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A-Fisica-Dos-Anjos-Sheldrake

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cada sis­
tema sendo, ao mesmo tempo, um todo formado por partes e uma parte 
dentro de um todo maior.
Em cada nível, o todo é mais que a soma das partes. Sugiro que essa 
totalidade depende do que chamo campo mórfico, um campo organizado 
que é a base da estrutura do sistema. Os campos mórficos são estruturados 
por ressonância mórfica. Eles contêm memória. Na verdade, eles são os por­
tadores da memória inerente na natureza.
Em cada nível de organização, os campos mórficos animam os organis­
mos, conferindo-lhes seus hábitos e sua capacidade organizativa. Nesse sen­
tido, moléculas, estrelas e galáxias são vivas, não apenas micróbios, plantas 
e animais. E, se são vivas, são conscientes? Há mente ou inteligência a elas 
associadas?
Pensemos em níveis de organização como Gaia, ou o sistema solar, ou 
a galáxia. Se os campos que os organizam estão associados com o espírito, 
com a inteligência ou com uma consciência, então estamos falando sobre 
consciência sobre-humana. Se uma galáxia tem consciência, espírito ou 
mente, essa mente será inconcebivelmente maior em escopo do que a de 
qualquer mestre da Hardvard ou intelectual em Paris.
MATTHEW: Sim. Durante a era industrial newtoniana-cartesiana, os an­
jos foram banidos. Não havia espaço para anjos em uma máquina. Não havia 
sequer espaço para almas em uma máquina. E os anjos não foram apenas 
banidos, mas trivializados. Pense nas igrejas barrocas construídas no século 
XVII, o mesmo século da separação entre ciência e religião. A religião tomou 
para si a alma, que se tomou cada vez mais introvertida e fraca, e os cientis­
tas levaram o universo. Na arquitetura barroca, os anjos se tornaram bebe-
Introdução 23
zinhos graciosos e rechonchudos, que tínhamos vontade de beliscar. Preci­
samos hoje de uma libertação dos anjos.
Para os teólogos, durante trezentos anos foi embaraçoso mencionar os 
anjos. Mas eles são mencionados ao longo da Bíblia. Na verdade, existem 
legiões de anjos. Sempre que falamos sobre cosmologia, eles aparecem.
No século I, quando as Escrituras cristãs foram redigidas, a principal 
pergunta que circulava na bacia mediterrânica era: os anjos são nossos ami­
gos ou nossos inimigos? Todos acreditavam em anjos na Grécia e em Roma; 
eles faziam parte da cosmologia corrente. Mas a pergunta era: podemos con­
fiar nessas forças invisíveis do universo, que movem os planetas e os elemen­
tos? Até que ponto o universo é digno de confiança?
Isso é muito interessante porque, no século xx, perguntaram a Einstein: 
“Qual a pergunta mais importante na vida?” E ele respondeu: “O universo é 
um lugar amistoso ou não?” É a mesma pergunta. Eu digo a meus alunos que 
sempre que nos depararmos com os anjos ao lermos a Bíblia devemos pensar 
em Einstein, porque estamos lidando com a mesma questão. É a maior ques­
tão cosmológica. Podemos confiar no cosmo? O cosmo é afável?
Nos inúmeros cânticos ao Cristo Cósmico na Bíblia, existem alusões 
aos anjos (vejamos, por exemplo, Romanos 8,38-39; Efésios 1,20-21; Colos- 
senses 1,15-16; Hebreus 1,3-4). Os primeiros cristãos responderam à per­
gunta sobre a índole do cosmo no século i: Cristo tem poder sobre os anjos 
e.arcanjos, as potestades e os principados. O que eles dizem? Dizem que, 
independentemente do que essas forças invisíveis estejam fazendo com os 
elementos do universo, o sorriso de Deus, como representado pelo Cristo, é 
a garantia de que você pode relaxar, ficar calmo. O universo é um lugar 
amistoso. Existe um poder benigno sobre os anjos: o Cristo. A tradição do 
Cristo Cósmico se estabelece no contexto da angelologia porque está funda­
da em termos de cosmologia.
RUPERT: Apesar de o Céu ter sido secularizado e mecanizado, essas 
questões não desapareceram. Um vazio espiritual surgiu quando a imagina­
ção religiosa retirou-se do Céu; e como a imaginação científica é extrema­
mente pobre, a ficção científica apareceu para preencher essa lacuna. O Céu 
tem sido, então, habitado pelas fantasias dos escritores de ficção científica. 
