HILL, Christopher O Mundo de Ponta-Cabeça
485 pág.

HILL, Christopher O Mundo de Ponta-Cabeça


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Lucio
Sello
O MUNDO DE PONTA-CABEÇA 
 
CHRISTOPHER HILL 
O MUNDO DE 
PONTA-CABEÇA 
IDÉIAS RADICAIS DURANTE A 
REVOLUÇÃO INGLESA DE 1640 
Tradução, apresentação e notas: 
RENATO JANINE RIBEIRO 
 
 
Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional (Câmara 
Brasileira do Livro, SP, Brasil) 
Hill, Christopher, 1912- 
H545m O mundo de ponta-cabeça : ideias radicais duran- 
te a revolução inglesa de 1640 / Christopher Hill ; tradução, 
apresentação e notas Renato Janine Ribeiro. \u2014 São Paulo : Companhia 
das Letras, 1987. 
ISBN 85-85095-26-1 
1. Grã-Bretanha - Historia - Revolução Puritana, 1642-
1660 2. Grã-Bretanha - Religião - Século 17 3. Grã-Bretanha 
- Vida intelectual - Século 17 I. Título. II. Título: Ideias 
radicais durante a revolução inglesa de 1640. 
CDD-942.06 
-001.1094206 
87-0834 -283.4206 
Índices para catálogo sistemático: 
1. Grã-Bretanha : Vida intelectual : Século 17 
001.1094206 
2. Igreja Anglicana : Grã-Bretanha : Século 17 
283.4206 
3. Revolução inglesa, 1640- : Grã-Bretanha : História 
942.06 
4. Revolução Puritana, 1642-1660 : Grã-Bretanha : 
Historia 942.06 
5. Século 17 : Igreja Anglicana : Grã-Bretanha 
283.4206 
Copyright © 1972, 1975 Christopher Hill 
Não é permitida a venda em Portugal 
Título original: 
The world turned upside down 
Radical ideas during the English Revolution 
Capa: 
Ettore Bottini 
Sobre A quermesse de Impruneta, 
detalhe de Florentiner Fassung, 1622, 
água-forte de Jacques Callot, 1592-1635 
Índice remissivo: 
Denise Pegorim 
Revisão: 
Carlos Tomio Kurata 
Denise Pegorim 
Piero Angarano 
1987 
Editora Schwarcz Ltda. 
Rua Barra Funda, 296 
01152 \u2014 São Paulo \u2014 SP 
Fones: (011) 825-5286 e 67-9161 
A Rodney, grato por ter-me sugerido o tema; e a B, A, 
D, cuja cooperação e compreensão foram essenciais 
para eu escrever este livro. 
 
ÍNDICE 
Capa \u2013 Orelha - Contracapa 
Apresentação \u2014 Renato Janine Ribeiro ........................................ 11 
Prefácio ........................................................................................... 25 
Nota à edição Penguin ..................................................................... 27 
1 Introdução ................................................................................. 29 
2 O pergaminho e o fogo .............................................................. 36 
3 Homens sem senhor ................................................................... 55 
4 Agitadores e oficiais .................................................................. 72 
5 O norte e o oeste ........................................................................ 87 
6 Uma nação de profetas ............................................................. 99 
7 Levellers e levellers autênticos .................................................. 117 
8 Pecado e inferno ........................................................................ 156 
9 Seekers e ranters ....................................................................... 187 
 
10 Ranters e quacres ....................................................................... 228 
11 Samuel Fisher e a Bíblia ......................................................... 252 
12 John Warr e o direito ................................................................. 261 
13 A ilha da Grã-Loucura .............................................................. 269 
14 Pregadores mecânicos e filosofia mecanicista ........................... 278 
15 Beijos vis e sem vergonha ......................................................... 294 
16 A vida contra a morte ............................................................... 309 
17 Um mundo restaurado .............................................................. 328 
18 Conclusão .................................................................................. 344 
Apêndices: 
1 Hobbes e Winstanley: razão e política ...................................... 368 
2 Milton e Bunyan: diálogo com os radicais ................................ 376 
Notas ............................................................................................... 397 
Índice remissivo .............................................................................. 467 
 
