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15 - Ansiolíticos e Antidepressivos

Capítulo sobre transtornos comportamentais em Medicina Veterinária: descreve os distúrbios comuns em cães, gatos e em cativeiro; aborda avaliação clínica e laboratorial, uso de psicofármacos (frequentemente extralabel), monitorização e sugestão de duração do tratamento.

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Ana Rita

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INTRODUÇÃO
O  estudo  do  comportamento  animal  constitui  uma  área  de  grande  importância  na  Medicina  Veterinária,
possibilitando identificar e afastar problemas médicos subjacentes a um quadro de alterações comportamentais,
podendo auxiliar o médico­veterinário em seu raciocínio clínico. Os transtornos de comportamento têm impacto
negativo na qualidade de vida dos animais de companhia ou daqueles mantidos em cativeiro e são decorrentes
de desequilíbrio emocional. Os mais frequentes são: comportamento destrutivo, agressividade, medo, síndrome
da ansiedade por separação, compulsão, estereotipia e comportamento depressivo.
Em  geral,  a  intervenção  farmacológica  para  tratar  os  transtornos  comportamentais  faz  parte  de  um
planejamento  terapêutico  integrado  e  é  indicada  para  aumentar  o  bem­estar  animal  e/ou  auxiliar  nas  fases
iniciais  da  implantação  do  programa  de  tratamento,  o  qual  se  baseia  nas  intervenções  de  condicionamento
comportamental, manejo ambiental e social.
Como  é  escasso  o  conhecimento  acerca  dos  mecanismos  neurobiológicos  envolvidos  na  origem  e
manutenção desses  transtornos em animais de companhia, de maneira geral, os medicamentos utilizados em
Medicina Veterinária são os mesmos indicados para o uso humano. Assim, a noção do mecanismo de ação do
medicamento,  da  via  e  da  frequência  de  administração  são  fatores  primordiais  para  a  utilização  prudente  e
racional  das  substâncias  químicas  modificadoras  do  comportamento  (psicofármacos).  Além  disso,  como  a
maioria  dos  medicamentos  empregados  em  animais  para  minorar  os  sintomas  dos  transtornos  de
comportamento,  no  Brasil,  não  têm  licença  de  uso  pelo Ministério  da  Agricultura,  Pecuária  e  Abastecimento
(MAPA  –  órgão  responsável  pelo  registro  de  produtos  veterinários),  a  limitação  de  informações  quanto  aos
efeitos colaterais, bem como a frequência de uso deve ser explicada ao proprietário e este deve estar ciente dos
riscos do uso de medicações extralabel (uso não indicado na bula). Neste sentido, um histórico comportamental,
exames físicos e  laboratoriais devem ser realizados antes e durante a  terapia, com certa  frequência, a  fim de
monitorar possíveis efeitos colaterais.
Apesar  de  se notar,  nos últimos anos,  avanços no  tratamento  farmacológico dos  transtornos mentais  em
animais, as informações concernentes à duração do tratamento com esses agentes ainda é escassa e, portanto,
a estratégia sugerida por diversos autores é manter a medicação por 2 meses após uma resposta satisfatória.
Caso essa se mantenha, a medicação pode ser descontinuada e o animal deve ser observado frequentemente
com o intuito de se verificar recidiva dos sintomas.
Em Medicina Veterinária não existe, até o momento, um sistema de classificação de doenças, como existe
  
para a espécie humana, que emprega, por exemplo, a “Classificação Internacional de Doenças” (CID) publicada
pela Organização Mundial da Saúde (OMS), na qual o código CID­10 refere­se à “Classificação de Transtornos
Mentais  e  de  Comportamento”,  descrevendo  os  sinais  e  sintomas  dos  diferentes  transtornos,  o  que  permite
classificá­los  e,  assim,  facilitando  o  seu  diagnóstico  e  posterior  tratamento.  Dessa  forma,  neste  capítulo  são
empregados  termos  utilizados  para  a  classificação  de  doenças  em  seres  humanos,  a  fim  de  adaptá­los  aos
transtornos  mentais  e  comportamentais  que  acometem  o  animal  e  a  expressão  do  comportamento  animal,
podendo ocorrer algumas sobreposições dos sinais e sintomas.
