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ALTERAÇÃO DO NOME NO REGISTRO CIVIL DE TRANSEXUAIS

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ser um direito de todos, a dignidade é tida como um princípio, um fundamento inviolável, garantido constitucionalmente, sendo inerente à personalidade humana. De acordo com Moraes:
Esse fundamento afasta a ideia de predomínio das concepções transpessoalistas de Estado e Nação, em detrimento da liberdade individual. A dignidade é um valor espiritual e moral inerente à pessoa, que se manifesta singularmente na autodeterminação consciente e responsável da própria vida e que traz consigo a pretensão ao respeito por parte das demais pessoas, constituindo-se um mínimo invulnerável que todo estatuto jurídico deve assegurar, de modo que, somente excepcionalmente, possam ser feitas limitações ao exercício dos direitos fundamentais, mas sempre sem menosprezar a necessária estima que merecem todas as pessoas enquanto seres humanos e a busca ao Direito à Felicidade. (MORAES, 2014, p. 18)
Nesse contexto, trazendo a aplicação do digno princípio para a realidade das pessoas transexuais, não se vê uma aplicação justa e imediata do mesmo para que esses indivíduos gozem do direito pleno ao que ele preceitua. A dura realidade é que não há um respeito por parte da sociedade a essas pessoas, fazendo com que, muitas vezes, eles sejam segregados e discriminados por serem diferentes. Isso é claramente visualizado quando tratamos do mercado de trabalho, que os exclui de forma aberta, cabendo a 90% das transexuais e travestis brasileiras, segundo dados da ONG Transrevolução, o sustento por meio da prostituição.
Nas palavras de Gilmar Mendes e Paulo Gustavo Branco:
Respeita-se a dignidade da pessoa quando o indivíduo é tratado como sujeito com valor intrínseco, posto acima de todas as coisas criadas e em patamar de igualdade de direitos com os seus semelhantes. Há o desrespeito ao princípio, quando a pessoa é reduzida à singela condição de objeto, apenas como meio para a satisfação de algum interesse imediato.
[...]
O ser humano não pode ser exposto — máxime contra a sua vontade — como simples coisa motivadora da curiosidade de terceiros, como algo limitado à única função de satisfazer instintos primários de outrem, nem pode ser reificado como mero instrumento de divertimento, com vistas a preencher o tempo de ócio de certo público. (MENDES; BRANCO, 2012, p. 405)
Incontestável é a máxima de que o ser humano não pode ser mero objeto de satisfação de outrem, que a seu bel prazer discrimina indivíduos diferentes, marginalizando-os e excluindo-os, o que leva a uma ofensa aos primordiais princípios do ser. Não obstante, não é nada diferente com os transexuais, vez que, para satisfazer sua curiosidade mórbida, o homem dito heterossexual causa ofensa aos ditos princípios, expondo o transexual à situação vexatória, tratando-o como objeto.
Para salvaguardar sua dignidade, o transexual pode valer-se dos procedimentos cirúrgicos para modificação de seu sexo biológico, buscando uma adequação corpo/psique. Desta forma, diante de um quadro diagnosticado de distúrbio psíquico, lastreado pelo art. 13 do Código Civil de 2002, depreende-se que o processo transexualizador, nestes casos, é uma mera disposição do próprio corpo do indivíduo, não constituindo uma ação punível pelo direito, apesar deste assim o classificar, sendo de natureza terapêutica, ou seja, uma situação irresistível ao indivíduo que reclama a readequação do seu sexo biológico ao psicológico. [3: Art. 13. Salvo por exigência médica, é defeso o ato de disposição do próprio corpo, quando importar diminuição permanente da integridade física, ou contrariar os bons costumes. (BRASIL. Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil Brasileiro. Brasília, DF, jan 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/2002/L10406.htm> Acesso em: 12 mar. 2007.]
