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INTRODUÇÃO O estudo do comportamento animal constitui uma área de grande importância na Medicina Veterinária, possibilitando identificar e afastar problemas médicos subjacentes a um quadro de alterações comportamentais, podendo auxiliar o médicoveterinário em seu raciocínio clínico. Os transtornos de comportamento têm impacto negativo na qualidade de vida dos animais de companhia ou daqueles mantidos em cativeiro e são decorrentes de desequilíbrio emocional. Os mais frequentes são: comportamento destrutivo, agressividade, medo, síndrome da ansiedade por separação, compulsão, estereotipia e comportamento depressivo. Em geral, a intervenção farmacológica para tratar os transtornos comportamentais faz parte de um planejamento terapêutico integrado e é indicada para aumentar o bemestar animal e/ou auxiliar nas fases iniciais da implantação do programa de tratamento, o qual se baseia nas intervenções de condicionamento comportamental, manejo ambiental e social. Como é escasso o conhecimento acerca dos mecanismos neurobiológicos envolvidos na origem e manutenção desses transtornos em animais de companhia, de maneira geral, os medicamentos utilizados em Medicina Veterinária são os mesmos indicados para o uso humano. Assim, a noção do mecanismo de ação do medicamento, da via e da frequência de administração são fatores primordiais para a utilização prudente e racional das substâncias químicas modificadoras do comportamento (psicofármacos). Além disso, como a maioria dos medicamentos empregados em animais para minorar os sintomas dos transtornos de comportamento, no Brasil, não têm licença de uso pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA – órgão responsável pelo registro de produtos veterinários), a limitação de informações quanto aos efeitos colaterais, bem como a frequência de uso deve ser explicada ao proprietário e este deve estar ciente dos riscos do uso de medicações extralabel (uso não indicado na bula). Neste sentido, um histórico comportamental, exames físicos e laboratoriais devem ser realizados antes e durante a terapia, com certa frequência, a fim de monitorar possíveis efeitos colaterais. Apesar de se notar, nos últimos anos, avanços no tratamento farmacológico dos transtornos mentais em animais, as informações concernentes à duração do tratamento com esses agentes ainda é escassa e, portanto, a estratégia sugerida por diversos autores é manter a medicação por 2 meses após uma resposta satisfatória. Caso essa se mantenha, a medicação pode ser descontinuada e o animal deve ser observado frequentemente com o intuito de se verificar recidiva dos sintomas. Em Medicina Veterinária não existe, até o momento, um sistema de classificação de doenças, como existe para a espécie humana, que emprega, por exemplo, a “Classificação Internacional de Doenças” (CID) publicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), na qual o código CID10 referese à “Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento”, descrevendo os sinais e sintomas dos diferentes transtornos, o que permite classificálos e, assim, facilitando o seu diagnóstico e posterior tratamento. Dessa forma, neste capítulo são empregados termos utilizados para a classificação de doenças em seres humanos, a fim de adaptálos aos transtornos mentais e comportamentais que acometem o animal e a expressão do comportamento animal, podendo ocorrer algumas sobreposições dos sinais e sintomas. Em cães, as alterações comportamentais mais frequentes são a agressividade a animais estranhos e a pessoas desconhecidas, o medo e a ansiedade ou a agitação. Os medos relatados em cães referemse aos sons altos e fora do comum (p. ex., tiro, trovoada, eco, entre outros), a pessoas estranhas, a alguns movimentos bruscos e a determinados veículos, objetos (p. ex., vassoura) ou tipo de pessoas (ser humano do sexo masculino). Em gatos destacamse particularmente os medos, a agressividade com animais desconhecidos, os cuidados de higiene excessivos e a ansiedade ou agitação. Neste caso, há os medos também de sons altos e fora do comum (fogos de artifício, trovoada, sacos de plástico, aspirador, entre outros), de pessoas estranhas e movimentos bruscos, e ainda de outros animais e saída para o meio exterior. Além disso, animais não adaptados ao cativeiro podem apresentar problemas de saúde e bemestar, frequentemente relacionados com uma situação de estresse crônico, que se reflete sobretudo em seu comportamento normal, causando alterações. Nestes animais é comum a ocorrência de comportamentos automutilantes e depressão. Não é também incomum a ocorrência destes comportamentos em animais de companhia. Para melhor compreensão da indicação terapêutica dos medicamentos empregados nestas situações em Medicina Veterinária, são discutidas, a seguir, algumas características dos distúrbios comportamentais mais comumente descritos em animais. TRANSTORNOS COMPORTAMENTAIS MAIS COMUNS EM ANIMAIS Transtornos ligados à ansiedade Os transtornos de ansiedade em animais são bastante frequentes e, a despeito das diferentes definições, em geral, o comportamento ansioso é um estado emocional de medo e/ou apreensão frente a um evento aversivo que, na dependência da magnitude da resposta do animal, pode implicar diversos transtornos comportamentais, como: síndrome da ansiedade de separação, ansiedade generalizada, medo, fobia, comportamento estereotipado, comportamento compulsivo, agressividade, entre outros. Estes sinais e sintomas podem também fazer parte de outros transtornos. Síndrome de ansiedade de separação A síndrome de ansiedade de separação em animais é um dos transtornos de ansiedade mais conhecidos e investigados em animais de companhia. Caracterizase, em cães e gatos, por comportamentos indesejados manifestados por esses animais quando afastados de suas figuras de apego. Essa figura de vínculo pode ser um ser humano ou outro animal. Os comportamentos que mais frequentemente caracterizam a síndrome de ansiedade de separação são: vocalização excessiva (uivos, choros ou latidos em excesso), comportamento destrutivo (roer ou arranhar objetos pessoais da figura de vínculo ou as possíveis rotas de acesso a essa figura de vínculo), micção e defecação em locais inapropriados e frequentemente em locais ou objetos que sejam referência à figura de vínculo. Entretanto, outros comportamentos são aceitos como manifestações da síndrome, como vômito, sialorreia e depressão. São comuns também a comorbidade da síndrome de ansiedade de separação com transtornos compulsivos e com a depressão, sendo esta última expressa por inatividade total do cão: o animal não urina, não defeca, não come e, geralmente, há relatos do proprietário de que ele dorme durante todo tempo em que está sozinho. Este tipo de comportamento alterado é mais comum em animais