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3 - O Programa Bolsa Família como instrumento de inserção social e econômica dos refugiados e de portadores de visto humanitário

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DIREITO
INTERNACIONAL
DOS
REFUGIADOS
E O BRASIL
DANIELLE ANNONI (Coord.) 
CRÉDITOS 
Capa: Bernadette Saori Borges 
Fotos: Isabella Patrizzi Merolli 
Revisora e diagramadora da obra: Bernadette Saori Borges 
Tradutora e pesquisadora do Projeto: Elisa Moretti Pavanello 
Fontes históricas: Ana Carolina Contin Kosiak 
D598 DIREITO INTERNACIONAL DOS REFUGIADOS E O BRASIL 
/ Coordenação Danielle Annoni – Curitiba: Gedai/UFPR, 2018. 
759p. 
1. Refugiados. 2. Direito Trabalhista. 3. Direito Previdenciário. 3. Acesso à
Justiça. I. Annoni, Danielle (coord.). II. Título.
ISBN – 978-85-67141-24-4 [bruchura] 
ISBN – 978-85-67141-23-7 [recurso eletrônico] 
CDD 325.21 
CDU 3442.7 
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O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA COMO INSTRUMENTO 
DE INSERÇÃO SOCIAL E ECONÔMICA DOS 
REFUGIADOS E DE PORTADORES DE VISTO 
HUMANITÁRIO277 
Camila Arraes de Alencar Pimenta278 
Rui Carlo Dissenha279 
1 INTRODUÇÃO 
 definição de refugiado, convencionada em Genebra no ano de 
1951, continua atual. Segundo essa norma, no seu artigo 1º, inciso 
“2”, considera-se refugiada aquela pessoa que: 
em consequência dos acontecimentos ocorridos antes de 1º de 
janeiro de 1951 e temendo ser perseguida por motivos de raça, 
religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas, se 
encontra fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou, em 
virtude desse temor, não quer valer-se da proteção desse país, ou 
que, se não tem nacionalidade e se encontra fora do país no qual 
tinha sua residência habitual em consequência de tais 
acontecimentos, não pode ou, devido ao referido temor, não quer 
voltar a ele. (ACNUR, 19?). 
277 Artigo produzido no âmbito do projeto de pesquisa “Direito Internacional dos Refugiados 
e o Brasil: Um Estudo dos Direitos Reconhecidos pelo Brasil aos Refugiados e como se dá 
o Acesso à Justiça em caso de Violação” aprovado pelo CNPq - MCTI/CNPq/Universal
14/2014.
278 Mestre em Direito Constitucional pela Universidade de Coimbra; Especialista em Direito
Processual: Grandes Transformações pela Universidade do Sul de Santa Catarina
(UNISUL); Assistente Administrativo da Universidade Federal do Ceará (UFC);
Professora da Faculdade Ateneu-Pecém (FATE-PECÉM); Advogada.
279 Doutor em Direitos Humanos pela Universidade de São Paulo; Mestre em Direito das
Relações Sociais pela Universidade Federal do Paraná (UFPR); LLM in Public International
Law with International Criminal Law Specialization pela Leiden University; Diplôme Supérieur de
l’Université em Direito Penal pela Université Paris II; Professor de Direito Penal e Direito Penal
Internacional na graduação e na pós-graduação stricto sensu da Universidade Federal do Paraná
e do Centro Universitário Internacional (UNINTER). Professor de Direito Penal na
Universidade Positivo e UFPR. Advogado.
A 
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Em 1967 foi firmado um Protocolo adicional que retirou as limitações 
temporais e territoriais constantes do conceito original. O Brasil ratificou a 
referida convenção, assumindo o compromisso de amparo aos refugiados em 
seu território. 
Devido a esse empenho, em 1980 foi criado o Estatuto do Estrangeiro 
(Lei n.º 6.815/80) e em 1997, o Estatuto do Refugiado (Lei n.º 9.474/97), sendo 
esta última uma das leis mais avançadas do mundo sobre o tema. Além do mais, 
a nova Lei das Migrações (Lei n.º 13445/17) foi recentemente sancionada pelo 
Presidente da República, Michel Temer, e já entrou em vigor. Como ponto de 
importância para o presente estudo, cabe mencionar que em todo esse corpo 
normativo, e especialmente na legislação de regência mais nova, existem 
várias previsões de extensão de diversos direitos sociais reconhecidos 
constitucionalmente aos migrantes. 
