mãe solteira e ter que se desdobrar 
entre o trabalho e a casa, a fim de cuidar do filho, que sofre de asma. Um dia, Carol falta 
ao trabalho no restaurante, porque seu filho adoece. Tal fato causa um grande desconforto 
a Melvin, modifica a dinâmica a que ele está acostumado, onde tem o controle da situação 
e ele termina contratando os serviços de um pediatra para cuidar do garoto, para que 
Carol possa voltar pro trabalho. 
 Quando Simon, seu vizinho, é atacado e roubado por um grupo de ladrões, 
Melvin é coagido a cuidar de Verdell, o cachorro. Aos poucos, Melvin vai se afeiçoando ao 
animal e descobrindo-se dono de sentimentos que julgava não possuir. Quando Simon 
recebe alta do hospital, eleconcorda em levá-lo de carro para falar com seus pais e exige 
que Carol vá junto. Durante a viagem, todos conversam e descobrem algo sobre o outro. 
 Notamos que não há relato, na história de Melvin, de uma mãe que o tenha feito 
experimentar o jogo do carretel*, sem ficar tão ansioso, a ponto de querer experimentar de 
novo. Até aí, Melvin se mostra o TOC personificado. Mas, na viagem, se percebe tão 
envolvido por Carol que começa a vencer suas defesas maníacas. Dono de uma estrutura 
psíquica desacostumada a usar palavras delicadas, ele constantemente fere os outros 
falando alguma bobagem. E depois desta viagem, começa a exercitar o pensamento antes 
da fala. O julgamento daquilo que vai dizer, antes de dizer. Seu problema com o contato 
era tão intenso que ele jogava o próprio sabonete, usado uma única vez, no lixo. 
 Carol, o cachorro e até o próprio Simon, seu vizinho, são importantes no 
processo de reconhecimento/admissão do contato com os objetos de amor. Ele vai se 
libertando de sua patologia. Esquece de trancar a porta, pisa nas listras do chão. A 
patologia vai diminuindo, à medida que o contato dele com os objetos de afeto vai 
aumentando. E, de repente, vê que não é possível controlar tanto as situações como ele 
gostaria, se percebe envolvido pelo afeto. 
 *Jogo do carretel é uma expressão usada para representar a brincadeira de 
sumir e aparecer que os adultos costumam fazer com bebês. Deve-se considerar um 
sentido mais amplo ao termo. Não só o "Cadê a mamãe? Achou!", mas também a ida e 
volta do trabalho, por exemplo. 
 
A construção subjetiva infantil segundo Melanie Klein 
 
 Como ocorre o desenvolvimento infantil segundo Melanie Klein? Na 
psicanálise construída por Melanie Klein encontramos o conceito de posição, tal conceito 
remete a forma de como se constitui a subjetividade do bebê, e para Klein existem duas 
formas de constituição da subjetividade ou duas posições, que acontecem de forma 
processual. Tais posições podem ser denominadas de posição esquizo-
paranóide e posição depressiva. 
 A posição esquizo-paranóide inicia no nascimento até os seis meses de 
idade. Na posição esquizo-paranóide o desenvolvimento do eu é determinado pelos 
processos de introjeção e projeção. A primeira relação objetal do bebê ocorre com o 
chamado seio amado e odiado – seio bom ou seio mau. Os impulsos destrutivos e a 
angústia persecutória encontram-se no seu apogeu, assim como os processos de divisão, 
onipotência, idealização, negação e controle dos objetos internos e externos. 
 Segundo Melanie Klein a defesa primordial é a clivagem, o seio é o objeto 
primordial e será dividido em seio bom e seio mau, ou num bom objeto que o bebê possui 
e num mau objeto que está ausente, como mãe nunca está sempre presente na vida bebê 
para amamentá-lo ela se torna ausente e o bebê com isso inaugura o processo de 
clivagem em sua subjetividade. Ele percebe o seio como “bom” porque o amamenta e 
como “mau” porque se ausenta. 
 Como se percebeu, o bebê nessa fase se relaciona com objetos parciais, o 
seio bom e mau, um objeto ideal e outro persecutório. Porém, o objeto mau é projetado 
para fora do bebê como sendo perseguidores e destruidores do objeto bom. Nessa fase 
vemos a existência de uma angústia persecutória, então a meta da criança nessa fase é 
de possuir o objeto bom e introjetá-lo e também de projetar o objeto mau para fora e assim 
evitar os impulsos destrutivos. 
 Num segundo momento, se desenvolve a posição depressiva, ela inicia aos 
seis meses de idade, nesse momento a relação do bebê com o mundo externo se torna 
mais diferenciada, aumentando sua capacidade de expressar emoções de se comunicar 
com as outras pessoas. 
 Nesse momento, o bebê reconhece a mãe como um único objeto, ou seja, o 
bebê começa a reconhecer a mãe como uma pessoa total com existência própria e 
independente, fonte de experiências boas e más. A criança compreende pouco a pouco 
que é ela quem ama e odeia a mesma pessoa, sua mãe, e assim inaugura a experiência 
do chamado sentimento de ambivalência. 
 Agora o bebê percebe que antes temia a destruição do seu objeto amado por 
perseguidores e agora ele teme que essa sua agressão possa destruir o objeto 
ambivalentemente amado e odiado. Sua angústia deixa de ser paranóide pra ser 
depressiva. E assim começa a se originar sentimentos de culpa e luto, como afirmar 
Melanie Klein. 
 Com isso se inicia um processo de reparação dessa relação objetal 
ambivalente. É com esse processo de reparação desse luto e culpa é que será a melhor 
saída da posição depressiva. Esse processo se dá com a aceitação da perda de parte do 
objeto, ocorrendo essa condição o bebê poderá restaurá o objeto amado, porque somente 
assim ele poderá reparar o desastre ocorrido e assim preservar o objeto amado de outros 
ataques dos objetos maus, esse processo de superação e reparação, segundo Melanie 
Klein, é o chamado de trabalho de luto. 
 Através da aceitação da perda é que o bebê passa a trabalhar 
saudavelmente a construção de sua subjetividade. 
E de acordo com Melanie Klein, nós sempre estaremos vivendo as posições 
esquizo-paranóide e depressiva ao decorrer de nossas vidas, sempre de forma alternada, 
segundo a psicanálise kleiniana, essas são as únicas formas de se viver a angustiante e 
terrível vida humana. 
 
O fenômeno esquizóide 
 
"Em clínica psiquiátrica, o conceito de psicose é tomado a maioria das vezes 
numa extensão extremamente ampla, de maneira a abranger toda uma gama de doenças 
mentais, quer sejam manifestamente organogenéticas, quer sua etiologia permaneça 
problemática. Na psicanálise, o interesse incidiu, em primeiro lugar, nas afecções mais 
diretamente acessíveis à investigação analítica, e dentro deste campo mais restrito que o 
da psiquiatria, as principais distinções são as que se estabelecem entre as perversões, as 
neuroses e as psicoses. Neste último grupo, a psicanálise procurou definir diversas 
estruturas: paranóia e esquizofrenia, por um lado, e por outro a melancolia e a mania. 
Fundamentalmente, é uma perturbação primária da relação libidinal com a realidade que a 
teoria psicanalítica vê o denominador comum nas psicoses, onde a maioria dos sintomas 
manifestos são tentativas secundárias de restauração do laço objetal." (Laplanche e 
Pontalis – Dicionário de Psicanálise – Psicose – pg 390) 
 Para entendermos o psicótico, é importante relembrarmos sobre a posição 
esquizoparanóide de Melanie Klein, onde o ego utiliza a cisão como mecanismo de defesa 
para lidar com suas ansiedades, buscando dispersar seus impulsos destrutivos. 
 “Na primeira infância, surgem ansiedades que obrigam ao ego criar 
mecanismos de defesa específicos. Neste período se encontram pontos de fixação de 
distúrbios psicóticos”. – (Inveja e Gratidão – Melanie Klein - pg 20) 
 O nascimento representa a saída da plenitude, do nirvana. O mundo real se 
apresenta de forma grosseira e cruel, despertando sensações como o frio, a fome, bem 
como necessidades como urinar, defecar, etc. É preciso chorar para obter o alimento, ou 
anunciar suas necessidades, apontar dores, cólicas entre outros. Na percepção da 
dependência do outro para sobreviver, nasce a frustração. Essa experiência é sentida 
como causada por objetos externos. Impulsos destrutivos são dirigidos para este objeto 
externo, passando posteriormente para ataques sádicos ao corpo da mãe, enquanto parte 
destes impulsos permanece ligada à libido no interior do organismo. Para Klein, as 
relações de objeto existem desde o inicio da vida, sendo o primeiro objeto o seio da mãe. 
 A primeira relação com o objeto implica em projeção e introjeção. As relações 
de objeto são moldadas pela interação entre os mecanismosde projeção e introjeção 
desde o inicio, bem como entre objetos e situações internas e externas. Esses processos 
participam na construção do ego, e do superego e preparam o terreno para o surgimento 
do complexo de Édipo na metade do primeiro ano de vida. (Inveja e Gratidão – Melanie 
Klein - pg 21) 
 No entanto, da mesma forma que tais impulsos são projetados nestes 
objetos, imediatamente são introjetados novamente. Logo, estes objetos sentidos como 
mau (seio mau), passam a existir também no mundo interno. Tais ataques a estes objetos 
faz surgir o medo de uma retaliação ou um contra ataque por parte destes, que passam a 
ser sentidos como persecutórios. 
“A necessidade vital de lidar com a ansiedade força o ego arcaico a desenvolver 
mecanismos de defesas. O impulso destrutivo é parcialmente projetado para fora, e 
prende-se ao primeiro objeto externo, o seio da mãe. Outra porção deste impulso 
permanece ligado a libido no interior do organismo". 
 Porem, nenhum desses processos resolve o problema da perseguição e de 
ser destruído. Logo, sob a pressão dessa ameaça o ego tenta se despedaçar “. (Inveja e 
Gratidão – Melanie Klein - pg 24). O ego então faz uma cisão buscando como resultado a 
dispersão do impulso destrutivo. 
 Na cisão, este mundo interno ainda confuso, repleto de objeto introjetados é 
de certa forma organizado. De um lado, objetos maus, de outro objetos bons. O bebê 
então percebe o seio como bom (aquele que recebe amor e lhe protege), e seio mau 
(aquele que o persegue e é receptor de seus ataques sádicos). O mundo é divido entre 
bom e mau. 
 “O impulso destrutivo projetado para fora é vivenciado como agressão oral. 
Impulsos sádico- orais dirigidos ao seio da mãe. Depois vem os impulsos canibalescos 
com o início da dentição. O bebê vai sugar e destruir o seio. Na sua fantasia, o seio mau é 
destruído, e o seio bom permanece inteiro. Esse seio bom interno é responsável pela 
construção do ego, e contrabalança os processos de cisão e dispersão. Winnicott 
descreveu este processo como a capacidade do bebê adaptar-se à realidade mediante a 
experiência obtida através do amor e carinho da mãe “. (Inveja e Gratidão – Melanie Klein 
–Processo de cisão em relação ao objeto- 1946- nota de rodapé 10 – pg 25) 
 “A ansiedade e a frustração pode ameaçar a sensação que o bebê tem de ter 
dentro de sí um seio bom. Logo, o bebê pode sentir que seu objeto interno bom está 
também despedaçado, pois fica difícil manter a cisão entre objeto bom e mau. O ego não 
consegue cindir objeto interno e externo sem que ocorra uma cisão correspondente dentro 
dele. Quanto mais o sadismo prevalece no processo de incorporação do objeto mais este 
é sentido como estando em pedaços e mais o ego corre o risco de cindir-se aos 
fragmentos desse objeto internalizado.” ”. (Inveja e Gratidão – Melanie Klein –Processo de 
cisão em relação ao objeto- 1946) 
 Assim, o processo de projeção e introjeção se torna um cíclico, presente em 
todo desenvolvimento do ser. Neste ponto, o meio ambiente terá sua parcela na introjeção 
de objetos bons ou maus, de acordo com a forma que este se apresentar. Um ambiente 
repleto de amor, atenção, carinho, etc., poderá ser sentido como objetos bons, 
aumentando o número de objetos bons internos. Do contrário, um ambiente violento, cheio 
de falhas materna, poderá ser sentido como objetos maus, igualmente aumentando o 
número destes objetos no interior do bebê. 
 O processo de cisão vem para organizar o que antes estava misturado. 
Agora, sentimentos bons são dirigidos ao objeto bom, enquanto ataques destrutivos 
dirigidos para os objetos maus. 
 
Outros mecanismos de defesa são criados. 
 
 Através do processo de idealização, o objeto bom é exageradamente sentido 
como um protetor poderoso contra os objetos maus. Não se trata de um simples objeto 
bom. Agora, este objeto é MUITO bom. Na negação, a existência de um objeto mau é 
negada. Todas as sensações de frustração e dor são negadas. A realidade psíquica é 
negada. Na onipotência, o ser sente-se capaz de negar a própria realidade psíquica. 
 “A negação onipotente da existência do objeto mau e da situação de dor é, 
para o inconsciente, igual à aniquilação pelo impulso destrutivo”. 
 “Uma parte do ego, da qual emanam os sentimentos pelo objeto, é negada e 
aniquilada também”. 
 “Na gratificação alucinatória ocorrem dois processos inter-relacionados: a 
invocação onipotente do objeto e da situação de ideais e a onipotente aniquilação do 
objeto mau persecutório e da situação de dor; Esses processos se baseiam tanto na cisão 
do objeto como do ego”. (Inveja e Gratidão – Melanie Klein – A cisão em conexão com a 
projeção e a identificação -pg 26) 
 Como vimos anteriormente, os ataques antes dirigidos ao seio da mãe 
passam a ser dirigidos para o corpo da mãe, já que seu corpo é percebido como uma 
extensão do seio. Na sua fantasia, o bebê vai lançar para dentro do corpo da mãe 
excrementos nocivos e destrutivos, além de sugar o seio até exauri-lo. Partes excindidas 
do ego são projetadas para dentro da mãe. Estes excrementos terão como objetivo 
controlar e tomar possa do corpo desta. Uma vez contendo partes do self mau, a mãe 
agora é sentida como o próprio self mau. Passa a ser o self mau, sentido como objeto 
perseguidor. 
 
Melanie Klein chamou este processo de identificação projetiva. 
 