idosos, uma vez que estes apresentam maior dificuldade de adaptação a mudanças no meio ambiente familiar ou a separação de figuras de apego. Na síndrome de ansiedade de separação o estresse é responsável por uma série de sinais subclínicos acompanhados de ansiedade persistente e até de comportamento do tipo depressivo, justificando o emprego de medicação adequada, uma vez que em muitos cães e gatos estes sinais podem evoluir até para a morte. Medos e fobias O medo é um comportamento inato frente a uma situação ameaçadora para todas as espécies animais. As reações a esta situação envolvem a ativação do sistema nervoso autônomo simpático e, no sistema nervoso central, áreas ligadasao controle do estresse, como a formação reticular, a qual ativa áreas corticais que modulam as respostas comportamentais, adaptando o organismo às situações ameaçadoras. Para muitos autores o medo, a ansiedade e as fobias são indistinguíveis, mas outros acreditam que sejam fenômenos distintos. Etologicamente, medo é um estado motivacional promovido por um estímulo específico que leva a uma resposta defensiva ou de escape. A ansiedade é uma resposta generalizada a uma ameaça ou conflito interno, enquanto o medo é uma resposta emocional a um perigo real externo e específico. A fobia é caracterizada por um medo persistente e excessivo em relação a objetos e circunstâncias circunscritas. A exposição a estímulos fóbicos provoca uma reação comportamental com concomitante ativação do sistema nervoso autônomo similar àquela observada em seres humanos nos ataques de pânico. A origem dos medos e das fobias pode derivar de fatores genéticos, aprendidos por uma experiência desagradável, ou ser o resultado de uma inadequada socialização. O comportamento que resulte de um forte componente genético ou da privação social pode ser o mais complicado de corrigir, sendo que o medo adquirido tem melhor prognóstico. Neste sentido, o comportamento relacionado com o medo, como, por exemplo, a fuga ou a agressividade, é reforçado quando é bemsucedido e afasta o animal do estímulo. Uma das fobias bastante observadas em cães e gatos é aquela ligada a ruídos estrondosos. Na natureza, os ruídos estrondosos podem significar perigo, sendo a evasão aos mesmos um comportamento adaptativo. O problema surge quando o animal reage excessivamente a estes, que, na realidade, não constituem uma ameaça, tais como os trovões e o trânsito viário. Nos casos em que a fobia está relacionada com ruídos (trovoada, tiros, fogos de artifício), os cães podem apresentar sinais como sialorreia, respiração ofegante, aumento da vigilância, caminhar desorientado, imobilidade motora, tremores, ganidos, ato de esconderse, micção, defecação, vômitos ou fuga. Em gatos a frequência desta fobia é menor. Medidas de prevenção como a retirada e a contenção do animal no momento da crise podem ajudar a prevenir tanto as lesões como a fuga do animal. Procedimentos que levem à dessensibilização e ao contracondicionamento, em que o animal é exposto a um nível de estímulo abaixo daquele que origina a resposta indesejada, podem ser úteis no tratamento destas fobias. Se o medo estiver relacionado com visitas, o animal pode ser dessensibilizado em relação aos indícios da chegada do visitante, por exemplo, alterando o som da campainha ou tendo contato com um dos membros da família ao toque da campainha. Com relação ao medo de outros animais, a dessensibilização deve ser feita em ambiente neutro, empregando um outro animal de bom comportamento. O animal a ser dessensibilizado deve ser exposto ao outro a uma distância que não suscite medo, mas seja visível ao animal. Gradualmente esta distância deverá ser reduzida, sendo o animal recompensado sempre que permanecer tranquilo na presença do estímulo. Comportamento compulsivo e estereotipias Dentre as situações mais proeminentes que produzem estereotipias (repetição involuntária de gestos e movimentos) em animais estão aquelas ligadas ao estresse e são similares aos sinais descritos no transtorno obsessivocompulsivo (TOC) para os seres humanos. Em animais esse transtorno recebe a denominação de transtorno compulsivo, frente à incapacidade de comprovar a existência das obsessões em animais. É importante frisar que nem todas as estereotipias são ligadas ao TOC e que neste transtorno nem sempre ocorrem estereotipias. O comportamento compulsivo não é prazeroso; é apenas uma estratégia para reduzir a ansiedade. Este transtorno é comumente encontrado em animais alojados em zoológicos, podendo ter origens diversas, tais como apreensão do animal por órgãos ambientais devido a situações ilegais (p. ex., tráfico e maustratos em circos), nascimento no próprio zoológico, captura na natureza, transferência entre zoológicos e, em casos excepcionais, entregas voluntárias da sociedade. Muitas das estereotipias observadas em animais em cativeiro são relacionadas ao estresse. As consequências da exposição ao estresse podem ser comportamentais, neuroendócrinas e reprodutivas. A síndrome geral de adaptação ao estresse, descrita por Selye em 1936, consiste em três fases: (1) reação de alarme ou de “fuga ou luta”; (2) fase de adaptação; e (3) fase de exaustão. As respostas comportamentais ao estresse são uma estratégia para se livrar da fonte estressante, porém, quando esta não é possível, como ocorre em animais em cativeiro, estes podem expressar comportamentos estereotipados e outros distúrbios. É muito comum observar comportamentos estereotipados também em cavalos estabulados decorrentes da restrição ao hábito de pastejo, da diminuição do convívio com outros animais e da ociosidade. Além destes fatores, nos cavalos de alto desempenho, o fator estresse de trabalho, bem como para os seres humanos, pode propiciar comportamentos anormais devido às interações com o treinador, que, na maioria das vezes, durante as sessões de aprendizado/treinamento, estabelece uma punição ou reforço negativo, o que leva ao aparecimento de neuroses nesses animais. Alguns exemplos da estereotipia em equinos atletas e/ou estabulados são: roer a porta ou paredes da baia, aerofagia com apoio (no qual o animal, apoiando os dentes incisivos em um objeto fixo, realiza um movimento de arqueamento e flexão do pescoço, conseguindo engolir certa quantidade de ar), aerofagia sem apoio, movimentos repetitivos da língua, andar em círculos pela baia e balançar a cabeça na porta da baia e/ou se balançar para frente e para trás, comportamento esse também conhecido como “dança do urso”. Alguns cavalos podem apresentar mais de uma estereotipia e isso parece ser mais frequente em animais que realizam treinamento e provas de adestramento (dressage). A automutilação, um comportamento estereotipado e compulsivo, é um dos problemas comportamentais complexos com causas multifatoriais descritas em âmbito mundial. São comportamentos