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ALTERAÇÃO DO NOME NO REGISTRO CIVIL DE TRANSEXUAIS

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ALTERAÇÃO DO NOME NO REGISTRO CIVIL DE TRANSEXUAIS: Análise jurisprudencial atual sob a ótica do princípio da dignidade da pessoa humana
CHANGE OF NAME IN THE CIVIL REGISTRY OF TRANSEXUALS: Current jurisprudential analysis from the point of view of the principle of the dignity of the human person
Revecca Doria de Oliveira Martins[1: Advogada, graduada pela Faculdade Social da Bahia (2017); pós-graduanda em Direito Previdenciário pela Faculdade Damásio.]
Natália Silveira de Carvalho[2: Advogada, graduada em Direito pela Universidade estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2009); mestre em Estudos Disciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia; professora da Faculdade Social da Bahia (atual).]
RESUMO: Trata-se de um artigo que pretende analisar a jurisprudência atual da acerca da alteração do nome no registro civil de transexuais, visto que a não concessão deste direito é uma clara lesão ao aludido princípio. Observa-se que não existe uma legislação específica que regulamente as demandas destes indivíduos, restando ao Legislador decidir sobre a pleiteada modificação. Desta forma, a presente pesquisa tem por objetivo analisar algumas decisões sobre a alteração do nome de transexuais, fazendo questionamentos sob o ponto de vista do princípio da dignidade humana. A metodologia utilizada foi de uma pesquisa qualitativa com revisão bibliográfica e analise de jurisprudências. Assim, verificando o direito dos transexuais sob a ótica do princípio constitucional da dignidade da pessoa humana, considerado os direitos de integridade, intimidade e identidade sexual, depreende-se que este deve prevalecer sobre o princípio da imutabilidade do nome.
PALAVRAS-CHAVE: Alteração do nome. Transexuais. Registro civil. Princípio da dignidade humana.
ABSTRACT: It’s an article that intends to analyze the current jurisprudence of the change of the name in the civil registry of transsexuals, since the non-granting of this right is a clear injury to the aforementioned principle. It’s observed that there isn’t specific legislation that regulates the demands of these individuals, leaving the Legislator to decide on the proposed modification. In this way, the present research aims to analyze some decisions about the change of the name of transsexual, making questionings from the point of view of the principle of human dignity. The methodology used was a qualitative research with bibliographical review and analysis of jurisprudence. Thus, verifying the right of transsexuals from the point of view of the constitutional principle of the dignity of the human person, considering the rights of integrity, intimacy and sexual identity, it must be assumed that this should prevail over the principle of the immutability of the name.
KEYWORDS: Change of name. Transsexuals. Civil registry. Principle of dignity
SUMÁRIO: 1 Introdução. 2 Dignidade da Pessoa Humana. 3 Gênero e Sexo. 4 Nome Civil X Nome Social. 5 Alteração do nome civil de transexuais. 6 Posicionamento da jurisprudência atual. 7 Considerações finais. Referências.
1. INTRODUÇÃO
A possibilidade da mudança de sexo no registro civil de transexuais antes da cirurgia de redesignação, ou até mesmo, sem ela, é uma possibilidade tangente na atualidade. No entanto, ainda há uma grande divergência acerca deste tema, tendo apenas pouquíssimos julgados favoráveis à causa. As questões de gênero ainda são incipientes no Direito, necessitando ainda aprofundar-se para garantir a todos o mais fundamental dos direitos, o de existir.
Observa-se ainda que tudo aquilo que gera em torno do Direito de Gênero, como atualmente vêm sendo caracterizadas as questões referentes ao tema, estão basicamente justificadas pelos princípios fundamentais. Além da dignidade humana, respalda-se no princípio da igualdade e do direito à personalidade. Porém, apenas estes elementos não são suficientes para embasar toda uma problemática que se estende muito além de questões principiológicas, atingindo, inclusive, as questões psicológicas destes direitos.
A questão da mudança do sexo no registro civil permeia uma seara a qual as pessoas não estão habituadas e a recebem com estranheza. No entanto, mais estranho do que alterar um dado na certidão de nascimento, é o indivíduo ser obrigado a permanecer num corpo ao qual não pertence e ter que justificar porque no seu registro consta que nasceu mulher, se fisicamente, apresenta-se como homem, e vice-versa, criando-se um sem número de enraizados preconceitos.
A jurisprudência, no que tange à alteração do nome no registro civil de transexuais antes ou mesmo sem a cirurgia de transgenitalização, apresenta diversos pareceres favoráveis à causa. No entanto, atenta-se que no Brasil, atualmente, não existe uma Legislação específica que defenda os interesses das pessoas transexuais, bem como não há nada que regulamente os direitos às questões que dizem respeito à mudança dos seus registros, ficando a cargo do legislador decidir sobre tais demandas. Desta forma, há a necessidade de buscar como estes indivíduos, que deveriam ter melhor assistência do Poder Público, dado que, infelizmente, ainda são a parte hipossuficiente de tal relação, poderiam utilizar o Direito para beneficiar-se em questões que transcendem o seu querer.
O projeto de Lei 5002/2013 de autoria do Deputado Jean Willis em parceria com a Deputada Érika Kokay, é um marco para os direitos das pessoas transexuais. O projeto em questão visa reconhecer a identidade de gênero como um direito do cidadão. A sua fundamentação está em dar aos indivíduos a possibilidade de adequar sua identidade de gênero auto percebida àquela constante em sua identidade civil.
Assim, na presente pesquisa o que se busca é realizar uma análise acerca da problemática da mudança do nome de pessoas transexuais sob a ótica da dignidade da pessoa humana, dialogando, para tanto, com os conceitos próprios dos estudos de gênero.
2. DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA
De acordo com o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, dignidade quer dizer “[...] 4. Decência, decoro [...]. 5. Respeito a si mesmo; amor-próprio, brio, pundonor [...]” (FERREIRA, 2004, p. 678). A despeito do significado da palavra, dignidade humana pode abarcar uma noção de conjunto de providências tomadas pelo Estado, juntamente com a sociedade, visando suscitar a realização mais elevada do ser humano, na seara política, sob a ótica formal e material.
Para falar de dignidade da pessoa humana, é necessária uma breve explanação a respeito do conceito de pessoa, que para os povos antigos, não tem a mesma acepção. Na filosofia grega o homem era um animal político ou social, que tinha a cidadania como seu centro e pertencia ao Estado, tendo uma relação íntima com a natureza e o Cosmos (CAVALCANTE, 2007).
De acordo com Cavalcante (2007), a definição de pessoa começa a surgir com o Cristianismo, definindo-a como ser espiritual, munido de subjetividade, portador de valores em si mesmo e, portanto, detentor de direitos subjetivos ou fundamentais, possuindo dignidade. Entretanto a designação de pessoa tal e qual conhecemos atualmente tem como alicerce o reconhecimento de que a vida social do homem não deve ser confundida com a vida do Estado. Desta forma, ocorre um deslocamento do Direito do plano estatal para o plano individual para que haja o necessário equilíbrio entre autoridade e liberdade.
No âmbito da Constituição Federal Brasileira de 1988, de acordo com Matos e Gostinski (2017, p. 19), o seu “art. 1º, III, traz a dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. Ao lado da soberania e da cidadania, afigura-se tal fundamento como valor chave, presente na construção jurídico-política do Estado brasileiro [...]”
Ainda hoje, não há uma regulamentação legal acerca da temática da mudança do nome das pessoas transexuais, restando a estes indivíduos pleitear a demanda na esfera judicial. Essa ausência legal afeta diretamente a dignidade da pessoa humana, visto que por