A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
204 pág.
TEORIAS DA APRENDIZAGEM

Pré-visualização | Página 36 de 50

do cotidiano do aluno e a construção 
de uma práxis educativa que estimule a leitura crítica do mundo. Na visão do 
educador, a Educação popular progressista não separa, em nenhum momento, o 
ensino dos conteúdos do desvelamento da realidade. Em sua proposta, o ato de 
conhecimento tem como pressuposto fundamental a cultura do educando; não 
para cristalizá-la, mas como “ponto de partida” para que ele avance na leitura do 
mundo, compreendendo-se como sujeito da história, compreendendo que é por 
meio da relação dialógica que se consolida a educação como prática da liberdade.
A pedagogia libertadora de Paulo Freire
113
Na concepção de Freire, a sociedade é direito de todos e todos têm direito 
de exercer a plena cidadania, entendendo ainda que isso só se dará na medida em 
que todos os indivíduos sejam alfabetizados dentro do conceito de alfabetização 
cultural, que segundo Paulo Freire (1982, p. 43), significa aprender a escrever 
a sua vida como autor e como testemunho de sua história. Para ele, alfabetizar 
é conscientizar por meio de palavras oriundas do próprio universo vocabular. 
Segundo seu método, devemos, primeiramente, investigar o universo das palavras 
faladas no meio cultural do alfabetizando. Desse modo, o alfabetizando decodifica 
os símbolos e os comportamentos, que passam a ser expressos na forma escrita, 
construindo ativamente a sua cultura.
Segundo Freire (1982, p. 18),
[...] a cultura letrada não é invenção caprichosa do espírito; surge no momento em que a 
cultura, como reflexo de si mesma, consegue dizer-se a si mesma, de maneira definida, 
clara e permanente. 
Assim, ainda segundo o autor, alfabetizar-se é aprender a ler a palavra 
escrita; não somente aprender a repetir, mas a dizer a sua palavra, expressão de 
sua cultura.
O uso da alfabetização cultural como metodologia resultará, dessa maneira, 
em melhoria do profissional da Educação, tanto na prática pedagógica quanto como 
cidadão, pois o mesmo passará a ter uma visão mais crítica e mais próxima da 
realidade do aluno. Sendo assim, trabalhar a cultura do aluno significa valorizá-lo 
enquanto pessoa e enquanto cidadão, diminuindo a ocorrência da estigmatização, 
da rotulação e da conseqüente exclusão escolar. 
Paulo Freire teve coragem de conscientizar e capacitar o “oprimido” por 
meio da educação, dando a ele instrumentos fundamentais para sua luta contra a 
sociedade excludente: o conhecimento e a palavra. Tal luta em torno da questão 
opressores e oprimidos se dá pela conquista do que, segundo Paulo Freire, o homem 
tem de mais precioso: sua liberdade. Seria então pela libertação, conseguida a 
partir do processo de alfabetização realizado pela leitura crítica do mundo, que 
os oprimidos começariam sua jornada em direção a novas descobertas sobre suas 
realidades e seus lugares sociais.
Para que isso fosse possível, os professores deveriam abrir mão de seus 
modelos “bancários” de educação, modelos estes que, segundo Paulo Freire, estão 
relacionados às práticas de depósito de informações nas mentes dos educandos. 
Em lugar de tal prática, os professores deveriam exercitar o diálogo, a troca de 
conhecimentos sobre as múltiplas realidades que se entrecruzam na sala de aula 
e favorecer a construção de processos pedagógicos pautados na prática reflexiva, 
deixando para trás as práticas reprodutivistas dos conteúdos.
Vale lembrar que tal proposta educacional deixa de lado também o modelo 
instituído de Educação encerrada nos muros escolares e, mais especificamente, 
nas salas de aula, dando lugar às propostas que entendem a Educação como um 
ato de exploração do universo existente ao redor do homem, não necessitando, 
portanto, de lugar específico para acontecer, o que significa dizer que qualquer 
espaço pode ser compreendido como um espaço educacional.
