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O trabalho dentro da loja de McDonald´s: regimes de visibilidade que 
revelam a imaterialidade da produção. 
Viviane Riegel*
Resumo O sistema de produção de McDonald´s compreende uma diversidade de empresas e 
processos. A mercadoria chega às suas lojas para preparação final e montagem, que ocorrem por 
meio de procedimentos estabelecidos em manuais, constantemente acelerados, seguindo a lógica 
que dá visibilidade à experiência fast food da marca. O objetivo desse artigo, portanto, é estudar 
como o trabalho é representado dentro da loja de McDonald´s, por meio de regimes de 
visibilidade que, na frente do balcão, apagam a materialidade da produção dos alimentos, e 
constroem a imaterialidade da experiência da mercadoria embalada para consumo. Para essa 
análise, serão utilizados elementos da Análise do Discurso de linha francesa sobre imagens de 
lojas do McDonald´s.
Palavras-chave trabalho; processo de controle; regimes de visibilidade; imaterialidade; 
experiência.
Work in McDonald´s: regimes of visibility revealing the immateriality of production 
Abstract McDonald's production system includes a variety of firms and processes. The goods 
arrive at their stores for final preparation and assembly that take place in procedures established 
in manuals, constantly accelerated, following the logic that gives visibility to the brand\u2019s 
experience. The aim of this paper therefore is to study how work is represented inside 
McDonald's stores, through arrangements of visibility that, at the check-out, erase the materiality 
of food production and build the immateriality of the experience of packaged goods for 
consumption. To this end, elements of discourse analysis following the French approach will be 
used on McDonald's images.
Keywords work; control process; visibility regimes; immateriality; experience.
Introdução
O conceito fast food, relacionado à produção da alimentação de McDonald´s, representa a versão 
* Professora de graduação de Comunicação Social da ESPM-SP, mestranda do programa de Comunicação e Práticas 
de Consumo da ESPM-SP. Rua Vicente Leporace, 1320 ap. 45 São Paulo/SP CEP 04619-033. Email: 
vriegel@espm.br
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taylorista / fordista da culinária, a divisão e a racionalização do trabalho, que se contrapõem ao 
trabalho artesanal, \u201cartístico\u201d, dos restaurateurs. Equipes reduzidas e sem qualificação especial 
devido aos baixos salários; equipamentos adaptados a procedimentos padronizados e 
controlados, entre outras condições da esfera da produção, encontram correspondência no âmbito 
do consumo, onde o tempo destinado à alimentação se subdivide em outras atividades cotidianas 
e profissionais. 
O sistema produtivo fast corresponde a procedimentos padronizados, especialização de mão de 
obra, velocidade e simplificação da preparação dos alimentos. As funções exercidas pelo 
trabalhador não requerem habilidades que transcendam o mero cumprimento de ações previstas 
em roteiros pré-estabelecidos, em uma equação entre fatores econômicos e gastronômicos, 
organizada estrategicamente em função do primeiro. 
A marca McDonald´s é referência mundial do conceito fast food e o imaginário de sua produção 
está relacionado à agilidade e padronização dos processos, realizados dentro do espaço de sua 
loja. Assim, quando o consumidor chega ao balcão e solicita um \u201cnúmero 1\u201d ao atendente, ele 
espera que o sanduíche dos \u201cdois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles, 
no pão com gergelim\u201d seja entregue na caixa com o nome Big Mac, além das batatas fritas 
cortadas em formato palito quentes e crocantes e da bebida escolhida no copo gelado. O trabalho 
para produzir os itens que compõem a mercadoria \u201cnúmero 1\u201d, portanto, na visibilidade da loja, 
inicia-se com o pedido na caixa registradora, passa pela cozinha e termina na bandeja, embalado 
para consumo. 
No entanto, há um processo complexo que ocorre antes do pedido do consumidor por 
determinado produto. A produção de cada elemento que está presente nos processos de 
montagem e finalização depende da materialidade de agricultores, indústrias e fornecedores 
diversos. Sendo assim, para que o consumo do trabalho imaterial da cozinha dentro da loja 
McDonald´s seja possível, são necessárias diversas etapas de trabalho para criar sua 
materialidade. 
Diante desse processo de apagamento e de visibilidade sobre determinadas partes da produção e 
do trabalho, como experiência de consumo de uma marca, analisa-se a relação da imaterialidade 
do trabalho com a cultura contemporânea, assim como sua incorporação na própria experiência 
de consumo do trabalho.
Cultura e trabalho imaterial
Para se compreender os fundamentos do trabalho, as teorias de Marx e Engels são fundamentais, 
pois apresentam a dialética do Capital no sistema produtivo. Em um texto fundador, Engels 
(2004) desenvolve a questão, identificando no trabalho a base da socialização humana, do 
surgimento da necessidade de se comunicar, de viver em comunidade, de se caracterizar como 
ser distinto de outros animais. O trabalho é entendido como a ação humana para transformar a 
natureza e gerar produtos dessa ação, que servirão à existência do homem. É essa capacidade de 
criar instrumentos e produzir a partir do que é dado pela natureza o traço essencial de distinção 
entre o homem e outros animais (ENGELS, 2004, p.19-20).
Conforme proposto por Casaqui e Riegel (2008), diante das transformações identificadas na 
contemporaneidade, a partir do advento do capitalismo, cada vez mais o trabalho se 
descaracteriza de sua essência, cujo caráter social deteria a potencialidade de realização humana, 
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no sentido da relação entre produtor e produto ser capaz de expressar, em tese, a subjetividade do 
homem, produzindo identidade, reconhecendo sua capacidade de intervir na natureza de maneira 
racional, em prol de sua existência. De acordo com Marx,
É exatamente na atuação sobre o mundo objetivo que o homem se manifesta 
como verdadeiro ser genérico. Esta produção é a sua vida genérica ativa. Por 
meio dela, a natureza nasce como a sua obra e a sua realidade. Em 
conseqüência, o elemento do trabalho é a objetivação da vida genérica do 
homem: ao não se reproduzir somente intelectualmente, como na consciência, 
mas ativamente, ele se duplica de modo real e percebe a sua própria imagem 
num mundo por ele criado (MARX, 2002, p.117).
A organização do trabalho, a partir da especialização de funções no sistema produtivo do 
capitalismo, promove o distanciamento na relação entre produtor e produto, ou seja, o 
trabalhador vai fornecer a sua força de trabalho, inserida na economia como mercadoria, através 
de tarefas localizadas, específicas, que não estabelecem uma relação direta entre aquilo que é 
produzido e o trabalho efetivo de seu produtor (CASAQUI & RIEGEL, 2008). O capital como 
produtor vai alienar essa relação: essas são as bases para compreensão do conceito de fetiche da 
mercadoria. O trabalhador desenvolve, assim, uma relação de estranhamento, e esse trabalho 
estranhado (MARX, 2004a, p.180-181) é também um estranhamento de si, na negação da 
interioridade do trabalho, da sua caracterização como exterioridade, como não-identificação, 
como lugar de sacrifício e subsistência, e não de relação plena. 
Tal apagamento permite a distinção entre valor de uso e valor de troca, sendo que Marx (2004b) 
define valor como uma quantidade de tempo de trabalho abstrato, investido na produção da 
mercadoria,