estereotipados e de natureza compulsiva. Ocorre com frequência em psitacídeos (araras, papagaios, agaporins etc.), caracterizandose pelo animal se mutilar, principalmente com o bico, arrancando inicialmente as próprias penas e retirando, posteriormente, pedaços da pele e da musculatura. Propôsse que nestas espécies as causas da doença seriam derivadas de carências nutricionais, ectoparasitas (piolho), estresse (condições inadequadas de vida, solidão, perda de companheiro de longa data, morte do proprietário, mudança de ambiente, ansiedade etc.), além de outras causas, bastante discutidas, como frustração sexual e processos alérgicos. Este distúrbio ocorre em outras espécies, como equinos e cães, e parece estar relacionado também a aspectos psicológicos do animal. Em cães e gatos, os transtornos comportamentais compulsivos e estereotipias mais comuns são a perseguição da cauda, o girar, a agitação, a perseguição da sombra, o comportamento de caçar “moscas” no vazio, a vocalização e a dermatite acral por lambedura, muitas vezes iniciandose em períodos precoces da vida animal. Em gatos, a ingestão repetida e voluntária de objetos não comestíveis, chamada de “pica” (termo do latim que significa derivado de pêga, um tipo de pombo que come qualquer coisa), e a marcação urinária ou urina em spray, principalmente em machos, em algumas situações podem se tornar excessivas, levando aoabandono ou, em casos extremos, à eutanásia. Comportamento agressivo Há diferentes critérios para classificar o comportamento agressivo, usando tanto divisões funcionais como categóricas. A classificação mais amplamente reconhecida foi proposta, em 1976, por Moyer, que diferenciou o comportamento agressivo em predatório, territorial, intermachos, defensivo, induzido pelo medo, maternal, irritável e instrumental; no entanto, deve ser ponderado que há sobreposição destas categorias. Há ainda autores que classificaram a agressão com base na resposta, dividindo a agressão em duas categorias: predatória e afetiva. O comportamento agressivo de cães, em particular, é o que causa maiores problemas para os proprietários desses animais. De forma reducionista, a agressão de cães contra pessoas desconhecidas e outros cães ocorre, em geral, devido ao medo ligado à proteção do território, de seus proprietários, ou de outros animais, e ao comportamento predatório. É comum que os cães apresentem múltiplas formas de agressão. A agressão motivada pelo medo é o diagnóstico mais comum em cães agressivos para estímulos não familiares, mesmo quando elementos da territorialidade estejam presentes. A postura ofensiva do cão não descarta a ansiedade ou o medo como causa subjacente a agressão. A distância para o estímulo e o aprendizado anterior influencia a apresentação do comportamento do cão. Muitos cães mostram postura altamente ofensiva quando estão atrás de uma barreira ou quando o estímulo está longe, e à medida que o estímulo se aproxima ou a barreira é removida, o comportamento do cão pode tornarse mais ambíguo e refletir o medo propriamente dito. É comum observar que cães podem se mostrar altamente reativos ou agressivos com outros cães quando estão na coleira, mas passam a interagir apropriadamente com os outros animais quando estão sem a coleira. Esse comportamento pode ser interpretado de várias formas. Uma delas é que o cão pode se sentir preso pela coleira, a qual limita os seus movimentos, incluindo a sua capacidade de recuar. Outra interpretação é que uma coleira apertada (especialmente se o proprietário também está puxando ativamente) pode alterar a postura do cão quando este se aproxima do outro cão, enviando, assim, sinais enganosos quanto às suas intenções. Estes sinais podem desencadear no cão destinatário uma reação agonista, dando início a uma briga. Com o tempo, o cão aprende que na coleira os cumprimentos são imprevisíveis e potencialmente perigosos, e o cão se torna preventivamente defensivo. Uma terceira interpretação desse comportamento é que a excitação em cães amigáveis muitas vezes é punida com puxões na coleira para correção do comportamento excessivamente exuberante em torno de outros cães. Mais uma vez, ao longo do tempo o cão aprende que a abordagem de outros cães prevê circunstâncias desagradáveis e potencialmente dolorosas, gerando comportamento defensivo. Quanto ao comportamento territorial, este se manifesta principalmente no local de moradia do cão, mas também pode ocorrer no carro ou em áreas onde o cão frequenta. A agressão territorial tende a ser mais intensa no interior dos limites do seu território e reduzse em grandes territórios. Ao contrário da agressão por medo, que se manifesta em uma idade precoce (até os 6 meses de idade) ou em cães idosos, as agressões territorial e de proteção são observadas mais tardiamente, geralmente quando o animal se aproxima da maturidade social. Ainda, deve ser mencionado que cães que apresentam comportamento protetor podem apresentar também agressividade por medo, mas tornamse mais ofensivos na presença de seu proprietário. Especulase que essa mudança ocorra porque o proprietário pode ter reforçado a cão, inadvertidamente, ou, alternativamente, o puniu na presença de estranhos ou outros cães, intensificando a reação emocional do cão para o estímulo. A agressão relacionada com dominância, por outro lado, é tipicamente dirigida para os animais com que o cão tem contatos sociais curtos. Há situações, contudo, que o cão parece envolverse em conflitos de status com pessoas estranhas e, mais comumente, com cães desconhecidos. Esse comportamento se manifesta quando o estímulo está próximo do cão, quando a sinalização postural é mais eficaz; se o comportamento agressivo não for observado quando o estímulo está a distância, este não deve ser considerado de dominância. As reações predatórias dos cães são mais propensas de ser dirigidas para cães pequenos e objetos em movimento rápido, tais como corredores e ciclistas. Comportamento do tipo depressivo Fatores genéticos, neurobiológicos e ambientais participam da gênese das depressões. No ser humano a CID 10 referese aos episódios depressivos como leve, moderado e grave, sendo descrito que “o indivíduo em geral sofre de humor deprimido, perda de interesse e prazer e energia reduzida, levando a uma fatigabilidade aumentada e atividade diminuída”. Em Medicina Veterinária não há uma descrição detalhada do que venha a ser depressão, mas sabese que o isolamento social parece ser o maior indutor de depressão nos animais. Em cães, em particular, o estilo de vida (preso a corrente em vez de livre), ausência de convivência com outros animais e falta de liberdade no ambiente (convivência exclusiva no interior ou exterior da residência) são situações que favorecem a ocorrência de tristeza, apatia e baixa interatividade, os quais são indicativos de depressão. Outras