As Origens Filogenéticas do Homo Economicus
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As Origens Filogenéticas do Homo Economicus


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As origens filogenéticas do Homo economicus: reflexões sobre a evolução do conceito de indivíduo 
na economia 
 
Daniel Fernando de Souza
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RESUMO 
Este artigo investiga o conceito de indivíduo na Economia, o Homo economicus. Este conceito é alvo de 
críticas desde os primórdios da disciplina. Então, para compreender o papel dessa noção nas teorias 
econômicas, é analisado o surgimento e evolução do termo e do conceito a ele atrelado. O conceito teria 
se originado na ideia de indivíduo cartesiana/lockeana, relacionado ao dualismo mente-corpo e teria 
migrado para as teorias econômicas nascentes como uma mistura de propensões, talentos, motivações e 
preferências. Eventualmente a noção de indivíduo foi simplificada, permitindo a utilização do Homo 
economicus como uma ferramenta de estudo dos fenômenos econômicos. Porém, as diversas 
transformações nas teorias econômicas durante o século XIX levaram a abstrações cada vez maiores e o 
desaparecimento de algumas dimensões originais do conceito. Mudanças na noção de ciência durante 
primeiras décadas do século XX levam economistas a tentarem livrar suas teorias de qualquer referência a 
aspectos psíquicos dos indivíduos. Os resultados da \u201cfuga da psicologia\u201d no conceito de indivíduo do 
mainstream econômico e as críticas a essa fuga são apresentados. As conclusões deste trabalho indicam 
que o Homo economicus teve uma importância ímpar na consolidação da Economia Neoclássica e 
apontam que as críticas recentes a esse conceito criaram um campo fértil para o surgimento de novas 
noções de indivíduo na Economia. 
 
Palavras chave: Homo economicus; conceito de indivíduo; racionalidade. 
 
ABSTRACT 
 
This paper examines the concept of the individual in economics, the Homo economicus. This concept has 
been criticized since the beginnings of the discipline. So, to understand the role of this notion in economic 
theory, it\u2019s analysed the emergence and evolution of this concept. The concept originated in the idea of 
Cartesian/Lockean individual, related to the mind-body dualism and migrated to the nascent economic 
theories as a misture of propensities, talents, motivations and preferences. Eventually the notion of 
individual was simplified, which allowed the use of Homo economicus as a research tool of economic 
phenomena. Nevertheless, various transformations of economic theory throughout the 19
th
 century led to 
an even stronger form of abstraction and the disappearing of some of the original dimensions of the 
concept. Changes in the notion of science during the firsts decades of the 20
th
 century led economists to 
try to free their theories of any reference to psychic aspects of the individuals. The results of this \u201cflee 
from psychology\u201d on the concept of individual of mainstream economics and the main critics are 
presented. The conclusion of this work indicates that the Homo economicus had a unique role in the 
consolidation of Neoclassical Economics and the critics to this concept created a fertile ground for the 
emergence of new notions of individual in Economics. 
 
Palavras chave: Homo economicus; concept of the individual; rationality. 
 
Área: 1. Metodologia, História e Economia Política 
 
JEL: B12, B13, B21. 
 
1
 Mestrando do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Econômico da UFPR. Email: dfsouza5@gmail.com 
 
1. INTRODUÇÃO 
 
Questionamentos sobre a natureza humana estão presentes entre os economistas desde a emancipação 
da disciplina das outras áreas do conhecimento. Diferentes concepções de indivíduo emergem de acordo 
com as respostas dadas por cada teórico a essas questões, chegando ao ponto de ser possível arriscar dizer 
que existem tantas definições do Homo economicus quantos forem os economistas. Morgan (2006, p.22) 
diz que o homem econômico é um personagem que está sempre em mutação. Porém, partimos do 
pressuposto que, apesar das particularidades da concepção de indivíduo de cada economista, existem 
traços em comum na forma como o Homo economicus é pensado por autores de uma mesma tradição ou 
vertente teórica e certa continuidade entre esses conceitos. O presente trabalho terá como enfoque o 
desenrolar das discussões sobre o conceito de indivíduo na história das ideias econômicas, em particular 
na emergência da economia como ciência autônoma e nas subsequentes transformações teóricas até a 
década de 1980. 
A década de 1980 foi escolhida como marco divisor por diversos motivos. O primeiro deles é o fato 
de que o conceito de indivíduo e sua utilização dentro da teoria neoclássica sofreram pesadas críticas no 
período imediatamente anterior à década de 1980. O trabalho de Herbert Simon (1955) gerou várias 
discussões sobre a racionalidade do homem econômico vigente na teoria neoclássica, o que acabou 
abrindo espaço para os trabalhos seminais de Kahneman e Tversky (1974; 1979) e para o prêmio Nobel 
de Simon em 1978. Amartya Sen (1977) faz uma pesada crítica ao comportamento estritamente 
autointeressado do Homo economicus. Vernon Smith (1962, 1976) também inicia seus trabalhos pioneiros 
em Economia Experimental antes de 1980. Ainda mais importante, a década de 1970 ficou marcada na 
história do pensamento econômico pela Crítica de Lucas
2
 (1976), que ao clamar por microfundamentação 
coloca mais uma vez o Homo economicus em evidência. O interesse pelas consequências destes ataques 
seguidos ao core da teoria neoclássica motiva a escolha da década de 1980 como ponto inicial de 
investigação. 
Em segundo lugar, a década de 1980 vê o surgimento de importantes periódicos que discutem o 
comportamento humano relacionado a temas econômicos, como o Journal of Economic Behavior & 
Organization (1980), o Journal of Economic Psychology (1981) e o Game and Economic Behavior 
(1989). Além disso, temos a fundação de importantes fóruns de discussão sobre o tema como a 
International Association for Research in Economic Psychology (IAREP) em 1982 e a Economic Science 
Association (ESA) em 1986. O surgimento dessas instituições indica que a década de 1980 é um período 
de amadurecimento das discussões sobre racionalidade e o Homo economicus. 
Portanto, o objetivo deste trabalho é apresentar um quadro histórico da evolução do conceito de 
indivíduo na economia, uma espécie de \u201cestudo filogenético3\u201d da família do Homo economicus, 
enfatizando assim as relações existentes entre as definições dadas por diferentes economistas e correntes 
teóricas. O esforço de traçar a evolução histórica desse conceito não tem a intenção de ser exaustivo, o 
que fugiria do escopo do trabalho. O objetivo dessa revisão é fazer uma reconstrução racional das 
transformações sofridas pelo conceito, um rascunho da filogenia do homem econômico. 
Apesar de não ignorar a importância das outras utilizações do termo Homo economicus nem esquecer 
de que conceitos teóricos e científicos carregam uma carga ideológica e normativa, o trabalho terá como 
foco a investigação da evolução do conceito como ferramenta analítica nas ciências sociais, em especial 
na economia. A dificuldade dessa tarefa se encontra no fato de que nem todos os economistas se propõem 
a definir claramente seu conceito de indivíduo. Algumas vezes suas concepções sobre a natureza humana 
estão contidas em seus textos sobre metodologia da economia, outras vezes estão implícitas na sua 
teorização. O foco então estará em identificar os traços mais marcantes dos conceitos de indivíduo 
 
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 A \u201cCrítica de Lucas\u201d refere-se à crítica formulada por Robert Lucas aos modelos macroeconômicos que utilizam relações 
estatísticas estimadas para prever os efeitos da adoção de uma política econômica, ignorando