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Redação Jornalistica Unidade 2

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Redação Jornalística
Material Teórico
Responsável pelo Conteúdo:
Prof ª. Dr ª. Flavia Silveira Serralvo
Revisão Textual:
Prof ª. Esp. Kelciane da Rocha
Gêneros Jornalísticos 
• Gêneros Discursivos;
• Gêneros Jornalísticos;
• Gênero Opinativo;
• Gênero Informativo.
 · Estudar o conceito de gênero discursivo, com ênfase nos gêneros 
jornalísticos classificados como opinativos e informativos. Entre 
os gêneros opinativos, você vai conhecer as características do edi-
torial, do artigo, da crônica e da carta; e, dos gêneros que fazem 
parte do jornalismo informativo, vamos falar sobre nota, notícia, 
reportagem e entrevista.
OBJETIVO DE APRENDIZADO
Gêneros Jornalísticos 
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem 
aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua 
formação acadêmica e atuação profissional, siga 
algumas recomendações básicas: 
Assim:
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte 
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e 
horário fixos como seu “momento do estudo”;
Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma 
alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo;
No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos 
e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você 
também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão 
sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados;
Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus-
são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o 
contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e 
de aprendizagem.
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte 
Mantenha o foco! 
Evite se distrair com 
as redes sociais.
Mantenha o foco! 
Evite se distrair com 
as redes sociais.
Determine um 
horário fixo 
para estudar.
Aproveite as 
indicações 
de Material 
Complementar.
Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma 
Não se esqueça 
de se alimentar 
e de se manter 
hidratado.
Aproveite as 
Conserve seu 
material e local de 
estudos sempre 
organizados.
Procure manter 
contato com seus 
colegas e tutores 
para trocar ideias! 
Isso amplia a 
aprendizagem.
Seja original! 
Nunca plagie 
trabalhos.
UNIDADE Gêneros Jornalísticos 
Gêneros Discursivos
A tentativa de classificar textos em categorias específicas vem de longa data. 
Mas, nesta aula, nosso ponto de partida será a teoria elaborada pelo pensador rus-
so Mikhail Bakhtin. Durante a década de 1920, Bakhtin desenvolveu um estudo 
importante sobre os gêneros do discurso, partindo do pressuposto de que existe 
uma relação inseparável entre a utilização da linguagem e as atividades humanas. 
“Todas as esferas da atividade humana, por mais variadas que sejam, estão sempre 
relacionadas com a utilização da língua” (1997, p. 279).
Isso significa que, para nos comunicarmos, inconscientemente lançamos mão 
de um gênero discursivo. Por exemplo, quando você deixa um recado para alguém 
em um pedaço de papel, dizendo que vai chegar mais tarde do trabalho, o formato 
do seu texto será de um bilhete. Quando você envia um e-mail para uma pessoa do 
seu trabalho, certamente o texto não terá a mesma “cara” de um bilhete, será mais 
formal, escrito com um cuidado maior e provavelmente levará a sua assinatura no 
fim do texto. Da mesma forma, uma mensagem pelo Whatsapp tem outra “cara”.
O que nós estamos chamando de “a cara” do texto, na verdade, corresponde 
ao gênero do discurso ao qual ele pertence. Os gêneros do discurso podem ser 
entendidos como tipos de enunciados relativamente estáveis. Por que relativamente? 
Bakhtin tem a explicação:
A riqueza e a variedade dos gêneros do discurso são infinitas, pois a va-
riedade virtual da atividade humana é inesgotável, e cada esfera dessa 
atividade comporta um repertório de gêneros do discurso que vai diferen-
ciando-se e ampliando-se à medida que a própria esfera se desenvolve e 
fica mais complexa (1997, p. 279).
Certamente, em 1920, Bakhtin não poderia imaginar que as pessoas passariam 
a se comunicar por meio de aplicativos no celular. E nós, nesse momento, não 
fazemos ideia dos recursos de comunicação que estarão disponíveis daqui a cem 
anos! Imagine só quantos novos gêneros discursivos ainda vão surgir.
Conseguir classificar produções textuais em gêneros é bem mais fácil do que 
você pode imaginar. Quer ver? Observe o texto abaixo:
Tabela 1
Igredientes
• 3 cenouras médias raspadas e picadas;
• 3 ovos;
• 1 xícara de óleo;
• 2 xícaras de açúcar;
• 2 xícaras de farinha de trigo;
• 1 colher (sopa) de fermento em pó;
• 1 pitada de sal.
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Para o Tabuleiro: Para Cobertura:
• Manteiga para untar;
• Farinha para polvilhar.
• 5 colheres (sopa) de açúcar;
• 3 colheres (sopa) de chocolate em pó;
• 2 colheres (sopa) de manteiga;
• 2 colheres (sopa) de leite.
O modo de preparo é muito fácil, basta bater no liquidificador todos os ingredientes, 
acrescentando a farinha aos poucos.
• Depois unte e enfarinhe uma forma e despeje a massa nela. Asse em forno médio por cerca 
de 40 minutos. Tire do forno, espere amornar e desenforme.
Para Cobertura:
• Em uma panela, coloque todos os ingredientes da cobertura e mexa bem até levantar fervura;
• Depois espalhe ainda quente e quando esfriar vai formar uma casquinha.
Fonte: http://gshow.globo.com
Será que você consegue adivinhar qual é o gênero desse texto? Se você pensou 
em receita, parabéns, você acertou! E agora, se eu aumentasse um pouco o nível 
do desafio e pedisse para você me dizer do que é essa receita? Bem, você viu que, 
na lista de ingredientes, estão: cenoura, ovos, farinha de trigo, açúcar, depois você 
viu também que existe uma cobertura, feita com chocolate em pó, leite, manteiga. 
Pois é, a receita é de um bolo de cenoura. Como você sabe? Porque você já conhe-
cia o gênero receita de bolo de cenoura.