Em  cães,  as  alterações  comportamentais  mais  frequentes  são  a  agressividade  a  animais  estranhos  e  a
pessoas desconhecidas,  o medo e a ansiedade ou a agitação. Os medos  relatados em cães  referem­se aos
sons altos e fora do comum (p. ex., tiro, trovoada, eco, entre outros), a pessoas estranhas, a alguns movimentos
bruscos  e  a  determinados  veículos,  objetos  (p.  ex.,  vassoura)  ou  tipo  de  pessoas  (ser  humano  do  sexo
masculino). Em gatos destacam­se particularmente os medos, a agressividade com animais desconhecidos, os
cuidados de higiene excessivos e a ansiedade ou agitação. Neste caso, há os medos também de sons altos e
fora do comum (fogos de artifício, trovoada, sacos de plástico, aspirador, entre outros), de pessoas estranhas e
movimentos  bruscos,  e  ainda  de  outros  animais  e  saída  para  o  meio  exterior.  Além  disso,  animais  não
adaptados ao cativeiro podem apresentar problemas de saúde e bem­estar, frequentemente relacionados com
uma  situação  de  estresse  crônico,  que  se  reflete  sobretudo  em  seu  comportamento  normal,  causando
alterações.  Nestes  animais  é  comum  a  ocorrência  de  comportamentos  automutilantes  e  depressão.  Não  é
também incomum a ocorrência destes comportamentos em animais de companhia.
Para melhor  compreensão da  indicação  terapêutica dos medicamentos empregados nestas  situações em
Medicina  Veterinária,  são  discutidas,  a  seguir,  algumas  características  dos  distúrbios  comportamentais  mais
comumente descritos em animais.
TRANSTORNOS COMPORTAMENTAIS MAIS COMUNS EM ANIMAIS
Transtornos ligados à ansiedade
Os transtornos de ansiedade em animais são bastante  frequentes e, a despeito das diferentes definições, em
geral, o comportamento ansioso é um estado emocional de medo e/ou apreensão frente a um evento aversivo
que, na dependência da magnitude da resposta do animal, pode implicar diversos transtornos comportamentais,
como:  síndrome  da  ansiedade  de  separação,  ansiedade  generalizada,  medo,  fobia,  comportamento
estereotipado, comportamento compulsivo, agressividade, entre outros. Estes sinais e sintomas podem também
fazer parte de outros transtornos.
Síndrome de ansiedade de separação
A  síndrome  de  ansiedade  de  separação  em animais  é  um dos  transtornos  de  ansiedade mais  conhecidos  e
investigados  em  animais  de  companhia.  Caracteriza­se,  em  cães  e  gatos,  por  comportamentos  indesejados
manifestados por esses animais quando afastados de suas figuras de apego. Essa figura de vínculo pode ser
um ser  humano ou  outro  animal. Os  comportamentos  que mais  frequentemente  caracterizam a  síndrome de
ansiedade  de  separação  são:  vocalização  excessiva  (uivos,  choros  ou  latidos  em  excesso),  comportamento
destrutivo (roer ou arranhar objetos pessoais da figura de vínculo ou as possíveis rotas de acesso a essa figura
de  vínculo),  micção  e  defecação  em  locais  inapropriados  e  frequentemente  em  locais  ou  objetos  que  sejam
referência à figura de vínculo. Entretanto, outros comportamentos são aceitos como manifestações da síndrome,
como  vômito,  sialorreia  e  depressão.  São  comuns  também  a  comorbidade  da  síndrome  de  ansiedade  de
separação com transtornos compulsivos e com a depressão, sendo esta última expressa por inatividade total do
cão:  o  animal  não  urina,  não  defeca,  não  come  e,  geralmente,  há  relatos  do  proprietário  de  que  ele  dorme
durante  todo  tempo  em  que  está  sozinho.  Este  tipo  de  comportamento  alterado  é mais  comum  em  animais
idosos, uma vez que estes apresentam maior dificuldade de adaptação a mudanças no meio ambiente familiar
ou a separação de  figuras de apego. Na síndrome de ansiedade de separação o estresse é  responsável por
uma  série  de  sinais  subclínicos  acompanhados  de  ansiedade  persistente  e  até  de  comportamento  do  tipo
depressivo, justificando o emprego de medicação adequada, uma vez que em muitos cães e gatos estes sinais
  
podem evoluir até para a morte.
Medos e fobias
O medo  é  um  comportamento  inato  frente  a  uma  situação  ameaçadora  para  todas  as  espécies  animais.  As
reações a esta  situação envolvem a ativação do sistema nervoso autônomo simpático e,  no  sistema nervoso
central,  áreas  ligadasao  controle  do  estresse,  como  a  formação  reticular,  a  qual  ativa  áreas  corticais  que
modulam as respostas comportamentais, adaptando o organismo às situações ameaçadoras.
Para muitos autores o medo, a ansiedade e as fobias são indistinguíveis, mas outros acreditam que sejam
fenômenos distintos. Etologicamente, medo é um estado motivacional promovido por um estímulo específico que
leva  a  uma  resposta  defensiva  ou  de  escape.  A  ansiedade  é  uma  resposta  generalizada  a  uma  ameaça  ou
conflito  interno, enquanto o medo é uma resposta emocional a um perigo real externo e específico. A  fobia é
caracterizada  por  um  medo  persistente  e  excessivo  em  relação  a  objetos  e  circunstâncias  circunscritas.  A
exposição  a  estímulos  fóbicos  provoca  uma  reação  comportamental  com  concomitante  ativação  do  sistema
nervoso autônomo similar àquela observada em seres humanos nos ataques de pânico. A origem dos medos e
das fobias pode derivar de fatores genéticos, aprendidos por uma experiência desagradável, ou ser o resultado
de  uma  inadequada  socialização.  O  comportamento  que  resulte  de  um  forte  componente  genético  ou  da
privação social pode ser o mais complicado de corrigir, sendo que o medo adquirido  tem melhor prognóstico.
