Entre-o-projeto-constituinte-e-a-intervenção-federal
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UM PANORAMA DOS 
ÚLTIMOS 30 ANOS
CONSTITUIÇÃO, 
DEMOCRACIA 
E JURISDIÇÃO
RODOLFO VIANA PEREIRA
BERNARDO GONÇALVES FERNANDES
COORDENADORES 
LUCAS AZEVEDO PAULINO
ORGANIZADOR
JUNIOR, Ernane Salles da Costa. Entre o projeto constituinte e a intervenção federal no Rio de Janeiro: o que ela tem revelado 
sobre nós? In: PEREIRA, Rodolfo Viana; FERNANDES, Bernardo Gonçalves (coord.). PAULINO, Lucas Azevedo (org.). Constituição, 
democracia e jurisdição: um panorama dos últimos 30 anos. Belo Horizonte: IDDE, 2018. p. 117-136. Disponível em: https://doi.
org/10.32445/97885671340866
ENTRE O PROJETO CONSTITUINTE E 
A INTERVENÇÃO FEDERAL NO RIO DE 
JANEIRO: o que ela tem revelado 
sobre nós?
Ernane Salles da Costa Junior1
Resumo
A pesquisa propõe uma investigação sobre os contornos (in)constitu-
cionais do decreto n. 9288/2018 do presidente Michel Temer que instaurou 
a intervenção federal no Rio de Janeiro à luz do sentido performativo do 
projeto constituinte. Busca-se, primeiramente, mostrar a falta de legitimidade 
do ato normativo com base na necessidade de explicitação do alcance e das 
condições da intervenção, segundo o art. 36 § 1º da CR88 e o princípio da 
motivação e da transparência. Feito isso, é analisada a atribuição da natureza 
militar conferida à intervenção federal, demonstrando sua impossibilidade 
frente à compreensão constitucionalmente adequada do instituto e do 
papel atribuído às Forças Armadas. Por fim, conclui-se que tal intervenção 
tem evidenciado a banalização de medidas de urgência e de exceção que 
desvelam, no Brasil, uma crise constitucional.
Introdução
No dia 16 de fevereiro de 2017, o Presidente da República, Michel Temer, deter-
minou o decreto n. 9288, de 16 de fevereiro de 2018, que instaura \u201cintervenção federal 
1 Pós-doutorando em Direito Constitucional pela UFMG, doutor em Direito pela mesma instituição e mestre 
em Teoria do Direito pela PUC-MG com a distinção magna cum laude. Realizou estágio doutoral com 
bolsa sanduíche da CAPES no instituto Fonds Ricoeur, vinculado a École des Hautes Études en Sciences 
Sociales (EHESS). Professor de Filosofia do Direito e Direito Constitucional.
118 Ernane Salles da Costa Junior
no Estado do Rio de Janeiro com o objetivo de pôr termo ao grave comprometimento 
da ordem pública\u201d.
Pelo ato administrativo do atual presidente, a área de segurança pública do 
Rio não fica mais sob comando do governador Luiz Fernando Pezão (MDB), mas do 
interventor escolhido, o general do Exército Walter Braga Netto. A alegação seria a de 
que a segurança no Rio está à beira de um colapso, o que autorizaria uma espécie de 
intervenção parcial, por meio da suspensão provisória do pacto federativo e, portanto, 
da autonomia de tal ente federativo especificamente nessa área.
Após completar um mês de vigência desse decreto, no dia 16 de março, o PSOL 
ajuizou ação direta de inconstitucionalidade com pedido de suspensão liminar da 
intervenção federal decretada. O Supremo Tribunal ainda não definiu data para julgar 
a suspensão dos efeitos do decreto.
O artigo em questão propõe, com isso, uma investigação sobre os contornos 
(in)constitucionais da intervenção federal decretada à luz do sentido performativo do 
projeto constituinte. Justifica-se o presente empreendimento frente a preocupação com 
a discussão científica e fundamentada acerca de um tema capturado pelo senso comum 
e pelo debate superficial que, muitas vezes, revela-se na polarização pró e contra.
Sabe-se muito pouco sobre a Intervenção Federal para além da análise ideologi-
camente direcionada e pouco atenta com a profundidade e conhecimento técnico dos 
casos em questão empreendida pelos grandes meios de comunicação. No campo da 
discussão crítica e metódica, pouco se produziu sobre as possibilidades e limites da 
Intervenção Federal numa concepção constitucionalmente adequada.
