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Psicose, perversão e neurose - A leitura de Jaques Lacan

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a tal analista;
— com o discurso da Histérica: esse discurso apareceu recentemente. 
O discurso do Mestre está no fundamento original de toda sociedade 
humana; o discurso do Universitário nasceu mais tarde, com o nasci­
mento da escrita. Por outro lado, o discurso da Histérica é o terceiro, 
nascido com o sujeito cartesiano e a modernidade. Ora, só os tempos 
históricos e os lugares geográficos onde o sujeito da ciência nasceu 
permitem ao discurso do Analista instaurar-se. Só o sujeito dividido 
do discurso da Histérica é aquele que pode pedir para fazer uma aná­
lise. Não há analisando a não ser aquele ou aquela que foi histérica no 
sentido lacaniano e não psiquiátrico da palavra.
Ora, o discurso do Analista transforma radicalmente o que o 
analisando recebeu dos três discursos precedentes:
— o agente é um analista de quem esse semblante que é a imagem 
corporal não se sustenta narcisicamente do Ideal do Eu, mas do objeto a;
— o outro é o analisando como sujeito da ciência, já que “o sujeito 
sobre o qual operamos em psicanálise só pode ser o sujeito da ciên­
cia”, dizia Lacan4;
■* Ecrits, p. 858.
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A HISTERIA NÃO É UMA NEUROSE
— a produção de uma análise é a dos significantes-mestres que 
condicionaram tal inconsciente;
— a verdade é a conquista desse saber sobre o mais-de-gozar, saber que 
é inconsciente (S2).
Assim, para além do não-analisado de Freud e, portanto, para 
além do desejo da histérica, esse laço social tem por efeito, em fim de 
análise, que o sujeito possa identificar-se com o objeto a. Para quem? 
Isso diz respeito apenas ao sujeito situado para além do discurso do 
Analista. Mas se ele, por sua vez, ocupa o lugar de agente nesse laço 
social, nada se pode dizer disso? Certamente não.
189
4
A histeria da psicanálise
Pode-se dizer: “Você é um analista”? Pode-se dizer: “Sou um 
analista”? Lacan pensou isso um certo tempo; durante a década de 50, 
ele pontuava o enunciado de seu seminário com um “nós outros, 
analistas!”.
Em 1953, no Congresso de Roma, ele qualifica publicamente 
Serge Leclaire assim:
É da resposta que ele merece de mim diante de vocês “tu és um 
analista” que eu lhe dou o testemunho pelo que ele enfrentou 
ao colocá-la’ .
Este lhe responderá mais tarde, em 15 de março de 1977, por 
uma carta pública:
O ser analista de que você me prestava homenagem (“tu és um 
analista”), e do qual você hoje só pode mostrar a vaidade, nem 
por isso deixa de estar preso na aberração de uma fantasia de 
origem1 2.
O próprio Lacan vai se desdizer com o jogo de palavras: T u és... 
Tuer [Matar]...
Com efeito, a psicanálise é a contestação de todo julgamento 
ontológico que conjugasse essência e existência: existe um que realiza a 
essência do psicanalista. Pelo julgamento de existência, afirmo que
1 Revista La Psychatialyse, n° 1, Paris, p u f , 1956, p. 253.
2 Na revista Interprétation, n° 21, 1978, Son psychanalyste, p. 56.
Psicose, perversão, neurose
uma existência cumpre, encarna o “o quê” da definição conceituai de 
uma essência. E a posição da loucura: “Tomar-se por”. Lacan acabará 
por contestar o possível de toda ontologia pela afirmação da divisão do 
sujeito segundo o cogito cartesiano3: ali onde sou, ali onde existo, não 
há significante para o pensamento, eu não penso. Ali onde penso a 
essência, há apenas significantes, que representam o sujeito no lugar 
do significante faltante que diria o ser do sujeito.
Vamos parar por aqui? Podemos nos contentar com a pura ne­
gação: sujeito não identificável? Se não há ser do psicanalista, vai-se 
por isso fazer silêncio?
D a o n t o l o g i a à e s t r u t u r a
O drama da psicanálise desde seu nascimento terá sido o do laço 
social entre aqueles que praticam a psicanálise. Já que ocupam o lugar 
do analista, eles se situam como agente no laço social com um anali­
sando. Mas, fora dessa relação com o analisando, o que acontece então 
entre eles... no público, na dimensão pública da psicanálise?