 “Não são só as partes más do self a serem expelidas. Partes boas também. 
Logo, excrementos podem significar presentes, e as partes do ego projetadas para outra 
pessoa representam as partes boas, amorosas do self”.(Inveja e Gratidão – Melanie Klein 
– Identificação Projetiva -pg 27) 
 “A identificação projetiva da origem a medos de ser controlado pelo objeto; 
Uma vez na fantasia o bebê projetando parte de seu self para dentro do objeto com o 
objetivo de possuir e controlar, começa a ter medo da retaliação – ser controlado. Ser 
perseguido dentro de seu próprio corpo pelo objeto introjetado e reintrojetado 
violentamente. O objeto reintrojetado é sentido como contendo os aspectos perigosos do 
self”. (Inveja e Gratidão – Melanie Klein – Identificação Projetiva -pg 30) 
 O medo de ser aprisionado e perseguido dentro do corpo da mãe (resultado 
da identificação projetiva) estão na base da paranóia. 
 “As relações esquizóides são de natureza narcísica. Eu projeto meu ideal do 
ego em outra pessoa. Passo a amar e admirar essa pessoa porque na verdade estou 
amando eu mesmo. Essa outra pessoa passa a ter as partes boas do meu self”. (Inveja e 
Gratidão – Melanie Klein – Relações de objetos Esquizóides -pg 32) 
 Controlar o outro, é controlar seu próprio self projetado no objeto. Quando 
este objeto é perdido, é sentido como se o próprio self tivesse sido perdido. Surge o 
sentimento de solidão e o medo de separar-se do objeto. 
 “O medo da frustração da separação, desperta a agressividade. Uma vez 
controlando com agressividade as partes boas do self projetadas dentro do sujeito, o 
objeto interno é sentido como correndo o mesmo perigo de destruição que o objeto 
externo, resultando num enfraquecimento do ego. Solidão”. (Inveja e Gratidão – Melanie 
Klein – Relações de objetos Esquizóides -pg 33) 
 Ainda sobre a identificação projetiva, Hanna Segal a define como: (processo 
através do qual uma parte do ego é excindida e projetada para dentro de um objeto, com 
conseqüente perda desta parte para o ego, bem como alteração na percepção do objeto.) 
(Melanie Klein hoje; Vol I; Depressão no Esquizofrênico; Hanna Segal). 
 Através da identificação projetiva, o psicótico projeta suas ansiedades 
sentidas como algo insuportável. 
Herbert Rosenfeld escreve em seu artigo “Conflito com o superego num paciente 
esquizofrênico”,a importância em se interpretar as transferências positivas e negativas, 
salientando que o êxito na análise depende da compreensão do analista das 
manifestações psicóticas na situação transferêncial. 
 Rosenfeld ainda em seu artigo desenvolve a idéia de que o objeto bom 
internalizado aumenta a severidade do superego, e devido a exigências rigorosas, é 
sentido como um objeto persecutório. 
 “Na análise de pacientes esquizofrênicos – Podemos muitas vezes observar 
apenas os objetos persecutórios funcionando como superego. Isso pode ser devido às 
exigências extremas dos objetos idealizados. (Melanie Klein hoje Vol I – Herbert Rosenfeld 
– Conflito com o superego num paciente esquizofrênico)”. 
 O psicótico toma muitas vezes tudo o que o analista diz como algo concreto. 
Se interpretarmos uma phantasia de castração, ele tomará a própria interpretação como 
uma castração. Trata muitas vezes a fantasia como realidade, e realidade como fantasia. 
 Quando projetado suas ansiedades para dentro de um objeto externo, via 
identificação projetiva, tal objeto passa a ser percebido como persecutório. Entretanto, 
ocorrerá uma introjeção deste objeto, sentido como uma reentrada violenta. Muitas vezes, 
o psicótico tentará romper a ligação com o mundo externo, temendo esta reentrada. No 
entanto, a introjeção deste objeto implica na existência deste tanto interno quanto externo. 
O objeto persecutório passa a existir na fantasia e na realidade. 
 “Todo paciente esquizo projeta seu superego e a si mesmo para dentro do 
analista; mas o analista interpreta esta situação e os problemas ligados a ela até que, 
gradativamente, o paciente seja capaz de aceitar tanto seu amor e seu ódio quanto o seu 
superego como coisas que lhe pertencem.” (Melanie Klein hoje Vol I – Herbert Rosenfeld – 
Conflito com o superego num paciente esquizofrênico) 
 Freud aponta a psicose como o ego a serviço do id, que se retira em parte da 
realidade. Sobre este tópico, Bion escreve: “O ego não fica completamente fora da 
realidade. Seu contato com a realidade é mascarado pelo predomínio, na mente e no 
comportamento do paciente, de uma fantasia onipotente cujo propósito é o de destruir não 
só a realidade mas a percepção dela, e assim atingir um estado que não é vida nem 
morte”.(Melanie Klein hoje Vol I – Herbert Rosenfeld – Diferenciação entre a personalidade 
psicótica e a não psicótica) 
 Segundo Bion, pacientes psicóticos possuem uma parte não psicótica da 
personalidade, que fica assim obscurecida por sua parte psicótica. 
 O afastamento da realidade é uma ilusão decorrente do uso da identificação 
projetiva contra o principio da realidade. Porém, esta fantasia torna-se um fato para o 
psicótico. A realidade odiada é fragmentada e projetada para fora. Estes objetos expelidos 
são sentidos como se tivesse vida própria, estando então o psicótico cercado por objetos 
bizarros. 
 A cisão e a identificação projetiva visa o afastamento da própria realidade. As 
palavras são tomadas como coisas reais, pois o psicótico não simboliza. 
 Hanna Segal escreve em seu artigo “Depressão no esquizofrênico – Melanie 
Klein hoje vol.1” sobre o processo pelo qual o esquizofrênico alcança a posição 
depressiva, vivenciando as ansiedades despertas durante este processo. No entanto, os 
sentimentos de culpa, sofrimento, são sentidos como intoleráveis. Assim, tais ansiedades 
depressivas serão projetadas para fora, ou seja, grande parte do seu ego será projetada 
para dentro de outro objeto através da identificação projetiva. Assim, o avanço para a 
posição depressiva no paciente esquizofrênico é sentido como uma ameaça. É preciso 
retomar o percurso contrário da sanidade, pois esta é acompanhada por sentimentos 
insuportáveis. 
 É comum o paciente psicótico projetar a parte deprimida do ego para dentro 
do analista, provocando sentimentos depressivos no analista. A parte sadia do ego é 
perdida, e neste caso, o analista torna-se objeto persecutório. 
 Hanna Segal aponta para a importância de colocar o paciente esquizofrênico 
em contato com seus sentimentos depressivos, e com o desejo de reparação que dele 
originam. É de suma importância que o analista descubra onde e em quais circunstâncias 
a parte depressiva do ego foi projetada, interpretando para seu paciente. 
 A identificação projetiva por um lado, constitui uma reação terapêutica 
negativa (RTN), cabendo ao analista acompanhar cuidadosamente durante a 
transferência, a emergência da posição depressiva e sua projeção, permitindo assim ao 
paciente fortalecer a parte sadia da personalidade. Por outro lado, a identificação projetiva 
é uma defesa contra a depressão. 
 
A origem e a função das fantasias, segundo Klein 
 
Uma das principais contribuições de Melanie Klein são os conceitos de posição 
esquizo-paranóide e posição depressiva e incorreríamos num grande erro não falar 
primeiro destas posições antes de falarmos em fantasias. 
Entende-se por posição a forma do indivíduo visualizar-se a si mesmo, aos outros 
e ao mundo que o cerca determinando uma forma de o sujeito “ser” e de comportar-se na 
vida. São períodos normais do desenvolvimento que perpassam a vida de todas as 
crianças, tais como as fases do desenvolvimento psicossexual criadas por Freud. Contudo, 
são mais maleáveis do que estas fases, devido ao fato de instalarem-se por necessidade, 
e não por maturação biológica (embora a autora não deixe de considerar as fases da 
teoria freudiana.) 
Assim, a posição esquizo-paranóide ocupa os primeiros 3 meses de vida e a 
posição depressiva ocupa a segunda metade do 1º. Ano. O bebê nasce imerso na posição 
esquizo-paranóide que leva esse nome justamente por existir a prevalência dos processos 
de divisão (splitting) e de ansiedade paranóide (defesas de caráter denegatório ou ao 
controle onipotente do objeto), cujas principais características são: 
· a fragmentação do ego; 
· a divisão do objeto externo (a mãe), ou mais particularmente de seu seio, já 
que este é o primeiro órgão com o qual a criança estabelece contato, em seio bom e seio 
mau– o primeiro é aquele que a gratifica infinitamente enquanto o segundo somente lhe 
provoca frustração 
· a agressividade e a realização de ataques sádicos dirigidos à figura 
materna. 
A partir da elaboração e superação destes sentimentos que são a base da 
paranóia e da esquizofrenia, emerge a posição depressiva. Esta tem como principais 
atributos: 
· a integração do ego e do objeto externo (mãe/seio), 
· sentimentos afetivos e defesas relativas à possível perda do objeto em 
decorrência dos ataques realizados na posição anterior; 
· reconhecimento da mãe como pessoa total; 
· existe a prevalência da integração, ambivalência, ansiedade depressiva e 
culpa; 
· as fantasias de perda da mãe atacada levam a criança a desenvolver 
ansiedades depressivas (a criança se defende através de mecanismos maníacos ou com 
intensas inibições da agressividade); 
· os processos de integração, iniciados na fase depressiva, fazem com que a 
criança possa substituir os mecanismos de defesa, tanto psicóticos quanto neuróticos pela 
reparação, sublimação e criatividade. 
Estas posições continuam presentes pelo resto da vida, alternando-se em função 
do contexto, embora a posição depressiva predomine num desenvolvimento saudável, ela 
jamais superará totalmente a esquizo-paranóide. 
Na sua prática Klein percebe que as crianças têm uma imagem de mãe dotada de 
uma imensa malvadeza, o que, na maioria das vezes, não corresponde à mãe verdadeira. 
Daí surge o conceito de fantasia kleiniano, a partir da hipótese de que as crianças estão 
lidando com uma deformação da mãe real,a qual é criada na mente do infante de modo 
fantasmático. 
 Melanie Klein apoiou toda sua teoria na ênfase das fantasias inconscientes, 
presentes nas relações objetais primitivas e de acordo com ela as fantasias são inatas no 
sujeito, uma vez que são as representantes dos instintos, tanto os libidinais quanto os 
agressivos, os quais agem na vida desde o nascimento. 
Elas apresentam componentes somáticos e psíquicos, dando origem a 
processos pré-conscientes e conscientes, e acabam por determinar, desta 
forma, a personalidade. Pode-se concluir que as fantasias são a forma de 
funcionamento mental primária, de extrema importância neste período 
inicial da vida. 
A fantasia pode ser definida como a representante psíquica do instinto e expressa 
a realidade de sua fonte, interna e subjetiva, embora esteja ligada à realidade objetiva. Ela 
se transforma de acordo com o desenvolvimento, no decorrer das experiências corporais, 
sendo ampliada e elaborada, influenciando e sendo influenciada pelo ego em maturação. 
Segundo Riviere (1986b), seguidora de Melanie Klein, a vida de fantasia do indivíduo pode 
ser entendida como “a forma como suas sensações e percepções reais, internas e 
externas, são interpretadas e representadas para ele próprio, em sua mente, sob a 
influência do princípio de prazer-dor”. 
Partindo de obras freudianas, a estudiosa em questão toma como principal 
ponto de enfoque das fantasias sua dimensão imaginária. Para a 
autora, a atividade fantasmática está presente na vida desde o nascimento 
– embora as fantasias primitivas sejam processos altamente desconexos, 
instáveis e contraditórios. Qualquer estímulo sentido pela criança é um 
potencial eliciador de fantasias, tanto os agressivos – os quais acarretam 
fantasias agressivas – quanto os prazerosos – os quais, por sua vez, são 
causadores de fantasias calcadas no prazer. 
O primeiro alvo das fantasias da criança é o corpo da mãe, já que 
ela é o principal objeto com o qual a criança se relaciona em seus primeiros 
dias de vida. As fantasias acerca da exploração do corpo materno são de 
extrema importância para a descoberta do mundo externo pela criança. A 
pulsão de exploração, fundamental para os trabalhos artísticos e científicos, 
tem sua base nestas fantasias (Klein, 1996). 
De acordo com a teorização kleniana, as principais atividades 
que podemos concluir como sendo as funções da fantasia são: 
· a realização de desejos; 
· a negação de fatos dolorosos; 
· a segurança em relação aos fatos aterrorizadores do mundo externo; 
· o controle onipotente – já que a criança, em fantasia, não apenas deseja um 
acontecimento como realmente acredita fazer com que ele 
aconteça –; 
· a reparação, dentre outras. 
O funcionamento inicial da criança é através da vida de fantasia, 
a qual, progressivamente, através das relações objetais, cederá lugar às 
emoções mais complexas e aos processos cognitivos. 
 
 Posição paranoide 
 
 Melanie Klein criou esta expressão para caracterizar uma das fases do desenvolvim
ento infantil, juntamente com aposição depressiva. 
Estas fases são mais tarde, ao longo da vida do adulto, reavivadas por diversas situações, 
em que se revivem asmesmas sensações e emoções. 
Segundo Melanie Klein, a posição paranoide é uma modalidade das relações de objeto es
pecífica dos quatro primeirosmeses da existência do bebé, mas que pode ser encontrada p
osteriormente no decorrer da infância e, no adulto,particularmente nos estados paranoico e
 esquizofrénico. Caracteriza-
se pelos seguintes aspetos: as pulsões agressivas coexistem desde o início com as pulsõe
s libidinais e sãoparticularmente fortes; o objeto, isto é, a mãe ou a prestadora de cuidados
 maternais, é parcial (principalmente o seiomaterno) e clivado em dois, o "bom" e o "mau" 
objeto. 
Os processos psíquicos predominantes e que são usados contra a angústia paranoide são
 a introjeção e a projeção.Esta angústia, intensa, é de natureza persecutória (destruição do
 "mau" objeto). E só termina quando esta posição dálugar à posição depressiva. 
 
