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2 - sociologia

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que os franceses 
chamavam-se a si mesmos de civilizados por portarem hábitos considerados refi nados à mesa. 
Os alemães habituaram-se a copiar esses hábitos, chegando a contratar instrutores franceses 
para ensinarem boas maneiras a eles.
 O Brasil por vezes encomendou “missões francesas” de intelectuais e artistas para “civilizar” 
mais o povo brasileiro, mas no que se referia a produções artísticas (pintura) e não aos modos de 
se portar à mesa.
 A proximidade e as trocas entre as pessoas ocasionam mudanças. As pessoas compartilham 
entre si seus costumes, que são maneiras de se relacionarem uns com os outros. Evidentemente, 
essas trocas não são mecânicas, passam por seleção e mediação. Isto é, uns costumes podem 
ser incorporados e outros, rejeitados. E, ainda, para cada costume interiorizado, realizam-se 
adaptações. Por exemplo, o que os franceses chamam civilisation inclui, em grande parte, uma 
conduta social refi nada, delicada, discreta, contida; ao passo que, para os alemães, o termo é 
traduzido por Kultur e sinaliza antes para a intelectualidade e o cultivo do espírito. O exemplo está 
vastamente explorado no livro de Norbert Elias. Ainda, para os ingleses, culture é o termo que 
sintetiza as noções franca e germânica.
 Bem, mas um povo não é homogêneo. Sabemos que as pessoas de um mesmo povo tendem 
a ter hábitos iguais (língua, por exemplo). Mas cada indivíduo apropria-se destes hábitos de 
uma maneira, que é determinada pela sua condição social (no caso da língua, os dialetos e 
sotaques). O exemplo de Elias continua: para a elite alemã, os príncipes feudais, a intelectualidade 
era apreciada, era conveniente refi nar os hábitos seguindo a moda francesa. Os servos julgavam 
isso grande frivolidade e perda de tempo. Na França, a elite, nobre derredor da realeza, chamava 
a si própria de civilizada por seus requintes aristocráticos. Já a classe burguesa e servil entendia 
todo esse comedimento como fi ngimento e falsidade nas relações sociais.
 Entre uma classe social e outra, há diferenças entre os signifi cados atribuídos aos mesmos 
costumes. A razão dessa diferença pode ser um ódio de classe; ou pode estar baseada no entorno 
das pessoas, os símbolos de distinção social mudam de um grupo para outro. Vejamos: para a 
elite brasileira, música clássica europeia pode ser considerada de grande refi namento cultural 
(culture, civilisation, Kultur), e, para os subalternos que moram em bairros afastados e vivem de 
vender a força de trabalho, aquele tipo de música pode não passar de frivolidade, enquanto o rap, 
o funk e outros gêneros podem ganhar grande valorização.
 A diferença de pontos de vista e de valores não é dada pela natureza, é construída 
socialmente. Ao longo da história, um hábito é valorizado e outro, deixado ao desuso. Esta 
seleção e desvalorização ocorrem a partir das fontes de cultura a que um grupo tem acesso.
 É comum ouvir-se a afi rmação de que brasileiro não gosta de ler. Pode não gostar realmente. 
Mas tem livros em casa? Tem acesso fácil e farto a bibliotecas? Tem biblioteca na escola? Tem 
aulas de leitura? Livros são baratos e até as pessoas com baixa renda podem adquiri-los?
Sociologia
10 1ª série do Ensino Médio
 Esse sistema de distinção social é chamado de capital cultural. Tal conceito foi cunhado por 
Pierre Bourdieu5 para explicar por que os pobres tendem a não ir bem na escola. A explicação é a 
seguinte: a escola exige acesso a diversos capitais culturais (livros, fi lmes, museus etc.) aos quais 
nem todas as pessoas têm acesso. E, mesmo quando o acesso é fácil ou gratuito, a carência de 
instrução diminui seu aproveitamento.