Alguns deles são talentosos e usam o Céu como cenário para histórias de
24 A FÍSICA DOS ANJOS
interesse e valor. Mas a maioria é banal; não cumpre um bom papel em nos 
dar uma idéia da maravilha do universo. Naves espaciais viajando no tempo, 
o império do mal, as guerras estelares, os policiais espaciais e os alienígenas 
- essas não são boas representações das inteligências cósmicas. Mas a ücção 
cientifica é a principal influência sobre a maneira como a maioria das crian­
ças imagina o Céu. O vazio cosmológico causado pela expulsão e banaliza- 
ção dos anjos simplesmente tem sido preenchido por escritores de ficção 
científica e entusiastas da ufologia.
Que perda terrível! As convenções da ficção científica foram estabeleci­
das no contexto do universo mecânico, antes da revolução cosmológica nos 
anos 1960, e têm pouco a ver com o que foi descoberto desde então. Temos 
agora uma visão amplamente expandida dos Céus, com inúmeras galáxias, 
quasares, pulsares, buracos negros e 15 bilhões de anos de história cósmica. 
Acredito que uma das coisas que precisamos fazer é recuperar um sentido 
de vida do Céu, para que, quando olharmos para as estrelas, quando real­
mente olharmos para o céu, conscientizemo-nos dessa divina presença e das 
inteligências e da vida nele contidas.
MATTHEW: Sim, hoje estamos recuperando a idéia da terra viva, Gaia, e, 
para muitas tradições nativas, da Mãe Terra; mas é igualmente importante 
recuperar esse senso de vida do céu e unir os dois. jose Hobday, uma mulher 
de origem seneca que trabalha conosco, diz que, quando os povos nativos 
dançam, os joelhos são flexionados para entrar na terra, mas os ombros gi­
ram para alcançar a energia dó pai céu, e são as duas energias juntas que 
permitem o total complemento de energia.
Nós não apenas secularizamos o céu, mas lançamos nossos mísseis e lá 
deixamos nossos escombros. Estamos lã agora. Mas o universo é bem mais 
vasto, mais surpreendente e expansível do que jamais imaginamos. E não 
estamos falando apenas sobre espaço; estamos falando sobre tempo. Esta­
mos captando luz de bilhões de anos atrás. Quando nos referimos ao céu e 
à terra, estamos falando sobre a ressacralização do tempo e do espaço.
RUPERT: No passado, as pessoas acreditavam que o que acontecia na 
terra estava relacionado ao que acontecia no Céu. Essa tradição é vivamente 
preservada pela astrologia moderna. Mas, infelizmente, a astrologia do sécu­
lo XVII se separou da astronomia. A astrologia deu sentido aos movimentos
Introdução 25
do Céu e à sua relação com a Terra. Os planetas ainda têm. nomes de deuses 
e deusas, como Mercúrio, Vénus e Júpiter, que, no mundo cristão, eram 
vistos como anjos. Esses deuses, espíritos ou anjos planetários, com suas 
disposições e relações diferentes, afetaram a vida na terra.
Na índia, ainda acreditam que essa relação entre Céu e terra é de gran­
de importância. Quando as pessoas arranjam casamentos - e muitos casa­
mentos ainda são arranjados um astrólogo consulta os mapas da noiva e 
do noivo para ter certeza de que há compatibilidade. Se assim for, o astrólo­
go escolhe o horário em que eles devem se casar. Quando comecéi a viver na 
índia, ficava surpreso ao receber convites de casamento de amigos e colegas 
indianos anunciando, por exemplo, que a cerimônia de Radha e Krishnan 
aconteceria às 3h34, ou em algum outro horário incomum. E, apesar de os 
indianos se atrasarem para quase tudo, eles chegavam pontualmente para 
um evento tão importante. O “sim” aconteceria no exato momento em que 
a união das duas pessoas estivesse em harmonia com o Céu.
A astrologia eletiva, ou seja, aquela que indica data e horário certos para 
eventos importantes, ainda era praticada na Inglaterra até o século XVIII. E 
também na Casa Branca pelo Presidente Reagan e senhora!
A relação entre Céu e terra era muito importante na cosmologia