A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
204 pág.
A-Fisica-Dos-Anjos-Sheldrake

Pré-visualização | Página 26 de 50

e indivisível se move e age sobre corpos localizados em 
lugares específicos?
São Tomás cie Aquino 105
MATTHEW: Podemos propor m u itas respostas para essa pergunta.
É interessante observar que tanto a ação dos fótons quanto a ação dos 
anjos envolve um elemento de liberdade, mas, no caso dos anjos, Aquino 
enfatiza a importância da escolha consciente: “Um anjo pode se aplicar a um 
determinado lugar como bem. entender”.
O movimento cfe um anjo é instantâneo?
Um anjo pode se mover em um tempo descontínuo. Ele pode 
estar agora, aqui e ali, sem intervalo de tempo entre as ações.31 
Quando um anjo se move, o começo e o fim do seu deslocamen­
to não acontecem em dois instantes entre os quais haja qualquer 
intervalo de tempo; tampouco o começo do seu movimento 
ocupa o mesmo espaço de tempo que o instante do seu término; 
mas o começo acontece em um instante e o fim em outro. Entre 
eles não existe tempo, em absoluto. Digamos, então, que o mo­
vimento de um anjo se dá no tempo, mas não da maneira que os 
movimentos corpóreos se dão.32
MATTHEW: Se não me engano, Rupert, essa foi a primeira idéia que o 
entusiasmou a respeito de anjos e fótons, a de que o tempo não passa quan­
do os anjos se deslocam. E isso também está muito próximo do que pensa­
mos sobre os fótons, não é mesmo?
RUPERT: Sim. Um fóton pode estar em u m lugar em determinado ins­
tante, como quando a luz parte do Sol; e pode estar em outro lugar em outro 
instante, como quando a luz do Sol atinge algum ponto na Terra e ilumina-o. 
Transcorre cerca de oito minutos, em medida convencional de tempo, entre 
esses dois instantes. Assim, podemos associar uma velocidade à luz,
Mas, de acordo com a teoria da relatividade - e este foi um dos princi­
pais pontos iniciais para Einstein —, na perspectiva do fóton, o tempo não 
passa. Existe uma conexão instantânea entre a luz que deixa o Sol e a luz que 
atinge algum ponto na Terra, e o fóton não envelhece.
106 A FÍSICA DOS ANJOS
Acreditamos que, assim, a chamada radiação cósmica de fundo em mi­
croondas seja um resíduo de luz do Big Bang, e de fato é uma das principais 
linhas de evidências da ocorrência dessa explosão primordial cerca de 15 
bilhões de anos atrás. Esses fótons são tão antigos quanto qualquer coisa 
pode ser, mas não se desgastaram, pois são intrinsecamente eternos, Poderí­
amos usar as palavras de Aquino para descrever o movimento de um fóton: 
“O começo acontece em um instante e o-fim em outro. Entre eles não existe 
tempo, em absoluto. Digamos, então, que o movimento [de um fóton] se dá 
no tempo, mas não da maneira que os movimentos corpóreos se dão”.
Uma importante característica da teoria da relatividade é que nenhum 
corpo pode se mover â velocidade da luz, pois, na medida em que os corpos 
se aproximam desse limite, a massa deles aumenta. Na velocidade da luz 
propriamente dita, a massa deles seria infinita. Por isso, apenas a luz pode 
se mover à velocidade da luz, e pode fazer isso porque os fótons são despro­
vidos de massa.
MATTHEW: Essa idéia de que os fótons não envelhecem é muito interes­
sante. Aquino disse que os anjos não envelhecem. Isso pode oferecer uma 
justificativa limitada para a imagem, especialmente popular no período bar­
roco, dos anjos com feições de bebês. Não existe aí o problema do senex 
negativo nem de um anjo exausto; este é um problema humano, porque 
somos conectados à massa e ao corpo.
Outra maneira de colocar essa questão é dizer que os anjos vivem no 
presente eterno. Se não hã passagem de tempo para eles quando se movem, 
não são acometidos pelas investidas do passado e do futuro; eles sempre 
existem no agora. Isso os torna místicos por excelência, pois o místico em 
nós também vive no presente.
RUPERT: E os fótons existem em um eterno agora. É interessante lem ­
brar que os anjos são frequentemente descritos como seres de luz; a conexão 