Responder a isso é poder dizer qual é a relação entre esses dois 
lugares da psicanálise: um, privado, com o discurso do analista, e o 
outro, público. Lacan os nomeia assim: psicanálise em intensão e psi­
canálise em extensão4.
Se a psicanálise em intensão se situa evidentemente no discurso 
do analista, o que acontece então com a psicanálise em extensão? Em 
qual dos três outros discursos pode ela cnar laço social?
No discurso do Mestre?
E, com efeito, o que se efetua na maioria das instituições psica- 
nalíticas. Os didatas experimentados dirigem; dão palavras de ordem,
5 Cf! o livro coletivo Le M oment cartésien de la psychanalyse, ed. Arcanes, 1996.
4 Esta distinção retoma o que foi introduzido em 1947 e 1956 por R. Carnap em 
Signification et necessite, Gallimard. 19c>7.
Í 9 2
A HISTERIA DA PSICANÁLISE
significantes-mestres para pôr em marcha os antigos analisandos de 
suas redes. Vale dizer por aí mesmo que nos encontramos no “avesso 
da psicanálise”: a experiência analítica troca de lado e se inverte. Há, 
pela instituição, regressão e amnésia. Assim, as duas dimensões da psi­
canálise, a intensional e a extensional, se justapõem, sem relação entre 
elas: há uma e outra.
No discurso do Universitário?
É o saber, isto é, a teoria analítica que cria laço e, portanto, o 
retomo ao anfiteatro com seminários, congressos, artigos, publicações. 
O ensino doutrinai funda a prática. Há relação de fundação: a extensão 
é fonte e princípio da intensão.
Conhecemos isso há muito tempo. E a posição da schola. Assim, 
a prática é teoria a “ser aplicada” a cada caso particular, e a psicanálise 
torna-se uma nova doutrinação.
No discurso da Histérica?
Esse laço social não é o da neurose, mas do sujeito em posição 
de agente: sujeito dividido entre o significante que o representa e o 
significante que diria seu ser e no lugar do qual ele está representado. 
E exatamente o sujeito do cogito cartesiano, isto é, o sujeito da ciência. 
Ora, dizia Lacan, “o sujeito sobre o qual operamos em psicanálise só 
pode ser o sujeito da ciência5 ”.
Em outras palavras, a psicanálise só é possível ali onde cultural­
mente o sujeito é o sujeito da ciência, isto é, o discurso da Histérica. 
Assim, Lacan podia dizer: “Por mais paradoxal que seja a asserção, a 
ciência toma seus impulsos do discurso da histérica6 ” . E vai repeti-lo: 
“Não falemos do discurso histérico; é o próprio discurso científico7 ”. 
Assim, é esse sujeito que um dia toma lugar como analisando no dis­
curso do Analista.
5 Écrits, p. 858.
6 O Seminário, O saber do psicanalisa, 2 de dezembro de 1971.
7 Radiophonie, Srilicet, 2/3, p. 83, em junho de 1970.
193
P sicose, perversão, neurose
Ora, o que acontece em fim de análise? Ele volta ao discurso da 
Histérica em posição de agente, mas desta vez como analisando na 
psicanálise em extensão. Esta passagem se escreve assim:
Da intensão 
à extensão
a
$
$
S,
Essa diagonal é um passe: uma mudança de lugar da psicanálise: 
da intensão no discurso do Analista à extensão no discurso da Histéri­
ca.
Por isso é que Lacan, falando de seu seminário, dizia:
O que devo acentuar bem é que, ao se oferecer ao ensino, o
discurso analítico leva o psicanalista à posição do psicanalisando8.
Ele vai repeti-lo em 12 de dezembro de 1971: “Como sou eu 
quem falo, sou eu quem estou aqui na posição do analisando9 
Contanto que acrescente: não com um psicanalista, mas no público, 
ali onde a psicanálise toma lugar na história humana como ciência 
nova.
Assim, a intensão funda a extensão. Ao contrário do poder do 
mestre ou do saber do universitário que fundaria a práxis, com a psica­
nálise só a prática vem fundar instituição psicanalítica e teoria. Só o 
discurso do Analista é fundador de uma e de outra por intermédio do 
discurso da Histérica, ali onde tomam lugar os sujeitos já analisados.