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Na casa de meu pai - Kwame Anthony Appiah

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Na casa de meu pai
Kwame Anthony Appiah
	Appiah vai abordar, ao longo dos dois primeiros capítulos do livro dois grandes temas: o pan-africanismo e o racismo, e até que ponto está presente e como se dá a relação entre os dois. Ele constrói sua análise partindo das obras de dois autores, Alexander Crummel e William Edward Burghardt Du Bois.
	Após estabelecer um breve quadro histórico, ele lança o questionamento que perpassará os dois ensaios: como conciliar o legado conceitual que intelectuais africanos receberam da Europa com ideais novos, vindos da própria África ou de outros lugares? Essa questão é o plano de fundo para as críticas que ele levanta ao pan-africanismo. Optei por não abordar os dois capítulos separadamente, ou distinguir de alguma forma seus temas – até porque são apenas desdobramentos, mais ou menos específicos, de uma mesma preocupação. 
	Os discursos pan-africanistas, que buscam afirmar e propulsionar uma solidariedade entre os diversos povos do continente africano, precisavam de bases em comum que justificassem esse discurso quisessem eles ter uma solidez conceitual. A imagem que se criou, no entanto, de uma África una, é, para Appiah errônea e até nociva à tentativa a ela vinculada de independência política e cultural da Europa. A única coisa que teria a África em comum, em toda a sua diversidade, é o fato de ser um continente negro, e essa visão de unidade a partir da raça seria uma perspectiva europeia, colonizadora. Vincular as tentativas de construção de identidade a uma concepção externa é, obviamente, problemático (nas palavras do autor, deixa um “legado incômodo”). 
	Conceber os mais diferentes povos africanos como membros do mesmo grande grupo humano seria inclusive racista em certos sentidos. Apesar das afirmações dos autores pan-africanistas de que sua concepção de povo africano não se pauta em características físicas, ela não se sustenta por qualquer outro critério. A defesa de uma identidade africana que se dá por experiências comuns seria errônea: 1. por não existir essa homogeneidade cultural que se pretendeu; 2. por ser uma definição circular: como identificar um grupo por uma história conjunta se ele não tinha qualquer outro ponto que o definisse como grupo enquanto inserido naquele contexto histórico específico? Essas teorias, portanto, argumentam a existência de uma solidariedade baseada em um critério apenas racial. Para Appiah, o combate ao racismo partiria da crítica à própria noção de raça, e o que se enxerga é sua assimilação: ao invés de um questionamento da diferença, ela é pressuposta, e, nos movimentos negros, exaltada em resposta à desvalorização a que é sujeita normalmente. 
	Essa ideia de uma África homogênea se colocaria com bem mais força fora do próprio continente. A experiência da colonização – e os conflitos subsequentes com o colonizador – seria retratada como bem mais violenta para quem a vê de fora. Para Appiah, apesar de ser incontestável no plano político, sua influência na cultura é superficial; as formas culturais anteriores à colonização se mantém – e são justamente essas que tem uma enorme variedade. O contato do negro africano com o branco seria muito mais conflituoso fora do continente africano. 
	Para se estruturar um pan-americanismo, uma solidariedade africana que faça sentido, seria preciso então encontrar uma base comum que não seja racial, tanto para que essa ideologia se sustente em elementos reais de coesão; quanto para construir um discurso sobre a África que parta da África, e não das imagens transmitidas pela Europa.