Neste  sentido,  o  comportamento  relacionado  com o medo,  como,  por  exemplo,  a  fuga ou a agressividade,  é
reforçado quando é bem­sucedido e afasta o animal do estímulo.
Uma das fobias bastante observadas em cães e gatos é aquela ligada a ruídos estrondosos. Na natureza, os
ruídos  estrondosos  podem  significar  perigo,  sendo  a  evasão  aos mesmos  um  comportamento  adaptativo.  O
problema  surge  quando  o  animal  reage  excessivamente  a  estes,  que,  na  realidade,  não  constituem  uma
ameaça,  tais  como  os  trovões  e  o  trânsito  viário.  Nos  casos  em  que  a  fobia  está  relacionada  com  ruídos
(trovoada,  tiros,  fogos  de  artifício),  os  cães  podem  apresentar  sinais  como  sialorreia,  respiração  ofegante,
aumento  da  vigilância,  caminhar  desorientado,  imobilidade  motora,  tremores,  ganidos,  ato  de  esconder­se,
micção, defecação, vômitos ou fuga. Em gatos a frequência desta fobia é menor. Medidas de prevenção como a
retirada e a contenção do animal no momento da crise podem ajudar a prevenir tanto as lesões como a fuga do
animal. Procedimentos que levem à dessensibilização e ao contracondicionamento, em que o animal é exposto
a um nível de estímulo abaixo daquele que origina a resposta indesejada, podem ser úteis no tratamento destas
fobias.
Se o medo estiver relacionado com visitas, o animal pode ser dessensibilizado em relação aos indícios da
chegada do visitante, por exemplo, alterando o som da campainha ou tendo contato com um dos membros da
família ao toque da campainha. Com relação ao medo de outros animais, a dessensibilização deve ser feita em
ambiente neutro, empregando um outro animal de bom comportamento. O animal a ser dessensibilizado deve
ser  exposto  ao  outro  a  uma distância  que não  suscite medo, mas  seja  visível  ao  animal. Gradualmente  esta
distância deverá ser reduzida, sendo o animal recompensado sempre que permanecer tranquilo na presença do
estímulo.
Comportamento compulsivo e estereotipias
Dentre  as  situações  mais  proeminentes  que  produzem  estereotipias  (repetição  involuntária  de  gestos  e
movimentos) em animais estão aquelas  ligadas ao estresse e são similares aos sinais descritos no  transtorno
obsessivo­compulsivo  (TOC) para os  seres humanos. Em animais esse  transtorno  recebe a denominação de
transtorno  compulsivo,  frente  à  incapacidade  de  comprovar  a  existência  das  obsessões  em  animais.  É
importante  frisar  que  nem  todas  as  estereotipias  são  ligadas  ao  TOC  e  que  neste  transtorno  nem  sempre
ocorrem estereotipias. O comportamento compulsivo não é prazeroso; é apenas uma estratégia para reduzir a
ansiedade.
Este transtorno é comumente encontrado em animais alojados em zoológicos, podendo ter origens diversas,
tais como apreensão do animal por órgãos ambientais devido a situações ilegais (p. ex., tráfico e maus­tratos em
circos),  nascimento  no  próprio  zoológico,  captura  na  natureza,  transferência  entre  zoológicos  e,  em  casos
excepcionais, entregas voluntárias da sociedade. Muitas das estereotipias observadas em animais em cativeiro
  
são  relacionadas  ao  estresse.  As  consequências  da  exposição  ao  estresse  podem  ser  comportamentais,
neuroendócrinas  e  reprodutivas.  A  síndrome  geral  de  adaptação  ao  estresse,  descrita  por  Selye  em  1936,
consiste em três fases: (1) reação de alarme ou de “fuga ou luta”; (2) fase de adaptação; e (3) fase de exaustão.
As  respostas  comportamentais  ao  estresse  são  uma  estratégia  para  se  livrar  da  fonte  estressante,  porém,
quando esta  não é  possível,  como ocorre  em animais  em cativeiro,  estes  podem expressar  comportamentos
estereotipados e outros distúrbios.
