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A-Fisica-Dos-Anjos-Sheldrake

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anjos e espíritos de outras tradições, não 
nos sintamos ameaçados por eles. Para que possamos, em vez disso, procu­
rar elos em comum, as verdades comuns entre as tradições.
As tradições xamanistas do mundo são especialmente importantes em 
nossa busca por sabedoria hoje. Os povos indígenas viveram, e sobreviveram 
por milhares de anos em meio a adversidades tamanhas, como animais sel­
vagens e condições climáticas extremas; eles tiveram de descobrir maneiras 
de criar uma comunidade, de curar, de educar e de aprender. Há aqui uma 
tremenda sabedoria que foi quase perdida, mas não completamente, e tem 
tudo a ver com espíritos e anjos. Quando oro com índios norte-americanos, 
sinto vestígios disso tudo, indícios que preenchem um vazio em minha pró­
pria experiência religiosa. Nossos ancestrais celtas também tiveram uma te­
ologia bem desenvolvida a respeito de anjos e espíritos guardiões.
RUPHRT: Sim. A consciência dos espíritos não-humanos é fundamental 
para a experiência religiosa de quase toda tradição, talvez desde o momento 
em que nos tomamos humanos. Esse pode ser o ponto fundamental da ex­
periência religiosa. A consciência dos espíritos vem antes da idéia de um 
único Deus. É significativo que, nas tradições cristã, judaica e islâmica, as­
sim como na hindu e na budista, haja a presença constante de uma varieda­
de de espíritos. Mesmo na mais monoteísta das fés, o islamismo, não encon­
tramos uma negação aos anjos. Essa antiga propensão da experiência 
religiosa não é negada, mas amplificada pela recente evolução das religiões.
MATTHEW: Mas temos um momento na história da humanidade em que 
esses espíritos foram excomungados, e isto aconteceu nos últimos séculos, 
na Era Moderna. Isso mostra que uma incrível ruptura e uma perversão 
ocorreram na consciência humana ao longo dos últimos séculos, enquanto 
ensaiávamos o divórcio de nossa relação com anjos e espíritos. Acredito que 
isso ajude a explicar o preço que pagamos em termos de desastre ecológico,
Introdução 33
guerra e ganância. Talvez a secularização definitiva de nossas relações esteja 
em banir os anjos para a esfera do ridículo ou do sentimentalismo.
r u p e r t : Ou reduzi-los a meras manifestações de nossa psique. Hoje, 
muitas pessoas diriam: “Tudo bem, as pessoas têm experiências com anjos. 
Mas são apenas produtos de sua imaginação. Os anjos não existem por aí; 
eles são subjetivos, habitam a mente das pessoas”.
Não é difícil para as pessoas aceitarem a existência subjetiva dos anjos. 
O grande desafio é reconhecer a existência objetiva de inteligências não-hu­
manas, e é esse o desafio que enfrentamos agora.
MATTHEW: Também acho que deveríamos estender o ecumenismo pro­
fundo para a ciência em si. Quais as implicações para a ciência atual em re- 
descobrir a rica, profunda e ampla compreensão dos anjos que herdamos 
das tradições ocidentais, como as representadas por Dionísio, Hildegarda e 
Aquino?
RUPERT: Isso é muito importante, porque o que a ciência agora nos re­
vela está muito além do que qualquer tradição do passado já foi capaz de 
vislumbrar. Eles não tinham telescópios ou radio telescópios, nem o senso de 
vastidão do universo revelado pela ciência, nem o conhecimento de uma 
variedade de corpos celestes ou da história da evolução cósmica. À medida 
que abandonamos o antigo universo mecanizado e adotamos um sentido 
mais orgânico de natureza em desenvolvimento, precisamos perguntar que 
tipo de consciência existe no universo além da nossa.
DionísiOj o A r top agita
D ionísio vlvCU no século VI, provavelmente na Síria. Durante mui­
tos séculos, foi erroneamente identificado com Dionísio, o Areopagita, con­
vertido por São Paulo em Atenas (Atos dos Apóstolos 17,34). Ele costuma 
ser chamado, mais corretamente, de Dionísio, o Pseudo-Areopagita, ou, 
simplesmente, Pseudo-Dinis. Essa confusão deu a seus textos grande auto­
ridade até o século XVI, e sua influência na teologia ortodoxa e ocidental tem 
sido enorme.
