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2 - sociologia

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o motivo de haver diferenças 
entre os humanos.
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Fig.7.7
Ciência dos homens e ciência da diferença
27Volume 2
 Ao longo do século das Luzes ou Esclarecimento (séculos XVII e XVIII), os fi lósofos e cientistas 
abandonaram, em muitos casos, o modelo de conhecimento teocêntrico. Era a Idade da Razão 
que nascia. A questão do outro foi deixada para segundo plano pelos iluministas, por conta das 
revoluções políticas e tecnológicas da Europa.
 Nesses séculos, apenas Rousseau32 e, mais tardiamente, Kant33 construíram alguma refl exão 
sobre o que seria a humanidade. Rousseau, no fundo baseado em Étienne de la Boétie e 
Montaigne34, afi rmou que o homem nascia bom e a sociedade o corrompia. O conceito de “bom 
selvagem” agregava ideias de que o homem era bom por natureza (natureza humana e não 
mais divina) e que os humanos nasciam livres, sendo os nativos o exemplo puro e a prova dessa 
tese. Os nativos passaram a ser chamados “primitivos”, porque representariam a forma primordial 
de todos os homens. E qual seria a forma superior ou avançada? Segundo os europeus de então, 
a fase avançada seria o europeu.
 Por sua vez, Kant, baseado em Rousseau, construiu a tese de que a natureza humana é 
tipicamente racional. O humano pode ser reconhecido pelo uso de um atributo cognitivo – 
a razão. Ainda assim, as diferenças persistem. Segundo Kant, alguns homens (os europeus) 
desenvolveram-nas mais em relação aos demais.
 No século XIX, a ideia de natureza humana foi abandonada em decorrência dos avanços da 
Biologia e da mudança dos padrões científi cos. Já vimos que uma ciência só pode ser considerada 
como tal se puder apresentar provas concretas e palpáveis de suas teses. A explicação pela vontade 
de Deus ou por uma natureza humana, que não passa de fruto da abstração de fi lósofos e não pode 
ser encontrada no mundo material, perdeu a validade no campo científi co.
 Como visto anteriormente, os fundadores da sociologia, Marx35, Durkheim36 e Weber37, 
institucionalizaram e respaldaram – Durkheim mais que os outros – a Sociologia como uma ciência 
positiva. No século XIX, não se questiona mais se os primitivos são ou não humanos nem o que diferencia 
os humanos dos outros animais; e surgem respostas à segunda questão: “Por que os humanos são 
diferentes?”, em duas vertentes: a da Biologia e a da Antropologia.
 Para a Biologia, os seres humanos são diferentes porque cada espécie animal desenvolveu-se ao 
longo de milênios e, nesse sentido, alguns grupos estariam atrasados em relação a outros. O nome 
desse paradigma de explicação é evolucionismo social. Ele está baseado na teoria da Origem das 
espécies, de Charles Darwin38. É importante ressaltar que Darwin produziu uma teoria sobre a vida em 
geral e sua variedade. Sociólogos (Herbert Spencer39), economistas (Thomas Malthus40), fi lósofos e 
naturalistas (Arthur de Gobineau41) tentaram transportar a explicação darwiniana (também conhecida 
como darwinismo social) para a sociedade. O resultado dessa experiência foi a fundamentação 
científi ca do racismo e da colonização (agora, para levar os povos atrasados ao “desenvolvimento”, 
cujo modelo era a Europa). Em outras palavras, gerou-se uma justifi cativa “científi ca” para a invasão dos 
demais continentes, para a expansão do mercado e para o extermínio das raças atrasadas que não se 
adaptassem.
 Para a Antropologia, a explicação da diferença entre os homens também será evolucionista, no 
sentido de que existiria estágio de desenvolvimento pelos quais todas as sociedades devem passar, sem 
saltar de um estágio para outro. Contudo o conceito-chave da explicação é a cultura. Para a Biologia e 
o evolucionismo social, o modelo de explicação são as ciências da natureza e a própria Biologia, sem 
distinção entre os humanos e os demais animais. Para a Antropologia, que, agora, adquiriu o estatuto de 
ciência, o modelo de explicação é a Sociologia (principalmente, naquele momento sócio-histórico, de 
Durkheim).