alterações comportamentais A síndrome de disfunção cognitiva é uma doença neurodegenerativa que ocorre em cães mais idosos, sendo atribuída principalmente à deterioração patológica do cérebro, que se manifesta por deficiência de memória e de aprendizagem. Esses sinais são relatados pelos proprietários do cão como mudanças no comportamento em que o animal fica olhando para o espaço, parado em um canto, andando e vocalizando à noite e não atendendo o comando do proprietário. Esta síndrome é tida como similar à doença de Alzheimer descrita para os seres humanos, uma vez que os cães apresentam a acumulação da proteína betaamiloide, com a formação da placa senil e de emaranhados neurofibrilares. Em gatos também são observados sinais de senilidade que podem se manifestar como a síndrome de disfunção cognitiva ou ainda alterações comportamentais, como, por exemplo, a ansiedade de separação. MEDICAMENTOS EMPREGADOS NOS TRANSTORNOS DE COMPORTAMENTO Os medicamentos empregados nos transtornos de comportamento interferem nos sistemas de neurotransmissão do sistema nervoso central, e os principais neurotransmissores envolvidos com esses distúrbios são: dopamina, norepinefrina, serotonina, acetilcolina e ácido gamaaminobutírico (GABA). A Figura 16.1 ilustra os principais neurotransmissores e os distúrbios e comportamentos a eles associados; é possível notar que o comportamento é consequência da interação de vários sistemas de neurotransmissão. Além disso, há locais do sistema nervoso central com predominância de um determinado neurotransmissor e o tratamento de um dado distúrbio comportamental é feito por medicamento que interfira na atividade desse neurotransmissor em áreas específicas do sistema nervoso central. Em Medicina Veterinária os ansiolíticos e os antidepressivos são os medicamentos mais empregados para o tratamento dos transtornos de comportamento. Ansiolíticos Os ansiolíticos são apresentados também no Capítulo 14, fazendo parte do grupo dos tranquilizantes menores; são indicados na contenção química dos animais, na préanestesia e nos distúrbios comportamentais. Neste capítulo é dada ênfase ao seu usopara o tratamento dos transtornos de comportamento. Benzodiazepínicos Os benzodiazepínicos (BZDs) atuam como facilitadores da neurotransmissão inibitória, pois atuam no receptor do GABA do tipo A, aumentando a condutância dos canais de cloro (para detalhes, ver Capítulo 14). Os mais utilizados em Medicina Veterinária para transtornos de comportamento são: diazepam, alprazolam, clorazepato e lorazepam. O diazepam, em cães, é indicado para aliviar os sintomas dos transtornos ligados à ansiedade, especificamente na síndrome de ansiedade de separação e nas fobias (p. ex., medo de trovoadas), entretanto existem relatos de que o seu uso, por via oral, para esses transtornos foi desapontador. Já o alprazolam e o clorazepato parecem ser mais satisfatórios nesses casos quando administrados em doses diárias. Em gatos, há relatos de efeito benéfico do uso dos BZDs no manejo da marcação de territorial com urina, apesar da recidiva dos sintomas quando da retirada do mesmo. ■ Figura 16.1 Principais neurotransmissores envolvidos nos transtornos mentais e de comportamento. Em relação às aves (psitacídeos), foi observado que estas toleram melhor o uso do colar elisabetano, que comumente é indicado em casos agudos de automutilação, que quando tratadas com BZDs, em especial o diazepam. Quanto aos efeitos colaterais do emprego de BZDs, em cães, em geral, são bem tolerados; contudo, o aparecimento de sedação, ataxia e relaxamento muscular pode ser observado logo após a administração oral. Os efeitos adversos dos BZDs sobre os sistemas cardiovascular e respiratório são mínimos ou ausentes quando utilizados em doses terapêuticas ansiolíticas. Vale ressaltar que o uso de BZDs em animais agressivos deve ser feito com cautela, uma vez que um efeito paradoxal, como o aumento da agressividade, pode ser observado em alguns animais devido à perda da inibição do comportamento agressivo. Devese atentar também que a retirada abrupta de BZD deve ser evitada, uma vez que alguns animais podem manifestar agitação, tremores musculares e até convulsões. Por isso, recomendase reduzir semanalmente 25% da dose de BZD, durante 1 mês, a fim de adaptar o organismo do animal à ausência do medicamento. Em gatos foi descrita a ocorrência de necrose hepática após o uso de diazepam administrado por via oral, a cada 24 h durante 1 semana; possivelmente, isso ocorreu devido à formação de um metabólito intermediário altamentereativo nessa espécie animal após o efeito de primeira passagem, o que não ocorre quando o diazepam é administrado por via parenteral. Uma alternativa de uso para gatos são o lorazepam e o oxazepam (não disponível no Brasil), uma vez que não existem relatos de necrose hepática para estes BZDs, pois os mesmos são conjugados diretamente sem a formação de metabólitos intermediários. É importante ressaltar que, quando houver a indicação do uso associado de BZDs com antidepressivos inibidores da recaptura de serotonina ou os antidepressivos tricíclicos, a dose inicial do BZD deve ser reduzida. Buspirona A buspirona faz parte do grupo das azapironas; é o único medicamento desta classe utilizado clinicamente para redução de ansiedade em seres humanos e animais. Apresenta propriedades ansiolíticas, porém sem atividade anticonvulsivante, miorrelaxante e hipnótica, como os BDZs. Seu mecanismo de ação não está totalmente esclarecido; acreditase que a buspirona atue como agonista parcial de receptores serotoninérgicos do tipo 1A (5HT1A): nos receptores présinápticos somatodendríticos (autorreceptores), diminui a frequência, de disparos do neurônio serotoninérgico présináptico e nos receptores póssinápticos, compete com a serotonina por esses receptores e, consequentemente, reduz sua ação. A buspirona pode atuar também em outros sistemas de neurotransmissão, como o noradrenégico, o dopaminérgico e o colinérgico (para detalhes, ver Capítulo 14). Diferentemente dos BZDs, os efeitos da buspirona demoram para aparecer (algumas semanas após o início do tratamento) e em Medicina Veterinária tem a desvantagem da necessidade de administrações de 2 a 3 vezes/dia, devido a sua curta meiavida, tanto em cães como em gatos. Em cães seu uso é indicado apenas na ansiedade generalizada e não tem se mostrado eficiente em casos de síndrome da separação e medo de trovoada e outras fobias. Para gatos, sua indicação é para melhorar o comportamento de animais tímidos que sofrem regularmente agressões de animais mais bravos e para reduzir a micção de marcação de território, sendo observada melhora em 55% dos gatos tratados, porém com retorno do transtorno após a retirada da medicação. O Quadro 16.1 mostra a posologia e as especialidades farmacêuticas dos ansiolíticos empregados