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Michael Lind

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Capítulo XIII 
Os Trinta Anos Gloriosos 
 
O crash da bolsa de valores em 1929, a lenta recuperação de 1930 e a seguinte queda 
espiral à um abismo de desemprego, falências bancárias e paralisia comercial não 
foram corrigidos pelos processos do mercado. . . . Fora da crise nasceu a república 
econômica americana como a conhecemos hoje.. 
—Adolf A. Berle, 1963​1 
 
N​a Alemanha, o período foi chamado de ​Wirtschaftswunder​, o milagre econômico. Em 1958, 
John Kenneth Galbraith cunhou a expressão “a sociedade afluente” Olhando para o passado, 
Americanos hoje em dia frequentemente chamam-o de Era de Ouro . Em um livro de 1979, o 
demógrafo francês Jean Fourastie chamou a era de 1946 a 1975 ​les trente glorieuses​, os trinta 
gloriosos, uma referência que evocou os ​Trois Glorieuses​, ou gloriosos três dias de revolução 
na França de 27 a 29 de julho de 1830. 
Durante os ​trinta anos gloriosos​, as democracias ocidentais experimentaram combinações 
similares de alto crescimento econômico e rápida expansão das classes médias de massa, 
sustentadas pela alta filiação sindical, estados de bem-estar social da classe média e 
economias altamente reguladas. Na década de 1950, todas as sociedades democráticas do 
mundo do Atlântico Norte tinham “assentamentos” ou “novos acordos” que eram 
semelhantes na combinação de várias formas de seguro social com maior regulamentação 
governamental ou propriedade do setor bancário e da indústria. O termo “economia mista” 
era às vezes usado para uma economia que misturava empreendimentos privados com 
regulação pública, redistribuição e, em alguns casos, propriedade pública. A prosperidade 
compartilhada deu aos eleitorados na América e em outras democracias de maioria branca a 
confiança para eliminar os sistemas de castas raciais que há muito zombavam de seus ideais. 
A reestruturação da economia após a Segunda Guerra Mundial nos Estados Unidos e outras 
nações coincidiu com o amadurecimento das tecnologias da segunda revolução industrial, a 
 
eletricidade e o motor de combustão interna. Nas décadas de 1950 e 1960, os Estados Unidos 
completaram seu sistema de rede elétrica e o colocaram sob um gerenciamento enfadonho, 
mas seguro, dos serviços locais que substituíram os impérios corporativos rivais. Os Estados 
Unidos também ocupou-se de uma das maiores obras de engenharia civil da história: a 
construção do sistema rodoviário interestadual. Juntas, as duas redes transformaram a 
paisagem e o ​estilo de vida americano​, ao permitir a descentralização da produção, do 
trabalho, das compras e dos lares. 
Enquanto a rede elétrica e a rede rodoviária eram manifestações visíveis da segunda ordem 
industrial, os motores invisíveis escondidos nos eletrodomésticos eram igualmente 
revolucionários: A industrialização da casa, com a ajuda de aparelhos que economizavam 
mão-de-obra, como geladeiras, lavadoras e lava-louças, permitia que os membros da nova 
classe média passassem o tempo anteriormente dedicados a tarefas domésticas em outras 
atividades, incluindo ouvir rádio, assistir programas de televisão, e indo ao cinema. 
Outros países se recuperaram rapidamente, enquanto se reconstruíam após a devastação da 
segunda guerra mundial em uma geração. Todas as democracias industriais, do Japão à 
América do Norte e à Europa Ocidental, criaram classes médias de massa usando as 
tecnologias da segunda era industrial para fins liberais e democráticos. Mas foi nos Estados 
Unidos que foi cumprida a promessa das tecnologias libertadoras da segunda revolução 
industrial. 
A PAX AMERICANA E A GUERRA FRIA 
Em seu planejamento para o mundo pós-guerra, as administrações Roosevelt e Truman 
assumiram uma rápida desmobilização pelos Estados Unidos. Os militares dos EUA 
procuraram possuir novas bases insulares em todo o mundo, partindo do pressuposto de que 
não haveria guarnições militares permanentes dos EUA na Ásia e na Europa, uma vez que as 
ocupações das potências derrotadas do Eixo chegassem ao fim. Essas suposições foram 
lentamente abandonadas, pois as esperanças de cooperação pós-guerra entre a União 
Soviética e os Estados Unidos foram frustradas pelas tensões da Guerra Fria. 
 
Embora incluísse guerras por procuração na Coréia, Indochina, Afeganistão, América Latina, 
África e Oriente Médio, corridas armamentistas, espionagem, sabotagem e propaganda, a 
Guerra Fria travada pelos Estados Unidos foi essencialmente uma guerra de desgaste 
econômico. Os Estados Unidos tentaram paralisar a economia soviética por dois métodos: o 
primeiro era um embargo de tecnologia avançada de dupla utilização, ou civil-militar, sob a 
direção do Comitê Coordenador de Exportação Multilateral (​CoCom​), estabelecido em 1949; 
e que governou o comércio aliado com o bloco comunista até que foi dissolvido em 1994. O 
segundo estava impedindo os soviéticos de controlar ou intimidar a Alemanha Ocidental, o 
Japão e outras nações industriais. 
Do ponto de vista americano, os recursos centrais em jogo na Guerra Fria foram as fábricas 
da Alemanha derrotada e o conquistado Japão. Como apontou o diplomata norte-americano 
George Kennan, a estratégia dos Estados Unidos era negar o controle ou influência da União 
Soviética sobre os outros centros de poder militar-industrial do mundo, que na época se 
localizavam na Alemanha / Europa, Japão, Grã-Bretanha e América do Norte. Se os Estados 
Unidos controlassem direta ou indiretamente todos os centros de produção fora das fronteiras 
soviéticas, então seus recursos internos não permitiriam que a União Soviética montasse um 
desafio militar que competisse com os Estados Unidos sem correr o risco de falência. 
Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo Roosevelt considerou uma proposta do 
secretário do Tesouro, Henry Morgenthau, de permanentemente “pastoralizar” ou 
desindustrializar a Alemanha. Mas no início de 1947, Herbert Hoover, enviado para a 
Alemanha em uma missão de investigação pelo presidente Harry S. Truman, ficou chocado 
com a fome que encontrou. O argumento de Hoover de que a recuperação econômica 
européia dependia da recuperação econômica da Alemanha prevaleceu. Em junho de 1947, 
em um discurso de formatura em Harvard, o secretário de Estado George Marshall esboçou o 
que ficou conhecido como Plano Marshall, uma oferta de ajuda substancial aos países da 
Europa, incluindo a União Soviética. 
Stalin rejeitou a ajuda do Plano Marshall e a negou aos países do Leste Europeu sob o 
controle do Exército Vermelho. Com o aumento das tensões entre o leste e oeste, as zonas 
ocupadas americanas, britânicas e francesas da Alemanha foram fundidas na República 
Federal da Alemanha, deixando a parte leste da Alemanha como um país separado, a 
 
República Democrática Alemã. As duas Alemanhas só seriam reunidas após o fim da Guerra 
Fria, em 1990. 
A solução definitiva para o “problema alemão” foi a integração - a integração da indústria