É muito comum observar comportamentos estereotipados também em cavalos estabulados decorrentes da
restrição  ao  hábito  de  pastejo,  da  diminuição  do  convívio  com  outros  animais  e  da  ociosidade.  Além  destes
fatores, nos cavalos de alto desempenho, o fator estresse de trabalho, bem como para os seres humanos, pode
propiciar comportamentos anormais devido às interações com o treinador, que, na maioria das vezes, durante
as  sessões  de  aprendizado/treinamento,  estabelece  uma  punição  ou  reforço  negativo,  o  que  leva  ao
aparecimento  de  neuroses  nesses  animais.  Alguns  exemplos  da  estereotipia  em  equinos  atletas  e/ou
estabulados são: roer a porta ou paredes da baia, aerofagia com apoio (no qual o animal, apoiando os dentes
incisivos em um objeto  fixo,  realiza um movimento de arqueamento e  flexão do pescoço, conseguindo engolir
certa quantidade de ar), aerofagia sem apoio, movimentos repetitivos da língua, andar em círculos pela baia e
balançar  a  cabeça  na  porta  da  baia  e/ou  se  balançar  para  frente  e  para  trás,  comportamento  esse  também
conhecido como “dança do urso”. Alguns cavalos podem apresentar mais de uma estereotipia e isso parece ser
mais frequente em animais que realizam treinamento e provas de adestramento (dressage).
A  automutilação,  um  comportamento  estereotipado  e  compulsivo,  é  um  dos  problemas  comportamentais
complexos  com causas multifatoriais  descritas  em âmbito mundial.  São  comportamentos  estereotipados  e  de
natureza  compulsiva.  Ocorre  com  frequência  em  psitacídeos  (araras,  papagaios,  agaporins  etc.),
caracterizando­se pelo animal se mutilar, principalmente com o bico, arrancando inicialmente as próprias penas
e retirando, posteriormente, pedaços da pele e da musculatura. Propôs­se que nestas espécies as causas da
doença seriam derivadas de carências nutricionais, ectoparasitas (piolho), estresse (condições inadequadas de
vida,  solidão,  perda  de  companheiro  de  longa  data, morte  do  proprietário, mudança  de  ambiente,  ansiedade
etc.), além de outras causas, bastante discutidas, como frustração sexual e processos alérgicos. Este distúrbio
ocorre em outras espécies, como equinos e cães, e parece estar relacionado também a aspectos psicológicos
do animal.
Em  cães  e  gatos,  os  transtornos  comportamentais  compulsivos  e  estereotipias  mais  comuns  são  a
perseguição da cauda, o girar, a agitação, a perseguição da sombra, o comportamento de caçar “moscas” no
vazio, a vocalização e a dermatite acral por lambedura, muitas vezes iniciando­se em períodos precoces da vida
animal.
Em gatos, a ingestão repetida e voluntária de objetos não comestíveis, chamada de “pica” (termo do latim
que significa derivado de pêga, um tipo de pombo que come qualquer coisa), e a marcação urinária ou urina em
spray, principalmente em machos, em algumas situações podem se tornar excessivas, levando aoabandono ou,
em casos extremos, à eutanásia.
Comportamento agressivo
Há  diferentes  critérios  para  classificar  o  comportamento  agressivo,  usando  tanto  divisões  funcionais  como
categóricas. A classificação mais amplamente reconhecida foi proposta, em 1976, por Moyer, que diferenciou o
comportamento  agressivo  em  predatório,  territorial,  intermachos,  defensivo,  induzido  pelo  medo,  maternal,
irritável  e  instrumental;  no  entanto,  deve  ser  ponderado  que  há  sobreposição  destas  categorias.  Há  ainda
autores  que  classificaram  a  agressão  com  base  na  resposta,  dividindo  a  agressão  em  duas  categorias:
predatória e afetiva.
O comportamento agressivo de cães, em particular, é o que causa maiores problemas para os proprietários
desses animais. De forma reducionista, a agressão de cães contra pessoas desconhecidas e outros cães ocorre,
em  geral,  devido  ao medo  ligado  à  proteção  do  território,  de  seus  proprietários,  ou  de  outros  animais,  e  ao
comportamento  predatório.  É  comum  que  os  cães  apresentem  múltiplas  formas  de  agressão.  A  agressão
motivada pelo medo é o diagnóstico mais comum em cães agressivos para estímulos não  familiares, mesmo
quando elementos da territorialidade estejam presentes. A postura ofensiva do cão não descarta a ansiedade ou
  
  
o medo como causa subjacente a agressão. A distância para o estímulo e o aprendizado anterior  influencia a
apresentação do comportamento do cão.