As Origens da Transferência, segundo Melanie Klein 
 
M.K. diz que a transferência opera ao longo de toda a vida e influencia todas as 
relações humanas, mas está preocupada apenas com as manifestações da transferência 
na psicanálise. E que o trabalho psicanalítico vai abrindo caminho dentro do inconsciente 
do paciente, seu passado vai sendo gradualmente revivido, quanto mais profundamente se 
consegue penetrar dentro do inconsciente e quanto mais longe no passado for levada a 
análise, maior será a compreensão da transferência e para isto é necessário tomar 
conhecimento dos estágios mais iniciais do desenvolvimento humano. 
 A primeira forma de ansiedade é de natureza persecutória. O trabalho 
interno da pulsão de morte, segundo Freud, é dirigido contra o organismo, dando origem 
ao medo de aniquilamento, sendo essa a causa primordial da ansiedade persecutória. O 
bebê dirige seus sentimentos de gratificação e amor para o seio “bom” e seus impulsos 
destrutivos e sentimentos de perseguição para aquilo que sente como frustrador, o seio 
“mau”. Nesse estágio, os processos de cisão, negação, onipotência e idealização, são 
predominantes durante os 3 ou 4 meses de vida – “posição esquizo-paranóide”, 1946. A 
ansiedade persecutória e seu contrário, a idealização, influenciam as relações de objeto 
(relação entre 2 pessoas, não entrando nenhum outro objeto). 
 É próprio da vida emocional do bebê que haja rápidas flutuações entre 
amor e ódio; entre situações externas e internas; entre a percepção da realidade e 
fantasias sobre ela; um interjogo entre a ansiedade persecutória e a idealização, sendo o 
objeto idealizado um corolário do jogo do objeto persecutório, extremamente mau. O 
núcleo do superego é o seio da mãe, tanto o bom quanto o mau. 
 A crescente capacidade do ego de integração e síntese dá origem à 
segunda forma de ansiedade, a depressiva. Entre o quarto e o sexto mês a ansiedade 
depressiva é intensificada, pois o bebê sente que destruiu ou está destruindo um objeto 
inteiro com sua voracidade e agressão incontroláveis e que estes impulsos são dirigidos 
contra uma pessoa amada; cuja essência é a ansiedade e a culpa relativa à destruição e 
perda dos objetos amados internos e externos. 
 É nesse estágio que se instala o complexo de Édipo. A ansiedade e a 
culpa acrescentam um impulso em direção ao início do complexo de Édipo, aumentando a 
necessidade de externalização (projetar) figuras más e internalizar (introjetar) figuras boas; 
de encontrar representantes de figuras internas no mundo externo. 
 O impulsionamento da libido, a crescente integração do ego, das 
habilidades físicas e mentais e a adaptação progressiva ao mundo externo, vão levando o 
bebê em direção aos novos alvos, dos desejos orais em direção aos desejos genitais. 
 Para M.K., o auto-erotismo e o narcisismo incluem o amor pelo objeto bom 
internalizado e a relação com o mesmo, o qual, na fantasia, constitui parte do corpo e do 
self amados. As relações de objeto estão no centro da vida emocional. 
 Sustenta que a transferência origina-se dos mesmos processos que, nos 
estágios iniciais, determinam as relações de objeto. Na análise temos de voltar 
repetidamente às flutuações entre objetos amados e odiados, externos e internos, que 
dominam o início da infância. A análise da transferência negativa constitui uma 
precondição para analisar as camadas mais profundas da mente. A análise tanto da 
transferência negativa quanto da positiva é um tratamento indispensável para o tratamento 
detodos os tipos de pacientes, crianças e adultos igualmente. Devido às pulsões de vida e 
de morte (amor e ódio) estarem na mais estreita interação, a transferência positiva e a 
negativa encontram-se basicamente interligadas. 
 O analista pode representar uma parte do self, do superego, ou qualquer 
uma de uma ampla gama de figuras internalizadas. Também supor que o analista 
representa o pai ou a mãe real não o levará muito longe, a menos que compreenda qual 
aspecto dos pais está sendo revivido. O que é revivido ou torna-se manifesto na 
transferência é a mistura, na fantasia do paciente, dos pais como uma única figura “a 
figura dos pais combinados”. Estes pais estão combinados numa permanente gratificação 
mútua de natureza oral, anal e genital, sendo o protótipo de situações tanto de inveja 
quanto de ciúme. 
 Falar da situação de transferência é falar de situações totais transferidas 
do passado para o presente, bem como em termos de emoções, defesas e relações de 
objeto. 
 A concepção de transferência para M.K. é algo enraizado nos estágios 
mais iniciais do desenvolvimento e nas camadas profundas do inconsciente, envolvendo 
uma técnica através da qual os elementos inconscientes da transferência são deduzidos a 
partir da totalidade do material apresentado. O paciente se afasta do analista como tentou 
afastar-se de seus objetos primários; tenta cindir a relação com ele, mantendo-o ou como 
uma figura boa, ou como uma figura má, deflete alguns sentimentos e atitudes vividos em 
relação ao analista para outras pessoas em sua vida cotidiana, e isto faz parte da atuação. 
 Para ela, M.K., é impossível encontrar acesso às emoções e relações de 
objeto mais antigas a menos que se examinem suas vicissitudes à luz de 
desenvolvimentos posteriores. Somente através da ligação contínua das experiências mais 
recentes com as anteriores e vice-versa, somente explorando consistentemente a 
interação dessas experiências é que o presente e o passado podem se aproximar da 
mente do paciente. Quando a ansiedade e a culpa diminuem e o amor e ódio podem ser 
melhor sintetizados, os processos de cisão, bem como as repressões, atenuam-se, 
enquanto o ego ganha força e coesão. 
 Um dos fatores que levam à compulsão à repetição é a pressão exercida 
pelas primeiras situações de ansiedade. Quando as ansiedades persecutórias, 
depressivas e a culpa diminuem, há menos premência a repetir continuamente. 
 
Introdução e Objetivo da Pesquisa 
 
Esta pesquisa está centrada nas reflexões da psicanalista Melanie Klein, cuja 
teoria, segundo Joanna Wilheim, gravita em torno da noção da parelha-parental-em-coito-
sádico-unida, em função de cuja existência se estruturam todas as psicopatologias, isto é, 
modificações do modo de vida, do comportamento e da personalidade de um indivíduo, 
que se desviam da norma e/ou ocasionam sofrimento e são tidas como expressão de 
doenças mentais. 
 O fato indiscutível é que, como explica Joanna Wilheim em seus 
escritos, qualquer experiência ocorrida no feto, desde a formação de cada uma de suas 
células, fica retida em uma matriz básica inconsciente na memória celular. Assim, desde 
os primórdios da vida intra-uterina, o feto já pode perceber o som, engolir, sonhar, 
reconhecer a voz da mãe, e, em conseqüência, expressar estados emocionais de agrado e 
desagrado. 
 Portanto, da mesma forma que devemos ter o máximo cuidado com nossas 
atitudes e com o que dizemos perto de uma pessoa falecida, que de morta não tem nada, 
precisamos estar absolutamente atentos com o nosso comportamento durante a gestação. 
O que for gravado na memória do feto produzirá conseqüências em toda a sua vida futura. 
 
Breve Biografia de Melanie 
 
Melanie Klein (Viena, 30 de março de 1882 – Londres, 22 de setembro de 1960) 
foi uma das maiores psicanalistas da história. Seguidora de Freud, com genialidade e 
amor à verdade erigiu uma escola com pensamentos próprios e distintos. Uma amiga, 
quando Klein, em 1935, insistia que era uma freudiana, discordou, dizendo: — agora já é 
tarde; você é uma Kleiniana. Seja como for, Melanie Klein é considerada como uma 
psicoterapeuta pós-freudiana. 
 São três os pilares fundamentais da Teoria Kleiniana. Primeiramente, existe um 
mundo interno, formado a partir das percepções do mundo externo, colorido com as 
ansiedades do mundo interno. Com isto, os objetos, as pessoas e as situações adquirem 
um colorido todo especial. O seio materno, primeiro objeto de relação da criança com o 
mundo externo, tanto é percebido como seio bom, quando amamenta, quanto é percebido 
como seio mau, quando não alimenta na hora em que a criança assim deseja. Como é 
impossível satisfazer a todos os desejos da criança, invariavelmente ela possui os dois 
registros deste seio: um bom e um mau. Este conceito também é muito importante no 
estudo da formação dos símbolos e no desenvolvimento intelectual. 
 Em segundo lugar, Melanie Klein admitia que os bebês sentem, logo quando 
nascem, dois sentimentos básicos: amor e ódio. É como se a vida fosse um filme em 
branco e preto: ou se ama ou se odeia. É fácil, portanto, perceber que a criança ama 
o seio bom e odeia o seio mau. O problema é que na fantasia da criança, o seio mau, esse 
objeto interno, vai se vingar dela pelo ódio e pela destrutividade direcionados a ele. Este 
medo de vingança é chamado de ansiedade persecutória. Quando estamos diante de um 
perigo, como, por exemplo, quando caminhando em um parque e nos defrontamos com 
uma cobra, temos o instinto de fugir. Esta reação diante do perigo é chamada em 
Psicanálise de defesa. O conjunto da ansiedade persecutória e suas respectivas defesas 
são chamados por Klein de posição esquizo-paranóide. 
 Enfim, com o desenvolvimento, o bebê percebe que o mesmo objeto que odeia 
(seio mau) é o mesmo que ama (seio bom). Ele percebe que ambos os registros fazem 
parte de uma mesma pessoa. Agora, nesta fase, o bebê teme perder o seio bom, pois 
teme que seus ataques de ódio e voracidade o tenham danificado ou morto. Este temor da 
perda do objeto bom é chamado por Klein de ansiedade depressiva. O conjunto da 
ansiedade depressiva e as respectivas defesas do ego é chamado por Klein de posição 
depressiva. 
 O conceito de posições é muito importante na Escola Kleiniana, pois o psiquismo 
funciona a partir delas, e todos os demais desenvolvimentos são invariavelmente 
baseados em seu funcionamento. Neste sentido, o desenvolvimento em fases, proposto 
por Freud (fase oral, fase anal e fase genital), é aqui substituído por um elemento mais 
dinâmico do que estático, pois as três fases estão presentes no bebê desde os três 
primeiros meses de vida. Klein não nega esta divisão, muito pelo contrário, mas dá a elas 
uma dinâmica até então ainda não vista na Psicanálise. 
 Aliás, é esta palavra que distingue o pensamento kleiniano do freudiano. Para 
Klein, o psiquismo tem um funcionamento dinâmico entre as posições esquizo-paranóide e 
depressiva, que se inicia como o nascimento e termina com a morte. Todos os problemas 
emocionais, como neuroses, esquizofrenias e depressões são analisados a partir destas 
duas posições. Por isto, em uma análise kleiniana, não se trata de trabalhar os conteúdos 
reprimidos, é preciso equacionar as ansiedades depressivas e as ansiedades 
persecutórias. É necessário que o paciente perceba que o mundo não funciona em preto e 
branco, e que é possível amar e odiar o mesmo objeto, sem medo de destruí-lo. Em outras 
palavras: não adianta trabalhar o sintoma (neurose) se não forem trabalhados os 
processos que levaram seus surgimentos (ansiedade persecutória e ansiedade 
depressiva). 
 Na primavera de 1960,Melanie Klein ficou anêmica. Foi operada de um câncer 
do cólon em setembro. Morreu aos 78 anos, no dia 22 de setembro. Seu corpo foi 
cremado. 
 