E não pense você que os gêneros só servem para classificar textos escritos. Nada 
disso! A forma com que você fala com os seus amigos deve ser bastante diferente 
da maneira com que você se comporta quando é entrevistado para concorrer a 
uma vaga para trabalhar em uma empresa. Ou seja, um bate-papo informal tem 
características diferentes de uma entrevista de emprego, porque são gêneros dis-
cursivos bem distintos.
E o que os gêneros discursivos têm a ver com o jornalismo? É isso o que você vai 
descobrir agora.
Gêneros Jornalísticos
Conforme observamos anteriormente em Bakhtin (1997), os gêneros estão 
relacionados às atividades humanas, que, por sua vez, estão inseridas em um deter-
minado espaço e tempo. Isso significa que os gêneros jornalísticos não são iguais 
em todos os países do mundo, porque cada sociedade tem as suas peculiaridades. 
O jornalismo inglês é bem diferente do francês, que também não é igual ao esta-
dunidense nem ao brasileiro.
No começo do século XVIII, o editor Samuel Buckeley foi o primeiro a propor 
uma classificação dos textos jornalísticos. Ele separou o conteúdo do jornal Daily 
Courant em duas categorias: notícias e comentários. “Para se ter uma ideia da 
dificuldade em estabelecer um conceito unificado de gênero, esta divisão demorou 
quase 200 anos para ser efetivamente aplicada pelos jornalistas e, até hoje, causa 
divergências” (PENA, 2005, p. 28).
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UNIDADE Gêneros Jornalísticos 
De acordo com Pena (2005), o pioneiro no estudo de gêneros no Brasil foi o 
jornalista Luiz Beltrão, seguido do professor José Marques de Melo. Nascimento 
(2009), na obra Técnicas de redaçãoem jornalismo, destaca três trabalhos de 
autores brasileiros que se dedicaram aos gêneros jornalísticos: Luiz Beltrão, José 
Marques de Melo e Manuel Carlos Chaparro. O quadro abaixo resume as classifi-
cações propostas por esses autores:
Quadro 1 – Classificação dos textos jornalísticos
Autor Classificação dos textos jornalísticos
Luiz Beltrão
Informativos: notícia e reportagem;
Opinativos: editorial, artigo, crônica e opinião do leitor;
Interpretativos: reportagem em profundidade.
José Marques de Melo
Informativos: nota, notícia, reportagem e entrevista; 
Opinativos: editorial, artigo, comentário, resenha, coluna, carta, 
crônica e caricatura.
Manuel Carlos Chaparro
Relatos (textos narrativos): nota, notícia, reportagem, entrevista e 
coluna de viés factual;
Comentários (textos argumentativos): crônica, artigo, carta, resenha, 
editorial e coluna de viés argumentativo. 
Fonte: Nascimento (2009, p. 101)
Como você pode observar no quadro acima, apesar das diferenças de classifi-
cação, há um consenso entre os autores em alguns pontos. Por exemplo, notícia 
e reportagem são colocadas juntas (classificadas como informativas por Beltrão e 
Melo, e como relatos por Chaparro); da mesma forma, artigo e crônica também 
permanecem juntos (classificados como opinativos por Beltrão e Melo, e como 
comentários por Chaparro). Vale observar que Beltrão define como opinião do 
leitor o que Melo e Chaparro classificam como carta. Mas como ficam todas essas 
classificações na prática? Nascimento (2009, p. 102) explica:
Na prática cotidiana do jornalismo e na leitura atenta que se faz desse 
discurso, percebe-se, no entanto, que as “indefinições classificatórias” são 
constantes e os limites entre um formato e outro, ou entre um gênero e 
outro, muitas vezes, não existem de forma clara. Além disso, seria mesmo 
possível separar opinião de informação? A informação também não 
acontece a partir da opinião de outro? E o que dizer acerca da separação 
entre texto informativo e texto interpretativo?
A autora levanta questões bastante intrigantes, não é mesmo? Apesar disso, você, 
como estudante de Jornalismo, precisa conhecer todas essas classificações que, de 
fato, são utilizadas pelos veículos de comunicação, para que consiga produzir os textos 
jornalísticos que serão solicitados a você.
Vamos começar com uma breve explicação sobre as características dos textos 
jornalísticos comumente chamados de opinativos e, em seguida, partiremos para os 
gêneros informativos (afinal, é este o foco desta Disciplina).
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Gênero Opinativo
Nesta aula, vamos estudar quatro formatos do gênero opinativo que são mencionados 
por todos os autores presentes no Quadro 1: editorial, artigo, crônica e carta (que 
Beltrão classifica como opinião do leitor).
Importante!
Para conhecer mais a fundo as características dos gêneros opinativos, consulte a lista de 
materiais complementares, disponível no fi m da aula. Entre os materiais sugeridos, estão 
as obras dos autores que escreveram a respeito dos gêneros jornalísticos, mencionados 
no Quadro 1. 
Importante!
Editorial
O editorial é o gênero jornalístico utilizado pelo veículo de comunicação (jornal 
ou revista, por exemplo) para expressar a opinião oficial da empresa sobre acon-
tecimentos de grande repercussão no momento. Arbex Júnior (1992) destaca que 
a opinião dos proprietários de instituições jornalísticas é influenciada por fatores 
importantes. Ele cita Melo para explicar melhor essa situação:
[...] os editoriais não refletem apenas a opinião de seus “proprietários 
nominais”, mas “o consenso das opiniões que emanam dos diferentes 
núcleos que participam da propriedade da organização. Além dos 
acionistas majoritários, há financiadores que subsidiam a operação das 
empresas, existem anunciantes que carreiam recursos regulares para os 
cofres das organizações através da compra de espaço, além de braços 
do aparelho burocrático do Estado que exercem grande influência sobre 
o processo jornalístico pelos controles que exercem no âmbito fiscal, 
previdenciário, financeiro” (MELO apud ARBEX JÚNIOR, 1992, p. 91).