APRESENTAÇÃO 
Christopher Hill formou mais historiadores do que muita 
faculdade já antiga de Oxford. Esse elogio é de um colega seu, E. P. 
Thompson,1 autor de importante obra sobre a formação da classe 
operária inglesa, e permite medir a importância de Hill para a 
historiografia de hoje, em especial a de esquerda. Faz agora quase meio 
século que ele publicou seu livrinho notável sobre A Revolução Inglesa 
de 1640 (em 1940, tricentenário da mesma), por sinal traduzido em 
português; nesse intervalo são inúmeros os seus artigos, e vários os seus 
livros, que tiveram impacto na releitura da história inglesa e, 
especialmente, do seu grande tournant, o século XVII. 
Se nós, brasileiros, devemos continuamente lidar com o mito do 
povo bom, cordial, submisso, os ingleses têm um mito parecido, talvez 
ainda mais forte em sua cultura: o da sociedade na qual as mudanças se 
fazem de maneira consensual, na qual a gentileza (termo que remete à 
pequena nobreza, à gentry) prevalece sobre os conflitos, e estes não 
desandam em confronto. Como todos os mitos, este possui eficácia, 
gerando comportamentos que o confirmam; e não é falso por completo: 
a democracia parlamentar pode atestá-lo. Mas, se há quase trezentos 
anos não há golpes de Estado ou guerra civil na Inglaterra, se, portanto, 
a sua história política desde muito tempo se canalizou por vias 
institucionais, convém todavia notar que os conflitos sociais já nesse 
período foram de muita violência. Citemos Stendhal, comentando em 
1832 a sociedade britânica: "Um dia, anunciou-se que seriam 
enforcados oito pobres-diabos. A meus 
(1) Na dedicatória de seu livro Whigs and Hunters. 
11 
olhos, quando se enforca um ladrão ou um assassino na Inglaterra, é a 
aristocracia que imola uma vítima à sua segurança, pois foi ela que o 
forçou a tornar-se celerado, etc, etc. Esta verdade, que hoje soa tão 
paradoxal, talvez já seja um lugar-comum quando forem lidas as minhas 
tagarelices".2 Quantas pesquisas, nos últimos tempos, desde propor-se a 
ideia de uma história social, e impor-se ela, não seguem esta linha. Há 
mais, porém. Não são apenas os conflitos sociais, ainda presentes, que o 
mito da Inglaterra consensual omite; é a gestação dessa mesma 
Inglaterra, da Inglaterra dos "natural rulers of the land" repressores, uma 
gestação violenta, ancorada em duas guerras civis, nos anos 1640, na 
decapitação de um rei (1649) e na deposição de seu filho (1688). O 
padrão da história inglesa posterior, baseado na continuidade, depende 
desse padrão anterior, altamente conflitual. 
Christopher Hill é basicamente um historiador do século XVII e 
mesmo, podemos dizer, da Revolução que se fez entre os anos 1640 e 
60. Estudando-a, de tantos pontos de vista (econômico, classista, 
partidário, religioso, cultural), Hill recupera o papel da violência que 
libertou o capitalismo dos antigos entraves quase-despóticos; mostra as 
potencialidades que essa revolução teve, o que ela tentou e, quem sabe, 
poderia ter sido (a dimensão utópica do País de Cocanha, do mundo de 
ponta-cabeça). Esse é certamente o grande evento da história inglesa. 
Tentemos situá-lo, antes de falar das grandes mudanças de perspectiva 
que Hill introduziu na sua leitura. 
No começo do século XVII a Inglaterra é potência de segunda 
linha na Europa. Acaba de falecer a rainha Isabel (ou Elizabeth), que 
teve papel importantíssimo na formação de um nacionalismo 
identificado com a religião protestante;