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Antonio Octávio Cintra - Sistema de Governo no Brasil (2)

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"que soube recompen- 
sar seus aliados e lhes dar voz no processo 
de formulação legislativa". 40 
Ao final de sua análise, em que trata das 
controvérsias sobre o tema "reforma políti- 
ca" - as posições sobre a qual em muito de- 
pendem de como se avalia nosso sistema de 
governo - observa ele: "O sistema atual não 
é uma unanimidade entre os especialistas que 
o avaliam. Essa ausência de consenso é sinal 
claro de que há, pelo menos, alguns proble- 
mas com o seu funcionamento e que, por- 
tanto, ajustes de curso poderiam ser consi- 
derados"." 
6. A visão de um ex-presidente 
da República 
 
O recentemente publicado depoimento 
do ex-presidente Fernando Henrique Car- 
doso sobre seu período presidencial nos pro- 
vê de cruciais informações e interpretações 
sobre o funcionamento de nosso sistema de 
governo. Não se trata somente de uma aná- 
lise acadêmica, ainda que em vários momen- 
tos o ex-presidente faça considerações de 
ordem teórica. O livro é, também, a análise 
de um protagonista privilegiado dos even- 
tos descritos. 
Que visão do sistema de governo brasi- 
leiro depreendemos do livro? A descrição do 
ex-presidente é, como não poderia deixar de 
ser, muito matizada, não se prestando a 
enquadramento simples em nenhum dos 
campos que, no momento, disputam a inter- 
pretação da política nacional. Por exemplo, 
a sua visão de nossos partidos políticos: 
"Nada mais equivocado", diz ele, "do que 
subestimar o papel político do Congresso e 
dos partidos. Os chavões sobre estes osci- 
lam. Ora os consideram incoerentes, sem 
ideologias, meras máquinas eleitorais. Ora 
confundem legendas com partidos e vêem, 
nas votações do Congresso coerência parti- 
dária' quando na maior parte das vezes tra- 
ta-se apenas de apoio ao governo ou oposi- 
ção a ele. Pior ainda, muitas vezes, nos dois 
casos, os parlamentares agem por motivos 
que nada têm a ver com as ideologias pro- 
clamadas nos programas partidários. Na 
verdade há um pouco de tudo isso em cada 
um dos partidos - coerência, apoio em troca 
de vantagens de todo o tipo, visões ideológi- 
cas -, dependendo das regiões e da força dos 
chefes políticos, bem como do momento, da 
formação dos dirigentes partidários e de suas 
trajetórias de vida .... ". 42 
De qualquer maneira, rejeita ele o orde- 
namento unidimensional das agremiações, 
pois, sobretudo no contexto da Assembléia 
Nacional Constituinte, mas também se 
39. RENNÓ,2006:260. 
40, Para Rennó, nos períodos- de Sarney, Collor e Itamar Franco, "não se pode falar de uma relação Executivo- 
Legislativo nos moldes em que ela se dá na administração de Fernando Henrique Cardoso" (RENNÓ, 
2006:267). 
41. RENNÓ,2006:270. 
42. CARDOSO,2006:75. 
73 
16. 
 
projetando muito além dela, inclusive sobre 
seus dois mandatos, divisões de múltipla na- 
tureza recortam os partidos e geram alian- 
ças que lhes extrapolam os limites." 
A esse quadro, o ex-presidente acrescen- 
ta a avaliação do papel das lideranças parti- 
dárias. São elas capazes de assegurar bases 
estáveis para as negociações e sustentação 
política do governo? Também aqui a visão é 
nuançada, mas tende a encarar como redu- 
zido o poder dos líderes." Ademais, a atitu- 
de dos partidos coligados na base governista 
varia ao longo do tempo, de acordo, entre 
outras coisas, com o momento do ciclo elei- 
toral ou com a popularidade do presidente, 
sem falar do tipo de política em questão e 
como ela afeta os interesses. Em geral, nesse 
ponto específico, o retrato não é otimista." 
O ex-presidente encara o "presiden- 
cialismo de coalizão" com bastante ambi- 
valência. Ressalta o que ele representa de 
solução política, dada a fragmentação parti- 
dária, mas denuncia os obstáculos que ante- 
põe a uma política transformadora, de que 
 
