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2 - sociologia

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se coloca: como defi nir o que é humanidade?
Ciência dos homens e ciência da diferença
25Volume 2
 Para o antropólogo Tim Ingold26, a Antropologia é a ciência cujo tema peculiar é a humanidade.
 Estudar a humanidade [...] não é apenas esmiuçar as idiossincrasias de uma espécie 
particular, de um diminuto segmento do mundo da natureza. Trata-se antes de abrir à pesquisa 
um mundo que se multiplica interminavelmente na exuberante criatividade do pensamento 
e das ações das pessoas em todos os lugares. A tarefa parece impossível porque o tema está 
sempre extrapolando os estreitos limites de nosso entendimento. Como somos, nós mesmos, 
humanos, o problema não está em não termos logrado reduzir a humanidade a proporções 
analisáveis, mas em jamais sermos capazes de acompanhar o passo de suas transformações.
INGOLD, Tim. Humanidade e animalidade. In: Revista brasileira de ciências sociais, 28, 1995, p.: 39.
 Quer dizer, como o ser humano é um ser que se constrói diariamente nas relações sociais, ele 
está em perpétuo movimento de vir a ser humano, de socializar-se e humanizar-se. Por ser um 
processo infi ndável, torna-se difícil defi nir o que é um ser humano. Em termos dos fundamentos 
fi losófi cos da Antropologia, diz-se que o ser humano é uma abertura. Esse conceito sinaliza 
para a questão: O que é o homem? E a resposta está em aberto e não pode ser respondida de 
maneira defi nitiva. Isto é, podemos reconhecer de longe o que é um ser humano, mas é muito 
mais complexo compreender e reconhecer o que signifi ca ser humano – posto que o signifi cado 
varia no tempo e no espaço.
 De modo geral, os fi lósofos têm tentado descobrir a essência da humanidade na cabeça 
dos homens, em vez de procurá-la em suas caudas (ou na ausência delas). Mas, na busca 
dessa essência, eles não se perguntaram sobre “o que faz dos seres humanos animais de 
determinada espécie?” Ao contrário, eles inverteram a pergunta, indagando: “O que torna os 
seres humanos diferentes dos animais, como espécie?” Essa inversão altera completamente 
os termos da questão. Isto porque, formulando a pergunta da segunda maneira, o gênero 
humano já não aparece como uma espécie da animalidade, ou como uma pequena província 
do reino animal. A pergunta faz alusão a um princípio que, infundido na constituição do animal, 
eleva seus possuidores a um nível mais alto de existência do que o do “mero animal”. A palavra 
humanidade, em suma, deixa de signifi car o somatório dos seres humanos, membros da 
espécie animal Homo sapiens, e torna-se o estado ou a condição humana do ser, radicalmente 
oposta à condição da animalidade.
Ingold, 1988, p. 4, apud Ingold, 1995). A relação entre o humano e o animal deixa de ser inclusiva (uma província dentro de um reino) e passa a ser 
exclusiva (um estado alternativo do ser). (idem, ibidem p.: 46.
 A Ciência Moderna nasce no século XV. É também, nesse século, que a América é “descoberta” 
pelos europeus em 1492, a partir desse momento eles se dão conta, então, de que há mais 
pessoas no mundo e que elas são diferentes em vários aspectos, como língua, vestimentas, 
hábitos, crenças e valores: A questão do outro está posta.
 Em Antropologia, a questão do outro faz referência 
ao processo de navegação e colonização do mundo 
pelos europeus; e, dentro desse processo, o outro, o 
diferente, o estranho e o nativo foram tratados. O que 
hoje chamamos de Antropologia nasceu dos relatos 
de exploradores, conquistadores, expedicionários, 
militares e padres que escreviam suas aventuras e 
cujos relatos circulavam em alguns meios europeus, 
levando ao conhecimento daquele povo a descrição 
– muitas vezes exagerada e falsa – dos exotismos 
dos outros.