A partir daí, notamos que o conceito de editorial deve ser entendido como a 
somatória de diferentes interesses. Em outras palavras, o texto do editorial revela 
como a empresa jornalística está inserida no mercado, de acordo com a conveni-
ência de investidores, de anunciantes, de órgãos do governo, entre outros. É por 
esse motivo que você, como estudante de Jornalismo, deve sempre desconfiar de 
veículos de comunicação que se dizem “isentos” politicamente.
O texto abaixo foi retirado do site do jornal Folha de S. Paulo, na sessão em 
que são apresentados a missão, a visão, os princípios e valores da empresa:
Missão: Produzir informação e análise jornalísticas com credibilidade, 
transparência, qualidade e agilidade, baseadas nos princípios editoriais do 
Grupo Folha (independência, espírito crítico, pluralismo e apartidarismo), por 
meio de um moderno e rentável conglomerado de empresas de comunicação, 
que contribua para o aprimoramento da democracia e para a conscientização 
da cidadania;
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UNIDADE Gêneros Jornalísticos 
Visão: Consolidar-se como o mais influente grupo de mídia do país;
Princípios e valores: independência econômica e editorial; compromisso 
com o leitor; ética; defesa da liberdade de expressão; defesa da livre inicia-
tiva; pioneirismo; respeito à diversidade.
Você deve ter observado no texto que os princípios editorias do Grupo Folha 
incluem independência e apartidarismo. E que, ainda, tem como princípios e valores 
a independência econômica e editorial. Mas será que isso é mesmo possível? Não é 
à toa que Melo diz que o editorial é um espaço de contradições.
Vejamos como essa constatação funciona na prática. No dia 1 de janeiro de 2017, 
a Folha de S. Paulo publicou um editorial intitulado “Muitos anos em um”, a respeito 
do impeachment da ex-presidente Dilma Roussef:
O impeachment de Dilma Rousseff (PT) não é fato a festejar. Há algo 
errado numa jovem democracia que depõe, pela via legítima da Constitui-
ção, dois chefes de Estado num lapso de 24 anos. Falharam os controles 
que deveriam evitar o uso desse recurso brutal e traumático contra o man-
dato presidencial concedido pelo voto direto.
A reincidência do impeachment não foi o único elemento incomum. Ex-
traordinária também se mostrou a latitude do poder presidencial para 
atropelar a responsabilidade fiscal e sustentar seu apoio com centenas de 
bilhões de reais em contratos e créditos a fluir por fora do Orçamento, nos 
balcões de empresas e bancos estatais engordados.
[...]
O avanço da Lava Jato e as maiores manifestações populares da chama-
da Nova República fizeram o que os instrumentos preventivos não con-
seguiram. Impuseram um custo elevado à manutenção do status quo. 
Dilma não entendeu o recado, apostou em mais do mesmo, atiçou a 
polarização — e caiu.
A mensagem de que a lei impera sobre todos — reforçada por outras ações 
que na Justiça derrubaram poderosos — e a disposição de milhares de 
pessoas de antepor-se nas ruas aos governantes de turno estão entre os 
poucos fatos positivos num ano cheio de notícias ruins.
[...]
O Brasil não se precaveu e está sofrendo mais. Resta a esperança de termos 
aprendido as principais lições, para que as próximas crises por aqui sejam 
no mínimo suaves e encontrem uma democracia bem mais fortalecida a 
dar-lhes combate.
Você percebeu que existe um posicionamento no editorial, certo? Mesmo por-
que, não se escreve um texto do gênero opinativo sem que se revelem opiniões. 
Trata-se de um gênero do tipo argumentativo, em que se defende um ponto de 
vista por meio de argumentos bem fundamentados.
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Você também deve ter notado que esse gênero textual difere muito do que foi 
estudado na unidade anterior a respeito das característicasdo texto jornalístico: 
aqui, não há preocupação com a utilização de vocabulário simples ou com frases 
curtas. Ao contrário, possui uma linguagem mais elaborada, com direito a sentenças 
longas e palavras rebuscadas.
Para saber mais sobre o processo de produção dos editoriais da Folha de S. Paulo, o livro 
Gêneros jornalísticos na Folha de S. Paulo, organizado por José Marques de Melo, tem um 
capítulo dedicado a esse assunto.
Ex
pl
or
Artigo
No jornalismo brasileiro, artigos são textos assinados que, geralmente, são escritos 
por colaboradores e publicados nas páginas editoriais ou cadernos especializados 
(no caso de jornais impressos). Segundo Melo, esse gênero costuma representar a 
opinião de personalidades representativas da sociedade.
Diferentemente do editorial, o artigo não revela a opinião da empresa de comu-
nicação (pelo menos, não necessariamente). Gomes destaca que “o artigo pode ser 
escrito por um jornalista, mas, nesse caso, ele estará representando a opinião de 
um segmento da sociedade civil” (1992, p. 19). Por se tratar de uma colaboração, 
o texto pode ser escrito com maior liberdade em relação ao assunto abordado, ao 
formato e ao emprego de juízo de valor.
O texto abaixo, intitulado “O impeachment da presidente”, foi publicado no site 
do jornal El País no dia 1 de setembro de 2016:
O processo de impeachment não foi um subterfúgio político, com 
embasamento jurídico, para afastar a presidente Dilma Rousseff por ter 
derrubado o PIB brasileiro, em 2 anos (quase 10%), gerado 11 milhões 
e 400 mil desempregos, elevando a inflação para a casa dos dois dígitos, 
governado o país com 113.000 não concursados, que propiciaram o 
maior assalto às contas públicas, em nível de corrupção jamais visto na 
história do mundo. O impeachment decorreu do fato de a Presidente 
Dilma, no ano de 2014, ter mentido para o povo brasileiro, dizendo que as 
finanças públicas estavam em ordem, com o objetivo de reeleger-se, mas 
utilizando de uma monumental ilegalidade, qual seja, pegar dos bancos 
públicos 40 bilhões de reais, o que é proibido pela lei de responsabilidade 
fiscal, para cobrir os furos orçamentários e apresentar-se como candidata 
que bem administrava o país. Quarenta bilhões de segundos representam 
em torno de 1.200 anos. Foram 40 bilhões de reais.