Muitos cães mostram postura altamente ofensiva quando estão atrás de uma barreira ou quando o estímulo
está  longe, e à medida que o estímulo se aproxima ou a barreira é  removida, o comportamento do cão pode
tornar­se mais ambíguo e  refletir  o medo propriamente dito. É  comum observar que cães podem se mostrar
altamente  reativos  ou  agressivos  com  outros  cães  quando  estão  na  coleira,  mas  passam  a  interagir
apropriadamente  com  os  outros  animais  quando  estão  sem  a  coleira.  Esse  comportamento  pode  ser
interpretado de várias formas. Uma delas é que o cão pode se sentir preso pela coleira, a qual  limita os seus
movimentos,  incluindo  a  sua  capacidade  de  recuar.  Outra  interpretação  é  que  uma  coleira  apertada
(especialmente se o proprietário também está puxando ativamente) pode alterar a postura do cão quando este
se aproxima do outro  cão, enviando, assim,  sinais enganosos quanto às  suas  intenções. Estes  sinais podem
desencadear no cão destinatário uma reação agonista, dando início a uma briga. Com o tempo, o cão aprende
que na coleira os cumprimentos são imprevisíveis e potencialmente perigosos, e o cão se torna preventivamente
defensivo. Uma terceira interpretação desse comportamento é que a excitação em cães amigáveis muitas vezes
é  punida  com  puxões  na  coleira  para  correção  do  comportamento  excessivamente  exuberante  em  torno  de
outros  cães.  Mais  uma  vez,  ao  longo  do  tempo  o  cão  aprende  que  a  abordagem  de  outros  cães  prevê
circunstâncias desagradáveis e potencialmente dolorosas, gerando comportamento defensivo.
Quanto  ao  comportamento  territorial,  este  se manifesta  principalmente  no  local  de moradia  do  cão, mas
também  pode  ocorrer  no  carro  ou  em  áreas  onde  o  cão  frequenta.  A  agressão  territorial  tende  a  ser  mais
intensa no interior dos limites do seu território e reduz­se em grandes territórios. Ao contrário da agressão por
medo, que se manifesta em uma  idade precoce (até os 6 meses de  idade) ou em cães  idosos, as agressões
territorial  e  de  proteção  são  observadas  mais  tardiamente,  geralmente  quando  o  animal  se  aproxima  da
maturidade  social.  Ainda,  deve  ser  mencionado  que  cães  que  apresentam  comportamento  protetor  podem
apresentar  também agressividade por medo, mas  tornam­se mais ofensivos na presença de seu proprietário.
Especula­se que essa mudança ocorra porque o proprietário pode  ter  reforçado a cão,  inadvertidamente, ou,
alternativamente, o puniu na presença de estranhos ou outros cães, intensificando a reação emocional do cão
para o estímulo.
A agressão relacionada com dominância, por outro lado, é tipicamente dirigida para os animais com que o
cão tem contatos sociais curtos. Há situações, contudo, que o cão parece envolver­se em conflitos de status com
pessoas estranhas e, mais comumente, com cães desconhecidos. Esse comportamento se manifesta quando o
estímulo está próximo do cão, quando a sinalização postural é mais eficaz; se o comportamento agressivo não
for observado quando o estímulo está a distância, este não deve ser considerado de dominância.
As  reações predatórias dos  cães  são mais propensas de ser dirigidas para  cães pequenos e objetos em
movimento rápido, tais como corredores e ciclistas.
Comportamento do tipo depressivo
Fatores genéticos, neurobiológicos e ambientais participam da gênese das depressões. No ser humano a CID­
10 refere­se aos episódios depressivos como leve, moderado e grave, sendo descrito que “o indivíduo em geral
sofre  de  humor  deprimido,  perda  de  interesse  e  prazer  e  energia  reduzida,  levando  a  uma  fatigabilidade
aumentada e atividade diminuída”. Em Medicina Veterinária não há uma descrição detalhada do que venha a
ser depressão, mas sabe­se que o isolamento social parece ser o maior indutor de depressão nos animais.
Em cães, em particular, o estilo de vida  (preso a corrente em vez de  livre), ausência de convivência com
outros animais e falta de liberdade no ambiente (convivência exclusiva no interior ou exterior da residência) são
situações  que  favorecem  a  ocorrência  de  tristeza,  apatia  e  baixa  interatividade,  os  quais  são  indicativos  de
depressão.
Outras alterações comportamentais
A síndrome de disfunção cognitiva é uma doença neurodegenerativa que ocorre em cães mais  idosos, sendo
atribuída principalmente à deterioração patológica do cérebro, que se manifesta por deficiência de memória e de
aprendizagem. Esses sinais  são  relatados pelos proprietários do cão como mudanças no comportamento em
  
que o animal fica olhando para o espaço, parado em um canto, andando e vocalizando à noite e não atendendo
o comando do proprietário. Esta síndrome é  tida como similar à doença de Alzheimer descrita para os seres
humanos, uma vez que os cães apresentam a acumulação da proteína beta­amiloide, com a formação da placa
senil e de emaranhados neurofibrilares.
Em  gatos  também  são  observados  sinais  de  senilidade  que  podem  se  manifestar  como  a  síndrome  de
disfunção cognitiva ou ainda alterações comportamentais, como, por exemplo, a ansiedade de separação.