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Fig.7.6
Sociologia
26 1ª série do Ensino Médio
 Os homens comuns nunca se preocuparam com a 
diversidade: o início da Era Moderna enfatiza a busca por 
acumulação de riqueza. Se o nativo for um fornecedor ou 
comprador, ótimo, do contrário, seria morto para que seu 
território fosse ocupado. O cristianismo acreditava, em um 
primeiro momento, que os nativos não possuíam alma, 
e os fi lósofos e cientistas pregavam que eles não eram 
humanos. Há inclusive relatos de que os ameríndios foram 
capturados e levados à Europa para serem dissecados ou 
expostos como animais de zoológico ou de estimação.
 Mais tarde, o cristianismo mudou de posição. A refl exão sobre a pergunta “Por que há humanos 
distintos de nós, europeus?” recebera da Igreja Católica a resposta “Ide e pregai o evangelho por 
todo o mundo”. Nesse sentido, os evangelizadores do século XVI entenderam que Deus havia 
criado os humanos e que era dever dos europeus, presunçosamente superiores, levarem-lhes 
a palavra de Deus, para salvar suas almas. Por um lado, foi um avanço, no sentido de passar a 
considerar o outro como ser humano e portador de alma. Ocorre que essa mudança de atitude 
respondia ao questionamento feito ao descaso da Igreja e às crueldades dos conquistadores. 
Portanto, o novo posicionamento do cristianismo pode ser entendido também como um aparato 
ideológico para justifi car a colonização do Novo Mundo.
 Nenhum dos fi lósofos e cientistas europeus deu atenção, nos séculos XV e XVI, à questão do 
outro, exceto Michel de Montaigne27 e Étienne de la Boétie28, que foram contra a corrente de 
pensamento da época. Esses dois franceses produziram um entendimento acerca da diversidade 
humana. Algo particular ao gênero humano existiria que os distinguiria dos demais animais. Estes 
vivem na natureza, os seres humanos, em sociedade (Aristóteles29). A partir dessa diferença, 
deduziu-se que haveria uma natureza humana comum a todos os seres humanos. Um outro 
fi lósofo, o inglês Francis Bacon30, contemporâneo aos dois franceses, afi rmou que o homem 
deve subjugar a natureza – essa tese sustentou a existência de uma natureza humana.
 É importante ressaltar que o modelo teocêntrico de explicação do mundo levou os fi lósofos 
a afi rmarem que Deus criou o homem de maneiras distintas, em locais também distintos. As 
ideias da Ética de Benedictus de Espinoza31, fi lósofo luso-batavo e judeu excomungado, criaram 
um aparato fortíssimo de sustentação para essa afi rmação: em linhas gerais, Deus possui infi nitos 
atributos, e cada coisa que existe é a manifestação material de seus atributos, portanto os outros 
homens também seriam fi lhos de Deus. Espinoza não trata do assunto, porém foi um autor muito 
estudado pelos renascentistas e primeiros iluministas. Nesse sentido, afi rmou-se que Deus criou 
os homens na natureza e que a interação com a diversidade da natureza levou os seres humanos 
a criarem para si uma nova natureza, como uma natureza humana recobrindo a natureza divina.
 Portanto vê-se que, com o “descobrimento” da América, colocou-se a questão do outro. A 
Igreja Católica cunhou uma ideologia para sustentar a conquista do novo continente. Finalmente, 
os humanistas engendraram a noção de humanidade para incluir o outro na espécie humana. Esse 
conceito incipiente de humanidade considerava que, apesar de diferentes, os nativos também 
eram humanos. Mas explicava essa diferença pela vontade e manifestação de Deus – por razões 
de perseguição ideológica e limites cognitivos. Assim foi dado mais um passo: ser humano não 
é uma questão de ter ou não uma cauda, mas sim humanidade, dom de Deus. Dom de Deus? 
Como identifi car e analisar isso? Afi nal, o que é humanidade? E por que os seres humanos são 
diferentes?
 Entre 1600 e 1700 (séculos XVII e XVIII), surgiu um novo eixo de explicação da humanidade, 
baseado nas ciências da natureza. Os homens fazem parte da natureza, então deve existir uma 
natureza humana, uma particularidade. A ideia de natureza humana concedeu a todos, inclusive 
aos nativos, o estatuto de humanos. Essa questão era colocada há pelo menos 200 anos antes 
(Montaigne e la Boétie), em termos similares, porém não explicava

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