Reflexões Kleinianas 
 
Desde o início da vida existem relações de objeto. 
 Quando as ansiedades persecutória e depressiva e a culpa diminuem, há menos 
premência a repetir antigos padrões. 
O complexo de Édipo1 pode ser claramente observado em crianças de três, quatro 
ou cinco anos de idade. Este complexo existe, no entanto, muito mais cedo, e está 
enraizado nas primeiras suspeitas que o bebê tem de que o pai tira dele o amor e a 
atenção da mãe. Há grandes diferenças entre o complexo de Édipo da menina e o do 
menino, que eu caracterizarei dizendo apenas que enquanto o menino, em seu 
desenvolvimento genital, retorna ao seu objeto original, a mãe, e, portanto, busca objetos 
femininos, com conseqüentes ciúmes em relação ao pai e aos homens em geral, a menina 
deve, em alguma medida, se afastar da mãe e encontrar o objeto de seus desejos no pai 
e, mais tarde, em outros homens. Fiz esta exposição, no entanto, em uma forma 
demasiado simplificada, porque o menino se sente atraído pelo pai e se identifica com ele 
e, portanto, um elemento de homossexualidade faz parte do desenvolvimento normal. O 
mesmo se aplica à menina, para quem a relação com a mãe e com as mulheres em geral 
nunca perde a importância. O Complexo de Édipo, assim, não é apenas uma questão de 
sentimentos de ódio e rivalidade dirigidos a um dos pais e amor dirigido ao outro: 
sentimentos de amor e o sentimento de culpa também entram em conexão com o 
progenitor rival. Assim, muitas emoções conflitantes centram-se no Complexo de Édipo. 
 A imagem que você projetar de si no espelho é a mesma que os outros estão 
vendo. Agora sorria e perceba como tudo se transforma à sua volta. 
 O que faz com que alguém se torne atraente e popular não é a aparência, 
acredite. É a auto-estima. Na gratificação alucinatória, ocorrem dois processos 
interligados: a evocação onipotente do objeto e situações ideais e o igualmente onipotente 
aniquilamento do mau objeto persecutório e da situação dolorosa. Estes processos se 
baseiam na divisão do objeto e do ego. 
 Informação é resistência ao choque. Informe-se. 
Com a repressão moderada, o inconsciente e o consciente têm mais 
possibilidades de se manterem 'porosos' em suas relações mútuas e, portanto, aos 
impulsos e seus derivativos, e é permitido, em certa medida, emergirem repetidas vezes 
do inconsciente e se sujeitarem a um processo de seleção e rejeição pelo ego. A escolha 
dos impulsos, das fantasias e dos pensamentos que têm que ser reprimidos depende da 
crescente capacidade do ego para aceitar os padrões dos objetos externos. 
O segredo da vida é, acima de qualquer coisa, procurar evoluir, pois tudo tem dois 
lados e um porquê! Mesmo que uma flor morra, outra nascerá no lugar. Embora não seja 
igual, ela exalará o mesmo odor. Os outros vêem você como você se vê. 
 Meu trabalho psicanalítico me convenceu de que quando na mente do bebê os 
conflitos entre amor e ódio surgem, os medos de perder o ser amado se tornam ativos. 
 A cura da neurose infantil é a melhor profilaxia contra a neurose do adulto. O jogo é uma 
realização de desejo. 
 Em minha experiência, aparece nas crianças uma plena neurose de 
transferência, de maneira análoga como surge nos adultos. Quando analiso crianças, 
observo que seus sintomas mudam, que se acentuam ou diminuem de acordo com a 
situação analítica. Observo nelas a ab-reação de afetos em estreita conexão com o 
progresso do trabalho em relação a mim. Observo que surge angústia e que as reações da 
criança são resolvidas no terreno analítico. Pais que observam seus filhos cuidadosamente 
e com freqüência me contam que se surpreendem ao ver reaparecer hábitos que haviam 
desaparecido há muito tempo. Não encontrei crianças que expressem suas reações 
quando estão em sua casa da mesma maneira que quando estão comigo: em sua maior 
parte reservam a descarga para a sessão analítica. Certamente, ocorre que, às vezes, 
quando estão emergindo violentamente afetos muito poderosos, algo da perturbação se 
torna chamativo para os que rodeiam a criança, mas isto só é temporário e tampouco pode 
ser evitado na análise de adultos. 
Acredito que o ego seja incapaz de dividir objetos – internos e externos – sem que 
haja uma correspondente divisão ocorrendo dentro do ego. Se extinguirmos o método 
freudiano de respeitar o ambiente analítico e respondermos ao material da criança com 
interpretações, prescindindo de toda a medida pedagógica, a situação analítica se 
estabelece igual (ou melhor) que no adulto, e a neurose de transferência, que constitui o 
âmbito natural de nosso trabalho, se desenvolve plenamente. É uma parte essencial do 
trabalho interpretativo se manter em sintonia com flutuações entre o amor e o ódio, ou 
seja, entre a felicidade e a satisfação, de um lado, e a ansiedade persecutória e a 
depressão, de outro. 
 A identificação projetiva se liga aos processos de desenvolvimento que surgem 
durante os três ou quatro primeiros meses de vida (a posição esquizo-paranóide) quando a 
divisão está no seu máximo e predomina a ansiedade persecutória. O ego está ainda, em 
grande parte, não-integrado e, por conseguinte, passível de dividir a si, a suas emoções e 
a seus objetos internos e externos, embora a divisão seja também uma das defesas 
fundamentais contra a ansiedade persecutória. Outras defesas oriundas neste estágio são 
a idealização, a negação e o controle onipotente dos objetos internos e externos. A 
identificação pela projeção implica uma combinação de expelir partes do eu e de projetá-
las sobre outra pessoa (ou melhor) dentro dela. Tais processos apresentam muitas 
ramificações e influenciam fundamentalmente as relações de objeto. 
 As variações na intensidade dos fatores constitucionais acham-se ligadas à 
preponderância de um ou outro dos instintos na fusão dos instintos de vida e de morte 
postulada por Freud. Acredito existir uma vinculação entre esta preponderância de um ou 
outro dos instintos e a força ou debilidade do ego. A ameaça de aniquilamento pelo 
instinto de morte dentro é a ansiedade primordial. É o ego que, a serviço do instinto de 
vida – possivelmente chamado mesmo à atividade pelo instinto de vida – desvia, até certo 
ponto, esta ameaça para fora. Esta defesa fundamental contra o instinto de morte foi 
atribuída por Freud ao organismo, enquanto que eu considero tal processo como a 
atividade principal do ego. 
 Embora em várias proporções, há sempre uma interação dos impulsos libidinais e 
agressivos, correspondendo à fusão dos instintos de vida e de morte. O predomínio dos 
sentimentos de frustração ou de gratificação nas relações do bebê com o seio é, sem 
dúvida, largamente influenciado, num sentido ou em outro, pelas circunstâncias externas, 
mas também restam poucas dúvidas de que os fatores constitucionais, influenciando 
desde o princípio o robustecimento do ego, têm de ser levados na devida conta. Fiz antes 
a sugestão de que a capacidade do ego para suportar a ansiedade e a tensão, e, portanto, 
numa certa medida, para tolerar a frustração, é um fator constitucional. Esta maior 
capacidade inata para suportar a ansiedade parece depender, basicamente, da 
prevalência da libido sobre os impulsos agressivos, quer dizer, do papel que o instinto de 
vida desempenha, desde o princípio, na fusão dos dois instintos. 
 O seio 'bom' que amamenta e inicia a relação amorosa com a mãe é o 
representante do instinto de vida, sendo também sentido como a primeira manifestação da 
criatividade. Tudo é possível. A inveja contribui para as dificuldades do bebê em construirseu objeto bom, porque ele sente que a gratificação de que se viu privado foi guardada 
para si mesmo pelo seio que o frustrou. A inveja é o sentimento irado de que outra pessoa 
possui e desfruta de algo desejável, sendo o impulso invejoso tirá-lo dela ou espoliá-la. 
 A inveja inconsciente se manifesta no início da infância como inveja primária. 
 Conjuntamente com as experiências felizes, ressentimentos inevitáveis reforçam 
o conflito inato entre o amor e o ódio, ou na verdade, basicamente, entre os instintos de 
vida e de morte, resultando na sensação de existirem um seio bom e um seio mau. Em 
conseqüência disto, a mais primitiva vida emocional se caracteriza por uma sensação de 
perda e recuperação do objeto bom. Ao falar de um conflito inato entre o amor e o ódio, 
estou subentendendo que a capacidade tanto para o amor quanto para os impulsos 
destrutivos é, até certo ponto, constitucional, embora variando individualmente em 
intensidade e interatuando, desde o início, com as condições externas. 
 Além das experiências de gratificação e frustração derivadas de fatores externos, 
uma série de processos endopsíquicos – primordialmente, a introjeção e a projeção – 
contribui para a relação dupla com o primeiro objeto. O bebê projeta os seus impulsos de 
amor e os atribui ao seio gratificador (bom), assim como projeta os seus impulsos 
destrutivos e os atribui ao seio frustrador (mau). Simultaneamente, pela introjeção, um 
bom seio e um mau seio são estabelecidos dentro do bebê. Assim, a imagem do objeto, 
externo e internalizado, é distorcida na mente infantil pelas suas fantasias, que estão 
vinculadas à projeção de seus impulsos sobre o objeto. O seio bom – externo e interno – 
converte-se no protótipo de todos os objetos prestimosos e gratificadores; o seio mau é 
protótipo de todos os objetos persecutórios internos e externos. 
 A projeção de sentimentos de amor – subjacente no processo de associação da 
libido ao objeto – é uma precondição para encontrar um bom objeto. A introjeção de um 
bom objeto estimula a projeção de bons sentimentos, e isto, por sua vez fortalece, pela 
reintrojeção, o sentimento de posse de um bom objeto interno. À projeção do eu-mau no 
objeto e no mundo externo corresponde a projeção de boas partes do eu ou de todo o eu-
bom. A reintrojeção do bom objeto e do eu-bom reduz a ansiedade persecutória. Assim, a 
relação com o mundo interno e externo melhora simultaneamente, e o ego ganha em vigor 
e em integração. 
 No que diz respeito ao ego, o excessivo destaque e expulsão no mundo externo 
de partes do eu o enfraquece consideravelmente, pois o componente agressivo dos 
sentimentos e da personalidade está intimamente associado, na mente, com o poder, a 
potência, a força, o conhecimento e muitas outras qualidades desejadas. 
 Estes processos, presentes desde o início da vida, podem ser considerados de 
acordo com as seguintes formulações: 
a) um ego que tem alguns rudimentos de integração e coesão e progride cada vez 
mais nesta direção. Desempenha também, desde o começo da vida pós-natal, algumas 
funções fundamentais; assim, usa os processos de divisão e de inibição dos desejos 
instintivos como defesas contra a ansiedade persecutória – que é sentida pelo ego desde 
o nascimento; 
b) relações objetais, que são modeladas pela libido e agressão, pelo amor e o 
ódio, e impregnadas, por uma parte, de ansiedade persecutória e, por outra parte, pelo seu 
corolário, a reafirmação onipotente e tranqüilizadora que deriva da idealização do objeto; e 
c) introjeção e projeção, vinculadas à vida de fantasia do bebê e a todas as suas 
emoções; conseqüentemente, objetos internalizados de boa e má natureza, que dão início 
ao superego. 
 Todos estes desenvolvimentos estão refletidos na relação do bebê com a mãe (e, 
em certa medida, com o pai e outras pessoas). A relação com a mãe como pessoa, que se 
desenvolveu gradualmente enquanto o seio ainda figurava como o principal objeto, torna-
se, agora, mais completamente estabelecida, e a identificação com ela ganha em vigor 
quando a criança pode perceber e introjetar a mãe como uma pessoa (ou, por outras 
palavras, como um 'objeto completo'). 
 A formação de símbolo começa tão cedo quanto as relações objetais, e distúrbios 
na relação com objeto se refletem em distúrbios na formação de símbolo. 
 O impulso para realizar reparações pode ser considerado uma conseqüência da 
mais profunda percepção da realidade psíquica e de uma síntese crescente, pois revela 
uma reação mais realista aos sentimentos de pesar, culpa e medo de perda resultantes da 
agressão contra o objeto amado. Como o impulso para reparar ou proteger o objeto 
danificado abre o caminho para relações objetais e sublimações mais satisfatórias, 
incrementa, por sua vez, a síntese e contribui para a integração do ego. 
 A ansiedade relacionada com a mãe internalizada que se sente ter sido 
danificada, estar sofrendo, em perigo de aniquilamento ou já aniquilada e perdida para 
sempre, leva a uma identificação mais forte com o objeto lesado. Esta identificação 
reforça, ao mesmo tempo, o impulso reparador e as tentativas do ego para inibir os 
impulsos agressivos. Contudo, se o ego for incapaz de enfrentar as múltiplas e severas 
situações de ansiedade que surgem neste estágio – um fracasso determinado por fatores 
internos, assim como por experiências externas – poderá, então, ocorrer uma forte 
regressão da posição depressiva para a anterior posição esquizo-paranóide. 
 Cheguei à conclusão de que o amor e o ódio para com a mãe estão vinculados à 
capacidade da criança, em idade muito tenra, de projetar todas as suas emoções sobre 
ela, tornando-a, assim, tanto um objeto bom como perigoso. A introjeção e a projeção, no 
entanto, embora tenham raízes na infância, não são apenas processos infantis. 
Constituem parte das fantasias da criança, que segundo me parece também operam 
desde o começo e ajudam a plasmar sua impressão do ambiente; e pela introjeção este 
quadro modificado do mundo externo influencia o que se passa em sua mente. Deste 
modo, estrutura-se um mundo interno que é, em parte, reflexo do externo, isto é: o duplo 
processo de introjeção e de projeção para a interação entre os fatores externos e internos. 
Esta interação continua através de cada estágio da vida. Da mesma forma, a introjeção e a 
projeção prosseguem pela vida afora, e se modificam no curso da maturação; mas nunca 
perdem sua importância na relação do indivíduo para com o mundo que o cerca. Mesmo 
no adulto, portanto, o julgamento de realidade jamais está inteiramente isento da influencia 
do seu mundo interno. Uma das características das relações esquizóides é um acentuado 
artificialismo e falta de espontaneidade, a par de um grave distúrbio do sentimento do eu 
ou da relação com o eu. Por outras palavras: a realidade psíquica e a relação com a 
realidade externa estão extremamente perturbadas. 
 Uma das muitas experiências interessantes e surpreendentes na análise de 
crianças é encontrar em crianças muito jovens a capacidade de percepção que, muitas 
vezes, é muito maior do que a dos adultos. Sentimentos de amor e gratidão surgem direta 
e espontaneamente no bebê em resposta ao amor e cuidado de sua mãe. A própria 
experiência de sentimentos depressivos tem, por seu turno, o efeito de provocar a 
integração do ego, visto facilitar uma crescente compreensão da realidade psíquica e a 
melhor percepção do mundo externo, assim como a síntese cada vez maior entre as 
situações internas e externas. 
 À medida que o ego vai evoluindo, se estabelece, gradualmente, a partir desta 
realidade irreal, uma verdadeira relação com a realidade. Por conseguinte, o 
desenvolvimento do ego e a relação coma realidade dependerão do grau de capacidade 
do ego, numa etapa muito recuada, para tolerar a pressão das primeiras situações de 
ansiedade. 
 Os processos de síntese operam em toda a extensão das relações objetais 
internas e externas. Compreendem os aspectos contrastantes dos objetos internalizados 
(início do superego), por uma parte, e dos objetos externos, por outra; mas o ego também 
é impelido a diminuir a discrepância entre as figuras internas e externas. Em conjunto com 
estes processos sintéticos, registram-se novos passos na integração do ego, o que resulta 
em uma coerência maior entre as partes destacadas do ego. Todos estes processos de 
integração e síntese fazem que o conflito entre amor e ódio atinja sua plena força. A 
conseqüente ansiedade depressiva e os sentimentos de culpa alteram-se não só em 
quantidade, mas, também, em qualidade. A ambivalência é agora experimentada, de modo 
predominante, em relação a um objeto completo. Os passos de integração e síntese 
descritos resultam em uma capacidade maior do ego em reconhecer a realidade psíquica 
cada vez mais pungente. 
 Como, fundamentalmente, a tendência reparadora deriva do instinto de vida, traz 
consigo fantasias e desejos libidinais. Esta tendência participa em todas as sublimações e, 
deste estágio em diante, constituirá sempre o grande meio pelo qual a depressão é 
mantida sob controle e diminuída. Além disso, essa atitude mais realista em face da 
frustração – o que implica que o medo persecutório respeitante aos objetos internos e 
externos diminuiu – acarreta uma capacidade maior de restabelecimento, quando a 
experiência de frustração já não se faz sentir. Por outras palavras, a crescente adaptação 
à realidade – associada às mudanças na ação da introjeção e projeção – resulta em uma 
relação mais segura com os mundos interno e externo, o que acarreta uma diminuição da 
ambivalência e da agressão, possibilitando aos impulsos reparadores que desempenhem 
seu papel. 
A natureza das fantasias inconscientes e o modo como elas estão relacionadas 
com a realidade externa determinam o funcionamento psíquico do indivíduo. No 
funcionamento psíquico, as relações com os objetos externos são mediadas pelas 
fantasias inconscientes, que dão origem aos objetos internos. Portanto, relações e objetos 
(ou situações externas) não devem ser simplesmente traduzidas em relações internas. 
 A introjeção e a projeção funcionam desde o começo da vida pós-natal como uma 
das atividades mais primitivas do ego, que, a meu, ver opera a partir do nascimento. 
Considerada sob este ângulo, a introjeção significa que o mundo externo, seu impacto, as 
situações que a criancinha vive e os objetos que ela encontra são experimentados não só 
como externos, mas são recebidos dentro do eu e se tornam parte da vida interna dela. A 
vida interna não pode ser avaliada mesmo no adulto sem estes acréscimos à 
personalidade que se originam da introjeção contínua. 
 O ego existe e opera desde o nascimento, e tem a importante tarefa de se 
defender contra a ansiedade suscitada pela luta interna. 
 A projeção consiste na capacidade de a criança atribuir a outras pessoas à sua 
volta sentimentos de diversos tipos, predominantemente o amor e o ódio, sentimentos que, 
na realidade, são dela, pois derivam da projeção de suas emoções nos outros, 
principalmente na mãe. Tais processos fazem parte das fantasias do bebê, e levam à 
formação de um mundo interno, que é parcialmente um reflexo do mundo externo. Neste 
sentido, os processos de introjeção e projeção contribuem para a interação entre fatores 
internos e externos, e devem ser considerados como fantasias inconscientes. 
 Os precursores do superego – camadas mais profundas do inconsciente – se 
organizam desde o nascimento. O objeto não seria sentido como parte da mente, no 
sentido que aprendemos do superego, como a voz dos pais dentro da mente da pessoa. 
Este conceito de superego só seria encontrado nas camadas mais superficiais do 
inconsciente. No entanto, em camadas mais profundas, o objeto interno é sentido como 
um ser físico, ou, ainda, como uma multidão de seres, que, com todas suas atividades 
amistosas e hostis, têm abrigo dentro do corpo da pessoa. 
 A criança, muito antes dos quatro ou cinco anos de idade, sofre de fobias. A 
criança, desde os primeiros meses de vida, demonstra estar à mercê de ansiedades 
persecutórias, que encontram expressão nas fobias arcaicas. 
 O ambiente tem efeitos extremamente importantes na tenra infância e na infância 
posterior; mas daí não se pode concluir que, sem um ambiente mau, não existiriam 
fantasias e ansiedades agressivas e persecutórias. 
 Os processos mentais nascem do inconsciente, a partir das necessidades 
instintuais. As fantasias são, portanto, expressões mentais dos instintos – uma 
representação psíquica dos instintos libidinais e destrutivos. Neste sentido, a atividade do 
fantasiar tem suas raízes nas pulsões, da qual é um corolário. 
 Se encaramos nosso mundo adulto do ponto de vista de suas raízes na infância, 
ganhamos uma compreensão interna ('insight') da maneira pela qual nossa mente, nossos 
hábitos e nossos conceitos se estruturaram a partir das fantasias e emoções da mais tenra 
infância até as manifestações adultas mais complexas e elaboradas. Há mais uma 
conclusão a ser inferida, ou seja, de que nada que alguma vez existiu no inconsciente 
perde inteiramente sua influência sobre a personalidade.2 (Grifo meu). 
 As experiências externas são de suprema importância durante a vida. Contudo, 
muito depende, mesmo na criancinha, das maneiras pelas quais ela vai interpretar e 
assimilar as influências externas; e isto depende em grande parte da intensidade com que 
atuam os impulsos destrutivos e as ansiedades persecutórias e depressivas. 
 Ao considerar, do ponto de vista psicanalítico, o comportamento das pessoas no 
seu ambiente social, é necessário investigar como o indivíduo se desenvolveu desde a 
infância até a maturidade. Um grupo – seja pequeno, seja grande – consta de indivíduos 
em um relacionamento recíproco; e, portanto, a compreensão da personalidade é o 
fundamental para compreender a vida al. (Grifo meu). 
 Na medida que a idealização deriva da necessidade de ser protegido contra os 
objetos perseguidores, a idealização é um método de defesa contra a ansiedade. 
É em fantasia que o bebê divide o objeto e o eu, mas o efeito desta fantasia é 
bastante real, pois conduz a sentimentos e relações (e, mais tarde, a processos de 
pensamentos) que estão, de fato, desligados uns dos outros. 
 A solidão, como toda estrutura do inconsciente formada no psiquismo, é um 
resultado freqüente de estruturas vividas nas socializações primária e secundária do 
indivíduo. O que está na origem da solidão são os seis primeiros meses de vida da 
criança. 
 
