A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
16 pág.
ALTERAÇÃO DO NOME NO REGISTRO CIVIL DE TRANSEXUAIS

Pré-visualização | Página 4 de 5

De acordo com Veiga Junior (2016, p. 16), o transexual é aquele indivíduo que “tem a certeza de pertencer ao sexo oposto, contrariamente a seu sexo morfológico, e por isso quer alterá-lo, para adequar seu sexo físico ao seu sexo psíquico”. Não se confunde com o homossexual, que nas palavras do mesmo autor, é a pessoa que pratica atos sexuais com indivíduos do mesmo sexo, vez que sente-se atraído por eles.
Tampouco deve ser confundido o transexual com o travesti que, apenas por fetichismo e preferência sexual, se veste seguindo os parâmetros determinados para o sexo oposto, ou com o bissexual, que é aquele indivíduo que alterna na prática sexual, ou seja, aquele que se relaciona ora com pessoas do mesmo sexo, ora com pessoas do sexo oposto.
Consoante Veiga Júnior (2016, p. 154), “De fato, o nome civil possui importância atemporal, pois se prolonga no tempo, promovendo efeitos que se estendem até mesmo após a morte, sendo certo que o nome gera tanto efeitos patrimoniais como não patrimoniais, podendo inclusive ser objeto de demanda judicial [...].”
Nota-se, desta forma, que para o direito as questões que envolvem o nome têm elevada importância, não somente no que concerne ao atendimento ao princípio da dignidade humana, mas toda uma gama de intrincadas relações patrimoniais e extrapatrimoniais, que implicam em dificuldades no âmbito civil.
A alteração do nome do transexual constitui, mais do que um benefício, um direito. Não obstante as consequências jurídicas advindas desta mudança, torna-se imperioso observar que o não cumprimento dessa necessidade – de adequar o seu nome à sua aparência física e gênero psicológico – culmina numa clara ferida ao princípio da dignidade da pessoa humana, anteriormente retratada.
6. POSICIONAMENTO DA JURISPRUDÊNCIA ATUAL
O movimento de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBTT) ou movimento TT, como é conhecido, milita, não somente, nas causas de direitos desses indivíduos, mas principalmente funcionando como referência fundamental para pensarmos temas como diferença, desigualdade, diversidade e identidade na sociedade brasileira contemporânea. Assim, o Projeto de Lei 5002/2013 é uma iniciativa apoiada pelo movimento TT e os ativistas afirmam que descontruir o preconceito que existe contra as pessoas transexuais é o principal desafio.
De acordo com Alexandre Martins: [5: In: MARTINS, Alexandre. Direito a personalidade do transexual. Disponível em: <http://www.visaoreal.com.br/direito_a_personalidade_do_trans.htm> Acesso em: 06/05/2017.]
"[...] entende-se por transexual a condição clínica em que se encontra um indivíduo biologicamente normal que, segundo sua história pessoal e clínica, e segundo o exame psiquiátrico, apresenta sexo psicológico incompatível com a natureza do sexo somático. Portanto, um indivíduo que se encontra nesta condição tem uma auto-imagem feminina e, por isso, se sente, concebe a si mesmo e quer a todo custo se afirmar socialmente, inclusive em seu papel sexual, como pertencente ao sexo oposto. Vive constantemente atormentado pela idéia e pelo desejo de se submeter às intervenções cirúrgicas plásticas, com a finalidade de transformar sua estrutura anatômica sexual, dando a ela características aparentes do sexo oposto".
Desta forma, observa-se a possibilidade de alteração do nome do transexual, questão que, hoje, encontra-se pacificada pelos Tribunais de Justiça brasileiros, independente da realização da cirurgia redesignadora. 
