A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
16 pág.
ALTERAÇÃO DO NOME NO REGISTRO CIVIL DE TRANSEXUAIS

Pré-visualização | Página 5 de 5

e gênero de transexual, demonstrando, por meio de avaliação pericial psicológica, sua identificação social como mulher.
A decisão baseou-se no fato de que atualmente não é necessária a realização da cirurgia, mas tão somente a comprovação judicial da mudança do gênero. Neste caso específico, a autora justificou a mudança comprovando a realização de intervenções cirúrgicas e hormonais para adequar a sua aparência física à realidade psicológica de sentir-se mulher. Essa comprovação gerou uma discrepância óbvia entre a sua imagem e os dados constantes do assentamento civil.
Assim, é possível notar que a determinação que defere o pedido de alteração do nome do transexual depende muito do entendimento do Desembargador Relator, ficando a cargo deles decidir acerca de um direito que deveria se inerente ao ser, posto o que determina o Código Civil em seu artigo 16, anteriormente citado.
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
No decorrer da história da humanidade, observa-se que foram instituídos padrões de normalidade, sendo excluído e odiado tudo aquilo que não se encaixava. A personalidade é uma construção contemporânea, assim como a dignidade da pessoa humana enquanto valor e princípio.
O nome civil é questão importantíssima para o Direito, vez que individualiza o sujeito. Baseada no contexto histórico, a Constituição Federal é taxativa quando trata dos princípios fundamentais, tendo na dignidade da pessoa humana a garantia de que todos os indivíduos vivam de forma plena. Além disso, prevê que o nome tem garantia legal, de forma genérica, tendo no Código Civil o respaldo específico para tratar das questões relativas aos direitos de personalidade.
Notadamente, foi determinado que o nome é elemento imutável, sendo possível a sua modificação apenas em situações de erro ou irreparável prejuízo ao ser, e, por não haver legislação específica que regulamente as demandas inerentes aos transexuais, estes dependiam da realização da cirurgia transgenitalizadora para terem concedido o pedido de retificação de seu nome e identidade sexual. A atual decisão do STJ trouxe uma nova visão acerca destas demandas.
No entanto, o transexual é considerado cidadão perante o Estado, passível do cumprimento dos deveres instituídos no ordenamento jurídico. E assim deve permanecer quando da necessidade de atendimento aos seus direitos de personalidade e de possuírem documentos que condizem com a sua identidade sexual.
Desta forma, observa-se, por tudo quanto foi exposto, que o princípio da dignidade da pessoa humana, listado como a regra das regras, considerado os direitos de integridade, intimidade e identidade sexual deve prevalecer sobre o princípio da imutabilidade do nome, visto que o Estado não pode exigir que esses indivíduos deixem de ser quem são, de buscar aquilo que desejam, para que possam ter acesso aos seus direitos. Desta forma, deve a justiça evoluir juntamente com a sociedade, buscando um deslinde no que se refere aos conflitos gerados pela demanda e garantindo os seus direitos, construindo uma sociedade de bases mais justas.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Assembleia Nacional Constituinte, Brasília, DF, 5 out. 1988. Seção 1, p. 1-32.
______. Decreto nº 8.727, de 28 de Abril de 2016. Dispõe sobre o uso do nome social e o reconhecimento da identidade de gênero de pessoas travestis e transexuais no âmbito da administração pública federal direta, autárquica e fundacional. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 29 abr. 2016. Seção 1, p. 1-2.
______. Lei nº 6.015, de 31 de Dezembro de 1973. Dispõe sobre os registros públicos, e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 31 dez. 1973. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L6015compilada.htm> Acesso em: 06/05/2017.
______. Lei nº 10.406, de 10 de Janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Poder Legislativo, Brasília, DF, 11 jan. 2002. Seção 1, p. 1-83.
CAVALCANTE, Lara Capelo. O princípio constitucional da dignidade da pessoa humana como fundamento da produção da existência em todas as suas formas. 2007. 115 f. Dissertação (Pós-Graduação em Direito Constitucional) – Fundação Edson Queiroz, Universidade de Fortaleza, Fortaleza, 2007.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 3. ed. Curitiba: Positivo, 2004.
GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro, volume 1: parte geral. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2012.
GUEDES, Maria Eugênia Figueiredo. Gênero, o que é isso? USP: Psicologia. Ciência e Profissão, 1995.
HOGEMANN, Edna Raquel. Direitos Humanos e Diversidade Sexual: o reconhecimento da identidade de gênero através do nome social. Revista da EMERJ, v. 13, nº 52, 2010.
JESUS, Jaqueline Gomes de. Orientações Sobre Identidade de Gênero: Conceitos e Termos. Guia técnico sobre pessoas transexuais, travestis e demais transgêneros, para formadores de opinião. Brasília: Autor, 2002. Disponível em: <http://issuu.com/jaquelinejesus/docs/orienta__es_popula__o_trans> Acesso em: 18/08/2016.
LASNOR, Roberta Crystine de Almeida. Direito da personalidade: possibilidade de alteração do nome civil dos transexuais à luz da dignidade da pessoa humana. Saber Digital, Valença, v. 9, n. 1, p. 14-38, 2016.
LOURO, Guacira Lopes. Gênero, Sexualidade e Educação: Uma perspectiva pós-estruturalista. 6. ed. Petrópilis, Rio de Jeneiro: Vozes, 1997.
MATOS, Taysa; GOSTINSKI, Aline (Org). Dignidade da Pessoa Humana: Estudos para além do Direito. 1. ed. Florianópolis: Empório do Direito, 2017.
MENDES, Clóvis. O nome civil da pessoa natural. Direito da personalidade e hipóteses de retificação. São Paulo. Disponível em: <http://egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/31503-35726-1-PB.pdf> Acesso em: 06/05/2017.
MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2012.
MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 30. ed. São Paulo: Atlas, 2014.
SANTOS, Fernando Ferreira dos. Princípio Constitucional da Dignidade da Pessoa Humana. São Paulo: Celso Bastos Editor: Instituto Brasileiro de Direito Constitucional, 1999.
 