 Esquizofrenia = divisão. 
 
Um fator de desenvolvimento de importância básica é a capacidade do ego 
prematuro de tolerar a ansiedade. 
A ansiedade se origina da agressão. 
 O ego tem ainda um outro meio de controlar aqueles impulsos destrutivos que 
ainda permanecem no organismo. Pode mobilizar uma parte deles como uma defesa 
contra a outra parte. Deste modo, o id sofrerá uma cisão que é o primeiro passo na 
formação das inibições pulsionais e do superego. 
 Se uma pessoa normal for posta sob uma grave pressão interna ou externa, ou 
se ela adoece ou falha de algum modo, podemos observar nela a operação plena e direta 
das suas situações de ansiedade mais profundas. 
 Introjeções simultâneas de objetos que, de fato, têm uma boa disposição operam 
em direção oposta e diminuem a força do medo das imagos aterrorizadoras. As 
tendências destrutivas, cujo objeto é o útero, também sãodirigidas com toda a sua 
intensidade sádico-oral e sádico-anal contra o pênis do pai que estaria localizado lá dentro. 
 A pulsão epistemofílica e o desejo de se apossar do objeto estão intimamente ligados 
desde muito cedo. 
 As fantasias da menina, em que tenta destruir ambos os pais por inveja e ódio, 
são a origem do seu mais profundo sentimento de culpa, e, ao mesmo tempo, formam a 
base das suas mais esmagadoras situações de perigo. No estágio mais arcaico do 
desenvolvimento do indivíduo, seu ego não está suficientemente apto a tolerar sua 
ansiedade pulsional e o medo que sente dos objetos internalizados, e tenta se proteger em 
parte por meio da escotomização e da negação da realidade psíquica. As angústias mais 
arcaicas são as angústias de aniquilamento. 
 Nenhum sofrimento infligido por fontes externas pode ser tão grande quanto 
aquele infligido em fantasia por um medo contínuo e avassalador de danos e perigos 
internos. 
 O medo mais profundo da menina é o de ter o interior do seu corpo assaltado e 
destruído. O instinto de destruição, sendo dirigido contra o organismo, é um perigo para o 
ego. A meu ver, é este perigo que o indivíduo sente sob a forma de angústia. Portanto, a 
angústia nasce da agressividade. 
 A ansiedade evocada na criança pelas suas moções pulsionais destrutivas faz-se 
sentir no ego em duas direções. Em primeiro lugar, implica o aniquilamento de seu próprio 
corpo por seus impulsos destrutivos, o que constitui um medo de seu perigo pulsional 
interno. Em segundo lugar, focaliza seus medos quanto a seu objeto externo, contra quem 
são dirigidos seus sentimentos sádicos, como uma fonte de perigo. A este respeito, 
pareceria que a criança reage ao intolerável medo dos perigos pulsionais transferindo o 
impacto maciço dos perigos pulsionais para o seu objeto, transformando, deste modo, 
perigos internos em perigos externos. 
 A formação do sentimento de culpa é uma conseqüência direta das pulsões 
sádico-destrutivas acompanhada das fantasias inconscientes de ter atacado e danificado 
objetos de que se necessita. O que permite sentir a culpa depressiva é o reconhecimento 
da diferença entre o sujeito e o objeto. 
 À medida que a integração dos objetos progride, sentimentos tanto de natureza 
destrutiva quanto amorosa são experimentados por um mesmo objeto, e isto dá origem a 
profundos e perturbadores conflitos na mente da criança. 
 A posição esquizo-paranóide, na evolução emocional, tende a predominar nos 
primeiros três a cinco meses, e a posição depressiva posteriormente. 
 A ansiedade mais profunda sentida pelas meninas é o desejo sádico, originário 
dos primeiros estágios do conflito Edipiano, de roubar o conteúdo do corpo da mãe, ou 
seja, o pênis do pai. O desenho e a pintura são meios usados para restaurar as pessoas. 
 A ansiedade, que é proeminentemente uma agência inibidora no 
desenvolvimento do indivíduo, é, ao mesmo tempo, um fator de importância fundamental 
na promoção do crescimento de ego e da vida sexual. À medida que a relação com a 
realidade avança, a criança faz uso crescente das relações com seus objetos, e suas 
várias atividades e sublimações são um auxílio contra o medo do superego e dos impulsos 
destrutivos. Meu ponto de partida foi que a ansiedade estimula o desenvolvimento do ego. 
 
Notas: 
1. Segundo Sigmund Freud (1856 – 1939), o Complexo de Édipo verifica-se 
quando a criança atinge o período sexual fálico na segunda infância, quando se dá, então, 
conta da diferença de sexos, tendendo a fixar a sua atenção libidinosa nas pessoas do 
sexo oposto no ambiente familiar. O conceito foi descrito por Freud e recebeu a 
designação de complexo por Carl Jung (1875 – 1961), que desenvolveu semelhantemente 
o conceito de Complexo de Electra (atitude que implica uma identificação tão completa 
com a mãe que a filha deseja, inconscientemente, eliminá-la e possuir o pai). 
 
Interpretação e transferência 
 
O principal instrumento do psicanalista é a interpretação com base teórica de 
referência existencial inconsciente. “No tratamento, comunicação feita ao sujeito, visando-
lhe dar-lhe acesso a esse sentido latente, segundo as regras determinadas pela direção e 
evolução do tratamento”(Laplanche e Pontalis – Interpretação – página 245 – Dicionário da 
Psicanálise – 4º ed – São Paulo – Martins Fontes 
Espera-se através da interpretação do analista que o paciente obtenha “insights” 
que promovam uma nova posição diante de situações passadas, revividas na atualidade 
através do processo transferêncial. 
Além da interpretação, outras ferramentas utilizadas pelo psicanalista visando 
promover elaborações/insights no paciente são o apoio, a sugestão, e o 
manejo.Etchengoyen destaca três dos instrumentos mais importantes utilizados na 
Psicoterapia: Informação, o esclarecimento e a interpretação. 
Informação = algo desconhecido pelo paciente. exemplo: “fumar faz mal a saúde”. 
Interpretar = dar informação ao paciente sobre sua transferência, e espera-se que 
através da interpretação o analisando tenha um insight. 
Esclarecimento = informação técnica; não é transferência do paciente. 
Tão importante quanto informar, interpretar e esclarecer é a Pontuação: quando o 
analista deseja chamar a atenção do paciente para um foco que ele (paciente) não esta 
vendo. Saber pontuar é ensinar o ego a interpretar. Informar, pontuar e esclarecer é mais 
uma questão dinâmica do que técnica. 
Para Melanie Klein a transferência opera ao longo de toda vida. “Na medida em 
que ela começa a abrir caminho dentro do inconsciente do paciente, seu passado vai 
sendo gradualmente revivido. Desse modo, sua premência em transferir suas primitivas 
experiências, relações de objeto e emoções é reforçada, e elas passam a localizar-se no 
psicanalista. Disso decorre que o paciente lida com os conflitos e ansie-dades que foram 
reativados, recorrendo aos mesmos mecanismos e mes-mas defesas, como em situações 
anteriores”. (KLEIN, M. As Origens daTransferência. Obras Completas de Melanie Klein: 
Volume III Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991). 
Klein nos explica detalhadamente os processos de projeção/introjeção, que 
iniciam as primeiras relações de objeto (mãe/seio), originando as posições esquizo-
paranóide e posteriormente a posição depressiva, objetos bons e maus, amor e ódio, nos 
dando uma visão clara sobre a transferência: 
“A transferência origina-se dos mesmos processos que, nos estágios iniciais, 
determinam as relações de objeto. Desta forma, na análise temos que voltar 
repetidamente às flutuações entre objetos amados e odiados, externos e internos, que 
dominam desde o começo da infância”. (KLEIN, M. As Origens da Transferência. página 
76 - Obras Completas de Melanie Klein: Volume III Inveja e gratidão e outros trabalhos 
(1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991). 
É através da transferência negativa que se pode mergulhar profundamente nas 
camadas inconscientes da mente. Ambas as transferências (positivas e negativas) 
encontram-se interligadas. 
“Na transferência o papel do analista pode ser de objeto bom, objeto mau, ambos 
os pais, bondosos ou perseguidores”. (KLEIN, M. As Origens da Transferência. página 77 - 
Obras Completas de Melanie Klein: Volume III Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-
1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991). 
 
Psicanalisar Crianças 
 
A psicanálise segundo Freud, e uma terapêutica eficaz para o tratamento de 
neuroses as “neuroses de transferências”, ou seja: histeria de angustia, histeria de 
conversão e neuroses obsessionais. Em cada uma dessas neuroses o processo de cura 
se dá na relação do analisado com o analista, que no decurso do tratamento, existeuma 
produção de uma transferência, operação inconsciente em si mesma, de uma atualização 
dos desejos inconscientes existentes do analisado sobre a pessoa do psicanalista. Essa 
transferência e essencial no processo de cura e é o caráter comum em que todas essas 
neuroses resultam do processo de cura. Qual então seria o motivo pelo qual seria 
impossível psicanalisar a criança. Segundo a teoria dos estádios, na qual se conduziu o 
tratamento dessas neuroses em adultos, parece não ser possível uma relação entre a 
criança e o analista devido ao seu grau de amadurecimento. 
A tese de Freud e Anna Freud é que o período de latência se situa entre a 
resolução do complexo de Édipo e a puberdade e sua característica é o recalcamento dos 
conflitos da primeira infância. Outro aspecto da objeção teórica para se psicanalisar 
crianças é que a vida da criança está em processo de formação e que seus fantasmas e 
os seus recalcamentos não se encontram ainda distintas daquilo que os deu origem. 
Também podemos ressaltar que alem destes obstáculos teóricos seria ainda importante 
ressaltar o motivo da criança não ser capaz de ter o domínio suficiente da linguagem. E a 
linguagem no processo psicanalítico se constitui no campo de interpretação imprescindível 
ao Psicanalista. 
 
Obstáculos da teoria Psicanalítica e Mélanie Klein no seu projeto 
Psicanalítico. 
 