O Programa Bolsa Família (PBF), por sua vez, surgiu em 2004 em 
substituição ao Programa Fome Zero iniciado em 2003, unificando vários 
outros programas assistenciais do Governo Federal existentes anteriormente280. 
Com a proposta de garantir um mínimo absoluto a todos os sujeitos sob o teto 
normativo do Estado democrático brasileiro, a previsão desse benefício tem o 
condão de oferecer aos cidadãos algum auxílio financeiro que lhes permita 
cobrir gastos mínimos destinados ao respeito da dignidade. Nesse contexto, e 
na medida em que o texto constitucional garante a todos um mínimo 
existencial, refugiados e portadores de visto humanitário não podem ser 
excluídos dessa plataforma caso cumpram os requisitos necessários para a 
concessão do benefício. 
Esta possibilidade segue, assim, uma das recomendações da Declaração 
de San José que propõe a reinserção social do refugiado e o fomento de 
s e u s direitos econômicos e sociais. Esse dispositivo é decorrência evidente e 
inafastável dos ideais apregoados na Declaração Universal de Direitos 
Humanos que asseguram a procura de asilo em caso de perseguição, bem como 
o direito à segurança social, com a satisfação dos direitos econômicos, sociais
e culturais indispensáveis. A garantia de acesso dessa parcela da população ao
PBF, nessa toada, materializa o princípio da cooperação internacional e a
280 Segundo o parágrafo único do artigo 2º da Lei n.o 10.386 de 9 de janeiro de 2004, o novo 
benefício unificava outros benefícios de transferência de renda do Governo Federal, quais 
sejam: o Programa Nacional de Renda Mínima vinculado à Educação - Bolsa Escola (Lei n.º 
10.219, de 11 de abril de 2001), o Programa Nacional de Acesso à Alimentação – PNAA (Lei 
n.o 10.689, de 13 de junho de 2003), oo Programa Nacional de Renda Mínima vinculada à 
Saúde - Bolsa Alimentação (Medida Provisória n. 2.206-1, de 6 de setembro de 2001), o 
Programa Auxílio-Gás (Decreto n.º 4.102, de 24 de janeiro de 2002) e o Cadastramento 
Único do Governo Federal (Decreto n.º 3.877, de 24 de julho de 2001) 
DIREITO INTERNACIONAL DOS REFUGIADOS E O BRASIL
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garantia dos direitos humanos, especialmente dando conta do direito a um 
nível de vida suficiente para assegurar a toda pessoa e à sua família a saúde e 
o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao
alojamento, à assistência médica e aos serviços sociais necessários.
O presente trabalho pretendeu realizar uma pesquisa bibliográfica e 
documental sobre a possibilidade de concessão do PBF aos refugiados e 
portadores de visto humanitário para que se ampliasse o conhecimento científico 
sobre essa temática e se produzisse um alargamento das fontes de dados 
existentes sobre a questão, facilitando pesquisas futuras e problematizando o 
tema. A abordagem realizada foi qualitativa e o objetivo da pesquisa foi 
descritivo e exploratório. À luz dos princípios constitucionais e internacionais, 
bem como da legislação vigente, levantaram-se as principais informações e 
documentos existentes sobre o tema em questão, com o intuito de verificar a 
efetividade na concessão deste benefício aos refugiados e portadores de visto 
humanitário, bem como aos estrangeiros de um modo geral. 
2 DOS REFUGIADOS E PORTADORES DE VISTO 
HUMANITÁRIO COMO DETENTORES DE DIREITOS 
SOCIAIS NO BRASIL 
A busca por refúgio e pela concessão de visto humanitário no Brasil é 
um fenômeno crescente. De acordo com o CONARE, em abril de 2016, o 
Brasil possuía 8.863 refugiados reconhecidos, de 79 nacionalidades distintas, e 
existiam 12.688 pedidos em processo de julgamento. O maior número de 
solicitações é do Haiti, que acumula 1.529 pedidos de refúgio. Segundo 
informações constantes no site do ACNUR, o número total de solicitações de 
refúgio ao Brasil aumentou mais de 2.868% entre 2010 (966 solicitações) e 
2015 (28.670 solicitações). No âmbito mundial, o ACNUR contabilizou em 
2016 o número de 65,3 milhões de refugiados. 
Nesse contexto, e vinculado ao “espírito de Cartagena”, o Brasil tem 
cumprido as suas diretrizes na proteção do refugiado, especialmente dando 
tanta amplitude quanto possível a esse conceito. Nesse sentido, portanto, em