para cães e gatos. Antidepressivos Os antidepressivos são uma classe de medicamentos que, em Medicina Veterinária, têm sua indicação baseada nos estudos em seres humanos. Isto ocorre porque os substratos neuroanatômicos e fisiopatológicos relacionados aos transtornos de comportamento em animais ainda não estão bem definidos tal como para o ser humano. Acreditase atualmente que o sistema límbico (amígdala, hipocampo, tálamo etc.) seja a sede anatômica dos transtornos comportamentais e que alterações em sistemas de neurotransmissão, principalmente de serotonina e norepinefrina, estejam envolvidas com esses transtornos. Neste sentido, têmse hoje quatro grupos de medicamentos de maior emprego como antidepressivos em Medicina Veterinária: os inibidores da monoamina oxidase (IMAO), os tricíclicos, os inibidores seletivos da recaptura de serotonina (ISRS) e os inibidores de recaptura de serotonina e antagonistas α1adrenérgicos (IRSA). Esses antidepressivos, com estruturas químicas diferentes (Figuras 16.2 a 16.5), possuem em comum a capacidade de aumentar agudamente a disponibilidade sináptica de um ou mais neurotransmissores, por meio de atuação em alguns receptores e enzimas específicos. Embora a atuação sináptica seja imediata após o início do tratamento, observase demora em se obter a resposta clínica (de 2 a 4 semanas em média), sugerindo que a resolução da depressão requeira mudanças adaptativas na neurotransmissão. A principal teoria aceita para explicar tal demora é a da subsensibilização dos receptores póssinápticos. Assim, o aumento dos níveis de neurotransmissores por inibição da MAO ou bloqueio das bombas de recaptura de monoaminas resulta nesta subsensibilização, cuja resolução se correlaciona com o início da melhora clínica. QUADRO 16.1 Posologias e especialidades farmacêuticas dos ansiolíticos empregados para cães e gatos. Ansiolíticos Especialidades farmacêuticas Posologia Benzodiazepínicos Alprazolam Frontal®; Apraz®, Tranquinal® Gato: 0,0125 a 0,025 mg/kg, a cada 12 h, VO; 0,125 mg, a cada 12 h Cão: 0,01 a 0,1 mg/kg VO; não exceder 4 mg/cão/dia; 0,02 mg/kg em associação com clomipramina Clorazepato Tranxilene® Gato: 0,2 a 0,4 mg/kg, 12 a 24 h, VO; 0,5 a 2,2 mg/kg VO, nos casos de estresse intenso Cão: 0,5 a 2,2 mg/kg, 1 h antes do estímulo estressor ou ansiogênico (p. ex., viagem, fogos de artifício ou trovoada) e repetir dose se necessário a cada 4 a 6 h Diazepam Valium®, Compax®, Diempax®, Dienpax®, Kiatrium® Gato: 0,2 a 0,4 mg/kg,12 a 24 h, VO (iniciar com 0,2 mg/kg,12 h) Cão: 0,5 a 2,2 mg/kg, 1 h antes do estímulo estressor ou ansiogênico (p. ex., viagem, fogos de artifício ou trovoada) e repetir dose se necessário a cada 4 a 6 h Aves: 1,25 a 2,5 mg/120 mℓ na água de bebida (dose ansiolítica) Lorazepam Lorax®, Sedacalm® Cão: 0,02 a 0,1 mg/kg, 8 a 24 h, VO Azapirona Buspirona Ansitec®, Buspar® Gato: 0,5 a 1 mg/kg/8 h VO, (ansiolítico); 2,5 a 5,0 mg/animal/8h, VO (para micção de marcação de território, com duração de tratamento de 6 a 8 semanas) Cão: 1 a 2 mg/kg, 12 h, VO VO: via oral. ■ Figura 16.2 Estrutura química do inibidor da monoamina oxidase (IMAO) selegilina. ■ Figura 16.3 Estrutura química dos antidepressivos tricíclicos imipramina e nortriptilina. ■ Figura 16.4 Estrutura química do antidepressivo inibidor seletivo da recaptura de serotonina (ISRS) fluoxetina. Trabalhos mais recentes, considerando os ISRS e IRSA, apontam com mais detalhes a participação de segundos mensageiros e proteínas intracelulares nestas mudanças adaptativas na neurotransmissão, em especial, envolvendo a serotonina e a norepinefrina. Nesse sentido, o que define o efeito dos antidepressivos é a conformação de receptores póssinápticos por meio de alteração das vias da adenosina monofosfato cíclico (cAMP) no sistema límbico (hipocampo), bem como no bloqueio da recaptura de neurotransmissores induzida ao longo do tempo de tratamento. Em consequência do acúmulo de serotonina ou de norepinefrina na fenda sináptica, os receptores da serotonina do tipo 1A (5HT1A) ou do autoreceptor adrenérgico (presente na pré sinapse) são estimulados, levando à diminuição da ativação neuronal serotoninérgica ou noradrenérgica e à dessensibilização (downregulation) de receptores póssinápticos. Por isso, no começo do tratamento com o antidepressivo não há aumento relevante da atividade neuronal até os receptores présinápticos se tornarem dessensibilizados, ou seja, as altas quantidades de serotonina ou norepinefrina existentes não são detectadas e os axônios liberam mais neurotransmissor na fenda sináptica, desinibindo a neurotransmissão serotoninérgica ou noradrenérgica. Isso ocorre pelo fato de o tratamento a longo prazo alterar a função e a estrutura dos receptores por meio de alterações de transcrição e translação de suas proteínas, em um processo de plasticidade neuronal que pode levar de 2 a 4 semanas. Esse processo neuronal que ocorre durante o tratamento com antidepressivos depende da sinalização via cAMP. Sucintamente, ocorre aumento da produção de cAMP e ativação da proteinoquinase A (PKA), que, por meio da sua subunidade catalítica, fosforila e ativa o fator de transcrição CREB (cAMP response element binding protein 1; proteína de ligação dos elementos responsivos ao cAMP). O CREB induz aumento do fator BDNF (brainderived neurotropic factor; fator neurotrófico derivado do cérebro) no hipocampo e ativação de tirosinoquinases, as quais estimulam a transcrição de mRNA para produção de novos receptores. É sabido que o BDNF é crítico para o desenvolvimento e a função de neurônios serotoninérgicos, bem como para a elaboração de comportamentos que dependem deste tipo de neurotransmissão. Ao final desse processo, os neurônios póssinápticos apresentam maior atividade metabólica e aumento na resposta ao neurotransmissor (no caso, a serotonina ou a norepinefrina). ■ Figura 16.5 Estrutura química do antidepressivo inibidor de recaptura de serotonina e antagonista α1 adrenérgico (IRSA) trazodona. Esses fatos justificam os motivos pelos quais os antidepressivos não produzem efeitos estimulantes ou euforizantes, sendo eficientes nos casos em que haja desequilíbrio nos níveis centrais de neurotransmissores. Inibidores da monoamina oxidase A monoaminoxidase (MAO) é uma das enzimas responsáveis pela degradação das catecolaminas e da serotonina (ver Capítulo 5). Portanto, a inibição desta enzima causa o acúmulo destes neurotransmissores na fenda sináptica. Embora a inibição da enzima ocorra rapidamente, o efeito antidepressivo não é imediato; há necessidade de uso contínuo dos IMAO por vários dias ou semanas para que o efeito antidepressivo seja observado, como anteriormente comentado. Este é um fato relevante, que deve ser avisado ao proprietário do animal. Vários IMAO foram introduzidos em terapêutica para uso na espécie humana a partir da