 Portanto, o que leva uma pessoa a apreciar música “clássica” ou rap são suas condições 
sociais, porque ela terá acesso aos capitais disponíveis em seu meio e não a outros. Ela será 
apresentada e socializada a determinados códigos de valores pertinentes ao seu meio social. Isto 
não signifi ca que alguém que cresceu ouvindo rap não possa vir a apreciar MPB, signifi ca que 
o rap faz sentido para ela porque foi com esse estilo musical que essa pessoa foi socializada e 
cujo acesso foi facilitado por sua socialização. Assim, pode-se dizer que elementos classifi cados 
como cultura erudita diz respeito a elementos culturais apropriados pelas classes dominantes, 
e cultura popular normalmente é associada a elementos apropriados pelas classes subalternas, 
de cada momento histórico. Essa classifi cação não possui como critério a complexidade do 
elemento cultural em jogo e sim o grupo social que está se apropriando, ou alguém acreditaria 
que tocar acordeon (elemento típico da cultura popular brasileira) é mais simples que tocar 
violino (elemento tido como da cultura erudita)?
Exercícios de sala
2 A partir de quais elementos podemos distinguir a cultura brasileira como única?
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 B) Aculturação
 Acabamos de ver que é possível haver trocas culturais entre pessoas e povos. Uma pessoa ou 
um povo pode perder sua cultura?
 Em meados das décadas de 1950 e 1960, no 
Brasil, estavam em voga as teorias de aculturação. A 
partir da leitura da obra de Durkheim6, os antropólogos 
e sociólogos brasileiros iniciaram uma discussão 
a respeito de como se transmite a cultura. Nessa 
mesma época, uma questão preocupava o governo: 
a extinção dos ameríndios. Essa preocupação não 
era exclusividade do Brasil, era um debate de pauta 
internacional, inclusive na ONU e na UNESCO. Como 
todos os continentes haviam sido conquistados e 
colonizados pelos europeus, os povos nativos que 
ainda subsistiam estavam ameaçados de extinção física 
e cultural. Eles foram dizimados pelos colonizadores, e 
os sobreviventes estavam aderindo à cultura do colonizador. Ocorreu uma crise na Antropologia, 
também ameaçada de extinção: seu objeto de estudo desapareceria em dez anos, segundo as 
previsões mais catastrófi cas. Foi quando ganharam força os estudos e as teorias de aculturação 
ou assimilacionismo.
5 - http://cnec.lk/05vt 6 - http://cnec.lk/05vf
Fig.5.15
Cultura ou cultura?
11Volume 2
Defi nição conceitual: Intensidade de 
conformidade dos membros de uma 
coletividade aos padrões culturais do 
seu grupo.
 Recordando: etnocentrismo é o ato de utilizar sua própria visão de mundo para medir o valor e 
o progresso das demais sociedades; afi rmar que um grupo humano deveria dedicar-se à sua cultura 
particular sem misturar-se, é etnocentrismo ao avesso. Esse conceito será trabalhado adiante (seção 7 B).
 No Brasil, o processo de demarcação de 
terras indígenas e remanescentes quilombolas 
demandou que o governo contratasse 
antropólogos para estudarem e defi nirem quem 
era e quem não era nativo ou descendente 
de escravos. A questão parece banal, pode-
se imaginar que um indígena é alguém que 
vive no mato e usa penas como vestimenta. E 
quanto aos indígenas que ainda hoje vivem nas 
extremidades de São Paulo Capital (7a maior 
cidade do mundo, maior, inclusive que Nova 
Iorque), no pico do Jaraguá e em Guaianases? Bem, quando subimos o pico, vemos os índios 
vestidos com roupas, morando em casas e utilizando aparelhos eletrônicos (celular e relógio, TV e 
computador). No programa Aw’e, da TV Cultura, pode-se visualizar nativos da longínqua Amazônia 
com energia elétrica nas casas e possuindo aparelhos tecnológicos. Até um episódio de Fudêncio 
e seus amigos, desenho animado na antiga MTV, retrata a apropriação da cultura urbana pelos 
nativos e a queixa de que eles perderiam

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