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DisciplinaPsicologia e Processos Clínicos24 materiais106 seguidores
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0 O N o m e , a T a x o n o m i a e o C a m p o d o 
A c o n s e l h a m e n t o P s i c o l ó g i c o
María Luísa Sandoval Schmidt
I
O pirata é sempre o outro. Em estudo sobre representa­
ções da pirataria, Sheila Maria Doula (1997) mostra como 
para os ingleses os piratas eram franceses, portugueses, 
espanhóis e holandeses, assim como para cada um deles 
eram piratas os outros.
Essa interpretação do jogo identitário no imaginário 
sobre a pirataria presta-se a uma analogia com o jogo iden­
titário encetado por discursos e práticas psicoterápicos.
A classificação de teorias, métodos e técnicas psicoterá- 
picas, na tentativa de organizar a percepção de um terreno 
de discursos e práticas extremamente diversificado, parti­
cipa da cena em que identidades teóricas e profissionais 
se afirmam por oposição a outras. Subjaz ao trabalho de 
definição e delimitação de cada modelo psicoterápico um 
duplo movimento representado, por um lado, pelo esforço 
de compactar coerência por meio da exclusão das ambi­
güidades e ambivalências da teoria e da prática e da mútua 
implicação de ambas na clínica e, por outro, pela projeção 
dessas ambigüidades e ambivalências em outro modelo. 
Trata-se de legitimar a pureza de um modelo, criando, 
simultaneamente, as imagens do falso modelo e da apro­
priação espúria do modelo puro.
Bruno Latour (1994), no ensaio Jamais fomos modernos, 
numa abordagem antropológica da sociedade ocidental 
moderná, descreve a constituição do moderno e sua crise, 
denunciada pelo fracasso das tarefas de emancipação, no 
plano político, e de domínio da natureza, no plano cien­
tífico. A hipótese central do ensaio trabalha a separação 
entre práticas de purificação, partindo natureza e cultura
em práticas de tradução, estabelecendo mediações entre 
ambas e fazendo proliferar híbridos de cultura e natureza. 
Em suas palavras:
A hipótese deste ensaio - trata-se de uma hipótese 
e também de um ensaio - é que a palavra \u201cmoder­
no\u201d designa dois conjuntos de práticas diferentes 
que, para permanecerem eficazes, devem perma­
necer distintas, mas que recentemente deixaram 
de sê-lo. O primeiro conjunto de práticas cria, por 
\u201ctradução\u201d, misturas entre gêneros de seres com­
pletamente novos, híbridos de natureza e cultu­
ra. O segundo cria, por \u201cpurificação\u201d, duas zonas 
ontológicas inteiramente distintas, a dos huma­
nos, de um lado, e a dos não-humanos, de outro. 
Sem o primeiro conjunto, as práticas de purifica­
ção seriam vazias ou supérfluas. Sem o segundo, 
o trabalho de tradução seria freado, limitado ou 
mesmo interditado. O primeiro conjunto corres­
ponde àquilo que chamei de redes, o segundo ao 
que chamei de crítica. O primeiro, por exemplo, 
conectaria em uma cadeia contínua a química da 
alta atmosfera, as estratégias científicas e indus­
triais, as preocupações dos chefes de Estado, as 
angústias dos ecologistas; o segundo estabeleceria 
uma partição entre um mundo natural que sempre 
esteve aqui, uma sociedade com interesses e ques­
tões previsíveis e estáveis, e um discurso indepen­
dente tanto da referência quanto da sociedade. 
Enquanto considerarmos separadamente estas 
práticas, seremos realmente modernos, ou seja,
2 0 Nome, a Taxonomia e o Campo do Aconselhamento Psicológico
estaremos aderindo sinceramente ao projeto da 
purificação crítica, ainda que este se desenvolva 
somente através da proliferação dos híbridos (LA- 
TOUR, 1994, p. 16).
Uma segunda hipótese é a de que a exclusão dos híbridos 
e a impossibilidade de pensá-los tornam sua proliferação 
possível.