[...]
Lamento que a Presidente afastada, em vez de se defender, procurando 
explicar por que permitiu que o seu governo se tornasse o mais corrupto 
da história do mundo, tentou desfigurar os fundamentos da democracia 
brasileira, cujas Instituições funcionam em estrita obediência à lei e à Carta 
da República.
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UNIDADE Gêneros Jornalísticos 
[...]
A improbidade administrativa da presidente está plenamente justificada, 
não só face ao direito, quanto à ética. Mereceu ser afastada.
No texto, observe que o jurista Ives Gandra da Silva Martins deixa claro seu 
posicionamento em relação ao impeachment de Dilma Roussef. Ele lista diversos 
argumentos favoráveis ao afastamento da ex-presidente e conclui, ao final do texto: 
“Mereceu ser afastada”. Assim como observamos anteriormente no editorial, os 
artigos também não costumam se preocupar em “facilitar a vida” do leitor: são 
utilizados termos técnicos sem explicação (“improbidade administrativa”), frases 
longas são permitidas (a primeira frase tem 430 caracteres) e o autor pode escrever 
em primeira pessoa (“Lamento que a Presidente afastada”).
Que tal fazer uma busca por outros artigos que abordem essa mesma temática? Um 
exercício interessante é verificar se os veículos de comunicação costumam abrir espaço para 
articulistas com pontos de vista que divergem do que é adotado pela empresa.
Ex
pl
or
Crônica
A crônica, assim como o artigo, é sempre assinada por quem escreve. Pode 
ser produzida tanto por um jornalista como por pessoas com outra formação, 
contratadas para escrever em uma coluna específica. 
O que diferencia a crônica do artigo é a utilização de uma linguagem mais 
coloquial, que a aproxima da literária, além de não apresentar o nível de rigor em 
relação à investigação do tema esperado em textos do gênero artigo.
A aproximação da crônica com a literatura faz com que muitos autores a 
considerem como um gênero híbrido. Guaraciaba (1992) explica que isso ocorre 
por haver uma tensão entre os dois polos em que a crônica está situada: “a tal briga 
antiga e não resolvida entre a literatura e o jornalismo” (p. 84). Para a autora,
[...] a crônica é, hoje, o avesso do jornalismo, é seu lado crítico, libertário, 
inovador e humanizado, o que vem sendo asfixiado pelo império da 
técnica industrializada. Como diz Diaféria, “a crônica é aquele pedaço da 
imprensa onde se cultiva a sensação de que o mundo continua livre como 
os pardais, as nuvens e os vagalumes” (1992, p. 86).
O Brasil é privilegiado no quesito crônica. Temos Machado de Assis, Nelson 
Rodrigues, Rubem Braga, Zuenir Ventura, entre tantos outros. Nos dias de hoje, 
um dos cronistas que merece destaque é o jornalista Xico Sá. Confira um trecho do 
texto intitulado “A notícia mais triste do Brasil nesta semana”, sobre um garoto de 
oito anos de idade que desmaiou na escola porque estava com fome:
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Michelzinho e demais filhos de autoridades não têm nada a ver com isso, 
são inocentes e devem ser protegidos. Tirem as crianças da sala. Gosta-
ria, no entanto, que seus pais não ignorassem a notícia mais triste desta 
semana entre tantos péssimos relatos brasileiros: um menino de 8 anos 
desmaiou de fome em uma escola pública na vizinhança dos palácios de 
Brasília. O agente de saúde do Samu que atendeu ao chamado de uma 
professora constatou a doença: falta de comida.
[...]
Espero que a primeira-dama Marcela e a equipe do seu programa 
“Criança Feliz” atentem para a gravidade. Faço votos que a bancada do 
Congresso que tanto se escandaliza com a nudez artística, entre outras 
manifestações, se comova com a mais triste das notícias da semana. Ah 
se fosse apenas o menino da escola do Cruzeiro. Na mesma sala, palavra 
de professora, existem outros. A conta de somar é sem fim no Brasil 
devolvido à geografia da fome.
Não há manchete mais estarrecedora. Do tipo que merece as três exclamações 
exaltadas pelo cronista Nelson Rodrigues nos tempos d’A Última Hora”.
Menino de 8 anos desmaia de fome no Brasil de Michel Temer!!!
MENINO DE 8 ANOS DESMAIA DE FOME NA VIZINHANÇA DO PA-
LÁCIO DO PLANALTO. Com direito a sangrar a página em maiúsculas, 
óbvio (EL PAÍS, 17 de novembro de 2017).
Você notou como a crônica tem uma cadência de leitura diferente dos textos lidos 
até agora? É aquele tipo de leitura que prende, que não dá vontade de parar de ler. 
Pode parecer fácil, mas, justamente por não ter qualquer tipo de fórmula ou regras 
muito definidas, torna-se um dos gêneros jornalísticos mais difíceis e desafiadores.
Em relação à linguagem, vale quase tudo: expressões populares, que se parecem 
muito com uma conversa informal, ironia, metalinguagem. Todos os recursos são 
válidos nesse gênero tão próximo da literatura. E você? Tem um cronista preferido? 
Se você quiser ler a crônica de Xico Sá na íntegra, além de textos de Nelson Rodrigues, 
Rubem Braga, Machado de Assis, entre outros, acesse o site: https://goo.gl/sM3D3Q. Ex
pl
or
Carta
Cartas são textos produzidos pela população em geral a respeito de temas varia-
dos, normalmente relacionados a notícias que já foram publicadas. A empresa de 
comunicação, por sua vez, seleciona quais desses textos serão parcial ou integral-
mente publicados em uma seção específica do jornal ou da revista.
