Diarios De Jack Kerouac - Douglas Brinkley
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Diarios De Jack Kerouac - Douglas Brinkley


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Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando
por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo
nível.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Para John Sampas, David Amram e Jim Irsay, que inspiraram uma nova geração
a descobrir os trabalhos de um mestre americano.
 
 
 
 
Ventos poderosos que partem os galhos de novembro! \u2013 e o sol brilhante e
calmo, intocado pelas fúrias da terra, que abandona a terra à escuridão e ao
desamparo selvagem, e à noite, enquanto homens tremem em seus casacos e
correm para casa. E então as luzes dos lares se acendem naquelas profundezas
desoladas. Mas há as estrelas!, que brilham no alto de um firmamento espiritual.
Vamos caminhar ao vento, absortos e satisfeitos em pensamentos maldosos, em
busca de uma repentina e sorridente inteligência da humanidade abaixo dessas
belezas abismais. Agora a fúria turbulenta da meia-noite, o ranger de nossas portas
e janelas, agora o inverno, agora a compreensão da terra e de nossa presença
nela: esse teatro de enigmas e duplos sentidos e pesares e alegrias solenes, essas
coisas humanas na vastidão elemental do mundo açoitado pelo vento.
 
Jack Kerouac, 12 de novembro de 1947
Introdução
Por onde quer que o romancista Jack Kerouac perambulasse em sua vida
peripatética, ele costumava levar um caderno espiralado ou um bloco de guarda-
freios para o caso de querer anotar um pensamento espontâneo ou compor um
haicai. Não era uma característica incomum para um escritor sério. Na verdade, os
repórteres de antigamente nunca saíam de casa sem cigarros e um caderno, e
Kerouac não era diferente. Então Allen Ginsberg sabia exatamente o que estava
fazendo quando, em 1953, tirou a foto elegíaca que enfeita a capa deste livro. O
belo Kerouac em uma escada de incêndios do East Village, olhando por sobre um
mar de edifícios de Nova York, remoendo seus pensamentos como Montgomery
Clift, sob o céu repleto de prédios residenciais ao anoitecer. Com um livro de
normas do trabalho de guarda-freios (Railroad Brakemen Rules Handbook) saindo
do bolso de sua jaqueta, essa foto representa o Kerouac icônico; como se ele
oferecesse a Ginsberg sua melhor pose estilo Jack London, para a posteridade
considerar.
Mas ao contrário dessa fotografia, não há nada posado nesses diários, aqui
publicados pela primeira vez. O texto impresso deste volume foi extraído de
material escrito por Kerouac em dez cadernos entre junho de 1947 e fevereiro de
1954. Apesar de esses diários serem apresentados aqui como uma entidade única,
a edição exigiu pequenas ligações entre um caderno e o seguinte. Os rabiscos, os
exageros sem sentido e as anotações irrelevantes de Kerouac não foram incluídos.
Mas procurei me manter o mais próximo possível dos diários originais, corrigindo a
pontuação e a ortografia apenas quando necessário para dar clareza. Também
incluí algumas notas, da maneira mais discreta possível, para contextualizar
quando necessário.
Lido como um todo, Diários de Jack Kerouac: 1947-1954 traz provas definitivas
do profundo desejo de Kerouac de tornar-se um grande e duradouro romancista
americano. Repletas de inocência juvenil e da luta para amadurecer e para fazer
sentido em um mundo de pecados, estas páginas revelam um artista sincero
tentando descobrir sua própria voz. Poderia ser chamado de \u201cA educação de Jack
Kerouac\u201d. Na verdade, Kerouac costumava dizer que \u201csempre considerei escrever o
meu dever na terra\u201d. Estes diários são um testamento a essa convicção sincera.
Nos últimos 35 anos, desde a morte de Kerouac em Saint Petersburg, na Flórida,
aos 47 anos de idade, mais de uma dúzia de livros que detalhavam sua heroica
carreira literária foram publicados. Sem dúvida os dois volumes de suas cartas
escolhidas \u2013 editados por Ann Charters \u2013 deram aos leitores a mais esclarecedora e
nova compreensão do que motivava esse vagabundo errante de Massachusetts a
dedicar toda a sua vida ao ofício que escolheu. Estes diários nos levam ainda mais
fundo no mundo real de Jack Kerouac, o atirador de palavras espontâneo,
destinado a tornar-se o mais requintado inventor de mitos dos Estados Unidos do
pós-guerra, criando sua Lenda de Duluoz ao produzir histórias românticas sobre
suas aventuras mundanas. \u201cPrometo que nunca vou desistir, e que morrerei
gritando e rindo\u201d, escreveu Kerouac em uma anotação de 1949 incluída nesse livro.
\u201cE que, até lá, vou correr por este mundo que eu insisto ser sagrado e puxar todos
pela lapela para fazê-los confessar para mim e para todos.\u201d
Os registros incluídos neste volume constituem o jorro confessional durante o
período de sua vida (1947-1954) em que ele escreveu seus dois primeiros
romances publicados: The Town and the City [Cidade pequena, cidade grande] e
On the Road. No romance autobiográfico Vanity of Duluoz: An adventurous
education (1968), Kerouac chamou o período coberto neste livro de a época de seu
\u201cestilo idealista vago e nebuloso da Nova Inglaterra\u201d. Nascido em 12 de março de
1922, o mais jovem dos três filhos de uma família franco-canadense que se
estabelecera em Lowell, Massachusetts, aos dez anos de idade Jack Kerouac já
almejava tornar-se um escritor. Seu pai tinha uma gráfica e publicava um jornal
local chamado The Spotlight. O jovem Jack aprendeu sobre diagramação bem cedo
em uma atmosfera que ficava intoxicante por causa do cheiro da tinta de
impressão. Logo ele começou a escrever e a produzir seu próprio jornal esportivo,
impresso manualmente, que ele mostrava aos amigos e conhecidos de Lowell. Ele
frequentou escolas pública e católica e ganhou uma bolsa esportiva na Columbia
University \u2013 que, além disso, garantia um ano de escola preparatória na Horace
Mann School (na cidade de Nova York). Em Nova York, juntou-se com os outros
colegas que se tornariam ícones literários: Allen Ginsberg e William S. Burroughs.
Uma perna quebrada abortou a carreira de Kerouac no futebol universitário, e ele
deixou Columbia no primeiro ano e acabou entrando para a marinha mercante e
depois para a Marinha dos Estados Unidos (de onde foi dispensado). Assim
começou o período inquieto de viagens que iria caracterizar tanto seu legado
quanto sua vida.
Com intensidade feroz, Kerouac começou a manter diários em 1936, quando
ainda era um garoto de catorze anos em Lowell. Seu hábito obsessivo continuou
pelo resto da vida. Passagens longas e detalhadas, normalmente produzidas todos
os dias, são ornamentadas por poemas, desenhos, rabiscos, charadas, salmos e
orações. \u201cRecorro a esses diários para manter o controle de falhas, digressões e
atmosferas\u201d, anotou Kerouac quando começava a escrever On the Road. O modus
operandi de Kerouac nesses diários manuscritos é de liberdade e simplicidade
voluntárias, para alcançar a santidade pela solidão e pela pobreza, com simpatia
por toda criatura sensível. Desde cedo, Kerouac não queria coisa alguma com a
competição pelo sucesso monetário do pós-guerra: \u201cParticipar da vida está aquém
de minha dignidade\u201d. Para Kerouac, o \u201csom mais retumbante de toda a
humanidade\u201d era a frase de Jesus: \u201cMeu reino não é deste mundo\u201d.
A devoção de toda a vida de Kerouac ao