MEDICAMENTOS EMPREGADOS NOS TRANSTORNOS DE COMPORTAMENTO
Os  medicamentos  empregados  nos  transtornos  de  comportamento  interferem  nos  sistemas  de
neurotransmissão  do  sistema  nervoso  central,  e  os  principais  neurotransmissores  envolvidos  com  esses
distúrbios são: dopamina, norepinefrina, serotonina, acetilcolina e ácido gama­aminobutírico (GABA). A Figura
16.1  ilustra os principais neurotransmissores e os distúrbios e  comportamentos a eles associados; é possível
notar que o comportamento é consequência da interação de vários sistemas de neurotransmissão. Além disso,
há locais do sistema nervoso central com predominância de um determinado neurotransmissor e o tratamento
de um dado distúrbio comportamental é feito por medicamento que interfira na atividade desse neurotransmissor
em áreas específicas do sistema nervoso central.
Em Medicina Veterinária os ansiolíticos e os antidepressivos são os medicamentos mais empregados para o
tratamento dos transtornos de comportamento.
Ansiolíticos
Os ansiolíticos são apresentados também no Capítulo 14, fazendo parte do grupo dos tranquilizantes menores;
são  indicados  na  contenção  química  dos  animais,  na  pré­anestesia  e  nos  distúrbios  comportamentais. Neste
capítulo é dada ênfase ao seu usopara o tratamento dos transtornos de comportamento.
Benzodiazepínicos
Os benzodiazepínicos (BZDs) atuam como facilitadores da neurotransmissão inibitória, pois atuam no receptor
do GABA do tipo A, aumentando a condutância dos canais de cloro (para detalhes, ver Capítulo 14). Os mais
utilizados em Medicina Veterinária para transtornos de comportamento são: diazepam, alprazolam, clorazepato
e lorazepam.
O  diazepam,  em  cães,  é  indicado  para  aliviar  os  sintomas  dos  transtornos  ligados  à  ansiedade,
especificamente na síndrome de ansiedade de separação e nas fobias (p. ex., medo de trovoadas), entretanto
existem relatos de que o seu uso, por via oral, para esses  transtornos  foi desapontador. Já o alprazolam e o
clorazepato parecem ser mais satisfatórios nesses casos quando administrados em doses diárias.
Em gatos, há relatos de efeito benéfico do uso dos BZDs no manejo da marcação de territorial com urina,
apesar da recidiva dos sintomas quando da retirada do mesmo.
■ Figura 16.1 Principais neurotransmissores envolvidos nos transtornos mentais e de comportamento.
Em relação às aves (psitacídeos), foi observado que estas toleram melhor o uso do colar elisabetano, que
comumente  é  indicado  em  casos  agudos  de  automutilação,  que  quando  tratadas  com  BZDs,  em  especial  o
diazepam.
Quanto  aos  efeitos  colaterais  do  emprego  de  BZDs,  em  cães,  em  geral,  são  bem  tolerados;  contudo,  o
aparecimento de sedação, ataxia e relaxamento muscular pode ser observado logo após a administração oral.
Os efeitos adversos dos BZDs sobre os sistemas cardiovascular e respiratório são mínimos ou ausentes quando
utilizados em doses terapêuticas ansiolíticas. Vale ressaltar que o uso de BZDs em animais agressivos deve ser
feito com cautela, uma vez que um efeito paradoxal, como o aumento da agressividade, pode ser observado em
alguns animais devido à perda da inibição do comportamento agressivo. Deve­se atentar também que a retirada
abrupta  de  BZD  deve  ser  evitada,  uma  vez  que  alguns  animais  podem  manifestar  agitação,  tremores
musculares e até convulsões. Por isso, recomenda­se reduzir semanalmente 25% da dose de BZD, durante 1
mês, a fim de adaptar o organismo do animal à ausência do medicamento.
Em gatos foi descrita a ocorrência de necrose hepática após o uso de diazepam administrado por via oral, a
cada 24 h durante 1 semana; possivelmente,  isso ocorreu devido à  formação de um metabólito  intermediário
altamentereativo  nessa  espécie  animal  após  o  efeito  de  primeira  passagem,  o  que  não  ocorre  quando  o
diazepam é administrado por via parenteral. Uma alternativa de uso para gatos são o lorazepam e o oxazepam
(não  disponível  no  Brasil),  uma  vez  que  não  existem  relatos  de  necrose  hepática  para  estes  BZDs,  pois  os
  
mesmos são conjugados diretamente sem a formação de metabólitos intermediários.
É  importante  ressaltar  que,  quando  houver  a  indicação  do  uso  associado  de  BZDs  com  antidepressivos
inibidores da recaptura de serotonina ou os antidepressivos tricíclicos, a dose inicial do BZD deve ser reduzida.
