A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
48 pág.
2 - sociologia

Pré-visualização | Página 2 de 19

antropológica cria uma defi nição especializada.
1 - http://cnec.Ik/05vn
Cultura ou cultura?
7Volume 2
 Claro, pode-se falar em cultura de massa ou cultura erudita, e ainda em cultura política, 
sociologia da cultura e, até mesmo, “cultura empresarial”. Ou seja, em nosso linguajar, a palavra
pode ser usada de diversas maneiras. Para o Ministério da Cultura, uma boa defi nição é: 
“manifestações artísticas”. Para as Ciências Sociais, tais manifestações são sim culturais. Porém 
cultura não é apenas isto, ela envolve muito mais.
 Em Antropologia, o conceito de cultura veio suprir a necessidade de explicar e compreender 
a diferença entre os seres humanos. De fato, esse conceito gozou, por mais de um século (do XVIII 
ao XX), de exclusividade nesta função. Recentemente, alguns antropólogos vêm questionando 
o conceito de cultura, alegando que ele seria, antes de tudo, mais um mecanismo de dominação 
e colonização do que de compreensão (veremos isso adiante). Atualmente, é consenso entre 
antropólogos que cultura seja a carga distintiva da humanidade, aquilo tipicamente humano, que 
diferencia o homem dos outros animais. Quando se fala em cultura, portanto, pressupõe-se toda 
a produção social, material e simbólica que as sociedades humanas construíram ao longo de sua 
existência.
 Existem, então, diferenças entre povos, inclusive a cultura (sentido antropológico) 
contemporânea de um povo é diferente do que foi no passado, e é também diferente entre 
indivíduos desse mesmo povo. Há uma multiplicidade de diferenças. O conceito cultura levou 
cinco séculos para ser gerado. É importante conhecer esse processo, ainda que sucintamente. 
Adiante (seção 7) veremos como a ideia de cultura surgiu em resposta à necessidade de 
entendimento das diferenças.
 Essa ciência da humanidade (Antropologia) busca estudar quais os signifi cados e valores 
que os seres humanos atribuem a si próprios, a seus bens e a suas atividades. É por isso que 
muitos antropólogos estudam cultura a partir da língua e das linguagens – ambas seriam uma 
rede de signifi cados, valores que as pessoas criam e mudam conforme suas necessidades. Uma 
defi nição clássica de cultura que, de certa forma, resume os aspectos materiais e simbólicos é a 
do antropólogo estadunidense Cliff ord Geertz2:
 O conceito de cultura que eu defendo [...] é essencialmente semiótico. Acreditando, como 
Max Weber, que o homem é um animal amarrado à teia de signifi cados que ele mesmo teceu, 
assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência 
experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa à procura do signifi cado. 
GEERTZ, Cli� ord. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. p. 15
 Explicando: para Geertz suprir, as ações dos humanos só têm sentido (valor, signifi cado) 
entre eles mesmos, de um para outro. Esse sentido foi construído ao longo da história de cada 
sociedade. Ocorre que os materiais, as técnicas, as formas de produção também passam por 
um processo de receber um valor determinado pela sociedade. Assim, cada ato humano só é 
possível a partir da teia de signifi cados que os seres humanos teceram entre si e que envolve 
as coisas. Por essa razão, não é possível formular leis gerais e universais sobre cultura, valores, 
signifi cados – porque eles são únicos em cada sociedade. A antropologia, enquanto ciência da 
humanidade, busca esses signifi cados e explica as atividades humanas a partir deles – as pessoas 
fazem a si mesmas e atribuem a si mesmas seu signifi cado a partir do contexto cultural. Em suma, 
cultura é o que norteia a ação dos humanos no mundo.
Exercícios de sala
1 Compare as defi nições de “cultura” que usamos diariamente, no senso comum, ao conceito 
estabelecido pela antropologia e indique as diferenças observadas. 
 _______________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________
2 - http://cnec.Ik/05vx