década de 1950. Muitos foram abandonados devido aos efeitos colaterais e tóxicos consequentes do seu mecanismo de ação. De fato, a inibição da MAO pode causar aumento súbito da pressão arterial, com risco de hemorragia intracraniana, em indivíduos que consomem alimentos que contêm tiramina (queijos fermentados e vinhos). A tiramina é em geral inativada pela MAO intestinal e hepática, porém, quando a enzima se encontra inibida, grandes quantidades de tiramina ganham a circulação e atingem as terminações nervosas simpáticas, promovendo a liberação de norepinefrina. Esta, por sua vez, não sendo degradada pela MAO, promove o aparecimento de efeitos simpatomiméticos de grande intensidade. A tranilcipromina (Parnate®) é um IMAO disponível no mercado para ser usado como antidepressivo, porém está sendo abandonado, devido ao aparecimento de outros grupos farmacológicos mais eficientes e com menos efeitos colaterais. A selegilina (ver Figura 16.2) também é um IMAO e é o mais amplamente empregado em Medicina Veterinária; esse antidepressivo inibe especificamente a MAO do tipo B, e não a MAO do tipo A, que é mais frequentemente encontrada no intestino. A selegilina é utilizada principalmente na síndrome da disfunção cognitiva em cães idosos, embora venha sendo também empregada em cães jovens que apresentam hiperatividade, ansiedade, transtornos do sono e comportamentos estereotipados. A selegilina é também utilizada em gatos senis com déficit cognitivo e com alterações de sono (narcolepsia). O Quadro 16.2 aponta posologias e especialidades farmacêuticas da selegilina para gatos e cães. O início de ação da selegilina com doses apropriadas em alguns animais ocorre tardiamente, podendo levar de 4 a 8 semanas para alcançar o efeito terapêutico. Mesmo que a melhora não seja observada após 1 mês de uso, devese continuar o tratamento por até 2 meses. Efeitos adversos são incomuns, contudo altas doses podem induzir excitação e comportamento estereotipado em cães. É possível que estes efeitos sejam decorrentes dos compostos sabidamente gerados após a biotransformação da selegelina a Lanfetamina e a L metanfetamina. Um fato importante que reduz o risco de intoxicação medicamentosa é não prescrever selegilina em animais tratados com o antiparasitário amitraz, que também é um inibidor da MAO; caso o animal tenha sido banhado com produtos à base amitraz, devese aguardar um período de 2 semanas antes de administrar o antidepressivo IMAO. A associação da selegilina com o amitraz desencadeia a síndrome serotoninérgica que é uma condição potencialmente fatal caracterizada por diarreia, hipertermia, ataxia, agitação, tremores musculares, convulsões e coma. O uso de selegilina e de agonistas α2adrenérgicos, fenotiazínicos e opioides também deve ser evitado, uma vez que estes afetam os níveis de monoaminas. Antidepressivos tricíclicos Os antidepressivos tricíclicos têm uma relevância na história dos medicamentos utilizados como “estimulantes do humor”, uma vez que foram uma das primeiras classes de medicamentos utilizadas para tratar a depressão em seres humanos na década de 1950. Desde então, modificações em sua fórmula química ao longo dos anos levaram ao desenvolvimento de outras classes de antidepressivos que desencadeiam menos efeitos colaterais, fazendo com que estes venham sendo gradativamente substituídos. Por outro lado, em Medicina Veterinária, devido ao baixo custo, à eficácia e à boa tolerância ao tratamento, os antidepressivos tricíclicos vêm sendo os mais empregados na clínica de pequenos animais para o tratamento de transtornos comportamentais.QUADRO 16.2 Posologias e especialidades farmacêuticas dos antidepressivos empregados para cães e gatos. Antidepressivos Especialidades farmacêuticas Posologia Inibidor da monoamina oxidase (IMAO) Selegilina Deprilan®, Jumexil®, Niar® Gato: 0,25 a 0,5 mg/kg, 12 a 24 h, VO (iniciar com 0,5 mg/kg) – indicação para senilidade e demência Cão: 0,5 a 1 mg/kg, 24 h, por 6 a 8 semanas Tricíclicos Amitriptilina Amytri®, ℓ Tryptanol® Gato: 0,5 a 2 mg/kg, 12 a 24 h VO (iniciar com 0,5 mg/kg, 12 h) Cão: 1 a 2 mg/kg, 12 a 24 h, VO; 0,75 a 2,5 mg/kg,12 h,VO Aves: 1 a 5 mg/kg, a cada 12 h, VO Clomipramina Anafranil®, CLO®, Clomicalm®V* Gato: 0,5 mg/kg, a cada 24 h, VO (caso não haja resposta após 4 semanas, aumentar a dose para 1 mg/kg, a cada 24 h); ou 1 a 5 mg/animal, a cada 24 h Cão: 1 a 3 mg/kg, a cada 12 h, VO (iniciar com 1 mg/kg por semana), com dose de manutenção de 2 mg/kg, a cada 12 h (total de 8 semanas de tratamento) Aves: 3 a 5 mg/kg, 12 a 24 h, VO Imipramina Tofranil®, Imipra® Gato: 0,5 a 1 mg/kg, 12 a 24 h, VO, (iniciar com 0,5 mg/kg, a cada 12 h) Cão: 2,2 a 4,4 mg/kg, 12 a 24 h, VO Inibidores seletivos da recaptura de serotonina (ISRS) Fluoxetina Prozac®, Daforin®, Depress®, Fluoxetina®, Fluxene®, Psiquial®, Verotina®, Zyfloxin®, Reconcile®V* Gato: 0,5 a 1 mg/kg, a cada 24 h, VO, por 6 a 8 semanas Cão: iniciar com 0,5 mg/kg e aumentar para 1 mg/kg, a cada 24 h, VO, por 6 a 8 semanas Aves: 1 a 4 mg/kg, a cada 24 h, VO Fluvoxamina Luvox® Gato: 0,25 a 0,5 mg/kg, a cada 24 h, VO, por 6 a 8 semanas Cão: 1 mg/kg, 24 h VO, por 6 a 8 semanas Paroxetina Aropax®, Cebrilin®, Deeplin®, Depaxan®, Paxil®, Paxtrat®, Pondera®, Praxetina®, Roxetin®, Zyparox® Gato: 0,5 mg/kg, a cada 24 h, VO, por 6 a 8 semanas Cão: 1 mg/kg, 24 h, VO, por 6 a 8 semanas Aves: 1 a 2 mg/kg, 12 a 24 h, VO Sertralina Zoloft®, Dielof®, Sered®, Serolift®, Tolrest® Gato: 0,5 mg/kg, 24 h, VO, por 6 a 8 semanas Cão: 1 mg/kg, 24 h, VO, por 6 a 8 semanas Inibidor de recaptura de serotonina e antagonista α1-adrenérgicos (IRSA) Trazodona Donaren® Cão: 2 a 5 mg/kg (podendo chegar a 10 mg/kg), a cada 12 h, VO VO: via oral. V*Produto veterinário não disponível no Brasil. Os antidepressivos tricíclicos receberam esta denominação por apresentarem três anéis de carbono e hidrogênio na sua estrutura química (ver Figura 16.3); são moléculas quimicamente semelhantes aos neurolépticos fenotiazínicos. Por isso, podem causar efeitos sedativos, cuja intensidade correlacionase com a afinidade por receptores histaminérgicos do tipo H1; apresentam propriedades atropínicas (atividade antimuscarínica), causando midríase, taquicardia, secura na boca (sialosquese), constipação intestinal, retenção urinária e, ainda, confusão mental e delírio se associado com os fenotiazínicos; e bloqueiam também receptores α1adrenérgicos, induzindo, no homem, hipotensão postural e retardo do orgasmo. Os antidepressivos tricíclicos bloqueiam a recaptura neuronal de norepinefrina e serotonina. Os tricíclicos de cadeia lateral que contêm amina terciária (amitriptilina, clomipramina e imipramina) inibem mais eficazmente a recaptura de serotonina e ainda a de norepinefrina, enquanto as aminas secundárias (nortriptilina e maprotilina) inibem principalmente a recaptura de norepinefrina (ver Figura 16.3). Assim, podese considerar que os antidepressivos tricíclicos apresentam três efeitos principais: bloqueiam a recaptura de aminas cerebrais, possuem efeito anticolinérgico e produzem sedação. Dentre os antidepressivos tricíclicos, a clomipramina, a amitriptilina e a imipramina são os mais estudados em Medicina Veterinária. A clomipramina é o mais potente inibidor de recaptura de serotonina e norepinefrina, dentre os tricíclicos; seu metabólito desmetilclomipramina, mesmo que em menor extensão, também inibe a recaptura de norepinefrina. No Brasil, não existem produtos veterinários com propriedades antidepressivas licenciados para uso em animais, enquanto nos EUA, o Clomicalm® (cloridrato de clomipramina) foi licenciado para uso em cães em 1998. Em função disto, estudos farmacocinéticos da clomipramina em cães foram realizados com maior detalhamento. Sabese, por exemplo, que quando se comparam cães alimentados e em jejum tratados com clomipramina, a taxa de absorção é de 1,18 hora em cães alimentados e de 1,31 hora em cães em jejum; há aumento de 25% na biodisponibilidade em cães alimentados; e o tempo de meiavida em cães alimentados é de 2 a 9 horas e de 3 a 21 horas em cães em jejum. Considerando a biotransformação, observouse que a relação clomipramina/desmetilclomipramina em cães é alta (3:1), enquanto em seres humanos é baixa (1:2,5), sendo esse fato associado a um menor efeito anticolinérgico e menor efeito na transmissão noradrenérgica em cães quando comparado aos efeitos em seres humanos. A indicação de uso da clomipramina tem sido para facilitar os programas de manejo comportamental, em especial nos casos de ansiedade de separação em cães. O uso de clomipramina tem se mostrado eficiente também nos casos de transtornos compulsivos, como perseguir a cauda, e na dermatite acral por lambedura. Resultados insatisfatórios têm sido obtidos no controle de cães agressivos desencadeados por conflitos hierárquicos. A amitriptilina, para seres humanos, tem sido indicada para amenizar estados de depressão, ansiedade e para certos tipos de dor neuropática ou dor crônica. Age inibindo a recaptura de serotonina e norepinefrina; como também apresenta alguma atividade antihistamínica, pode ser útil nos casos em que se busca amenizar prurido e um efeito sedativo. Em cães ela tem sido indicada no tratamento da ansiedade de separação, comportamento agressivo e comportamento compulsivo de automutilação. Para gatos a amitriptilina tem sido utilizada para o controle da alopecia psicogênica e para estados de marcação urinária, uma vez que apresenta ação em receptores β2;adrenérgicos presentes na musculatura lisa da bexiga, o que favorece o seu relaxamento. Por este motivo é também indicada na dose de 5 a 10 mg de amitriptilina por gato com cistite intersticial, mesmo não estando esclarecido se a melhora se deve à modulação do comportamento ou ao efeito analgésico que este medicamento promove. Em aves é indicada para aliviar os sintomas de medo, ansiedade de separação e aqueles ligados à ansiedade generalizada. Seu efeito começa a ser percebido dentro de 2 a 4 semanas do início da administração. A amitriptilina, por ter um gosto amargo e provocar sensação de queimação na boca, pode não ser de fácil aceitação pelos animais a longo prazo. Em gatos, relatos de efeitos adversos causados pela amitriptilina são: ganho de peso, sonolência e diminuição de autolimpeza. A imipramina tem maior atividade serotoninérgica, pouco efeito anticolinérgico, moderada afinidade por receptores histaminérgicos do tipo H1 e baixa atividade adrenérgica. Para cães a imipramina é indicada nos casos de ansiedade de separação e em estados eufóricos com micção involuntária frequente. Além disto, um estudo verificou que a administração diária, por via oral, de altas doses de imipramina (10 mg/kg) após 14 dias promoveu melhora significativa no comportamento do tipo depressivo em cães da raça Beagle. Quanto à toxicidade dos antidepressivos tricíclicos, a arritmia cardíaca fatal pode ocorrer nos casos de ingestão acidental de dose alta (acima de 15 mg/kg); preconizase atender o animal prontamente (óbito ocorre dentro de duas horas), fornecendo terapia de suporte/descontaminação do trato gastrintestinal (fluidoterapia com bicarbonato de sódio, lavagem gástrica, administração decarvão ativado e uso de um catártico que não contenha sais de magnésio) e monitoramento da pressão arterial, bem como a realização de eletrocardiograma até a melhora dos sintomas. Este efeito cardiotóxico não deve ser atribuído aos efeitos colaterais anticolinérgicos ou antiadrenérgicos, mas pelo fato de que alguns antidepressivos tricíclicos agem como bloqueadores de canais de sódio. O uso de um antiarrítmico que não afete a condução, como, por exemplo, a lidocaína, é indicado, enquanto a procainamida e a quinidina são contraindicadas. Caso exista a indicação de uso de antidepressivos tricíclicos em animais cardiopatas é recomendado avaliar o risco antes do início da terapia. Além destes efeitos cardiotóxicos, já foram também relatadas, em cães, convulsão e agranulocitose. Vale ressaltar ainda que os antidepressivos tricíclicos são contraindicados nos casos de ceratoconjuntivite seca e glaucoma. O Quadro 16.2 mostra posologias e especialidades farmacêuticas dos antidepressivos tricíclicos empregados em gatos e cães. Inibidores seletivos da recaptura de serotonina (ISRS) Os medicamentos pertencentes ao grupo dos inibidores seletivos da recaptura de serotonina (ISRS) foram desenvolvidos a partir de modificações nas moléculas dos antidepressivos tricíclicos descritos anteriormente; esta mudança trouxe maior especificidade no mecanismo de ação. Como o próprio nome do grupo define, são medicamentos que agem por meio de sua maior afinidade pelo bloqueio da recaptura de serotonina e menor afinidade por receptores adrenérgicos, colinérgicos e histaminérgicos. Esta característica contribui para a diminuição de efeitos colaterais e maior afinidade pelo bloqueio das proteínas de recaptura da serotonina. Dentre os ISRS têmse: fluoxetina, paroxetina, sertralina e fluvoxamina. A fluoxetina (ver Figura 16.4), na forma de produto veterinário, é comercializada nos EUA desde de 2007 com o nome de Reconcile® (não disponível no Brasil), na apresentação de comprimido mastigável e sabor de carne, para uso em animais de companhia. A fluoxetina é bem absorvida após administração oral (72%) e é biotransformada no fígado pelo citocromo P450, dando origem à norfluoxetina; este é um metabólito ativo e equipotente, o que contribui para a eficácia deste medicamento, mesmo na administração de 1 vez/dia. Os estudos farmacocinéticos da fluoxetina em cães mostraram que a meiavida varia de 3 a 13 h, enquanto a de seu metabólito, a norfluoxetina, é de 33 a 64 h. Esta meiavida longa diminui a chance de