Buspirona
A buspirona faz parte do grupo das azapironas; é o único medicamento desta classe utilizado clinicamente para
redução de ansiedade em seres humanos e animais. Apresenta propriedades ansiolíticas, porém sem atividade
anticonvulsivante,  miorrelaxante  e  hipnótica,  como  os  BDZs.  Seu  mecanismo  de  ação  não  está  totalmente
esclarecido; acredita­se que a buspirona atue como agonista parcial de receptores serotoninérgicos do tipo 1A
(5­HT1A): nos receptores pré­sinápticos somatodendríticos (autorreceptores), diminui a  frequência, de disparos
do neurônio serotoninérgico pré­sináptico e nos receptores pós­sinápticos, compete com a serotonina por esses
receptores  e,  consequentemente,  reduz  sua  ação.  A  buspirona  pode  atuar  também  em  outros  sistemas  de
neurotransmissão,  como  o  noradrenégico,  o  dopaminérgico  e  o  colinérgico  (para  detalhes,  ver Capítulo  14).
Diferentemente dos BZDs, os efeitos da buspirona demoram para aparecer (algumas semanas após o início do
tratamento)  e  em  Medicina  Veterinária  tem  a  desvantagem  da  necessidade  de  administrações  de  2  a  3
vezes/dia, devido a sua curta meia­vida, tanto em cães como em gatos.
Em cães seu uso é indicado apenas na ansiedade generalizada e não tem se mostrado eficiente em casos
de síndrome da separação e medo de trovoada e outras  fobias. Para gatos, sua  indicação é para melhorar o
comportamento de animais tímidos que sofrem regularmente agressões de animais mais bravos e para reduzir a
micção de marcação de território, sendo observada melhora em 55% dos gatos tratados, porém com retorno do
transtorno após a retirada da medicação.
O Quadro 16.1  mostra  a  posologia  e  as  especialidades  farmacêuticas  dos  ansiolíticos  empregados  para
cães e gatos.
Antidepressivos
Os antidepressivos são uma classe de medicamentos que, em Medicina Veterinária, têm sua indicação baseada
nos  estudos  em  seres  humanos.  Isto  ocorre  porque  os  substratos  neuroanatômicos  e  fisiopatológicos
relacionados aos transtornos de comportamento em animais ainda não estão bem definidos tal como para o ser
humano.
Acredita­se atualmente que o sistema límbico (amígdala, hipocampo, tálamo etc.) seja a sede anatômica dos
transtornos comportamentais e que alterações em sistemas de neurotransmissão, principalmente de serotonina
e  norepinefrina,  estejam  envolvidas  com  esses  transtornos.  Neste  sentido,  têm­se  hoje  quatro  grupos  de
medicamentos de maior emprego como antidepressivos em Medicina Veterinária: os  inibidores da monoamina
oxidase  (IMAO),  os  tricíclicos,  os  inibidores  seletivos  da  recaptura  de  serotonina  (ISRS)  e  os  inibidores  de
recaptura de serotonina e antagonistas α1­adrenérgicos (IRSA).
Esses  antidepressivos,  com  estruturas  químicas  diferentes  (Figuras  16.2  a  16.5),  possuem em  comum a
capacidade de aumentar agudamente a disponibilidade sináptica de um ou mais neurotransmissores, por meio
de atuação em alguns receptores e enzimas específicos. Embora a atuação sináptica seja imediata após o início
do tratamento, observa­se demora em se obter a resposta clínica (de 2 a 4 semanas em média), sugerindo que
a  resolução da depressão  requeira mudanças adaptativas na neurotransmissão. A principal  teoria aceita para
explicar  tal  demora  é  a  da  subsensibilização  dos  receptores  pós­sinápticos.  Assim,  o  aumento  dos  níveis  de
neurotransmissores por  inibição da MAO ou bloqueio das bombas de recaptura de monoaminas resulta nesta
subsensibilização, cuja resolução se correlaciona com o início da melhora clínica.
QUADRO 16.1 Posologias e especialidades farmacêuticas dos ansiolíticos empregados para cães e gatos.
Ansiolíticos Especialidades
farmacêuticas
Posologia
Benzodiazepínicos
Alprazolam Frontal®; Apraz®, Tranquinal® Gato: 0,0125 a 0,025 mg/kg, a cada 12 h, VO; 0,125 mg, a cada 12 h
Cão: 0,01 a 0,1 mg/kg VO; não exceder 4 mg/cão/dia; 0,02 mg/kg em associação com
clomipramina
Clorazepato Tranxilene® Gato: 0,2 a 0,4 mg/kg, 12 a 24 h, VO; 0,5 a 2,2 mg/kg VO, nos casos de estresse intenso
Cão: 0,5 a 2,2 mg/kg, 1 h antes do estímulo estressor ou ansiogênico (p. ex., viagem, fogos de
artifício ou trovoada) e repetir dose se necessário a cada 4 a 6 h
Diazepam Valium®, Compax®,
Diempax®, Dienpax®,
Kiatrium®
Gato: 0,2 a 0,4 mg/kg,12 a 24 h, VO (iniciar com 0,2 mg/kg,12 h)
Cão: 0,5 a 2,2 mg/kg, 1 h antes do estímulo estressor ou ansiogênico (p. ex., viagem, fogos de
artifício ou trovoada) e repetir dose se necessário a cada 4 a 6 h
Aves: 1,25 a 2,5 mg/120 mℓ na água de bebida (dose ansiolítica)
Lorazepam Lorax®, Sedacalm® Cão: 0,02 a 0,1 mg/kg, 8 a 24 h, VO
Azapirona
Buspirona Ansitec®, Buspar® Gato: 0,5 a 1 mg/kg/8 h VO, (ansiolítico); 2,5 a 5,0 mg/animal/8h, VO (para micção de
marcação de território, com duração de tratamento de 6 a 8 semanas)
Cão: 1 a 2 mg/kg, 12 h, VO
VO: via oral.