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UNIDADE Gêneros Jornalísticos 
Chaparro define carta da seguinte forma:
Enquanto gênero jornalístico, carta é a manifestação opinativa, reivindica-
tória, cultural ou emocional do leitor.
Enquanto prática jornalística, no processo industrial de comunicação, carta 
é umaconcessão ao leitor, administrada em proveito do jornal, em cujas 
mensagens o leitor só acidentalmente interfere (1992, p. 63).
Para Melo, citado por Chaparro, cabe ao leitor um papel muito pequeno, inclusive 
passivo, nesse processo. “O leitor deveria constituir o principal foco de atenção 
daqueles que fazem jornalismo. É em função dele que os repórteres observam os 
fatos, que os redatores escrevem matérias, que os editores decidem o que divulgar. 
Deveria ser, mas não é” (MELO apud CHAPARRO, 1992, p. 65).
Na prática, os jornais e revistas reservam espaço para os textos enviados ao 
leitor, sendo que alguns deles recebem resposta, e outros não. Normalmente, são 
respondidas as mensagens que direcionam críticas diretas à própria empresa de co-
municação ou a um de seus jornalistas (por exemplo, quando o leitor não concorda 
com o conteúdo de uma determinada matéria).
Observe, a seguir, um trecho da seção Carta dos Leitores, da revista Época:
Religião
(389/2005) Dentro do Opus Dei (Jean Lauand e Marcio da Silva)
Desejo congratular a equipe da revista pelo equilíbrio, lucidez e coragem em 
publicar a reportagem sobre o Opus Dei. É patente nesse trabalho que a 
ficção de Dan Bernstein fica muito aquém da realidade escusa e monstruosa 
daquela instituição, que se arroga o título quase blasfemo de “Obra de Deus”, 
para escudar-se numa roupagem pseudo-religiosa. As experiências narradas 
pelas vítimas e o silêncio oferecido em resposta pelo porta-voz da instituição 
são estarrecedores.
Fonte: PROF°. DR. PAULO S. L. M. BARRETO, São Paulo, SP
Sou católico e quero externar minha satisfação à redação por publicar uma 
matéria de extrema importância sobre o Opus Dei. Precisamos saber de 
tudo para proteger nossos filhos.
Fonte: HERALDO RIEHL, Bauru, SP
Sou membro do Opus Dei há mais de 15 anos, sempre recebi da Obra 
todo o apoio para a vivência íntegra de minha religião. Em seus centros 
fala-se de Deus e recebe-se formação humana e doutrinal coletivas e 
individuais, estas adaptadas ao modo de ser de cada membro.
Fonte: CARMEN C. DE ANDRADE, Rio de Janeiro, RJ
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Bastidores
(389/2005) Vadão no alvo
A nota se equivoca ao dizer que o deputado Vadão Gomes “sacou R$ 3,7 
milhões”. A verdade é que ele nada sacou.
Fonte: CARLOS BRICKMANN, Assessoria de Imprensa do deputado Vadão Gomes
A Semana 
(387/2005) Frases (“Tudo tem um lado bom. A única coisa que não 
tem lado bom é CD do Fagner”)
Diferentemente do noticiado, não pronunciei a frase em público, mas em 
privado e em tom amistoso, após haver encerrado uma conversa com 
cinco jornalistas no Rio de Janeiro. Daí vazou para a coluna de Ancelmo 
Gois. O lugar de Fagner na música popular brasileira está muitíssimo 
acima de minhas apreciações pessoais. Penitencio-me, de qualquer 
maneira, pelo comentário.
Fonte: MARCO AURÉLIO GARCIA, assessor do governo para Assuntos Internacionais
A retranca Religião apresenta algumas manifestações de leitores sobre uma 
reportagem envolvendo o Opus Dei, publicada na edição número 389 de 2005. 
A primeira delas parabeniza a revista pela qualidade da matéria e, nas outras duas 
cartas, há exemplos de leitores que manifestam posicionamentos diferentes: um 
deles mostra-se contrário aos princípios da doutrina (“Precisamos saber de tudo para 
proteger nossos filhos”), enquanto o outro a defende, a partir de sua vivência pessoal 
(“sempre recebi da Obra todo o apoio para a vivência íntegra de minha religião”).
Na retranca seguinte, Bastidores, o assessor de imprensa de um deputado re-
bate uma informação publicada pela revista (“A nota se equivoca”), assim como na 
terceira retranca, em que o assessor do governo para Assuntos Internacionais tam-
bém corrige o conteúdo publicado (“Diferentemente do noticiado, não pronunciei 
a frase em público”). Nos dois casos, a revista optou por não responder às críticas 
dos leitores, limitando-se à publicação dos textos.
Gênero Informativo
A seguir, você vai conhecer as características de quatro formatos do gênero informa-
tivo: nota, notícia, reportagem e entrevista. Faremos apenas uma breve apresentação 
de cada um deles, visto que retomaremos esse conteúdo de maneira mais aprofundada 
nas próximas unidades.
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UNIDADE Gêneros Jornalísticos 
Nota
A classificação do gênero nota normalmente é feita em comparação ao gênero 
notícia: a nota é uma notícia curta. Melo explica que a diferença entre nota e notícia está 
na progressão dos acontecimentos. “A nota corresponde ao relato de acontecimentos 
que estão em processo de configuração e por isso é mais frequente no rádio e televisão. 
A notícia é o relato integral de um fato que já eclodiu no organismo social” (MELO 
apud PENA, 2005, p. 28). Em sites noticiosos, também é frequente a publicação de 
notas – todos querem ser os primeiros a noticiar um fato, mesmo que ainda não haja 
informações suficientes para a publicação de uma notícia completa.
Tomemos como exemplo a seguinte situação: um caminhão invadiu uma ciclovia 
em Nova York. Até o momento, não se sabe nada além disso. Os sites de informação 
certamente não vão perder tempo: a saída é divulgar uma nota, enquanto o fato é 
apurado para ser noticiado de forma mais completa. O texto poderia ser o seguinte: 
“Caminhão invade ciclovia em Nova York e deixa pelo menos oito mortos e dezenas de 
feridos. Tiros foram ouvidos no local, mas autoria ainda não foi confirmada. FBI trata 
o caso como ato terrorista. Veja as primeiras imagens do local”.
