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A-Fisica-Dos-Anjos-Sheldrake

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E 
estou pensando agora sobre aquilo que chamam de grande céu, em Monta- 
na, onde realmente sentimos o horizonte lá fora, onde podemos ver o céu 
apenas olhando para a frente. E me lembro uma vez, em Dakota do Sul, 
saindo de uma tenda do suor*, e a Via Láctea estava totalmente em chamas: 
era possível ver todas as estrelas, mas elas passavam como um arco-íris des­
de a Terra, em um espaço curvo, voltando para a Terra de novo.
. Mas, como você diz, nas cidades as pessoas são forçadas a olhar para 
cima mais vezes, porque destruímos o horizonte. De qualquer forma, não 
deixo de concordar com sua idéia principal, porque é a vastidão do cosmo 
que estamos perdendo por causa da maneira como olhamos o mundo.
RUPERT: Concordo que olhar para fora é uma boa maneira de colocar a 
questão. E a melhor forma de olhar para as estrelas é deitando-se no chão. 
Assim, podemos olhar sem ter de virar o pescoço, e podemos realmente 
apreciar o céu. Imagino que os primeiros observadores das estrelas eram 
pessoas como os pastores, que dormiam a céu aberto.
Olhar para fora no horizonte também é uma perspectiva importante. A 
maioria dos megãlitos no mundo antigo, como o Stonehenge, foram obser­
vatórios para mirar o nascer e o pôr dos corpos celestiais no horizonte. Essas 
pedras dividiam o horizonte em arcos e regiões.
A idéia de hierarquia é importante em outro aspecto. Em qualquer vi­
são de mundo holística - por exemplo, a filosofia orgânica da natureza de 
Whitehead, ou a visão de mundo holística como ela tem se desenvolvido 
hoje dentro da ciência e da filosofia - a idéia essencial é que a cada nível de 
organização o todo é mais do que a soma das partes. A natureza é composta 
por uma série de níveis diferentes, e isso geralmente é chamado hierarquia. 
E é ainda mais apropriadamente denominado hierarquia aninhada, porque 
existem níveis dentro de níveis (veja a p. 21). Por exemplo, dentro de um 
cristal, considerado como um todo, existem moléculas. E cada uma das mo-
* No original, sweat lodge, uma espécie de sauna ritual sagrada utilizada em cerimônia xa- 
mânica de purificação, comum a diversas tradições indígenas das Américas, [n . do e .)
42 A FÍSICA DOS ANJOS
léculas dentro do cristal é ela mesma um todo formado por átomos, e cada 
átomo é um organismo próprio com núcleo e elétrons em órbita ao redor 
dele. Então, cada núcleo é um todo de si mesmo composto de nêutrons, 
prótons e forças que os mantém juntos, e assim por diante.
Vemos esses niveis múltiplos de organização em todos os lugares. Nos­
sos próprios corpos, por exemplo, são totalidades, contêm órgãos, tecidos, 
células, organelas e moléculas. E nós, como organismos individuais, somos 
parte de sistemas maiores; somos parte de sociedades, e as sociedades são 
como um organismo em um nível mais alto. E estão dentro de ecossistemas. 
E então há o planeta, Gaia, e o sistema solar, que é um tipo de organismo, e 
a galáxia, e então os grupos de galáxias.
Quando analisamos a natureza dessa forma, em todos os níveis encon­
tramos uma totalidade que é maior que a soma das partes, e essa totalidade 
inclui em si as partes. Não há como um planeta não pertencer a um sistema 
solar; precisa fazer parte dessa totalidade maior. Até onde sabemos, não há 
sistemas solares separados de galáxias. É mais ou menos como a cidade de 
São Francisco pertencer aos Estados Unidos: os Estados Unidos são maiores 
do que São Francisco; mas os Estados Unidos, por sua vez, são apenas uma 
parte do continente americano.
Estamos familiarizados com esse padrão de organização em todos os 
sentidos - geograficamente, na maneira como a natureza é constituída, e 
mesmo na maneira como nossa linguagem é organizada, com fonemas em 
sílabas, silabas em palavras, palavras em frases, frases em parágrafos. Tudo 
isso são hierarquias aninhadas.
Outro termo para hierarquias aninhadas foi sugerido por Arthur Koes- 
tler: holarquia. Ele preferiu a palavra holarquia porque fugia da conotação de 
regra sacerdotal.