entre luz e anjos tem sido estabelecida há tempos. Não é mera coincidência 
encontrarmos, hoje, paralelos notáveis entre os anjos e a natureza da luz.
MATTHEW: Falamos sobre o fóton como partícula e como onda. Talvez 
haja aqui uma dica a respeito dos anjos: a de que, às vezes, sua atuação é 
mais parecida com uma onda, e às vezes, sua presença é mais parecida com 
uma partícula.
São Tomás de Aquino 107
RUPERT: O aspecto de onda do fóton tem a ver com a natureza não lo­
calizada e seus movimentos. O aspecto de partícula tem a ver com sua ação 
localizada. Enquanto agem em lugares determinados, os anjos são como 
partículas; na medida em que são incorpóreos e móveis, se parecem com 
ondas, vibrações em campos.
Imaginação
O intelecto em nós é agente e potencial, por causa de sua relação 
com a imaginação ou com os fantasmas. As formas imaginárias 
estão para o intelecto potencial como as cores estão para o sen­
tido da visão; e estão para o intelecto agente como as cores estão 
para a luz. Ora, não há imaginação nos anjos e, portanto, nenhu­
ma razão para dividir seu intelecto dessa maneira.33
m a t t h e w : Aquino se ocupa aqui do assunto da imaginação humana. 
Ele utiliza a distinção medieval entre intelecto potencial e intelecto agente 
ou ativo. O intelecto potencial envolve uma percepção de idéias e conceitos; 
o intelecto ativo processa as impressões senso riais inteligíveis que recebemos 
do mundo material. Juntos, eles traduzem o que entendemos por criativida­
de ou imaginação.
Ele questiona se os anjos também têm imaginação, e conclui que não. 
Nossa imaginação nos liga ao conhecimento sensorial, e os anjos não pos­
suem essa habilidade. Para Aquino, a imaginação está entre o conhecimento 
sensorial e o conhecimento espiritual. Aquelas pessoas dotadas de rica ima­
ginação - podemos chamá-las de tipos criativos ou artistas - são um elo 
entre o espiritual e o corriqueiro para o restante de nós.
Aquino achava que o modo especificamente humano de compreender 
incluía o intelecto potencial e o intelecto agente, uma combinação que liga 
a inteligência à bestialidade. E isso é claramente verdade. Os animais so­
nham.. Meu cachorro poderia acordar com um pesadelo, eventualmente. Os 
animais também possuem uma espécie de imaginação, pelo menos uma re­
presentação sobre suas experiências vividas e suas experiências possíveis.
108 A FÍSICA DOS ANJOS
Uma das razões pelas quais Aquino nega que os anjos tenham imagina­
ção é a concepção de eles viverem inteiramente no agora. A imaginação está 
intimamente relacionada à memória, ao passado e ao futuro. Aqui reside sua 
força, mas também sua fragilidade. As pessoas só podem viver a imaginação 
em uma cultura semelhante à nossa, mesmo que seja vivendo a imaginação 
de outras pessoas, como os publicitários. A imaginação pode ser uma distra­
ção para a vida vivida no aqui e no agora - mas não tem de ser necessaria­
mente assim.
O dom da arte sadia está no fato de ela captar o poder da imaginação e 
nos trazer de volta ao agora, à profundidade e à verdade daquilo que real­
mente importa.
Quando Aquino diz que os anjos não têm imaginação, ele na verdade 
exalta essa dádiva única que temos como seres humanos. Ao mesmo tempo 
em que somos espirituais como os anjos, também somos sensitivos como os 
animais, e a imaginação é uma ponte que pode nos servir ao longo de nossa 
trajetória. Podemos percorrê-la com valores espirituais, inteligência e ener­
gia, ou podemos permitir que ela nos leve simplesmente aos nossos instintos 
básicos e a não nos mover além disso.
A imaginação nos diferencia dos anjos; comprova que temos algo que 
eles não têm. Outra maneira de colocar esta questão é perguntando: os anjos 
são artistas? Talvez essa seja uma das razões pelas quais eles tradicionalmen­
te comparecem à adoração. Talvez venham ouvir Mozart por não disporem 
de Mozarts entre eles. Talvez 'acorram à Catedral de Chartres porque ne­
nhum deles jamais construiu uma obra de tal magnitude.

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.