O dispositivo de purificação recobre o saber moderno 
disciplinar, bloqueando a compreensão dos híbridos e, 
pode-se dizer, a construção de saberes híbridos. Como 
escreve Latour:
Nossa vida intelectual é decididamente mal cons­
truída. A epistemologia, as ciências sociais, as ciên­
cias do texto, todas têm uma reputação, contanto 
que permaneçam distintas. Caso os seres que você 
esteja seguindo atravessem as três, ninguém mais 
compreende o que você diz. Ofereça às disciplinas 
estabelecidas uma bela rede sociotécnica, algumas 
belas traduções, e as primeiras extrairão os concei­
tos, arrancando deles todas as raízes que poderiam 
ligá-los ao social ou à retórica; as segundas irão 
amputar a dimensão social e política, purificando- 
a de qualquer objeto; as terceiras, enfim, conser­
varão o discurso, mas irão purgá-lo de qualquer 
aderência indevida à realidade - horresco referens
- e aos jogos de poder. O buraco de ozônio sobre 
nossas cabeças, a lei moral em nosso coração e o 
texto autônomo podem, em separado, interessar 
a nossos críticos. Mas, se uma naveta fina houver 
interligado o céu, a indústria, os textos, as almas e 
a lei moral, isso permanecerá inaudito, indevido, 
inusitado (LATOUR, 1994, p. 11).
O intento de Latour, por meio da pesquisa, é \u201creatar o 
nó górdio atravessando, tantas vezes quantas forem neces­
sárias, o corte que separa os conhecimentos exatos e o exer­
cício do poder\u201d, descrevendo tramas, apoiado na noção de 
tradução ou rede (Ibid., p. 9). Trata-se da proposição de 
investigações que dizem respeito à natureza ou ao conhe­
cimento em seu envolvimento com coletivos e sujeitos.
A menção ao ensaio de Latour tem, nesse contexto, o 
sentido de explicitar uma apropriação \u201ccaseira\u201d de suas 
idéias que ajuda a focalizar o campo do Aconselhamento 
Psicológico pelo viés do problema da taxonomia das teorias 
e práticas psicoterápicas. Pois é possível, talvez, apreender 
os esforços de distinção e classificação dessas teorias e
práticas como fazendo parte do engenho purificador que 
se instala, também, no interior de cada disciplina. Na 
contrapartida, suas idéias convidam à tentativa de leitura 
da dimensão híbrida de discursos e práticas instituídos sob 
o nome Aconselhamento Psicológico.
Um propósito avizinha-se: o de interpretar ou apreender 
a constituição do Aconselhamento Psicológico, procu­
rando ver o que a entrada de Cari Rogers desacomoda na 
ordem das classificações, tanto das linhas teóricas quanto 
nas diferenciações entre orientação, Aconselhamento e 
psicoterapia. Trata-se, por outro lado, de entender o hibri­
dismo de suas práticas mais do que sua pureza.
II
O nome \u201cAconselhamento\u201d é o assunto ou tema que 
apresenta os alunos de graduação ao Aconselhamento 
Psicológico na primeira aula da primeira disciplina da área 
no Instituto de Psicologia da USP.
Um desconforto que, vez ou outra, a equipe do SAP 
experimentou em relação ao nome \u201cAconselhamento\u201d é 
também experimentado pelos alunos.
A representação prescritiva, próxima àquela dos manuais 
de instrução, com a qual muitos alunos se aproximam da 
palavra conselho, intenta-se opor o conselho como deri­
vado da sabedoria sintetizada nas narrativas tradicionais 
que, pelo trabalho de reflexão e sua conexão com a experi­
ência de um leitor ou ouvinte, se consagra ou vem à tona 
(BENJAMIN, 1936; 1985).
O verbo aconselhar abriga tanto os sentidos de mostrar, 
indicar, sugerir, recomendar, orientar, quanto o de uma 
troca de idéias e opiniões, numa situação em que vários 
indivíduos se reúnem para ponderar e decidir com 
prudência sobre algum assunto de seu interesse.
Aconselhamento, genericamente, recobre, ainda, o 
espectro de significados que vai da indicação da conve­
niência, necessidade ou desejabilidade de algo, da recomen­
dação ou sugestão ao intercâmbio de idéias e opiniões no 
contexto de uma reunião de debate e discussão. Na esfera 
da Psicologia ou da Pedagogia, contudo, o Aconselhamento 
nomeia \u201co auxílio ou orientação que um profissional (peda- 
gogo, psicólogo, entre outros) presta ao paciente nas decisões 
que este deve tomar quanto à escolha de profissão, cursos, 
entre outras, ou quanto à solução de pequenos desajusta­
mentos de conduta\u201d (HOUAISS, 2001).
Essa definição de dicionário,