Você deve se lembrar desse caso, não é mesmo? O fato, que aconteceu em 31 de 
outubro de 2017, ganhou destaque na mídia. Em pouco tempo, já eram divulgados 
fotos e o nome do motorista responsável pelo atropelamento, ou seja, a nota dá 
espaço para notícias mais completas (mas vamos deixar para falar sobre o gênero 
notícia daqui a pouco). 
A revista Veja tem uma seção reservada para a publicação de notas. Intitulada 
Radar, é descrita pela revista da seguinte forma: “Notas exclusivas sobre política, 
negócios e entretenimento”. Por ter periodicidade semanal, obviamente não publica 
fatos que estão em processo de configuração, porque ficariam extremamente frios até 
que chegassem ao leitor. Observe alguns exemplos de notas divulgadas nos dias 5 e 6 
de janeiro de 2018:
Política
Joaquim Barbosa teme ser rifado pelo PSB
Confidenciou a interlocutores
Por Gabriel Mascarenhas
6 jan 2018, 11h00
Joaquim Barbosa não revela aos integrantes do PSB que desejam vê-lo 
candidato a presidente, mas ele teme aceitar a empreitada e ser rifado pelo 
partido às vésperas da campanha.
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Entretenimento
Rescisão de Waack trouxe alívio à Rede Globo
Preocupação com processo judicial
Por Gabriel Mascarenhas
5 jan 2018, 19h19
O acordo de rescisão contratual assinado com Wiliam Waack foi comemora-
díssimo na Globo.
A cúpula da empresa andava apavorada com a possibilidade de o apresen-
tador entrar na Justiça, alegando que o vídeo pelo qual vem sendo acusado 
de racismo não foi ao ar e é resultado de um vazamento feito por um ex-
-funcionário da casa.
Política
 ‘Só tem ignorante na equipe do Bolsonaro’
Interlocutores da sigla irritados
Por Ernesto Neves
5 jan 2018, 10h31
A ida de Jair Bolsonaro para o Patriota continua incerta. Apesar de uma 
nova rodada de conversas estar marcada para a próxima semana, o clima no 
partido é de total rejeição ao modus operandi do deputado boquirroto.
“Todos os 26 diretórios com que Bolsonaro lidou ele criou problema”, diz um 
membro da liderança. “Só tem ignorante na equipe dele”, garante.
“Em Brasília, por exemplo. Bolsonaro disse na frente do presidente do 
diretório, o suplente de deputado Paulo Fernando, que tiraria ele assim que 
possível. Ele não sabe fazer política”, diz um segundo interlocutor da sigla.
As notas são todas assinadas e, em sua maioria, abordam assuntos relacionados 
àpolítica. Há textos extremamente curtos e diretos, como é o caso da nota sobre 
Joaquim Barbosa, e outros mais longos, como o texto sobre Jair Bolsonaro. Você deve 
ter notado que os jornalistas não tiveram a preocupação de explicar para o leitor quem 
são as pessoas citadas. No gênero notícia, normalmente estaria escrito: “O ex-ministro 
do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa”; “O jornalista Wiliam Waack” 
e “O Deputado Jair Bolsonaro, atualmente no Partido Social Cristão (PSC)”.
Em relação ao texto, o gênero nota permite uma liberdade maior do que a notícia. 
Nos exemplos da revista Veja, encontramos expressões como “ser rifado” (linguagem 
coloquial), “foi comemoradíssimo” (superlativo), “modus operandi do deputado 
boquirroto” (linguagem rebuscada). 
A nota sobre Bolsonaro foi feita com base em duas fontes que não são reveladas 
ao leitor, ou seja, os entrevistados falaram ao jornalista em off. O recurso é legítimo, 
porém não dá à informação jornalística a mesma credibilidade de um texto que tem 
o nome e o sobrenome de quem faz uma afirmação. No entanto, para não perder a 
fonte, essa é uma saída bastante frequente.
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UNIDADE Gêneros Jornalísticos 
Notícia
Considerada a matéria-prima do jornalismo, a notícia apareceu nos primeiros 
jornais como fator de acumulação de capital mercantil - “o primeiro jornal circulou 
em Bremen, na Alemanha, em 1609” (LAGE, 2006, p. 10). Poucas coisas são 
unânimes no jornalismo, mas podemos arriscar dizer que não há quem discorde de 
que a notícia é o gênero principal quando o assunto é informação noticiosa.
Segundo Silva (s.d., p. 41),
Dentre as categorias de texto existentes na comunidade discursiva jorna-
lística, a notícia é um texto do qual todo usuário da língua tem conheci-
mento, na medida em que conseguimos defini-la e distingui-la de outros 
textos, inclusive de outros textos jornalísticos. Essa capacidade de identifi-
cação do texto noticioso se deve, principalmente, à sua estrutura conven-
cional, a qual permite que reconheçamos uma notícia, mesmo havendo 
variações regionais e nacionais.
A autora arrisca a afirmar que “todo usuário da língua” consegue reconhecer 
o gênero notícia e até mesmo diferenciá-lo de outros gêneros jornalísticos. Lage 
(2006, p. 17) aponta que, estruturalmente, a notícia pode ser definida como “o 
relato de uma série de fatos, a partir do fato mais importante ou interessante; e, de 
cada fato, a partir do aspecto mais importante ou interessante”.