Diante de todos esses obstáculos teóricos da psicanálise, Mélanie Klein passa a 
utilizar um modelo essencialmente pratico que é o de observar a criança. Na pratica o 
tratamento das neuroses permitiu concluir que a causa determinante das perturbações 
psíquicas deve ser procurada numa fixação da energia psíquica sobre o que passa a ser 
uma representação recalcada, associadas às pulsões sexuais infantis, energia que se 
transforma na produção de sintomas em que as representações recalcadas se 
manifestam. Portanto na relação criança e analista convêm, pois evitar esta fixação que 
pode ser originada pelo recalcamento. O próprio Freud reconhece que se trata mais em 
controlar o desenvolvimento psíquico da criança do que analisar este reconhecimento 
consiste do apoio pratico através dos trabalhos psicanalíticos com adultos. 
 
Função da Analise no Jogo 
 
A analise, portanto deve limitar-se a intervir assim que se manifeste no 
comportamento da criança uma inibição resultante do recalcamento da curiosidade ou de 
um conflito vivido na angustia. A função da analise em síntese não consiste em impedir o 
recalcamento, mas em neutralizar os seus efeitos ulteriores,a fim de que a energia 
psíquica seja novamente utilizada na atividade intelectual. 
 
O “Jogo” 
 
A técnica do jogo revela os desejos e os fantasmas da criança. O que se chama 
de Jogo tem primordialmente a função de facultar ao analista o material associativo 
através do qual se manifestam as representações recalcadas que atuam nas perturbações 
das crianças. Esta técnica e realizada colocando a criança em uma sala com pouca 
mobília, onde é observado por um psicanalista, que poderá associar as suas atividades 
ulteriores, respeitando os princípios de abstinência, que consiste na conduta de cura do 
analista, que implica em não aceitar os pedidos do analisado e em não permitir uma 
relação analítica de uma situação que satisfaça os desejos do analisado. No momento que 
o analisado entra na sala todo o seu comportamento, gestos, palavras, todos os jogos e 
seus encadeamentos são vistos pelo analista e assumem valor importante de informação. 
Também é importante a maneira com o analista é associada ao jogo, assim como a 
inibição do jogo,a narração, os comentários, a manipulação dos objetos, experiências 
vividas, representações recalcadas, e finalmente o conflito interno que se encontra na 
base da neurose. 
 
Expressões do Jogo 
 
Muitos jogos exprimem representação fantasmática de cenas das relações 
sexuais entre os progenitores que foi quer primitivamente observada, quer imaginada a 
partir de indícios reais, em função das representações associadas às pulsões sexuais. 
Outro jogo manifesta-se o desejo de matar o progenitor do mesmo sexo, ou mesmos 
colocá-lo no jogo, como filho para poder castigá-lo. Assim são frequentemente observado 
que meninas entre os quatro e os seis anos ,que ao brincarem com suas bonecas passam 
a identificar esta com a sua mãe,castigando por ter chupado o dedo e também matam-na e 
depois ressuscitam-na. Também os fantasmas masturbatórios nos meninos são 
frequentemente observado a sua natureza,tão significativo que Mélanie Klein não tem 
duvida em ver neles a causa de um eterno jogo,sendo assim a primeira sublimação desta 
atividade obsessional. Assim os jogos dos meninos com os automóveis e as locomotivas 
experimentam frequentemente o ato sexual-colisão entre os brinquedos são identificados 
com os pais mais também a excitação dos órgãos genitais. Assim esse fantasma é através 
deles, suas expressões arcaicas e simbólicas representadas nos jogos, que dão acesso 
direto ao inconsciente da criança. 
 
Os primeiros traços especificam analise do Jogo - à relação Edipiana. 
 
A Relação Edipiana torna-se o primeiro traço especifico da analise das crianças 
através desta técnica do jogo. Esta técnica evidencia a estreita relação existente entre a 
vida consciente com a vida inconsciente durante os primeiros anos de vida da criança. Isso 
explica e evidencia a relativa facilidade com que as crianças aceitam sugestões do analista 
nas interpretações do seus jogos e consequentemente a rapidez das primeiras melhoras 
no tratamento das neuroses infantis,pelo menos durante o declínio do complexo edipiano e 
na fase da entrada de latência. O analista procura então o acesso às organizações 
inconscientes do psiquismo anterior à resolução da neurose, e esse acesso se operará 
através das representações recalcadas. Também e bom ressaltar que as neuroses infantis 
não tem as mesmas manifestações que as neuroses dos adultos,em que os sintomas são 
facilmente descritíveis. Nas neuroses infantis não e a presença de inibições especificas ou 
de fantasmas singulares, e nem nas atividades rituais,nos relatos fantásticos ,nos tiques 
(que muitas vezes são o deslocamento de uma atividade masturbatória obsessional ) 
certas situações criadoras de angústia – ansiogênica antigas. O que indica a necessidade 
de submeter a criança a cura é exatamente as manifestações simultâneas de um forte 
sentimento de culpabilidade. Este sentimento é observável a partir dos três anos de idade 
e se traduz por um relacionamento profundo da relação edipiana na vida da criança. Um 
exemplo e o caso da menina que se entrega ao rito de agressão ao analista e esta 
agressão segue-se um extremo receio: e recusa-se a considerar a mãe da sua boneca,ou 
seja; não assume desempenhar o papel de mãe. No entanto e bom evidenciar que o 
analista embora não se dirija ao ego com faz o pedagogo, mesmo assim leva em 
consideração a sua cooperação para acender ao inconsciente das crianças. 
 
Transferência da Psicanálise das Crianças. 
 
A doença na criança é apenas uma questão quantitativa (mais ou menos) assim 
as dificuldades alimentares, terrores noturno,fobias,desinteresse entre outros...podem ser 
a manifestação de predisposições mórbidas. Quando se torna possível estabelecer, a 
partir de observação das neuroses infantis,um inventário de sinais sintomáticos,se observa 
que muitos deles se encontra em crianças que podem ser consideradas “normais”. 
Portanto a importâncias do jogo e operar uma ampliação;permitir conhecer a que grau da 
profundidade do psiquismo nascem os fantasmas,reconhecer o tempo e o momento da 
fixação e diagnosticar com relativa segurança a perturbação que no desenvolvimentoque 
constitui a neurose. Este instrumento de cura tem portanto suas limitações e raramente é 
utilizado a partir do seis anos - limiar teórico do período latente – e só de modo 
excepcional na puberdade. Para Mélanie Klein a cura das crianças de pouca idade dá 
lugar a uma transferência negativa nas primeiras sessões e positiva a partir do momento 
em que se estabelece o relacionamento analítico. A transferência no processo analítico 
com as crianças traduz a presença de um conjunto de princípios morais de extremo rigor -
o superego - deste a idade precoce. 
 
Relação Edipiana 
 
Klein demonstra que a relação edipiana é muito precoce. A formação do complexo 
de Édipo e do superego -concomitante- o acontecimento que produz o trauma do 
desmame conduz simultaneamente ao desencadeamento de pulsões de destruição 
dirigidas contra o seio materno e ao aparecimento de um sentimento de culpabilidade, 
resultante da interiorização do objeto frustrante que fundamenta o desenvolvimento ulterior 
do superego. Se estabelece assim desde os primeiros anos de vida,a ambivalência afetiva 
da relação com o objeto que, é a essência do conflito edipiano . 
Em relação ao comportamento agressivo destrutivo da criança,o incentivo ao 
conhecimento desenvolve-se mesmo antes do surgimento da linguagem a curiosidade 
manifesta ou latente do quarto ano de vida marca o seu limiar e não o seu nascimento. Em 
ambos os sexos se opera muito cedo uma identificação com a mãe,que está na origem da 
fase de feminilidade. No menino manifesta-se muito cedo e até o período de latência um 
“complexo de feminilidade” que corresponde segundo Klein ao complexo de castração. Em 
outras palavras significa,à consciência da falta do pênis na menina; sucede assim que o 
medo da mãe – a qual a criança quis furtar o conteúdo do seu corpo e contra o qual exerce 
tendências destrutivas – não e menos forte que o medo do pai. 
Após esta fase o menino se identifica com o pai e passa a rivalizar-se com ele 
associando ainda de maneira intima, no desejo de possuí-la, tendências destrutivas e 
tendências reparadoras. Na menina segundo Klein o desejo de receber o pênis,fonte 
ilimitada de satisfação,seguindo este desejo à frustração constituída pelo desmame. Como 
resultado desta frustração,o seio se torna objeto de tendências destrutivas e o pênis o bom 
objeto da satisfação do qual a mãe se apropriou do pênis a priva. 
Assim se observar que na menina,paralelamente a um desenvolvimento 
psicossexual mais precoce a presença de um superego,quer dizer;de princípios 
morais,particularmente rigoroso e sádico. No adulto o acesso à organização genital da 
libido é mais problemático e mais diretamente submetido às exigências do superego na 
mulher do que no homem. Mélanie no tratamento analítico das neuroses infantis, portanto 
insistiu em afirmar que na precocidade das tendências destrutivas, e também pôs em 
evidência a mesma precocidade do mecanismo de interiorização que está na base do 
desenvolvimento do superego. Portanto o significado do complexo de Édipo a partir do 
sexto mês sofreu uma profunda modificação. 
Conclui-se logo que as primeiras relações objetivas que se adquirem logo ao 
nascimento determinam essencialmente o desenvolvimento ulterior do psiquismo. Assim a 
partir do nascimento a criança tem no seio materno o objeto de suas tendências 
fisiológicas à “pulsão sexual. Do mesmo modo a partir do nascimento a criança,se exerce 
as pulsões de vida e as pulsões de destruição,e é a partir dos primeiros meses de vida que 
este fenômeno tem mais força. Assim a partir deste ponto, o fenômeno construtivo da vida 
psíquica;são o caráter inato das tendências destrutivas ou “sádicas” e o seu investimento 
imediato no objetivo da frustração. 
 
Vida psíquica do recém-nascido. 
 
O que determina a vida psíquica do recém-nascido são as satisfações e as 
frustrações. Ao nascer a criança entra pois em relação com o seio materno,fonte do 
suprimento da necessidade física,e que ao mesmo tempo é também objeto de satisfação. 
Porem a mãe,identificada como o seio pelo recém -nascido,nem sempre é gratificante. Isto 
porque muito antes do desmame, a mãe se recusa a proporcionar a satisfação de que é 
fonte. E desta forma irrompe as pulsões destrutivas devido a frustração, vivida como uma 
punição. Este mecanismo da divisão do objeto (fonte de satisfação e frustração) renova-se 
em todos os estádios ulteriores da evolução para todos os objetos de satisfação. 
 
Posição Paranoide 
 
O único e mesmo objeto que gratifica e que frustra se divide num bom objeto e 
num mau objeto, representações das pulsões de vida e de frustrações. Os primeiros 
quatro meses de vida são aqueles em que as angustias infantis exprimem o medo da 
destruição pelo mau objeto. Mélanie dar a esta forma de organização da vida psíquica no 
seu primeiro estádio o nome de “posição paranoide”.Aqui o superego,neste período, 
provavelmente ele é mais cruel. O) medo de ser destruído pelo mau objeto interiorizado 
produz na criança o medo de perder objeto gratificante como punição pelos maus tratos 
exercida contra ele .Cada saída da mãe,cada ausência reproduz esta situação de angústia 
e produz mecanismos de defesa que definem a “posição depressiva”Este mecanismo de 
defesa fazem da posição depressiva uma forma de organização da vida psíquica 
inteiramente semelhante à que apresenta o quadro clinico das psicoses (maníacas 
depressivas) atualmente conhecidas com transtornos bipolar. A posição depressiva 
decresce progressivamente no decurso do primeiro ano de vida,quando se forma o 
complexo de Édipo que modifica a relação da criança com a mãe .Klein utilizou o termo 
“posição” para designar as duas formas mais antigas da vida psíquica ressalta o caráter 
repetitivo destes modos de relação de objetos em cada estádio do desenvolvimento 
ulterior .Em 1934 em artigo atribuído à formação dos estados maníaco-depressivos 
(bipolar) ,com algumas modificações feitas em 1952 em uma artigo sobre a vida emocional 
do recém-nascido,em que o termo “posição paranoide – esquizoide” é adaptado,esta teoria 
do primeiro desenvolvimento psíquico da criança. nunca foi posta em profundidade por 
Mélanie Klein. Ela passou a insistir sempre no caráter gratuito do sadismo infantil e na 
realidade fantasmática da “má mãe” 
 
Comentário 
 
A obra de Mélanie Klein pretendia obter em seus resultados fundamentos 
relacionados a experiência analítica,na medida em que é acima de tudo uma 
simbólica,descreve um domínio de relações pautadas à observação positiva. Fica, portanto 
difícil tanto refutá-la quanto verificá-la, e não sendo qualificada para dar conta de fatos 
observáveis,desqualifica qualquer observação que pretenda diminuir as suas conclusões 
.Apesar destas condições extremas refutá-las ou confirmá-las a obra de Klein é no entanto 
um exemplo;que teve sua origem pedagógica que pretendia evitar desde a infância,através 
da psicanálise, os problema dos adultos,ampliando a interpretação da vida psíquica cujos 
condições se estabelecem logo após o nascimento. Klein acaba por descobrir na infância 
todo o nosso mal estar e de todos os nossos problemas, consequência inevitável de 
qualquer retorno às origens. 
 
Projeção e Introjeção (Melanie Klein) 
 
A divisão relacionada com a projeção e introjeção. 
 