Observa-se que não há ainda uma legislação específica que resguarde os direitos da adequação sexual, não havendo uma regulamentação jurídica das consequências advindas deste fenômeno. No entanto, a jurisprudência já é favorável no sentido de conceder o que é pleiteado por essa parcela da sociedade, mas com grandes restrições.
O grande problema é que o direito não acompanhou a evolução médica e social, não se adequando às demandas pelo direito à dignidade desses indivíduos, que passam por situações extremamente constrangedoras, tanto sociais quanto psicológicas por não haver um respaldo jurídico que os proteja.
Nesse diapasão é que se propõe atuar o Projeto de Lei 5002/2013, a Lei João Nery, de autoria do Deputado Jean Wyllys e da Deputada Erika Kokay. Por meio dele, o transexual não necessitará entrar na justiça para fazer a alteração do nome, bastando solicitar a retificação do registro dada a não coincidência dos seus documentos com sua identidade de gênero autopercebida. No entanto, isso ainda está no plano do ideal.
3. GÊNERO E SEXO
Gênero masculino ou feminino diz respeito à questão social do ser. Ser homem ou ser mulher não é ser um personagem, que de acordo com os mandos e desmandos da sociedade, o indivíduo aprende a atuar, devendo, inclusive, obedecer a certos ditames para que possa se encaixar socialmente e ser reconhecido como pessoa. Diz respeito à identidade do indivíduo, como ele se encaixa na sociedade e como ele percebe a si mesmo.
Para Louro, 1997:
[...] gênero se constitui com ou sobre corpos sexuados, ou seja, não é negada a biologia, mas enfatizada, deliberadamente, a construção social e histórica produzida sobre as características biológicas [...], já que é no âmbito das relações sociais que se constroem os gêneros. [...] O conceito passa a exigir que se pense de modo plural, acentuando que os projetos e as representações sobre mulheres e homens são diversos.
Vê-se que gênero é um conceito demasiadamente amplo, que circunda nas estradas da psicologia, antropologia, cultura e ciência. No entanto, para compreender o enfoque do atual estudo, será necessário fazer uma caracterização acerca de sexo, identidade e suas variações e gênero. E, para compreender de que forma o Direito é aplicado nestas questões, necessita-se entender o que é o sexo legal ou jurídico. 
Para poder diferenciar e relacionar as questões de gênero com o referencial sexual nasceu o conceito de identidade sexual, que está diretamente relacionado à realização do desejo sexual, independente de quem sejam os “sujeitos ativos e passivos” da relação. Está, então, diretamente, ligado ao modo como o indivíduo se satisfaz sexualmente. Esta definição é completamente diferente de identidade de gênero, que tem apelo social. É a necessidade que a sociedade tem de classificar um indivíduo para poder incluí-lo.
De acordo com o art. 1º, II do Decreto nº 8.727/16, identidade de gênero é “dimensão da identidade de uma pessoa que diz respeito à forma como se relaciona com as representações de masculinidade e feminilidade e como isso se traduz em sua prática social, sem guardar relação necessária com o sexo atribuído no nascimento”.
Identidade de gênero é o modo como cada sujeito compreende a si mesmo no aspecto gendrado de sua formação como indivíduo. Há um parâmetro hegemônico da identidade de gênero sedimentado no binômio homem/mulher, sendo cada uma destas identidades associada ao sexo biológico. Portanto, identidade de gênero pode ser compreendida como uma faceta da identidade de um indivíduo no que tange seu auto reconhecimento como homem ou mulher, - isto se for levado em conta somente as possibilidades hegemônicas de existência. Contudo, dada a complexidade da formação da identidade, este auto reconhecimento pode escapar do parâmetro hegemônico, fazendo emergir outras identidades que não são reconhecidas como tais para o parâmetro binário sexual da existência humana.
Vale ressaltar que existe uma grande diferença entre sexo e gênero, então, faz-se necessário uma breve explanação acerca do que é sexo. O sexo não é um conceito único, existem pelo menos quatro significados para a palavra. O significado biológico diz respeito à diferenciação entre macho e fêmea; o classificatório ao conjunto