Com base nessa definição, fica claro que a notícia tem a função não de narrar, 
mas de expor acontecimentos. Consequentemente, a tradição literária de organizar 
o texto em ordem cronológica, ou seja, na ordem em que cada um dos eventos 
acontece, não cabe no gênero notícia. Vamos entender por que, tomando como 
exemplo a seguinte situação:
Já não havia mais ninguém no escritório. Olhei para o relógio e me dei 
conta de que, se não corresse, não conseguiria pegar o último trem. Des-
liguei o computador, peguei minha pasta, corri em direção à porta e dei 
apenas uma volta na chave. Melhor nem esperar o elevador. Desci as 
escadas correndo e percorri aquelas cinco quadras em tempo recorde. 
Quase sem fôlego, respirei aliviado quando atravessei o portão que estava 
sendo fechado pelo funcionário do metrô. Desci dois lances de escada 
rolante. Não havia mais ninguém na plataforma. Próximo a um dos ban-
cos, ouvi o barulho do que parecia ser um choro de criança. Quando me 
aproximei, vi um bebê recém-nascido, enrolado em uma manta, deixado 
ali, sozinho. Sem pensar duas vezes, corri escada acima, dois degraus 
por vez, para relatar a situação ao segurança e pedir ajuda. Quem teria 
deixado aquela criança ali?
Aqui, temos um exemplo de acontecimentos narrados em sequência cronológica. 
Agora, imagine que esse homem tenha encontrado o segurança do metrô. Você 
acha que ele começou a contar o fato desde a hora em que estava no escritório, 
para só depois chegar ao ponto em que encontrou o bebê na estação? Certamente 
não! Ele deve ter ido direto ao ponto: tem um bebê abandonado na plataforma. Só 
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depois é que ele vai dizer que não havia mais ninguém no local – todas as outras 
informações, nesse caso, são supérfluas. 
No gênero notícia, é exatamente assim que o texto deve ser pensado. Por onde 
eu começo? Qual a informação mais importante? E ainda, das informações secun-
dárias, quais merecem ser citadas e em qual ordem? Vamos ver um exemplo na 
prática, do site G1: 
O jornalista e escritor Carlos Heitor Cony morreu, por volta das 23h desta 
sexta-feira (5), aos 91 anos. Ele estava internado desde 26 de dezembro 
no Hospital Samaritano, no Rio. A causa da morte foi falência múltipla de 
órgãos. A informação foi confirmada ao G1 pela assessoria de imprensa 
da Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual o autor era membro 
desde 2000.
Com uma longa carreira de jornalista, iniciada ainda nos anos 1950, e 
atuação nos principais jornais e revistas do país ao longo das últimas dé-
cadas, Cony era considerado um dos maiores escritores brasileiros vivos.
É autor de diversos e premiados romances, como “O ventre” (1958), 
“Pilatos” (1973), “Quase memória” (1995), que vendeu mais de 400 mil 
cópias, e “O piano e a orquestra” (1996). Com os dois últimos, ganhou 
o prêmio Jabuti.
Também escreveu coletâneas de crônicas, volumes de contos e novelas 
para a TV. Foi comentarista de rádio, função que exerceu até o fim da 
vida, na CBN.
Você viu como a notícia foi direto ao ponto? “O jornalista e escritor Carlos 
Heitor Cony morreu”. Depois, são revelados o horário e a data da morte, além da 
idade que ele tinha. Em seguida, vem a causa da morte e a fonte da informação (o 
que dá credibilidade à notícia). Os próximos parágrafos são dedicados a contar para 
o leitor quem foi Cony, com um breve relato de sua biografia.
O primeiro parágrafo do texto noticioso é chamado de lide (em inglês, lead), e essa 
estrutura que traz a informação mais importante primeiro tem o nome de pirâmide 
invertida. Mas, não se preocupe: tudo isso será tratado com detalhes na próxima 
unidade de ensino.
Reportagem
Assim como a nota, a reportagem costuma ser conceituada em comparação ao 
gênero notícia: diferencia-se desta por apresentar texto mais extenso e profundo. No 
Manual de Redação e Estilo do jornal O Estado de S. Paulo (MARTINS FILHO, 
1997, p. 254), há a seguinte definição:
A notícia, de modo geral, descreve o fato e, no máximo, seus efeitos e 
consequências. A reportagem busca mais: partindo da própria notícia, de-
senvolve uma sequência investigativa que não cabe na notícia. Assim, apura 
não somente as origens do fato, mas suas razões e efeitos. [...] A notícia não 
esgota o fato; a reportagem pretende fazê-lo.
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UNIDADE Gêneros Jornalísticos 
Segundo Lima (2009, p. 18), a reportagem “começa a se esboçar definitiva-
mente no jornalismo, atrelada a um novo veículo de comunicação periódica criado 
nos anos 1920, e a uma nova categoria de prática da informação, que tem seus 
primeiros passos definidos também nessa época”. O novo veículo de comunicação 
mencionado pelo autor é a revista semanal de informação, e a nova categoria de 
prática da informação é o jornalismo interpretativo.
Em relação à estrutura, o estilo da reportagem é menos rígido do que o da 
notícia. Lage (2006) esclarece que as informações não precisam, necessariamente, 
estar em ordem decrescente de importância e, em certos casos, o repórter pode 
utilizar a primeira pessoa para descrever o fato.
A autoria passa a ser importante. A reportagem essencialmente interpre-
tativa está a um passo do artigo, e não é por acaso que os meios aca-
dêmicos manifestam tanto entusiasmo por ela. A interpretação envolve, 
afinal, certa competência analítica que poucos realmente têm e muitos, 
por presunção, se atribuem (LAGE, 2006, p. 56).
Apesar de haver espaçopara interpretação nas reportagens, não se pode deixar de 
lado o principal: informar o leitor sobre um determinado fato, mesmo que seja algo 
mais frio, como a “comemoração” de um evento importante.
O texto a seguir foi publicado no site G1, no dia 17 de julho de 2017, sob o título 
“Mulheres relembram acidente com voo da TAM e contam como refizeram a vida 10 
anos após mortes de familiares”:
Era 18h48 de 17 de julho de 2007, uma terça-feira chuvosa, quando o 
Airbus A320, que fazia o voo 3054 da TAM, tocou a pista molhada do 
Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Sem conseguir frear, o avião 
cruzou a Avenida Washington Luís a 170 km/h e bateu contra um prédio 
da própria companhia aérea, atingindo também um posto de gasolina.