ocorrência de efeitos colaterais percebidos para outros antidepressivos quando da descontinuidade de tratamento; entretanto, se faz necessário um intervalo de 14 dias após o término da administração da fluoxetina para se iniciar qualquer tratamento com inibidores da MAO, como, por exemplo, a selegelina e o amitraz (antiparasitário). A fluoxetina tem sido indicada para o controle de ansiedade de separação, comportamentos compulsivos e comportamento agressivo causado por diferenças de hierarquia em cães. Os ISRS são empregados com sucesso nos casos de crises de medos/fobias crônicas ou agudas, sendo que o resultado tem se mostrado melhor quando associado a outros medicamentos de ação mais rápida. Neste sentido, estudos mais recentes buscam a associação de medicamentos, como, por exemplo, quando se propôs o uso de fluoxetina (1 mg/kg a cada 24 h por 10 semanas, por via oral) associada ao BZD clorazepato (1 mg/kg a cada 24 h, por 4 semanas, por via oral), aliado a um programa comportamental (de recompensa) para o tratamento de crises de ansiedade em cães agressivos ou não agressivos. Ao final de 70 dias de tratamento, não se observaram diferenças entre machos e fêmeas, nem entre cães mais novos e mais velhos; entretanto, cães mais agressivos mostraram melhora significativa dos sintomas em relação aos cães não agressivos. Em gatos o uso de ISRS é indicado nos estados de marcação urinária, comportamento agressivo, alopecia psicogênica e para amenizar o apetite compulsivo por coisas não comestíveis. Para aves, em particular, as da família dos psitacídeos, o ISRS que apresenta melhor benefício para o controle de fobias e comportamentos compulsivos, como por exemplo, o distúrbio de arrancamento de penas, é a paroxetina. A paroxetina em cães tem menor meiavida quando comparada à fluoxetina. Além disso, pode causar sinais anticolinérgicos como constipação intestinal e sialosquese, tanto em cães como em gatos. Após administração crônica, a paroxetina deve ser descontinuada gradativamente para se evitarem reações de descontinuidade, como aumento da ansiedade. A sertralina apresenta características semelhantes às da paroxetina e o único efeito adverso descrito foi diarreia, que pode ser evitada iniciando o tratamento com a menor dose e gradativamente aumentando a dose a cada 2 semanas. Quanto à fluvoxamina, há poucas informações acerca dos efeitos benéficos e/ou adversos em animais de companhia. Em relação ao citaprolam, um ISRS de uso frequente em seres humanos, um estudo de neuroimagem realizado em cães mostrou haver boa correlação na melhora do comportamento agressivo impulsivo com o índice de ligação do citalopram nos córtices préfrontal e occipital em receptores 5HT2A após administração diária, por via oral, na dose de 1 mg/kg por 6 semanas. Por outro lado, o citalopram mostrou toxicidade em um estudo realizado em 10 cães, com a dose de 8 mg/kg/dia de Celexa®, causando óbito em 50% dos animais após 17 a 31 semanas de tratamento, devido à cardiotoxicidade. O Quadro 16.2 aponta posologia e especialidades farmacêuticas dos ISRS empregados para gatos e cães. Inibidores de recaptura de serotonina e antagonistas a1-adrenérgicos (IRSA) Os inibidores de recaptura de serotonina e antagonistasα1adrenérgicos (IRSA) são chamados também de antidepressivos atípicos ou de segunda geração. Dentre os membros deste grupo, a trazodona (Donaren® – ver Figura 16.5) é a mais utilizada em Medicina Veterinária. Foi sintetizada primeiramente na Itália, em 1966, e sua eficácia terapêutica para o tratamento de estados depressivos em seres humanos tem se mostrado comparável à de outros antidepressivos. Apesar de seu mecanismo de ação não estar completamente elucidado, sabese que atua como antagonista de receptores 5HT2A, inibindo a recaptura de serotonina; é também um potente bloqueador de receptores póssinápticos α1adrenérgicos e antagonista fraco de receptores adrenérgicos pré sinápticos do tipo α2. Seu metabólito, mclorofenilpiperazina, é um agonista de receptor serotoninérgico. A trazodona não apresenta ação anticolinérgica, entretanto atua moderadamente com atividade anti histaminérgica e pode ser uma alternativa para animais intolerantes aos efeitos colinérgicos dos antidepressivos tricíclicos. Em um estudo farmacocinético de dose única de trazodona em 6 cães observouse que, quando administrada por via oral, induziu sedação leve sem efeitos colaterais evidentes. Existem alguns relatos de diarreia, vômito e sedação sobre o início do tratamento com trazodona, o que pode ser evitado com o aumento gradativo da dose, até alcançar a dose máxima indicada. Dentre os antidepressivos, a trazodona é o medicamento com menor risco de convulsão e, em cães anestesiados e tratados com ela, foram observados efeitos muito brandos na função cardíaca quando comparada com doses equivalentes de imipramina. A indicação de uso da trazodona é para animais que sofrem de fobias moderadas, em especial, fobia a trovoadas. Seu uso tem sido indicado tambémcomo terapia sinérgica, sendo associada a outros antidepressivos, como os tricíclicos e ISRS. Em um estudo retrospectivo de 12 anos realizado com 56 cães, a trazodona se mostrou mais eficaz para o tratamento dos transtornos de ansiedade quando utilizada em associação com outros antidepressivos, como os tricíclicos e ISRS, do que isoladamente, além de ser também muito segura. Por outro lado, mesmo em altas doses (10 mg/kg), trazodona parece não ser eficiente para o tratamento de estados depressivos em cães. Em um estudo realizado com 36 cães, foi mostrado que a trazodona utilizada no período pósoperatório imediato de cirurgias ortopédicas promoveu uma resposta positiva em 89% dos cães em relação à tolerância ao confinamento. O Quadro 16.2 aponta posologia e especialidade farmacêutica da trazodona empregada para cães. CONSIDERAÇÕES FINAIS A eficácia do tratamento com medicamentos empregados nos transtornos de comportamento animal, quer seja o medicamento usado isoladamente, em associação ou integrado aos programas comportamentais, dependerá de diversos fatores, os quais contribuem de forma importante para a expressão dos sinais clínicos observados nesses transtornos. Tais fatores vão desde o espaço físico, o agrupamento social, a persistência do fator desencadeante do comportamento e, não menos importante, o comprometimento do proprietário a longo prazo com a terapêutica definida pelo médicoveterinário. BIBLIOGRAFIA Amat, M.; Camps, T.; Manteca, X. Stress in owned cats: behavioural changes and welfare implications. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 22, p. 110, 2015. Appleby, D.; Pluijmakers, J. Separation anxiety in dogs. The function of homeostasis in its development and treatment. Vet Clin North Am Small Anim Pract, v. 33, p. 32144, 2003. Askew, H.R. 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