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A-Fisica-Dos-Anjos-Sheldrake

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até quanto for permitido, con­
templando atentamente sua beleza divina. Isso também molda e 
aperfeiçoa seus integrantes em relação à imagem sagrada de 
Deus, como espelhos claros e imaculados que recebem os raios 
da divindade suprema, que é a fonte de luz; e sendo misticamen- 
te tomados pelo dom da luz, esta irradia sucessiva e abundante­
mente, de acordo com a lei divina, sobre aqueles que estão abai­
xo na escala hierárquica. Pois não é lícito para aqueles que 
comunicam ou participam nos mistérios sagrados ultrapassar os 
limites de suas leis sagradas; nem devem se desviar deles se pro­
curarem contemplar, na medida do que for permitido, esse es­
plendor divino, e ser transformados na semelhança daquelas 
inteligências divinas.
38 A FÍSICA DOS ANTJOS
Portanto, aquele que fala de hierarquia sugere certa ordem sa­
grada à semelhança da beleza divina primordial, que ministra o 
sagrado mistério de sua própria luz na ordem e na sabedoria 
hierárquicas, estando em conformidade com seus princípios.
Cada um daqueles para quem está designado um lugar na 
ordem divina encontra sua perfeição em ser elevado, de acordo 
com sua capacidade, em direção à semelhança divina; e o que é 
ainda mais divino, ele se torna, como dizem as Escrituras, um 
cooperador de Deus, e espelha daí em diante, o quanto possível, 
a atividade divina revelada nele mesmo. Para a constituição sa­
grada da hierarquia, determina-se que alguns sejam purificados, 
outros purifiquem; alguns sejam iluminados, outros iluminem; 
alguns sejam aperfeiçoados, outros pratiquem a perfeição; as­
sim, a imitação divina servirá a cada um .2
RUPERT: O que Dionísio diz aqui está relacionado ao conceito neopla- 
tônico das emanações do Único, a fonte da qual as coisas fluem. A idéia de 
uma cadeia de ser foi muito importante no mundo antigo e continuou sendo 
um tema comum na literatura até os tempos modernos. Existe uma fonte de 
ser, e, assim, cada categoria de ser abaixo dela torna-se mais e mais tênue 
quanto maior a distância descida até a matéria. Esta parece ser a base do 
pensamento neoplatônico de Dionísio. Você concorda?
MATTHEW: Sim, e acho que é difícil lidar com isso hoje em dia. A idéia 
de que tudo emana de uma fonte é boa; é certamente esta a imagem que tenho 
da história da criação - tudo começando com uma fagulha minúscula da bola 
de fogo. Mas a idéia de que os seres têm de estar distantes da matéria para se 
tornarem espirituais é, em minha opinião, um dos grandes enganos cometi­
dos pelo pensamento helenístico, e se arrisca a todo tipo de dualismo.
Também acredito que exista uma outra implicação em seu modo de se 
expressar, por exemplo, em sua máxima do “ser elevado”. A idéia de irradiar 
de cima para baixo parece menosprezar o que está embaixo, seja a terra em 
que pisamos ou os chakras mais baixos de nossa natureza. Existem proble­
mas inerentes ao neoplatonismo com os quais não me sinto à vontade. A
DionísiOj o Areopagita 39
união da energia na matéria e do espírito na matéria em nosso século conse­
guiu desfazer os enganos baseados no dualismo matéria contra espírito.
Mas a maneira com que Dionísio descreve a hierarquia é interessante 
- uma ordem sagrada, um saber e uma ação participando na semelhança 
divina e, é claro, replicando em direção a uma imitação de Deus. Esse tipo 
de compreensão é útil.
E é interessante que sua próxima definição de hierarquia envolva a 
beleza de Deus. O dom primordial a que ele se refere como fluindo da fonte 
é a beleza e a luz. Para ele, a beleza é luz. Eu acho isso maravilhoso. Acredi­
to que o resgate da beleza como sendo outro nome para o divino é muito 
importante hoje. Está por trás da paixão por ecojustiça, por exemplo. A 
beleza é uma das grandes fontes de energia que temos como indivíduos, e 
nossa experiência de beleza é o que partilhamos como espécie.
