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2 - sociologia

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com base na própria biologia: a raça e, hoje, os genes. A ideia de raça também foi 
equiparada à cultura para explicar a diferença entre povos. Dizia-se que as culturas (lembrando-se 
do conceito dos evolucionistas sociais) eram distintas porque as raças humanas eram distintas. 
Como se a sociedade brotasse da natureza.
Exercícios de sala
1 Faça a distinção entre os conceitos de diferença e desigualdade explicitando qual o fundamento 
sociológico de cada um.
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 B) Por que existe ódio contra a diferença?
 A antropóloga britânica Mary Douglas84 (1921-2007) estudou, especialmente, os motivos 
particulares e os mecanismos de diferenciação e valorização das culturas. Um dos problemas 
sobre os quais se debruçou foi “por que se abomina a diferença?”. Em termos antropológicos, a 
questão implica pesquisar qual o processo social que leva as pessoas a valorizarem um bem ou 
hábito e/ ou desprezarem outro. 
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 Diferenças culturais
41Volume 2
 Sabe-se que cada grupo tem uma alimentação particular por razões geográfi cas e culturais. 
Geográfi cas porque os animais e plantas não habitam todos os lugares (a exceção é o ser 
humano). Culturais porque os humanos criam hábitos. A partir dos alimentos à disposição, 
inventam e aperfeiçoam técnicas de preparo. Essas técnicas são adotadas ou abandonadas por 
motivos nutricionais ou simbólicos – nutricionais porque são efetivamente melhores para a 
nutrição; simbólicos porque a aparência ou o sabor é melhor, ou por fundamentos religiosos, 
enfi m, por razões sociológicas que os humanos construíram, e não por razões dadas pela 
natureza.
 Mary Douglas, em Pureza e perigo, escreveu um capítulo em que analisa o processo histórico 
e sociológico de atribuição e mudança de valores alimentares. Ela inicia o livro explicando que 
o valor cultural de “pureza” opõe-se ao de “poluição”. Certo, ninguém, em sã consciência, 
beberia água poluída. Mas por que as pessoas não comem porco (por exemplo os hebreus, dado 
pela autora)? A carne desse animal é nutritiva e, devidamente asseada, pode ser consumida sem 
receio de contaminação. Não há razões naturais para não se consumir carne suína.
 O motivo só pode ser sócio-histórico. Para que as pessoas evitem determinado alimento, 
elas precisam acreditar que ele representa-lhes “perigo” – essa crença ou valor corresponde 
ao conceito durkheimiano de representações coletivas. Como isso acontece? No capítulo As 
abominações do Levítico, do mesmo livro, a autora recupera na bíblia a proibição religiosa de 
consumo de carne de porco. Relendo As formas elementares da vida religiosa, de Durkheim, ela 
explana que a proibição tem base religiosa e, por isso, de acordo com Durkheim85, está pautada 
na oposição entre “sagrado” e “profano”. Pode-se deduzir que a declaração de que um alimento 
é “profano” e, portanto, “sujo/poluído” e, logo, “perigoso” está baseada na autoridade religiosa. 
Ora, se o povo acredita no que o líder espiritual diz, deve-se perguntar o que o levou a declarar 
a carne daquele animal como “proibida”.
 Mary Douglas encontra essa razão no atrito entre os hebreus e os povos circunvizinhos 
da Cananeia. As desavenças entre hebreus e cananeus levou à proibição do consumo e, 
consequentemente, da compra da carne suína desses outros povos. O fundilho último da 
proibição do consumo de carne suína era inibir o contato social, as trocas. Como não existia 
ciência nos moldes de hoje para declarar que o porco é sujo e inapropriado ao consumo, a 
inculcação da crença foi realizada por via religiosa.
 O processo é complexo. Trata-se da inversão ou mutação dos valores sociais. Os valores das 
coisas e pessoas são atribuídos pelas próprias pessoas e são elas que criam e modifi cam esses 
valores. As razões podem ser as mais diversas. A análise de Douglas propõe uma generalização 
para qualquer tipo de transvaloração. Para qualquer processo de atribuição de valor a objetos, 
pessoas ou hábitos, podem-se encontrar traços históricos concretos. Odiar uma diferença 
(atribuir um valor negativo) tem fundamentos na história de uma sociedade, e não na natureza.
 Exemplo de exercício de análise a partir da explicação de Douglas: a crença de que os 
indígenas seriam subdesenvolvidos, primitivos, mais próximos da natureza, avessos à tecnologia 
e “indefesos” é uma representação coletiva. A sociedade brasileira não nativa construiu essa 
representação. Como? Através dos livros didáticos. Everardo Rocha produziu um trabalho 
intitulado Um índio didático: notas para o estudo das representações. Nesse trabalho, ele 
demonstra como um livro com mais de cem anos de tradição sedimentou, na crença coletiva, 
essa noção do indígena, como esquisito, exótico, menos civilizado, mais natural e mais primitivo. 
As imagens e descrições do ameríndio seminu, com penachos e vivendo em cabanas assentou, 
na crença coletiva, uma representação do nativo (que, obviamente, não é a ideia que ele 
faz de si mesmo). Essa representação respaldou a política de “tutela” dos povos nativos, que 
nada mais é do que os desconsiderar humanos, não reconhecer sua alteridade – quando, na 
questão do outro, negar a humanidade ou cultura de alguém é negar a alteridade (em latim,
alter = outro) –, acreditar que estão mais próximos da natureza e mais distantes da cultura 
(humanidade).
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Sociologia
42 1ª série do Ensino Médio
 Seguindo essa linha de raciocínio, pode-se explicar o porquê de as minorias serem odiadas. 
Antes de mais nada, minoria, em Ciências Sociais, não tem a ver com um número reduzido; 
diz respeito àqueles que são sistematicamente excluídos do horizonte de visão de mundo do 
grupo dominante: mulheres, pobres, negros, homossexuais e ameríndios. As minorias passam 
a ser odiadas pelo mesmo mecanismo de construção de uma representação coletiva que leva 
o grupo hegemônico a crer que os grupos de minorias representam-lhe perigo, são “sujos/
poluídos”, profanos, execráveis, abomináveis, estão fora da cultura (humanidade) e deveriam 
ser eliminados.
Exercícios de sala
2 Analise, do ponto de vista antropológico, a frase a seguir: 
 “17.2 O Mestre disse: ‘A natureza humana nos aproxima, os hábitos nos distanciam’.” 
Confúcio. Os analectos. São Paulo: Editora da Unesp, 2012. p. 524.
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Exercícios propostos
3 “A coerência de um hábito cultural somente 
pode ser analisada a partir do sistema a que 
pertence”. 
 LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito 
antropológico. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
 Baseando-se no texto, pode-se 
dizer que 
a) analisar a cultura do outro é necessário 
para nos entendermos.
b) depois que um povo se desenvolve, 
abandona hábitos de superstição.
c) no mundo globalizado, todos os hábitos 
são igualmente compartilhados.
d) analisar um hábito do ponto de vista de 
sua própria sociedade é etnocentrismo.
e) todas as pessoas são potencialmente 
etnocêntricas porque podem não saber como 
compreender a diversidade humana.
4 Analise a imagem abaixo:
 A cena

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