 "Como vim a reconhecer, à luz de meu trabalho psicanalítico com crianças, a 
introjeção e a projeção funcionam desde o começo da vida pós-natal como uma das 
atividades mais primitivas do ego, que a meu ver opera a partir do nascimento. 
Considerada sob esse ângulo, a introjeção significa que o mundo externo, seu impacto, as 
situações que a criancinha vive, e os objetos que ela encontra, sãoexperimentados não só 
como externos mas são recebidos dentro do eu e se tornam parte da vida interna dela. A 
vida interna não pode ser avaliada mesmo no adulto sem esses acréscimos à 
personalidade que se originam da introjeção contínua." (Klein, 1963a, p.6). 
 Klein entendeu que além de desviar o ego do instinto de morte (tanátos), este 
mecanismo de defesa ( introjeção e projeção) auxilia o ego “a superar a ansiedade e 
livrando-o do perigo da maldade”. 
“ amor e o ódio para com a mãe estão vinculados à capacidade da criança em 
idade muito tenra de projetar todas as suas emoções sobre ela, tornando-a assim tanto um 
objeto bom como perigoso. A introjeção e a projeção, no entanto, embora tenham raízes 
na infância, não são apenas processos infantis. Constituem parte das fantasias da criança, 
que segundo me parece também operam desde o começo e ajudam a plasmar sua 
impressão do ambiente; e pela introjeção este quadro modificado do mundo externo 
influencia o que se passa em sua mente. Desse modo, estrutura-se um mundo interno que 
é, em parte, reflexo do externo. Isto é, o duplo processo de introjeção e de projeção para a 
interação entre os fatores externos e internos. Esta interação continua através de cada 
estágio da vida. Da mesma forma, a introjeção e a projeção prosseguem pela vida afora e 
se modificam no curso da maturação; mas nunca perdem sua importância na relação do 
indivíduo para com o mundo que o cerca. Mesmo no adulto, portanto, o julgamento de 
realidade jamais está inteiramente isento da influência de seu mundo interno." (Klein, 
1963, p.7). "Quando alguém se acha inteiramente sob o domínio de situações e relações 
primitivas, seu julgamento das pessoas e dos fatos estará perturbado. Normalmente, tal 
vivência das situações primitivas se limita e se retifica pelo juízo objetivo." (Klein, 1952, 
p.235) 
A introjeção e a projeção é uma “via de mão dupla” e ocorrem durante a vida toda, 
mas, tal como todos os outros processos, também estão sujeitas a evolução e 
desenvolvimento e são influenciadas pelas cada vez mais amplas funções do ego. Seu 
principal propósito, isto é, obter prazer e evitar a dor, permanece inalterado, mas o que 
constitui prazer ou dor muda de acordo com a progressão total da pessoa. Os mecanismos 
de introjeção e projeção têm início sob o predomínio dos instintos orais, mas, a partir do 
propósito corporal primitivo e egocêntrico de captar ou ejetar ("comer ou cuspir"), 
desenvolve-se o dar e receber das relações maduras, a função superpessoal da 
procriação na sexualidade adulta, assim como o intercâmbio sublimado d a criatividade 
concreta ou abstrata. ( Psique) 
 
reparação (psicologia) 
 
 Reparação é um termo psicanalítico criado por Melanie Klein, e assinala um desejo 
de o bebé restaurar o objeto maternoexistente dentro de si. 
A reparação é um mecanismo especifico da posição depressiva quando o bebé introjecta o
 objeto total, unificado, aomesmo tempo bom e mau e simultaneamente amado e odiado. 
 O bebé percebe a mãe como objeto total e separada de sie sente culpa pelos seus f
antasmas de destruição e de ataque ao corpo da mãe. Assim, surge o anseio de restaurar 
ereparar o mal que lhe fez. Pelas fantasias e atividades reparadoras, a criança supera a cu
lpabilidade e as angústias queresultam dos seus fantasmas destrutivos, procurando preser
var a integridade do corpo da mãe. Com a reparação, torna-
se capaz de experimentar, por exemplo, uma privação sem ser dominado pelo ódio, pois o 
amor pode restaurar aquiloque o ódio destruiu. Este mecanismo é uma forma de adaptaçã
o e permite que o bebé construa e assimile internamenteum objeto estável, o que contribui 
para o desenvolvimento de um ego saudável. 
 
Teoria 
 
São três os pilares fundamentais da teoria Kleiniana: 
Primeiramente existe um mundo interno, formado a partir das percepções do 
mundo externo, colorido com as ansiedades do mundo interno. Com isso os objetos, 
pessoas e situações adquirem um colorido todo especial. O seio materno, primeiro objeto 
de relação da criança com o mundo externo, tanto é percebido como seio bom quando 
amamenta, daí o nome de “seio bom” a esse objeto no mundo interno, quanto é percebido 
como “seio mau”, quando não alimenta na hora em que a criança assim deseja. Como é 
impossível satisfazer a todos os desejos da criança, invariavelmente ela possui os dois 
registros desse seio, um bom e um mau. Esse conceito também é muito importante no 
estudo da formação de símbolos e desenvolvimento intelectual. 
Em segundo lugar os bebês sentem, logo quando nascem, dois sentimentos 
básicos: amor e ódio. É como se a vida fosse um filme em branco e preto, ou se ama, ou 
se odeia. É fácil, portanto, perceber que a criança ama o “seio bom” e odeia o “seio mau” 
sendo essa a origem do conceito de "seio bom, seio mau". O problema é que 
na phantasia da criança, o “seio mau”, esse objeto interno, vai se vingar dela pelo ódio e 
destrutividade direcionados a ele. Esse medo de vingança é chamado de ansiedade 
persecutória. Quando nos defrontamos diante de um perigo, como por exemplo, quando 
caminhando em um parque nos defrontamos diante de uma cobra, temos o instinto de 
fugir. Essa reação diante do perigo é chamada em psicanálise de defesa. O conjunto 
deansiedade persecutória e suas respectivas defesas são chamados por Klein de “posição 
esquizoparanóide”. 
Com o desenvolvimento o bebê percebe que o mesmo objeto que odeia (seio 
mau) é o mesmo que ama (seio bom). Ele percebe que ambos os registros fazem parte de 
uma mesma pessoa. Agora o bebê teme perder o seio bom, pois teme que seus ataques 
de ódio e voracidade o tenham danificado ou morto. Esse temor da perda do objeto bom é 
chamado por Klein de “ansiedade depressiva”. O conjunto de ansiedade depressiva e suas 
respectivas defesas do ego são chamados por Klein de “posição depressiva”. 
O conceito de posições é muito importante na escola kleiniana, pois o psiquismo 
funciona a partir delas, e todos os demais desenvolvimentos são invariavelmente 
baseados em seu funcionamento. Nesse sentido, o desenvolvimento em fases, proposto 
por Freud (fase oral, fase anal e fase fálical), é aqui substituído por um elemento mais 
dinâmico que estático, pois as três fases estão presentes no bebê desde os três primeiros 
meses de vida. Klein não nega essa divisão, muito pelo contrário, mas dá a elas uma 
dinâmica até então ainda não vista em psicanálise. 
Aliás, é essa palavra que distingue o pensamento kleiniano do freudiano. Para 
Klein, o psiquismo tem um funcionamento dinâmico entre as posições esquizoparanóide e 
depressiva, que se inicia como o nascimento e termina com a morte. Todos os problemas 
emocionais, como neuroses, esquizofrenias e depressão são analisados a partir dessas 
duas posições. Por isso, em uma análise kleiniana, não se trata de trabalhar os conteúdos 
reprimidos, é preciso “equacionar” as ansiedades depressivas e ansiedades persecutórias. 
É necessário que o paciente perceba que o mundo não funciona em preto e branco, e que 
é possível amar e odiar o mesmo objeto, sem medo de destruí-lo. Em outras palavras, não 
adianta trabalhar o sintoma (neurose) se não trabalhar os processos que levaram seus 
surgimentos (ansiedades persecutória e ansiedades depressiva). 
 
ELANIE KLEIN E A TEORIA DO DESENVOLVIMENTO CENTRADA NA 
RELAÇÃO 
DE OBJETO. 
 
A Psicanálise de crianças vindo a se ocupar do desenvolvimento passou a 
personalizar o sujeito na criança e, conseqüentemente, o objeto na mãe. A relação com a 
mãe passou a ser a matriz de toda uma teoria do desenvolvimento centrada na relação de 
objeto. Melanie Klein surge, então, como a representante maior desta teoria.Encontramos 
em Melanie Klein a influência dos trabalhos de Karl Abraham sobre o desenvolvimento da 
libido à luz das perturbações mentais. Vejamos como se deu esta influência. 
Mantendo-se numa linha da psicanálise que se baseia no desenvolvimento da 
relação de objeto, Klein adota de Abraham algumas idéias para a sua própria teoria. Para 
Abraham (1970), inicialmente, as pulsões que visam a destruição e a expulsão do objeto 
coexistem, dando lugar, em seguida, às fases em que há o predomínio da ambivalência, e 
somente mais tarde o sujeito será capaz de amar o seu objeto. Estudando a neurose 
obsessiva e a psicose maníaco-depressiva, Abraham constatou que em ambos os casos 
há uma fixação na fase anal-sádica - porém, o paciente depressivo rompe completamente 
com todas as suas relações de objeto, ao passo que o obsessivo as mantém. Tendo 
proposto que as fases da organização libidinal fossem subdividas, Abraham observa que 
existe uma linha divisória entre as duas etapas sádico-anais. O deslize para o nível mais 
baixo acontecia quando a libido abandonava suas relações de objeto. Abraham sustenta, 
então, que os analistas não tendem a fazer uma separação nítida entre as afecções 
neuróticas e psicóticas, isto porque estão cientes de que a libido de qualquer sujeito pode 
regredir além da linha divisória entre estas etapas sádico-anais. Com isto, Abraham 
formaliza a importância da relação de objeto na teoria do desenvolvimento libidinal. 
Voltemos, agora, a Klein. 
A opção de Klein (1968) por esta abordagem da teoria da libido vislumbra-se nos 
conceitos por ela criados de posição esquizo-paranóide e posição depressiva. A 
aproximação não se dá apenas na nomenclatura, mas, também, e em parte, no enfoque 
dado a organização subjetiva. Klein tomando a esquize, ou seja, a cisão como o que há de 
peculiar ao sujeito, parte do princípio de que existe um núcleo psicótico em todo sujeito e, 
assim, vai representar a relação sujeito-objeto a partir dos processos de introjeção e 
projeção. 
Para Melanie Klein(1968), a relação de objeto da criança se dá por um objeto 
parcial privilegiado que é o seio da mãe. É através do mecanismo primordial da introjeção 
do objeto que se estabelece a relação sujeito-objeto. É a introjeção que possibilitará a 
projeção deste mesmo objeto dado às fantasias de destruição e aniquilamento ressentidas 
pelo sujeito. O objeto vê-se, então, dividido em objeto bom sendo, pois, introjetado, e 
objeto mau, que sofre o mecanismo de projeção, sendo expulso. O sujeito mantém, então, 
com o objeto uma relação esférica na qual existe um interior e um exterior, um dentro e um 
fora. 
Na sua teorização Melanie Klein define que a criança está tão intimamente 
relacionada ao objeto materno que ela chega a propor posições de acordo com a relação 
de objeto que impera nelas. Assim, a posição esquizo-paranóide caracteriza-se pela cisão 
do sujeito envolvido pela ansiedade paranóide que cinde o objeto em bom e mau. Esta 
posição, inicialmente, de desintegração prepara o caminho para a posterior integração do 
objeto bom e, por conseguinte, para o triunfo das pulsões de vida próprias a posição 
depressiva. 
Estando a mudança de posição associada à relação de objeto da criança, a 
perspectiva terapêutica criada por Klein vai trabalhar no sentido de buscar a integração 
através de uma relação de objeto total. O tratamento visa proporcionar que a mãe uma vez 
percebida como objeto total, possa servir ao processo de integração do sujeito, será pelo 
manejo da transferência no aqui e agora, que serão explicitadas ao analisante suas 
defesas contra a integração de sua ambivalência e, conseqüentemente, a sua 
dependência dos objetos bons. O caso Richard de Melanie Klein (1976) é um bom 
exemplo. 
Em meio ao interesse pelas diversas abordagens da relação mãe-criança, em 
alguns psicanalistas pós-freudianos, descobrimos que o conceito de objeto vai tendo 
novas definições. Como vimos, há pouco, o objeto em Melanie Klein é cindido em objeto 
bom e objeto mau segundo as vicissitudes pulsionais a que está sujeito o objeto parcial. 
 