SCHMIDT, Érica Barbosa. Transexuais e a Alteração do Nome e do Sexo no Registro Civil. [Monografia de Conclusão de Graduação] Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba: 2014.
SILVA, De Plácido e. Vocabulário Jurídico. 3ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 1993.
SILVA, Miriam Ventura. Transsexualismo e respeito à autonomia: um estudo bioético dos aspectos jurídicos e de saúde da “terapia para mudança de sexo”. 2007. 135 f. Dissertação (Mestrado em Ciências / Saúde Pública) – Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 2007.
SIQUEIRA, Indianara Alves In GRUPO TransRevolução. TransRevolução convoca: Ato pelo dia Nacional da Visibilidade Trans no Rio de Janeiro – 20/01. 2015, s/p. Disponível em: <http://grupotransrevolucao.blogspot.com.br/> Acesso em: 30 mai 2017.
SUPERIOR Tribunal de Justiça (STJ). Transexuais têm direito à alteração do registro civil sem realização de cirurgia. Decisão. 09 mai 2017, s/p. Disponível em: <http://www.stj.jus.br/sites/STJ/default/pt_BR/Comunica%C3%A7%C3%A3o/noticias/Not%C3%ADcias/Transexuais-t%C3%AAm-direito-%C3%A0-altera%C3%A7%C3%A3o-do-registro-civil-sem-realiza%C3%A7%C3%A3o-de-cirurgia> Acesso em: 30 mai 2017.
VEIGA JUNIOR, Hélio. O Direito de Pertencer a Si Mesmo: a despatologização do transexualismo e sua regulamentação jurídica como um direito fundamental ao gênero. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2016.
1