Profundamente influenciado pelo filósofo neoplatônico Proclo (411- 
485), Dionísio combina neoplatonismo e cristianismo em seus quatro princi­
pais livros: As hierarquias celestiais, Hierarquia eclesiástica, Nomes divinos e Te­
ologia mística. Em As hierarquias celestiais, discute extensamente as nove 
ordens dos anjos como mediadores de Deus para a humanidade, e é desse 
livro, que tem sido tão influente na angelologia cristã, que a maioria das pas­
sagens que se seguem é retirada. Ele jã foi chamado “monofisista moderado” 
em sua teologia, sendo o monofisismo a doutrina herege que nega o lado 
humano do Cristo na Encarnação. Mas, em 649, o Concílio Laterano recorreu 
a seus trabalhos para combater os pensadores monofisistas mais extremos, e 
esta invocação de suas obras por um concílio da igreja ajudou a abrilhantar a 
autoridade doutrinal de seus ensinamentos. Porquanto explica detalhada e
36 A FÍSICA D 05 ANJOS
largamente as nove ordens a que São Paulo faz apenas leve referência, sua 
angelologia acabou influenciando enormemente a teologia cristã.
A muítipíicicfacíe cios anjos
A tradição escriturística relativa aos anjos atribui a eles os nú­
meros de milhares e milhares e dez mil vezes dez mil, multipli­
cando e repetindo os números mais elevados que nós conhece­
mos, revelando claramente que as Ordens dos Seres Celestiais 
são incontáveis; muitos são os abençoados Acolhedores das In­
teligências Supramundanas, ultrapassando totalmente o frágil e 
limitado alcance de nossas medidas.1
MATTHEW: Dionísio fala sobre os anjos no contexto da vastidão do cos­
mo e diz que os números são incontáveis. Séculos mais tarde, Mestre Eckhart 
afirmaria que o número de anjos ultrapassa os grãos de areia da Terra. Então 
estamos falando de uma enorme variedade, um grande desafio à nossa ima­
ginação. Vã além dos números que você conhece - continue adicionando 
zeros para ter uma idéia dos números angelicais.
RUPERT: Já que grandes números são geralmente chamados astronômi­
cos, isso nos faz lembrar a óbvia relação com as estrelas. Reconhecemos o 
cosmo repleto de inúmeras galáxias, com cada uma contendo bilhões de 
estrelas. Quando olhamos para o céu à noite, vemos apenas as estrelas de 
nossa galáxia, sendo a Via Láctea a principal parte dela. Se os anjos estão 
conectados às estrelas, então teríamos, literalmente, um número astronômi­
co de anjos.
MATTHEW: N úm eros astronôm icos e seres astronôm icos.
RUPERT: Sim. E, se também pensamos nos anjos como entidades conec­
tadas a todos os tipos de seres na natureza, então temos de considerar as 
milhares de espécies biológicas na Terra, e provavelmente bilhões de outros 
planetas ao redor de outras estrelas e galáxias. Logo, esses planetas mesmos 
são organismos, assim como o nosso, Gaia. O grande número de formas de
Dionísio, o Areo-pagita 37
organização na natureza confunde nossa imaginação, tal como Dionísio afir­
ma a respeito do número de anjos.
MATTHEW: Parece apropriado, nesse contexto, voltarmo-nos para um 
dos assuntos favoritos de Dionísio, a hierarquia. Na verdade, ele parece ter 
inventado essa palavra em seu livro As hierarquias celestiais.
Hierarquias, campos e íuz
Em minha opinião, hierarquia é uma ordem sagrada, um saber 
e uma ação que, tanto quanto possível, participa da semelhança 
divina e se ergue para as iluminações emanadas por Deus; cor­
relativamente, inclina-se à imitação de Deus.
Agora, a beleza de Deus, ser unificador, bondoso e fonte de 
toda a perfeição, está totalmente isenta da dessemelhança, e der­
rama sua própria luz sobre cada um conforme seu merecimento; 
e os mistérios mais divinos os aperfeiçoa de acordo com a con­
figuração imutável daqueles que estão sendo harmoniosamente 
aperfeiçoados.
O objetivo da hierarquia é a maior assimilação possível e a 
união com Deus, e tomá-lo como guia em toda a sabedoria sa­
grada para se tornar como ele,