Cita-se, como exemplos, alguns casos julgados pelo Tribunal de Justiça dos Estados de São Paulo e Rio Grande do Sul. Na Apelação nº 70064503675, a 7ª Câmara cível autorizou a mudança do nome de Marinho Daniel da Luz Rocha para Dayse Maria da Luz Rocha (Apelação Cível Nº 70064503675, Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Sérgio Fernando de Vasconcellos Chaves, Julgado em... 24/06/2015). No mesmo sentido decidiu a 10ª Câmara de Direito Privado do TJSP, em acórdão relatado pelo Eminente Desembargador Carlos Alberto Garbi, assim ementado: 
“RETIFICAÇÃO DE REGISTRO CIVIL. TRANSEXUAL QUE PRESERVA O FENÓTIPO MASCULINO. REQUERENTE QUE NÃO SE SUBMETEU À CIRURGIA DE TRANSGENITALIZAÇÃO, MAS QUE REQUER A MUDANÇA DE SEU NOME EM RAZÃO DE ADOTAR CARACTERÍSTICAS FEMININAS. POSSIBILIDADE. ADEQUAÇÃO AO SEXO PSICOLÓGICO. LAUDO PERICIAL QUE APONTOU TRANSEXUALISMO. Na hipótese dos autos, o autor pediu a retificação de seu registro civil para que possa adotar nome do gênero feminino, em razão de ser portador de transexualismo (sic) ser reconhecido no meio social como mulher. Para conferir segurança e estabilidade às relações sociais, o nome é regido pelos princípios da imutabilidade e indisponibilidade, ainda que o seu detentor não o aprecie. Todavia, a imutabilidade do nome e dos apelidos de família não é mais tratada como regra absoluta. Tanto a lei, expressamente, como a doutrina buscando atender a outros interesses sociais mais relevantes, admitem sua alteração em algumas hipóteses. Os documentos juntados aos autos comprovam a manifestação do transexualismo (sic) e de todas as suas características, demonstrando que o requerente sofre inconciliável contrariedade pela identificação sexual masculina que tem hoje. O autor sempre agiu e se apresentou socialmente como mulher. Desde 1998 assumiu o nome de "Paula do Nascimento". Faz uso de hormônios femininos há mais de vinte e cinco anos e há vinte anos mantém união estável homoafetiva, reconhecida publicamente. Conforme laudo da perícia médico-legal realizada, a desconformidade psíquica entre o sexo biológico e o sexo psicológico decorre de transexualismo (sic). O indivíduo tem seu sexo definido em seu registro civil com base na observação dos órgãos genitais externos, no momento do nascimento. No entanto, com o seu crescimento, podem ocorrer disparidades entre o sexo revelado e o sexo psicológico, ou seja, aquele que gostaria de ter e que entende como o que realmente deveria possuir. A cirurgia de transgenitalização não é requisito para a retificação de assento ante o seu caráter secundário. A cirurgia tem caráter complementar, visando a conformação das características e anatomia ao sexo psicológico. Portanto, tendo em vista que o sexo psicológico é aquele que dirige o comportamento social externo do indivíduo e considerando que o requerente se sente mulher sob o ponto de vista psíquico, procedendo como se do sexo feminino fosse perante a sociedade, não há qualquer motivo para se negar a pretendida alteração registral pleiteada. A sentença, portanto, merece ser reformada para determinar a retificação no assento de nascimento do apelante para que passe a constar como "Paula do Nascimento". Sentença reformada. Recurso provido.” (Processo APL 00139343120118260037 SP – 23/09/2014 – Cível - Tribunal de Justiça – SP. Desembargador Relator Carlos Alberto Garbi). (Grifei)
À colação, decisão em sentido contrário é a do Ilustre Desembargador Sérgio Fernando de Vasconcellos Chaves: 
“REGISTRO CIVIL. HOMOSSEXUALIDADE. PRENOME. ALTERAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. O fato de ser homossexual e exteriorizar tal opção sexual é que pode expor a pessoa a situações desagradáveis e não o uso do nome. Não se tratando de corrigir erro de grafia, nem de nome capaz de levar seu usuário ao ridículo, mas mera alteração por não gostar dele, o pedido se mostra juridicamente impossível, visto ter decorrido mais de 28 anos do prazo legal. Não se trata, também, de apelido público e notório. Inteligência dos arts. 56 e 58 da Lei nº 6.015/73 e da Lei nº 9.708/98. Embargos infringentes desacolhidos” (TJRS - 4º Grupo de Câmaras Cíveis - EI nº 70000080325 –– Rel. Des. Sérgio Fernando de Vasconcellos Chaves – j. 12.11.1999 – maioria).
No entanto, em decisão bastante recente, de maio de 2017, o Superior Tribunal de Justiça, decidiu que a alteração do registro civil de transexuais é possível independentemente da realização da cirurgia transgenitalizadora. O entendimento foi da Quarta Turma do STJ quando acolheu um pedido de alteração de prenome