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A-Fisica-Dos-Anjos-Sheldrake

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Essa é a tarefa 
humana. A adoração e o ritual são dádivas da imaginação humana para ele­
var a energia da sociedade a um grau que atraia a atenção dos anjos, fazendo 
com que eles fiquem tão interessados quanto nós. Esse é o tipo de dádiva 
que oferecemos aos anjos, a dádiva da nossa arte, da nossa imaginação.
Os anjos sabem i t coisas particulares?
Os anjos nos protegem individualmente, de acordo com as pa­
lavras do salmo: “Pois Ele ordenou a seus anjos que guardem
Sao Tomás de Aquino 109
você em seus caminhos” (Sl 91,11). [...] Se os anjos não tives­
sem qualquer conhecimento a respeito das coisas individuais, 
não poderiam exercer o governo providencial sobre os eventos 
deste mundo, uma vez que acontecimentos implicam ações in­
dividuais [...] administração, governo e causar movimento têm 
a ver com particularidades existentes no aqui e no agora [...] Tal 
como o homem conhece os gêneros de todas as coisas por meio 
de suas faculdades, diferindo-as umas das outras - por meio de 
seu intelecto, conhece o universal e as coisas desprovidas de 
matéria; e, por meio de sua sensação, o específico e o corpóreo 
um anjo também conhece ambos os tipos de coisas por meio 
de um poder intelectual único. Pois assim é a ordem do univer­
so: quanto mais elevado for um ser, mais unificado e, ao mesmo 
tempo, mais abrangente, é seu poder [...] sendo então a nature­
za angélica superior à nossa, não faz sentido negar que aquilo 
que um homem pode saber por meio de uma de suas várias fa­
culdades um anjo pode saber por meio de sua faculdade cogni­
tiva única e intelectual.34
MATTHEW: Essa passagem parece relevante para nossa discussão sobre o 
papel dos anjos em um universo evolucionário. Aquino parece afirmar que, 
se podemos conhecer o desdobramento histórico dos acontecimentos, a par­
tir de senso evolucionário de tempo, certamente os anjos também podem 
sabê-lo, ainda que de maneira diferente. Em primeiro lugar, saberiam-no 
intuitivamente, porque é assim que tudo conhecem. Saberiam-no porque faz 
parte da realidade, e, de alguma forma, os anjos tudo conhecem da realidade, 
mesmo que não pelo sentido de conhecimento, mas de algum outro modo.
Enquanto nossa espécie concebeu a teoria da natureza evolucionária do 
universo há um tempo relativamente recente, presumimos que os anjos sem­
pre souberam de coisas que os escolásticos medievais e os pais da igreja 
nunca conheceram a respeito do tamanho, da idade e da natureza evolucio­
nária e criativa do universo. Podemos até dizer que os anjos devem ter fica­
do frustrados por todos esses séculos, esperando que os seres humanos to­
110 A FÍSICA DOS ANJOS
massem consciência de quão criativo é o universo, e como ele o tem sido 
desde o princípio.
RUPERT: Eu concordo. Acho que essa discussão de Aquino é muito im­
portante. Para desempenhar suas funções de espíritos gerenciadores e anjos 
da guarda, essas criaturas precisam saber o que realmente se passa no mun­
do. E elas não têm como sabê-lo por meio de mero pressentimento, uma vez 
que, pelo menos no caso dos anjos da guarda, eles lidam com seres de von­
tade própria.
Aqui Aquino seriamente considera as formas pelas quais os anjos inte­
ragem com o que poderia acontecer e com o que, de fato, está acontecendo. 
Ele tem de elaborar seu pensamento observando o fato de eles saberem de 
tudo diretamente, sem a necessidade do sentido de conhecimento, uma vez 
que eles não têm sentidos.
Se eu tivesse de tentar criar uma teoria sobre como os anjos poderiam 
conhecer a realidade de uma maneira direta, sem a mediação dos sentidos 
físicos, começaria com a possibilidade de que eles, de alguma forma, intera­
gem com os campos organizacionais das coisas. A atividade mental de uma 
pessoa, o desenvolvimento de uma planta, a formação de um floco de neve, 
toda a atividade de Gaia - tudo isso está organizado por campos, assim como 
os átomos e as galáxias. Talvez o anjo pudesse interagir diretamente com 
esses campos. Se os campos pudessem agir sobre o anjo, e se o anjo viven- 
ciasse diretamente sua natureza e seu estado presente, teria um conheci­
mento direto daquilo que está acontecendo dentro e ao redor do organismo 
com o qual estivesse interagindo.