As hierarquias aninhadas ou holarquias da natureza nos ajudam a en­
tender as idéias de Dionísio. Podemos entender as hierarquias angelicais 
nesse sentido exclusivo. Por exemplo, alguns anjos conseguiam se corres­
ponder com os anjos das galáxias; outros, com os anjos do sistema solar e 
outros, ainda, com os anjos dos planetas. É realmente assim que as hierar­
quias celestiais eram frequentemente descritas, em uma série de esferas 
concêntricas.
Dionísio, o Areop agita 43
MATTHEW: Também penso se tratar de um relacionamento de três di­
mensões. Se o indivíduo tomar as hierarquias em duas dimensões, a partir 
de uma escada, ficará preso àquela concepção dominante e dominadora. 
Mas, se ele concebê-las como esferas dentro de esferas, elas não estarão 
estáveis umas sobre as outras, apresentando uma ou outra disposição; elas 
terão seu próprio espaço e configuração.
Um ponto que gostaria de enfatizar na explicação de Dionísio a respei­
to da hierarquia é seu comentário sobre cada ser, “conforme sua capacida­
de”, participar da ordem e da semelhança divinas e “se tomar, de acordo com 
as Escrituras, um cooperador de Deus, demonstrando assim sua ação divi­
na”. Ele diz que a hierarquia é uma ordem santa, um saber e uma ação. A 
ação flui dessa participação na beleza, e ser um cooperador de Deus é, como 
ele diz, uma imitação divina. Acho que isso dá uma dimensão dinâmica para 
seu senso de hierarquia.
Gosto muito do termo “holarquia”. A palavra hierarquia carrega tanto 
peso - talvez muito mais do que Dionísio pretendeu - que é preciso buscar 
outras designações. Opressão política, dentre outras coisas, está nela incluí­
da. Na verdade, acredito que a melhor parte da palavra hierarquia é “hier”. 
Em inglês, quando a maioria das pessoas escuta a palavra hierarquia, a asso­
cia a alto; àqueles que estão no topo, explorando os que estão embaixo. Mas 
certamente não é isso; híeros é um termo grego e significa sagrado. É porque 
perdemos o senso do sagrado no Céu e na Terra que estamos envolvidos 
nesse problema.
RUPERT: Gosto de holarquia porque, na verdade, hier não quer dizer 
apenas sagrado, mas santo; e “santo”, em inglês [holy] , tem a mesma raiz que 
“todo” [whole]. Assim como em grego, holos remete a uma totalidade.
MATTHEW: Outra frase forte que ele usa aqui é “[Beleza divina] molda e 
aperfeiçoa seus integrantes em relação à imagem sagrada de Deus, como 
espelhos claros e imaculados que recebem os raios da divindade suprema, 
que é a fonte de luz”.
Hildegarda de Bingen diz que toda criatura é cintilante, um espelho 
resplandecente de divindade. Esta é a tradição, uma tradição maravilhosa. 
Deus olha para nós como em um espelho e vê a Si próprio. Somos espelhos 
divinos. E é claro que os espelhos precisam de luz. Um espelho no escuro não
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funciona como espelho. Os espelhos são carentes; eles têm que receber. Esse 
tema dos espelhos ao qual ele se refere é muito comum na tradição mística; 
na verdade, o termo “misticismo especulativo” tem a ver com misticismo do 
espelho. A palavra latina para espelho é speculum. Dionísio está dizendo que 
as coisas são espelhos de divindade. Não tem a ver com especulação e com 
transformar o misticismo em um ato filosófico de racionalização. Tem a ver 
com encontrar a imagem do espelho nas coisas. Tudo espelha Deus.
Os anjos, então, têm um poder especial de espelhamento. Talvez sejam 
como os sofisticados espelhos no telescópio Hubble. Houve um rápido 
avanço na arte humana de produzir espelhos, e isso tem sido muito impor­
tante para iluminar nossos telescópios e compreender mais o universo. E o 
espelho é uma invenção tecnológica maravilhosa. Gostaria de saber quem 
criou o primeiro espelho. Imagino como as pessoas ficaram chocadas ao 
olhar para ele.
RUPERT: Eu pensei que os prim eiros esp elhos tivessem sido as lagoas, 
como no mito de N arciso.