 
o presidente pode julgar-se legitimamente 
incumbido, dado o caráter plebiscitário da 
eleição presidencial. 
O quanto a operação do sistema depende 
de como o presidente exerce sua liderança, 
de sua popularidade, persistência, propósito, 
clareza de objetivos, capacidade negociado- 
ra, perpassa todo o texto, nesse sentido re- 
forçando sobretudo a percepção de ser o 
processo político, nesse sistema, "mais indivi- 
dualmente dirigido do que institucionalmente 
constrito"." 
Uma indagação latente no texto diz res- 
peito a quanto, em nosso sistema, é próprio 
do regime democrático, e quanto, na verda- 
de, caracteriza um mau funcionamento da 
democracia. 
 
7. O presidencialismo estadual 
e municipal 
 
Para concluir este capítulo, faremos um 
breve exame da questão "sistema de go- 
verno" nos estados e municípios. Em nossa 
 
 
 
43. "Os constituintes não se dividiam apenas quanto a questões conjunturais ou de tramitação. Suas opiniões 
discrepavam nas questões econômicas, nas questões sociais em geral e no alcance da ação do Estado. E os 
alinhamentos se davam em cada questão específica, não necessariamente a partir de uma visão do mundo, 
de uma ideologia" (CARDOSO, 2006:111). Ver, a esse respeito, o capítulo "A Câmara dos Deputados na 
Nova República: a visão da Ciência Política", deste livro. 
44. "Por fim, na dura realidade de nossos partidos, viu-se que o comando sobre as bancadas, não apenas o dos 
presidentes como o de muitos líderes, é tênue ( ... ) Os próprios líderes partidários tornam-se cada vez mais 
partes de uma cadeia de transmissão das demandas individuais dos parlamentares ao Executivo do que 
guias políticos de seus liderados. Muitas análises incorrem em simplificações ao tomar as legendas por 
partidos e considerá-los em bloco, 'de esquerda' ou 'de direita' ou até como 'governistas' e 'oposicionistas': 
como qualificar em bloco, se os 'partidos' são fragmentados?" (CARDOSO, 2006:241, 243). 
45. "-Como os partidos não se sentem obrigados a respaldar programaticamente as ações do Executivo, o jogo 
de interesses prepondera. Os 'aliados' (com a possível exceção da maior parte do partido do presidente e de 
setores de algum outro partido mais afinado com os propósitos do governo) tudo o que desejam é aumen- 
tar a pressão sobre o Executivo para ampliar os respectivos espaços políticos e obter vantagens. Isso os leva 
a transigir com a oposição que, por outros motivos, quer dificultar a vida do governo, além de, obviamente, 
não compartilhar de seus objetivos. No processo legislativo, um dos resultados dessa situação é que nor- 
malmente os projetos que mais contam para a ação administrativa ou de política transformadora vão parar 
na mão de relatores ou presidentes de comissões que se opõem às diretrizes do governo. Essa prática torna 
o processo legislativo uma maratona com barreiras" (CARDOSO, 2006:445). 
46. RENNÓ,2006:269. 
74 
17. 
 
organização constitucional, o modelo pre- 
sidencialista, adotado no nível federal, tam- 
bém rege os governos dos estados e dos 
municípios, mas com algumas diferenças for- 
mais com relação ao governo federal. 
Essas unidades da Federação não têm 
legislativo bicameral. Os governadores e pre- 
feitos não dispõem, com poucas exceções, 
de competência similar à dos presidentes para 
editar medidas provisórias. Os estados cujas 
constituições admitem o poder de decreto 
com força de lei, representado pelas medi- 
das provisórias - MPs, são o Acre, Santa 
Catarina, Piauí e Tocantins, mas a amplitu- 
de para editá-Ias varia entre eles. No Piauí, 
por exemplo, permitem-se apenas "em caso 
de calamidade pública". Em Santa Catarina