Teorias da Aprendizagem
114
O “método Paulo Freire de alfabetização de adultos”, consistia, assim, de ações 
pedagógicas que buscavam libertar o homem de suas amarras sociais na tentativa 
de proporcionar uma maior mobilidade social, diminuindo as desigualdades, as 
discriminações e os processos de exclusão em marcha no Brasil de sua época. 
Apesar disso, Paulo Freire não concordava com o fato de atribuírem a ele o 
mérito pela construção de um método de alfabetização, isso porque um método 
pressupõe diretividade, imposição de conhecimento, idéia contrária à desenvolvida 
por ele em seu trabalho. Mesmo assim, convencionou-se chamar o conjunto de ações 
pedagógicas voltadas para a alfabetização de adultos de “Método Paulo Freire”.
O método Paulo Freire
O trabalho de alfabetização de adultos desenvolvido por Paulo Freire 
apresentava ao país e, mais tarde, ao mundo, uma nova perspectiva educacional 
baseada em três eixos de investigação sobre o universo dos alunos: investigação 
do universo vocabular, a investigação das temáticas geradoras e a investigação em 
torno da problematização dos temas propostos. 
A investigação do universo vocabular dos alunos consiste na realização 
de um inventário de palavras representativas do contexto cultural no qual os 
alunos estão inseridos. Tal inventário seria formulado a partir de conversas livres 
sobre vivências cotidianas empreendidas entre os educadores e os educandos. As 
palavras inventariadas são chamadas por Paulo Freire de palavras geradoras, uma 
vez que é a partir delas que os educadores iniciarão sua jornada em direção à 
alfabetização de seus alunos.
A investigação das temáticas geradoras, ou dos temas geradores, ocorre a 
partir da “eleição” pelo grupo de educandos dos temas que mais os afetam, buscando 
representar de diversas formas o modo de vida dos educandos. Desse modo, as 
temáticas geradoras são responsáveis pelo surgimento de um ambiente alfabetizador 
que se organiza em torno do diálogo, ou melhor, de uma proposta dialógica.
A investigação da problematização dos temas propostos (ou apenas 
problematização) é o ponto central do processo de alfabetização segundo o 
método Paulo Freire. A problematização traz consigo a idéia de que alfabetizar 
não é apenas ensinar a ler e a escrever as palavras a partir de seus grafemas 
e fonemas, mas sim um ato de construção de conhecimentos e entendimentos 
sobre o mundo que nos cerca, o que se faz a partir do desvelamento da realidade, 
do engajamento político e de lutas em prol das transformações das condições 
concretas de existência.
Assim, ao estimular o pensamento político, Paulo Freire pretendia apenas 
que os alunos compreendessem a importância de intervir na vida política, uma 
vez que, para ele, ser cidadão é ser sujeito da sua própria vida.
É nesse sentido que Freire valoriza o contexto no qual o educando está 
inserido. O autor busca desenvolver, desse modo, outros saberes que geralmente 
não são considerados pela escola como úteis para o processo de aprendizagem, 
mas que são considerados por Freire como integrantes da realidade de cada um de 
A pedagogia libertadora de Paulo Freire
115
nós, uma vez que fazemos parte do mundo e não nos separamos dele no momento 
do nosso processo de educação. 
Podemos dizer, diante do exposto até o momento, que o “Método Paulo 
Freire” busca valorizar a cultura dos alunos ao inserir no interior do processo 
educativo as experiências e os conhecimentos que os alunos trazem. 
Segundo Freire (1993, p. 41),
aí está uma das tarefas da educação democrática e popular, da Pedagogia da esperança 
– a de possibilitar nas classes populares o desenvolvimento de sua linguagem, jamais pelo 
“blábláblá” autoritário e sectário dos “educadores”, de sua linguagem que, emergindo da 
e voltando-se sobre sua realidade, perfile as conjecturas, os desenhos, as antecipações do 
mundo novo. Está aqui uma das questões centrais da educação popular – a da linguagem 
como caminho da cidadania. 
É com base nesses ensinamentos de Paulo Freire que devemos agir, de 
forma consciente,