Sociologia
8 1ª série do Ensino Médio
Defi nição conceitual: Capacidade de 
se colocar no lugar do outro. 
5.2 Classifi cação de cultura(s)
 A) Cultura erudita e cultura popular
Fig.5.13
Notamos que cultura refere-se ao que distingue os seres humanos dos outros animais (ver seção 7). Lembrando da imagem de abertura do capítulo, é possível perceber que todos 
os seres vivos alimentam-se, mas os homens preparam a comida de infi nitas maneiras. Essas 
maneiras foram estabelecidas ao longo de milênios. No exato dia de hoje, coexistem diversas 
maneiras de cozinhar, de se vestir, de falar, de morar etc.
 Os seres humanos, ao depararem-se com a diversidade inerente à própria humanidade, 
buscaram maneiras de compreendê-la. O conceito de cultura tem o objetivo de englobar a 
distinção entre humanos e animais (antropocentrismo) e, ao mesmo tempo, as diferenças 
entre humanos – em grupo ou individualmente (alteridade, 
diversidade, diferença). Em resumo, o conceito de cultura seria 
uma explicação científi ca para as diferenças sociais baseadas na 
própria sociologia.
 Não é possível 
descrever uma suposta origem da 
cultura porque cada cultura é única 
e, digamos, 90% da população 
humana não registrou sua história 
em livros. Mesmo os europeus e 
demais ocidentais, e, antes deles, 
chineses, indianos e outros povos do 
oriente médio e da Ásia só passaram 
a escrever sua história nos últimos 
cinco mil anos (é muito pouco 
quando consideramos a idade 
estimada da Terra – 4,54 bilhões de 
anos – e que o Homo sapiens sapiens apareceu há cerca de 180 mil de anos).
 O que podemos afi rmar, por outro lado, é que tudo o que os seres humanos produzem é 
fruto de sua cultura. Mesmo o conceito de cultura é um produto cultural, que foi constituído em 
um contexto singular. Houve sim estudos sociológicos sobre a história dos povos europeus com 
base na cultura. Ferdinad Tönnies3 e seu livro Sociedade e Comunidade (1887) são ícones célebres. 
Contudo, tais estudos ainda buscam uma sequência lógica para os estágios de desenvolvimento, 
supostamente universal – e a história é particular, e não linear.
 Cinquenta anos mais tarde, em 1939, Norbert Elias4, sociólogo judeu da Alemanha, 
realizou um dos primeiros estudos históricos baseados na noção de cultura (em
3 - http://cnec.lk/060q 4 - http:cnec.lk/05vp 
Fig.5.14
Cultura ou cultura?
9Volume 2
 alemão, Kultur) sobre a sociedade europeia, a fi m de demonstrar que as ideias, crenças, costumes, 
hábitos e tecnologias mudam ao longo do tempo. É o que ele chamou de processo civilizador, 
que dá título a seu livro. Esse livro é um marco no pensamento social porque rompe com a ideia 
de continuidade entre estágios de desenvolvimento, inclusive jogando a Europa para fora do 
padrão de referência. Outro ponto importante sobre a tese de Elias, é que ela demonstra como o 
contexto social infl uencia na mudança cultural.
 Já sabemos que as culturas mudam, é realmente difícil perceber uma mudança cultural. 
Dependendo do que se entende por cultura e por mudança, uma mínima mudança de atitude 
de um indivíduo pode ser considerada mudança cultural ou pode-se ainda falar em revolução 
cultural, quando de veem drásticas mudanças que englobam o todo social.
 Entretanto, é inegável que o mecanismo básico de formação e mudança cultural se dá por 
meio das trocas entre as pessoas. Os seres humanos não trocam apenas objetos físicos, também 
trocam signifi cados, símbolos, afetos, sentidos, alianças, em suma, relações sociais.
 No processo civilizador, Elias descreve exaustivamente o intercâmbio cultural entre França, 
Inglaterra e Alemanha. Esse intercâmbio se deu de várias formas. Porém, o que chamou a atenção 
do autor foram os modos à mesa. Ele buscou relatos históricos das maneiras de se portar na
hora das refeições. A comparação entre as maneiras francesa e alemã mostrou

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.