RUPERT: Mas não há um problema com a imagem de Deus como fonte 
de luz? Isso implica dizer que o homem tem a fonte mais brilhante em cima, 
e, na medida em que se afasta, vai-se mesclando com a escuridão, e então a 
escuridão se torna outra forma neoplatônica de concepção da matéria.
MATTHEW: Exatamente.
RUPERT: A escuridão, nessa perspectiva, não é parte do divino; é um 
princípio negativo. Mas, se tomarmos a escuridão e a luz como princípios 
polares contidos no divino, então teremos uma visão diferente. Teremos 
tanto uma visão inferior/para cima como uma visão superior/para baixo. 
Entendemos que a intermistura de luz e matéria, o fluxo descente de uma 
fonte brilhante, não é totalmente negativo, nem uma dissolução de qualquer 
princípio divino primário.
MATTHEW: Passei por essa experiência quando fiquei acordado um a 
noite in teira na floresta e p erceb i que a n oite não é apenas a au sência de sol; 
ela tem sua p rópria energia. A escuridão se estabelece, e tem energia e poder 
próp rios. E isso está perdido na visão neoplatônica das coisas, que despreza 
a matéria, despreza a escuridão e despreza o “abaixo”.
Mestre Eckhart diz: “Em cima é abaixo e abaixo é em cima”, e isso é 
muito mais contemporâneo. Para Buckminster Fuller, qualquer pessoa 
que use as expressões em cima e abaixo está 400 anos atrasada, pois em
40 A FÍSICA DOS ANJOS
um u n iv erso en cu rv ad o as co isas e n tra m e saem , m as n ão vão para cim a 
e para b a ixo .
Por isso, acredito que a idéia alpinista da escada de Jacó, o arquétipo 
absoluto da escalada, pode ser uma fuga da matéria - mater, mãe, matéria, a 
Terra. Isso faz parte da visão hierárquica do mundo que o neoplatonismo dá 
como certa, e não podemos nos sentir à vontade com. isso hoje.
Há também implicações políticas profundas. Por exemplo, esse texto 
contém uma afirmação, uma nota de rodapé, bastante perturbadora. É uma 
citação de Proclo, que foi um dos mais influentes filósofos neoplatônicos. “A 
peculiaridade da pureza é manter as naturezas mais excelentes isentas, tal 
como estão subordinadas”.
Essa definição de pureza diz para mantermos as mãos limpas em rela­
ção àqueles que estão abaixo de nós. Ela certamente estimularia eventuais 
tentações em considerar uma consciência em castas. Isso endossa a mentali­
dade intocável e, novamente, é o que distingue essa filosofia neoplatônica de 
Proclo, Plotino e Dionísio da tradição bíblica que honra as coisas mais sim­
ples da vida como sendo puras por direito próprio, bem-vindas no círculo 
de seres em que vivemos. Os aborígenes pensam em termos de círculo de 
seres, não de escada. Então, surge a pergunta: podemos mudar esse arquéti­
po da cadeia do ser para passarmos a compreendê-lo mais como um círculo 
ou uma espiral, e não como uma escada?
rupert: Acredito que sim. Mas também acho que existe valor nas ima­
gens “em cima/abaixo”. Quando olhamos para cima, vemos o céu. Olhar 
para os Céus é muito importante. Acredito que a maioria de nós, no mundo 
moderno, não olha para cima tanto quanto deveria. Nosso olhar é fixo na 
terra e nas coisas da Terra. Quase tudo o que compramos e vendemos vem 
da terra, assim como o dinheiro com que as compramos e vendemos. O Céu, 
o ambiente celestial, a potencialidade sem limites do espaço, a grande varie­
dade de seres celestiais, simplesmente não faz parte do nosso olhar.
MATTHEW: Efetivam ente, estam os o lhando para cim a ou para fora? Por 
exem p lo , se form os para u m lugar alto o su ficien te, digam os sobre um a 
m on tan h a ou desde u m avião ou satélite, sabem os que estam os olhando 
para fora, e é ju stam en te quando o universo se torna vasto. E m outras pala­
vras, só o lham os para fora dessa m aneira lim itada porque nossos o lhos não
DionísiOj o Areopagita 41
estão no topo da cabeça. É uma restrição anatômica termos de erguer a ca­
beça para vermos as estrelas. Mas nem sempre é assim. Quando há horizon­
tes - gosto dessa palavra, horizontes olhamos para fora, além da terra.