O Brincar na Clínica Psicanalítica 
 
A criança, ao nascer, vem como um ser frágil, como um ser familiar, inédito. 
Dessa forma, há a necessidade da reorganização do tempo, do espaço, dos sentimentos e 
das expectativas. Então, de acordo com a hospitalidade recebida e com a relação 
desenvolvida entre o novo sujeito, a mãe e o pai (ou quem assuma a função dos 
cuidadores) estruturarão o psiquismo do sujeito. 
Nos primeiros meses após o nascimento, a mãe (ou quem exerça a função 
materna), possui a função de ego auxiliar da criança. Dessa forma, o narcisismo deve ser 
alimentado pela mãe em relação ao bebê, pois tal investimento é fundamental para a 
construção de uma auto-imagem positiva. Além disso, é fundamental que a mãe e os 
demais cuidadores alimentem a questão narcísica não só através do amor, carinho e 
atenção destinadas à criança, mas também através da estimulação adequada e 
necessária para o desenvolvimento físico e psicossocial desse sujeito. Entretanto, para a 
estruturação do psiquismo neurótico, é imprescindível a frustração da questão narcísica no 
sentido de mostrar para a criança limites e o entendimento de que no mundo não deve 
imperar somente o seu desejo. Portanto, é através das frustrações que o sujeito irá 
aprender a canalizar os seus desejos, e assim, poderá desenvolver e vivenciar a ética em 
relação aos seus desejos e ao outro. 
As brincadeiras oferecem uma maneira de entrar no universo infantil. Através do 
brincar, a criança acelera seu desenvolvimento. Através dessa atividade, ela aprende a 
fazer, a conviver e, sobretudo, aprende a ser. Além de instigar curiosidade, a 
autoconfiança e a autonomia, proporciona o desenvolvimento da linguagem, do 
pensamento, da concentração e da atenção. 
É importante esclarecer que brinquedo, brincadeira e jogo são termos que podem 
se confundir de acordo com o idioma utilizado. Em Português, brincar refere-se a uma 
atividade lúdica não estruturada. Segundo Vygotsky (1991), a brincadeira é uma situação 
imaginária criada pela criança e onde ela pode, no mundo da fantasia, satisfazer desejos 
até então impossíveis para a sua realidade. A brincadeira é simbólica, livre, não 
estruturada e tem um fim em si mesma, pois trata-se da brincadeira pelo prazer de brincar. 
Entretanto, todo tipo de brincadeira pode estar embutido de regras, pois a criança 
experimenta e assume as regras pré-estabelecidas e comportamentos baseados nas suas 
vivências. Dessa forma, o brincar favorece o desenvolvimento cognitivo, pois os processos 
de simbolização e representação levam ao pensamento abstrato. 
O ato de brincar, além de proporcionar um melhor desenvolvimento, pode também 
incorporar valores morais e culturais, e assim, a criança será preparada para enfrentar o 
meio social. 
É através das brincadeiras espontâneas que o ocorre o desenvolvimento da 
inteligência e das emoções, e assim, as crianças desenvolvem a sua individualidade, 
sociabilidade e vontades. A brincadeira é importante para incentivar não só imaginação e 
afeto nas crianças durante o seu desenvolvimento, mas também para auxiliar no 
desenvolvimento de competências cognitivas e sociais. 
A participação nas brincadeiras em grupo também representa uma conquista 
cognitiva, emocional, moral e social para a criança e um estímulo para o desenvolvimento 
de seu raciocínio lógico. “A criança que brinca investiga e precisa ter uma experiência total 
que deve ser respeitada. Seu mundo é rico e está em contínua mudança, incluindo-se nele 
um intercâmbio permanente entre fantasia e realidade” (ABERASTURY, 1992. p. 55). 
Através dasbrincadeiras em grupo, a criança aprende a conviver em grupo, 
desenvolve sentimentos de afetos, respeito. Segundo Melanie Klein (1997), ao brincar, a 
criança pode representar simbolicamente suas ansiedades e fantasias e expressar seus 
conflitos inconscientes procurando superar experiências desagradáveis. 
Os pais ou as pessoas que cuidam da criança têm fundamental influência no 
desenvolvimento dela, pois é durante muito tempo, o espelho da criança para que ela 
construa os seus recursos psíquicos para o enfrentamento da vida. Além disso, os 
cuidadores são os responsáveis por proporcionar a criança meios que estimulem o 
desenvolvimento da criança como um todo. Através do equilíbrio entre as relações de 
apego desenvolvidas com os pais e a resolução do Édipo a criança começa a construir a 
sua personalidade, que também sofre influência da cultura, da forma como a família e a 
sociedade tratam de forma diferenciada os sexos, os papéis sociais atribuídos. 
Além dos fatores influenciadores já apresentados, é interessante explicitar que os 
irmãos e a convivência com outras crianças também influenciam no desenvolvimento 
psicossocial. A convivência com os irmãos pode influenciar de maneia positiva ou 
negativa, dependendo da postura dos pais diante dessa situação, principalmente no que 
diz respeito a “dividir o que têm” e ao ciúme. A convivência com outras crianças também 
se desenvolve nesse mesmo viés e também faz parte do mundo social da criança, até 
porque as crianças demonstram, principalmente após um ano de vida, interesse por 
pessoas que não são de dentro de casa, especialmente as do mesmo tamanho que elas. 
O paciente traz para a sessão elementos de experiências oriundas da realidade 
socialmente sustentada e os usa como elementos de enriquecimento e transformação no 
campo transicional, com efeitos no mundo interno. A sessão sem que haja alucinação vira 
um espaço de passagem entre o mundo interno e o mundo externo, com duplo sentido, 
com potencial de criar ou recriar a transicionalidade infantil. Há interpretação dos fatos 
externos e internos e até uma manipulação deles a partir da experiência criada na sessão. 
Em O brincar e a realidade, Winnicott fala de um paradoxo quanto trata de 
fenômenos transicionais e espaços potenciais. Ele apela contra o intelectualismo: “Minha 
contribuição é solicitar que o paradoxo seja aceito, tolerado e respeitado, e não que seja 
resolvido. Pela fuga para o funcionamento em nível puramente intelectual, é possível 
solucioná-lo, mas o preço disso é a perda do valor do próprio paradoxo. (WINNICOTT, 
1975, p.10). Temos, portanto que “o brincar é essencial porque é através dele que se 
manifesta a criatividade” (Op. cit., p.80). 
Em Lacan, o brincar é entendido como um ato, surgido como efeito da 
estruturação significante do Sujeito. O que importa é o brincar e não propriamente o 
brinquedo, pois o brincar faz a criança querer conhecer o outro. 
 
Melanie Klein e Winnicott 
 
Teve muitas perdas em sua vida. Perdeu o irmão aos 4 anos de idade, aos 18 
perdeu o pai e aos 21 o irmão. Conhece a psicanálise aos 35 anos apenas. Se casa com 
um engenheiro químico e muda-se para Budapeste. Conhece a obra de Freud e inicia 
terapia com Ferenczi por um ano e meio. Até então, tinha crises depressivas, relações 
conturbadas e sumiços. Ferenczi sugere que ela atenda crianças. Seu primeiro paciente é 
o próprio filho a quem ela se refere como Fritz (seu nome era de fato Erik). Ele tinha 7 
anos e dificuldades de aprendizado por razões emocionais. Muda para Berlim e passa a 
fazer análise com Karl Abraham, que morre em seguida. Klein se isola e cria uma inimiga, 
Helgh Hellmuth. 
É convidada a permanecer em Londres depois de uma palestra em que tratou de Fritz. 
Com a vinda de Freud para Londres, cria-se dois grupos: o de Klein, onde a criança pode 
ser analisada desde muito cedo, no mesmo modo dos adultos (transferência, inconsciente, 
etc) e o grupo de Anna Freud que afirmava não haver transferência antes da resolução 
Edipiana. 
 
Klein usava brincadeiras para acessar o inconsciente infantil. Associação livre a partir dos 
2,5 anos. 
A teoria de Anna Freud dá origem à Teoria do Ego (Americana) que visa a adaptação. 
A teoria de Klein diz respeito a duas pulsões: de vida (gratidão) e de morte (inveja). 
Enquanto Freud falava de fases de desenvolvimento da libido, Klein falava das posições 
de desenvolvimento da libido. 
 
Posição – conceito que diz respeito a: 
- ego, objeto, ansiedade e defesas 
 
Posição Esquizo-Paranóide (0-5/6 mês) 
 
- bebê faz distinção entre bom e mau. 
- Ansiedade de natureza paranóide. Persecutória. 
- Objetos parciais: mãe ora é boa, ora é má. 
 
O ego já está presente no início da vida, para Klein. É um ego primitivo, arcaico. O 
mecanismo de defesa da criança nessa fase é (uma idéia de) onipotência, introjeção, 
idealização, negação, cisão e projeção. 
 
A cisão é necessária nesta fase, mas se severa, gera o esquizofrênico. 
No 5o mês o bebê se intera que ele é um só. Que a mãe é uma só também. Aí consolida-
se o ego. 
 
Posição Depressiva 
 
- ego integrado 
- objeto total (que ama e também odeia) 
- culpa (é preciso reparar o estrago) 
- surgimento da ambivalência 
- se intera que é um ser separado da mãe 
- defesa: mania, impotência, melancolia 
- aqui se dá o início do Complexo de Édipo quando a criança se dá conta que é excluída 
 
p. 282 – o objeto bom passa a fazer parte do bebê. O bebê tem uma consciência inata da 
existência da mãe. 
p. 284 – a introjeção traz tudo para dentro de si (da criança) 
p. 288 – a voracidade ligada à introjeção. A inveja também ligada a introjeção (“mamãe 
não me dá o peito porque ela não quer). 
 
Obs – Klein organizou primeiro a posição depressiva depois a esquizo-paranóide 
 
Klein afirma que o primórdio do Superego também se estabelece na primeira infância., na 
posição esquizo-paranóide. Seria então anterior ao complexo de Édipo (contrário a teoria 
de Freud). Para Klein o complexo de Édipo se dá no desmame. 
 
Impulsos sádicos-orais: expressados por meio de agressões. Ao introduzir outros 
alimentos que não o seio, a criança sente a privação como agressão. Ela então fantasia 
com agressões de destruição. 
 
Impulsos sádicos-anais: a criança defeca e flatula como resposta agressiva para o 
controle do esfíncter. 
 
A mãe traz todo o universo do bebê: ela é o pênis do bebê. Na posição depressiva porém, 
o pai e a mãe se juntam contra o bebê: pais combinados. Qualquer desconforto, o bebê se 
sente ameaçado e contra-ataca com suas armas, fezes e flatulência (vulgo pum, peido, 
gases...que na classe tem muito). 
Durante nossas vidas, sempre buscamos voltar àquela UNIDADE iniciada no útero e 
prolongada pela fase esquizo-paranóide até os 6 meses. Nesta primeira fase, esta unidade 
tem momentos de cisão, até que na depressiva este rompimento é definitivo e causa um 
sentimento de culpa no bebê. 
As meninas invejam o pênis do pai. Os meninos invejam o útero materno (por gerar vida). 
 
Fase da feminilidade: fase sádico-anal. Desenvolvimento de sentimento pelas fezes. 
Começa o controle do esfíncter e para de usar fraldas. 
 
Freud: castração como temor de perder o órgão sexual 
Klein: castração como impotência, sensação de ser posto de lado, de não conhecimento. 
“A mãe é o castrador” 
 
Meninas e meninos: primeiro objeto de amor é a mãe. Meninas se dão conta que a mãe 
não tem o pênis e se vira ao pai que também as rejeitam. Volta de novo à mãe. 
 
Luto 
 
Freud distinguiu luto de quadro melancólico. Na melancolia, existe a auto-acusação e a 
punição imposta ao sujeito. 
 
Klein (posição depressiva)diz que o bebê se intera da separação da mãe, portanto o luto 
se refere à posição depressiva (todos os lutos). 
 
O quadro maníaco pode ser desenvolvido após um luto. É um mecanismo maníaco-
depressivo para não elaborar o luto. A elaboração do luto visa a libertar o investimento do 
objeto agora ausente. É o desligamento da libido a ele. 
 
A criança passa por estágios de luto parecido com os adultos. 
Luto arcaico – luto pela perda do seio. 
A busca pelo parceiro é uma tentativa de preencher este vazio primeiro, este luto primário. 
 
Relação entre luto adulto e posição depressiva: 
 
- o objeto que desperta o luto é o seio da mãe. A mãe se torna atacada 
- o Édipo começa a se organizar aqui. 
- Bebê ataca o seio por meio de agressões. 
- Sentimento de culpa e perda 
- Preocupação e pesar pelos objetos bons. 
 
Objetos internos: construímos pelas experiências de fora, nosso mundo interno. Isto se dá 
por meios de fantasias permeadas (e inconscientes). Ao internaliza-las se tornam 
inacessíveis conscientemente pela criança. 
 
A idéia de neurose na infância: crianças desenvolvem as fobias (escuro, barulho) para se 
defender do externo. É parte do desenvolvimento infantil. 
 
Ao surgir a posição depressiva, o ego cria instrumentos para lidar com o desejo pelo objeto 
externo. Mecanismos maníacos. Ansiedade depressiva: medo do ego ser destruído. 
 
O bebê idealiza um seio superpoderoso. Esta idealização também esta ligada à negação. 
A negação de que este seio não é seu. 
 
Objetivo do luto: reinstalar o objeto de luto perdido dentro do ego. 
 
Donalds Woods Winnicott 
 
Eleito duas vezes presidente da sociedade Britânica de psicanálise. Fundador do Middle 
Group. 
Segundo ele, trazemos o potencial para o desenvolvimento em nós. Se vai germinar e 
crescer (ou como isso vai ocorrer) depende do ambiente. Temos uma dependência 
absoluta, ou seja, se não houver quem cuide de nós, morremos. Caminhamos assim da 
dependência para a independência. 
Dependência relativa: emocionalmente, dependemos dos outros. 
Mãe suficientemente boa: não perfeita, mas que é capaz de oferecer holding (suporte, 
sustentação) e handling (manejo) que são as rotinas necessárias para o bebê organizar 
seu mundo. Isso se dá ao apresentar a mamadeira (apresentação do objeto) até que surja 
a necessidade deste objeto. 
Estado de preocupação materna primária: capacidade materna de identificar as 
necessidades do bebê e oferecer o que ele necessita. Não é um estado consciente. A mãe 
oferece o que recebeu quando bebê. 
Para Winnicott, tanto o ódio quanto a agressividade faz parte da pulsão de vida. Não há 
pulsão de morte. 
 
Objeto transacional 
 
Brinquedos, objetos que a criança leva para todo lugar. É um objeto que ela escolhe e que 
representa a transição de dependência absoluta para a relativa e depois total. A criança 
quando acha outras fontes de amor, vai deixando este objeto de lado. É uma ponte do 
mundo interno para o externo. 
 
Noção de falso SELF 
 
Algumas pessoas são impedidas de entrar em contato com seu SELF verdadeiro, 
desenvolvendo assim um falso. A pessoa não entra em contato com seu potencial inato 
(filme ZELIG, Woody Allen) 
O analista para Winnicott deve funcionar como a mãe suficientemente boa. 
Escolhemos nossos objetos de 2 maneiras: 
 
- escolha narcísica: por identidade, onde o outro cresce e eu não. 
- Escolha nacrítica: por apoio 
Pulsões sexuais X pulsões de auto-conservação: no inicio esses dois se somam 
resultando a pulsão de vida. A pulsão sexual se apóia na pulsão de auto-conservação ao 
buscar o alimento no peito. 
 Posição esquizoparanóide Definição: 
 
Termo introduzido por Melanie Klein para indicar um ponto no desenvolvimento de 
relações objetais antes de o bebê haver reconhecido que as imagens da mãe boa e da 
mãe má, com as quais esteve relacionado, se referem à mesma pessoa. Conquanto a 
posição esquizoparanóide seja contrastada com a posição depressiva (em que são 
curadas rupturas na personalidade e no objeto), também existe um movimento oscilatório 
entre os dois e, na vida adulta, normalmente se pode encontrar uma evidência de ambas 
as posições. 
No esquema de desenvolvimento, a posição esquizoparanóide ocorre não importa 
qual tenha sido o estado de identidade primária que possa ter existido. O "split", ou 
divisão, a característica da posição esquizoparanóide, não é a mesma coisa que uma 
"desintegração" do self primário. Nesta última, as várias divisões trazem consigo uma 
exigência de totalidade e tendem a atuar em direção a uma intensificação da 
personalidade. 
A qualidade da angústia nessa circunstância é paranóide (isto é, o medo do bebê, 
talvez, de perseguição e ataque). Seu meio de defesa é separar de si o objeto (isto é, uma 
manobraesquizóide). O bebê divide a imagem da mãe de modo a ficar com as boas e 
controlar as más versões dela. Também se fende dentro de si próprio em virtude da 
intensa ansiedade causada pela presença de sentimentos aparentemente irreconciliáveis 
de amor e ódio. Sugeriu-se que a capacidade de resistir a essa divisão é um requisito 
prévio para qualquer síntese posterior de opostos. Porém, como enfatizava Jung, em 
primeiro lugar estes devem ser diferenciados; isto é, separados um do outro. 
A posição esquizoparanóide reflete um estilo de consciência que Jung designava 
por "heróico", pelo fato de que o bebê tende a se comportar de uma maneira 
superiormente determinada e orientada para o objetivo.

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