Aquino acredita que isso poderia acontecer por meio de “uma faculda­
de cognitiva única e intelectual”. Ele também comenta a idéia de que, quanto 
mais elevado for um ser, mais unificado e, ao mesmo tempo, mais abran­
gente, será seu poder. Um anjo preocupado com nosso planeta teria uma 
esfera Gaia de ação e um conhecimento unificado do que está acontecendo 
na Terra. Preocupado com. a galáxia, teria um conhecimento do campo ga­
láctico como um todo e de todas as atividades nele contidas. O anjo da 
guarda de uma pessoa teria um conhecimento unificado e amplo desse ser 
humano por meio de uma cognição direta dos campos escondidos sob os 
pensamentos, as ações, as intenções e os relacionamentos dessa pessoa.
5 ao Tomás de Aquino 111
Os anjos não apenas sabem, eles agem. Os campos de um organismo 
agem de acordo com a orientação de seu anjo-guia, e essa ação é a base para 
o conhecimento direto do anjo no ser e na transformação mais profunda do 
organismo. Inversamente, o anjo pode agir de acordo com o organismo por 
meio de seus campos organizacionais, interferindo e conferindo novos pa­
drões à sua atividade.
Dessa maneira, podemos pensar nos campos como a interface por meio 
da qual os organismos e seus anjos orientadores interagem. Tal interação é 
essencial se as inteligências angélicas participarem de forma criativa e orien­
tadora no processo evolucionário.
MATTHEW: Como você apontou, quando tratamos de anjos da guarda, 
lidamos com anjos que trabalham com pessoas de livre-arbítrio. Em outra 
passagem, Aquino diz que os anjos não conhecem os segredos dos corações 
humanos - somente Deus os conhece.35 Assim, eles não interferem em nos­
sas escolhas, e não poderiam fazê-lo mesmo que quisessem, pois essa é uma 
esfera de conhecimento à qual só Deus tem acesso.
Acho isso importante. Os espíritos não nos ditam ordens, não nos veem 
como meras criaturas do destino. Eles têm de manter a distância de nossa 
consciência e de nossa criatividade, por exemplo. Podem ajudar, mas não 
podem nos privar de nosso poder de escolha.
Mas o que também me vem à mente é a questão do acaso, especialmen­
te do ponto de vista evolucionário. Admitindo que os anjos não têm contro­
le sobre os seres de livre-arbítrio, podemos também perguntar; o que os 
anjos sabem a respeito das ocorrências do acaso no universo, sobre os acon­
tecimentos aparentemente aleatórios que, de fato, acabam mudando a or­
dem das coisas?
Os anjos conhecem o futuro?
O futuro pode ser conhecido de duas maneiras. Primeiro, em 
suas causas; e assim as coisas futuras, que vêm necessariamente 
de suas causas, podem ser conhecidas com certeza, por exem­
plo, o sol nascerá amanhã. Outras coisas que vêm de suas causas
112 A FÍSICA DOS ANJOS
não são, na maioria dos casos, previsíveis com certeza, mas com 
certa medida de probabilidade, tal como o médico que prognos­
tica a respeito da saúde futura de um paciente. E esse tipo de 
pressentimento em relação ao futuro é encontrado nos anjos, e 
em um grau mais elevado do que nos homens, porque eles co­
nhecem as causas das coisas de modo mais extenso e mais per­
feito do que nós; assim como um médico pode explicar o curso 
de uma doença mais seguramente ao analisar suas causas com 
mais clareza. Mas só em ocasiões relativamente raras - eventos 
casuais e fortuitos os acontecimentos que surgem de suas cau­
sas não podem ser conhecidos antecipadamente [...] o futuro, 
em si mesmo, não pode ser conhecido por nenhuma mente cria­
da [...] A mente angélica tem seu próprio tempo, que surge de 
uma sucessão de concepções ocorridas na inteligência; daí Agos­
tinho dizer: “Deus move a criatura espiritual através

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