Busca-se aqui, primeiramente, mostrar a falta de legitimidade do ato normativo 
com base na necessidade de explicitação do alcance e das condições da intervenção, 
segundo o art. 36 § 1º da CR88 e o princípio da motivação e da transparência.
Feito isso, é analisada a atribuição da natureza militar conferida à intervenção 
federal, demonstrando sua impossibilidade frente à compreensão constitucional do 
instituto e do papel atribuído às Forças Armadas.
Por fim, é feito um diagnóstico com base na questão do que a intervenção federal 
tal como decretada no atual governo tem dito sobre os caminhos que o projeto cons-
tituinte tem trilhado hoje, após 30 anos de sua fundação.
119ENTRE O PROJETO CONSTITUINTE E A INTERVENÇÃO 
FEDERAL NO RIO DE JANEIRO
Os limites da Intervenção e o sentido performativo da 
Constituição de 1988
De forma inédita, desde a promulgação da Constituição de 1988, decretou-se 
no Brasil o instituto da intervenção federal por meio do decreto n. 9288, efetivado 
pelo então presidente Michel Temer, em fevereiro desse ano. Esse ineditismo suscita 
questionamentos relevantes, especialmente no que se refere à sua correspondência 
diante do sentido performativo do projeto constituinte inaugurado em 1988.
A Constituição brasileira, em sua fundação, representou um corte na história 
institucional2, uma ruptura em relação aos atos de força e de intervenção praticados na 
Ditadura Militar, por meio da promessa intersubjetivamente firmada de sujeitos livres e 
iguais que se determinam a si mesmos3 num espaço público permeado pela supremacia 
da lei e pela prevalência dos direitos fundamentais (art. 4 da CR88).
Esse momento instituidor definiu o pacto federativo como núcleo fundamental de 
organização do Estado (art.1 caput), constituindo-se, inclusive, como cláusula pétrea, 
(art. 60, parágrafo 4, I) e, portanto, previu a intervenção federal apenas como medida 
excepcional e de alto potencial de gravidade (art 34-36). Sua decretação, portanto, exige 
justificativa clara da existência de situação gravosa e ainda adequação precisa em 
relação à Constituição, de modo a evitar que outros direitos e princípios sejam violados.
Em sentido contrário, o decreto de Temer foi efetivado sob o argumento abstrato 
de \u201cse pôr termo ao grave comprometimento da ordem pública\u201d sem, contudo, oferecer 
maiores esclarecimentos ou explicações acerca do que venha a ser essa ofensa grave. 
O decreto limitou-se a enunciar o requisito da Constituição, como se essa mera enun-
ciação fosse, por si só, fundamentação adequada para a constitucionalidade do ato. 
Porém, é preciso afirmar, talvez, o óbvio: sem a demonstração da situação fática capaz 
de embasar a medida, falta justamente o requisito constitucional que conferiria validade 
à intervenção federal decretada.
2 COSTA JUNIOR, Ernane Salles; GALUPPO, Marcelo Campos. A democracia como promessa: entre 
a imprescindibilidade do cálculo e a experiência aporética da justiça. In: CATTONI DE OLIVEIRA, 
Marcelo Andrade; MACHADO, Felipe Daniel Amorim (org). Constituição e Processo: a resposta do 
constitucionalismo à banalização do terror. Belo Horizonte: Del Rey, 2009.
3 CATTONI DE OLIVEIRA, Marcelo Andrade. Da Constitucionalização do Processo à Procedimentalização 
da Constituição: Uma Reflexão no Marco da Teoria Discursiva do Direito.In: SARMENTO, Daniel; SOUZA 
NETO, Cláudio Pereira (Coords.). A Constitucionalização do Direito: Fundamentos Teóricos e Aplicações 
Específicas. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007, pp. 541-547.
120 Ernane Salles da Costa Junior
Isso encontra correspondência na distinção tradicional do Direito Administrativo 
entre motivo e motivação no que se refere aos atos administrativos.4 Motivo é comu-
mente compreendido como a causa imediata do ato administrativo ou, em outros termos, 
refere-se à situação de fato e de direito que autorizou ou determinou a sua prática. 
Por outro lado, motivação é vista como a explicitação dessas razões, declaração, por 
escrito, dos motivos que autorizaram