A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
48 pág.
2 - sociologia

Pré-visualização | Página 4 de 19

sua cultura.
 Mas cultura é algo que se pode perder? Ou trata-se, antes, de mudanças? Ao descobrir uma 
tecnologia que me proporcione conforto ou outras facilidades, não posso aderir a ela, pois 
deixarei de ser quem eu sou? Ao considerar que qualquer alteração introduzida é uma perda, 
então deveríamos parar de ouvir músicas em inglês e de comprar roupas da última moda. O fato, 
como demonstrou Elias para a Europa, como retratam os desenhos e documentários citados, é 
que as pessoas realizam trocas e apropriam-se de bens segundo seu interesse e benefício.
 Aquela questão da aculturação dos nativos brasileiros foi abordada pelo antropólogo 
brasileiro Roberto Cardoso de Oliveira7. Ele trabalhou nas equipes 
de “identifi cação” de nativos. Como o conceito de cultura era por 
demais abstrato para gerar uma evidência empírica da etnicidade, 
o pesquisador criou o conceito de fricção interétnica. Etnicidade 
vem de grupo étnico, é uma alternativa ao conceito de cultura 
que sinaliza para os caracteres particulares que, justamente por serem particulares, confeririam 
a um grupo o estatuto de étnico (o termo raça foi substituído por etnia). Assim, o conflito 
entre nativos e brancos no Brasil foi explicado pela fricção interétnica: o conflito de 
interesses entre os grupos de etnia nativa americana e etnia branca levava à revitalização 
de costumes (língua e crenças, por exemplo) e permitia aceitar que os grupo étnicos, 
os ameríndios, apropriassem-se dos bens culturais dos brancos, sem deixarem de ser 
étnicos. (Sobre a noção de etnia, ver, a seguir, seção 7 B.)
 É uma polêmica até hoje. Sabe-se que existiram costumes inventados para “provar” a 
etnicidade. O antropólogo João Pacheco de Oliveira8 trabalha a questão da ressurgência 
étnica no Brasil em um livro intitulado A viagem da volta. De fato, a luta por direitos 
leva os grupos étnicos a “voltarem” a seus costumes, para provarem que não sofreram 
“aculturação”. Claro que ninguém volta a ser o que era antes das trocas culturais, mas 
a luta por direitos é legítima e necessita deste conceito para facilitar o reconhecimento 
da diferença. Atualmente, a identidade (étnica ou qualquer outra) é reconhecida pelo 
estabelecimento de fronteiras entre grupos. A distinção entre nós/eles é feita pelo próprio 
grupo e atesta sua particularidade cultural.
7 - http://cnec.lk/061g 8 -http://cnec.lk/0612 
Fig.5.16
Sociologia
12 1ª série do Ensino Médio
Exercícios de sala
3 A cultura brasileira é homogênea? Justifi que sua resposta a partir de exemplos do dia a dia, utilizando-
se teoria antropológica.
 _______________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________
 C) Anticolonialismo
 Atualmente, é consenso em Antropologia que um grupo étnico defi ne-se pelas fronteiras que 
estabelece às trocas com os demais grupos. Alguns grupos étnicos, no entanto, tomam para si a 
bandeira da identidade para diferenciarem-se dos demais. Segundo Stuart Hall9, este processo é 
a resposta pós-colonial à globalização. Nesse sentido, alguns grupos “minoritários” que sofreram 
décadas de repressão de sua cultura ressurgiram e afi rmaram-se étnicos em oposição à “cultura” 
comercializada pelas potências mundiais.
 Thomas Hylland Eriksen10 é um 
antropólogo norueguês que discute o 
mesmo problema de aculturação naquele 
país. Seu conterrâneo Fredrik Barth11 também 
discute a mesma questão identitária. 