 Finalmente, chega-se ao conceito de cultura. Foram apresentados problemas: 1) Como reconhecer 
um ser vivo como humano? 2) Por que os humanos são diferentes? e 3) Qual é a característica particular 
que separa humanos de animais e, ao mesmo tempo, unifi ca-os como humanos? O conceito de cultura 
tem a pretensão de responder às três questões. 1) Um humano pode ser reconhecido por ser “portador” 
de cultura. 2) Os humanos são diferentes porque detêm culturas diferentes (explicação pela sociedade e não 
pela natureza). 3) A diferença entre humanos e animais é que os primeiros possuem, herdam e criam cultura.
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Sociologia
28 1ª série do Ensino Médio
 Toda essa luta no campo das ideias para abandonar as questões antigas por uma nova: O que 
é cultura?
 [...] tomado em seu amplo sentido etnográfi co, é este todo complexo que inclui 
conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos 
adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade. 
TYLOR, Edward Burnett. A cultura primitiva, 1871, volume I, p. 1.
 Tylor42 costuma ser considerado como um 
dos fundadores da Antropologia enquanto 
ciência acadêmica – de um certo ponto, é 
possível dizer que é anterior à Sociologia, posto 
que Durkheim só publicaria As regras do método 
sociológico em 1895. O termo etnográfi co 
empregado por Tylor faz menção aos relatos 
descritivos de viagens dos exploradores, 
caçadores e coletores britânicos da época 
do Império Britânico. No fundo, o que Tylor 
fez foi sintetizar a refl exão sobre a diferença 
e a humanidade, que se viu, grosso modo 
anteriormente, no conceito cultura.
 Do ponto de vista da história da Antropologia, 
esse conceito, embora a defi nição dada anteriormente esteja em desuso, é primordial e foi 
fundamental para afastar das Ciências Sociais o paradigma de explicação com base em biologia 
orgânica. O conceito é evolucionista, na medida em que considera que há estágios de 
desenvolvimento desiguais entre os povos, mas como a diferença foi explicada pela sociedade 
e não por predisposições biológicas (hoje, chamamos isso de gene), foi um avanço formidável 
para a época.
 Esse conceito de cultura apresentado anteriormente ganhou tal popularidade e, praticamente, 
cada antropólogo cunhou um para si. De fato, nos anos 1940-50, as pesquisas de Alfred Kroeber43, 
antropólogo estadunidense, culminaram em uma coleção de algo em torno de 200 (duzentas) 
defi nições de cultura. O problema é que, por se tratar do conceito central que fundamenta a 
teoria antropológica, ele não poderia ser pulverizado. O próprio Kroeber percebeu que na busca 
de um substrato comum a todas as defi nições estava a separação básica e fundamental entre 
o biológico e o sociológico no ser humano, e que algo comum a toda a humanidade e cultura 
variava.
 Uma defi nição muito apreciada de cultura foi oferecida por Cliff ord Geertz44 também dos 
EUA, e considerado fundador da Antropologia Interpretativa, quase um século depois daquela 
primeira conceituação: cultura são os mecanismos de controle simbólicos que servem 
para orientar a ação dos seres humanos no mundo (a defi nição, nas palavras do autor, está 
na seção 5.1). Esse conceito é assaz poderoso porque impacta diretamente a noção de 
humano. Isto é, se por humano entendemos alguém que não tem cauda (paradigma biológico), 
a cultura pode ser desconsiderada. Por outro lado, se por humano entendemos um ser que se 
produz a si mesmo em um contexto específi co (paradigma sociológico), a cultura determina 
o que pode vir a ser um humano, preservando inclusive

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