A aeronave havia partido de Porto Alegre. O choque, seguido de explosão, 
causou a morte de 199 pessoas.
O maior acidente aéreo do país completa 10 anos nesta segunda-feira (17). 
Cada família vive a perda de um jeito. Na véspera da data, o G1 ouviu as 
histórias de duas mulheres. A tragédia custou as vidas do filho e do marido.
De um lado, está a psicoterapeuta Elisabete Vanzin Costa, de 57 anos. 
O primogênito, Vinícius Costa Coelho, era um dos passageiros. Ele tinha 
24 anos e era piloto da companhia, mas não fazia parte da tripulação do 
voo 3054.
Na última década, Elisabete decidiu refazer as viagens do filho. Ela vê, 
nos lugares por onde passa, uma lembrança do jovem que adorava voar. 
Ela venceu a depressão, mas não abandonou a terapia, e acredita que vai 
reencontrar Vinícius algum dia.
Já a dona de casa Joice Helena Vinholes Oliveira, de 58 anos, precisou 
assumir o papel duplo de pai e mãe de duas adolescentes. Ainda em luto, 
após a morte do companheiro com quem foi casada por mais de 20 anos, 
superou um câncer de mama e encontrou conforto no espiritismo.
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As duas meninas viraram mulheres. Até hoje, elas lembram-se de momentos 
simbólicos da vida que gostariam de ter dividido com o pai: a carteira de 
motorista, a aprovação no vestibular, a formatura, o primeiro emprego...
A repórter Rafaella Fraga, do G1 do Rio Grande do Sul, optou por iniciar o texto 
em estilo narrativo tradicional, com a descrição dos eventos em ordem cronológica. 
Apenas no terceiro parágrafo é que apresenta o fato em si: o aniversário de dez 
anos do maior acidente aéreo do país.
Além de ser bastante extensa (escrita em cinquenta parágrafos), a reportagem 
traz ainda sete fotos e dois vídeos, um com três minutos e trinta e três segundos e 
o outro com dois minutos e trinta e seis segundos.
Ao longo do texto, a repórter apresenta as fragilidades das entrevistadas, usando 
estratégias para prender o leitor até o fim. Para encerrar a matéria, a jornalista 
pede para que as duas meninas que perderam o pai no acidente escrevam cartas 
para ele, “em que contam o que se passou nesses 10 anos e o que elas gostariam 
de ter compartilhado com o pai no período. A carteira de motorista, a aprovação 
no vestibular, o primeiro emprego, a formatura...”. 
Essa liberdade em relação à estrutura textual é uma das marcas do gênero reportagem 
e, assim como a notícia, suas características serão apresentadas mais a fundo nas 
próximas unidades.
A reportagem completa está disponível no site: https://goo.gl/KkAzUq
Ex
pl
or
Entrevista
“A entrevista constitui uma das principais fontes de informação de um jornal e 
está presente, direta ou veladamente, na maioria das notícias que ele publica. Ela 
pode tanto ser a própria reportagem como apenas parte dela”. Essa definição é 
dada pelo Manual de Redação e Estilo do jornal O Estado de S. Paulo (MARTINS 
FILHO, 1997, p. 108).
Para Melo (apud Medina, 1992), a entrevista é um gênero jornalístico que 
se caracteriza como relato, no qual um ou mais protagonistas de um fato são 
privilegiados, possibilitando-se a eles um contato direto com a coletividade. 
Medina, no entanto, discorda da classificação da entrevista como mais um gênero 
do jornalismo. Para ela, trata-se, sim, de uma técnica operacional, que pode ser 
aplicada para a produção de uma simples nota até uma reportagem elaborada, ou 
ainda para possibilitar a construção de um artigo. 
Bem, não restam dúvidas de que o jornalista não consegue presenciar todos os 
fatos que serão por ele noticiados, não é mesmo? Dessa forma, ele precisa ouvir 
pessoas que tenham as informações necessárias para a redação de seu texto, po-
dendo elas ser ou não citadas nominalmente.
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UNIDADE Gêneros Jornalísticos 
E quem acha que é fácil entrevistar pessoas está enganado! Preparar uma lis-
ta de perguntas não é suficiente para a garantia de um bom resultado. Erbolato 
(1979, p. 138) destaca: “A entrevista é um gênero jornalístico que requer técnica 
e capacidade profissional, pois se não for bem conduzida redundará em fracasso”. 
As entrevistas podem ser apresentadas em texto corrido ou em estilo pingue-pongue. 
A revista Veja, por exemplo, tem uma seção dedicada a esse gênero, as Páginas 
Amarelas, em que a motivação principal da publicação é apresentada no primeiro 
parágrafo e, na sequência, são apresentadas as perguntas e respostas do entrevistado.
Nas próximas unidades, retomaremos as características do gênero entrevista.
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Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:
 Livros
A imprensa informativa: técnica da notícia e da reportagem no jornal diário
“A imprensa informativa: técnica da notícia e da reportagem no jornal diário” (BELTRÃO, 
L. São Paulo: Folco Masucci, 1996).
Jornalismo opinativo: gêneros opinativos no jornalismo brasileiro
“Jornalismo opinativo: gêneros opinativos no jornalismo brasileiro”.(MELO, J. M. 
Campos do Jordão: Mantiqueira, 2003).
Sotaques d’aquém e d’além mar: percursos e gêneros do jornalismo português e brasileiro
Sotaques d’aquém e d’além mar: percursos e gêneros do jornalismo português e bra-
sileiro” (CHAPARRO, M. C. Santarém: Jortejo, 1998).
 Leitura
Os gêneros são realmente necessários?
https://goo.gl/bQgjK3
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UNIDADE Gêneros Jornalísticos 
Referências
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Outros materiais