Na verdade, o tema ganhou destaque 
em outros países, surgindo, inclusive, o 
termo “políticas de reconhecimento (de 
identidades)” que é análogo às questões 
étnicas do Brasil. No caso da Noruega, 
os noruegueses descendentes de povos 
germânicos são dominantes e confl itam 
com lapões (nativos) e patãs (imigrantes do 
oriente médio). A resolução encontrada é similar à dos antropólogos brasileiros. Além da questão 
da identidade étnica (etnicidade), defi nida com base nas fronteiras entre os grupos culturais, 
esses antropólogos discutem a questão da globalização a partir de sua absorção ou não pela 
“cultura local”. No fundo, todos os povos selecionam o que vai adentrar suas fronteiras culturais 
e incorporar-se à sua identidade. Contudo, a rejeição sistemática dos produtos “globalizados” 
ou sua ressignifi cação pelos valores da cultura local sobrepõe-se à chamada globalização. Os 
grupos fazem isto para se preservar em vários sentidos. Há um termo especial: glocal (fusão de 
global com local) que demarca esta valorização da cultura local em detrimento da “global” – que 
no fundo exclui os povos subdesenvolvidos.
 As ações afi rmativas vieram deste movimento de subversão dos valores hegemônicos. As 
culturas nativas, outrora reprimidas e condenadas, passaram a se valorizar. O valor negativo foi 
atribuído pelo colonizador que não reconhecia a diferença cultural e alegava que era atraso de 
progresso (sempre em referência ao padrão europeu). Antropólogos desses países ex-colônias 
entendem que é preciso descolonizar-se, inclusive nos valores e no pensamento, que a dominação 
se dá antes pela interiorização dos valores do colonizador. Por isso o movimento de subverter
9 - http://cnec.lk/061j 10 - http://cnec.lk/061l 11 - http://cnec.lk/060t 
Fig.5.17
Cultura ou cultura?
13Volume 2
o valor negativo é tido como revitalizar a cultura local (em oposição à global). Dentre esses 
antropólogos, há alguns radicais, chamados pós-coloniais, que propõem inclusive descartar o 
conceito de cultura, porque, segundo eles, esse conceito explica a diversidade humana, porém 
apenas para justifi car o extermínio ou um mecanismo traiçoeiro de manutenção da desigualdade 
entre os povos. Esse mecanismo funciona pelo incentivo ao retorno e à manutenção da cultura 
local, preponderantemente agrária, a fi m de que os países permaneçam subdesenvolvidos em 
relação aos países centrais.
 Um aspecto central desta crítica à antropologia é a noção de progresso, que é considerado 
o padrão europeu ou estadunidense. O antropólogo dos EUA, Marshall Sahlins12, chama as 
sociedades “primitivas” de “sociedades da abundância” porque elas não seriam capitalistas 
(forma da economia “mais desenvolvida”) e, nessas sociedades, as pessoas trabalham em média 
quatro horas por semana e ninguém passa fome. Com o capitalismo, trabalha-se em torno de 
quarenta horas por semana, e muita gente passa fome. A crítica à noção de progresso, à crença 
de que só existiria um progresso está baseada no etnocentrismo.
 Os autores do pós-colonialismo são, maioria, das ex-colônias britânicas, notadamente a 
Índia, onde se desenvolve esta teoria cultural, considerada a mais importante da atualidade. Tal 
corrente teórica é também chamada, especialmente na Inglaterra, de “estudos culturais”, porque 
pratica multidisciplinaridade, especialmente relações entre literatura e antropologia, mas também 
psicologia, ecologia, fi losofi a e sociologia. Alguns desses autores são: Edward Said, Stuart Hall, 
Franz Fanon, Lila Abu-Lughod, Vandana Shiva, Akhil Gupta, Homi K. Bhabha, Gayatri C. Spivak, 
Paul Gilroy, Gananath Obeyesekere, Arjun Appadurai, entre outros/as.
Exercícios de sala
4 De que maneira o ser humano ressignifi ca coisas, ideias e valores de outros povos no dia a dia? 
Busque exemplos.
 _______________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.