■ Figura 16.2 Estrutura química do inibidor da monoamina oxidase (IMAO) selegilina.
■ Figura 16.3 Estrutura química dos antidepressivos tricíclicos imipramina e nortriptilina.
■ Figura 16.4 Estrutura química do antidepressivo inibidor seletivo da recaptura de serotonina (ISRS) fluoxetina.
Trabalhos mais  recentes,  considerando  os  ISRS  e  IRSA,  apontam  com mais  detalhes  a  participação  de
segundos  mensageiros  e  proteínas  intracelulares  nestas  mudanças  adaptativas  na  neurotransmissão,  em
especial, envolvendo a serotonina e a norepinefrina. Nesse sentido, o que define o efeito dos antidepressivos é a
conformação  de  receptores  pós­sinápticos  por meio  de  alteração  das  vias  da  adenosina monofosfato  cíclico
(cAMP) no sistema límbico (hipocampo), bem como no bloqueio da recaptura de neurotransmissores  induzida
ao  longo do  tempo de  tratamento. Em consequência do acúmulo de serotonina ou de norepinefrina na  fenda
sináptica,  os  receptores da  serotonina do  tipo 1A  (5­HT1A)  ou do autoreceptor  adrenérgico  (presente na pré­
sinapse)  são  estimulados,  levando  à  diminuição  da  ativação  neuronal  serotoninérgica  ou  noradrenérgica  e  à
dessensibilização  (downregulation)  de  receptores  pós­sinápticos.  Por  isso,  no  começo  do  tratamento  com  o
antidepressivo não há aumento  relevante da atividade neuronal  até os  receptores pré­sinápticos  se  tornarem
dessensibilizados, ou seja, as altas quantidades de serotonina ou norepinefrina existentes não são detectadas e
os axônios  liberam mais neurotransmissor na  fenda sináptica, desinibindo a neurotransmissão serotoninérgica
ou  noradrenérgica.  Isso  ocorre  pelo  fato  de  o  tratamento  a  longo  prazo  alterar  a  função  e  a  estrutura  dos
receptores  por  meio  de  alterações  de  transcrição  e  translação  de  suas  proteínas,  em  um  processo  de
plasticidade  neuronal  que  pode  levar  de  2  a  4  semanas.  Esse  processo  neuronal  que  ocorre  durante  o
tratamento com antidepressivos depende da sinalização via cAMP. Sucintamente, ocorre aumento da produção
de cAMP e ativação da proteinoquinase A (PKA), que, por meio da sua subunidade catalítica, fosforila e ativa o
fator  de  transcrição  CREB  (cAMP  response  element  binding  protein  1;  proteína  de  ligação  dos  elementos
responsivos  ao  cAMP).  O  CREB  induz  aumento  do  fator  BDNF  (brain­derived  neurotropic  factor;  fator
  
neurotrófico  derivado  do  cérebro)  no  hipocampo  e  ativação  de  tirosinoquinases,  as  quais  estimulam  a
transcrição  de  mRNA  para  produção  de  novos  receptores.  É  sabido  que  o  BDNF  é  crítico  para  o
desenvolvimento e a função de neurônios serotoninérgicos, bem como para a elaboração de comportamentos
que  dependem  deste  tipo  de  neurotransmissão.  Ao  final  desse  processo,  os  neurônios  pós­sinápticos
apresentam maior atividade metabólica e aumento na resposta ao neurotransmissor (no caso, a serotonina ou a
norepinefrina).
■   Figura  16.5  Estrutura  química  do  antidepressivo  inibidor  de  recaptura  de  serotonina  e  antagonista  α1­
adrenérgico (IRSA) trazodona.
Esses  fatos  justificam  os  motivos  pelos  quais  os  antidepressivos  não  produzem  efeitos  estimulantes  ou
euforizantes, sendo eficientes nos casos em que haja desequilíbrio nos níveis centrais de neurotransmissores.
Inibidores da monoamina oxidase
A  monoaminoxidase  (MAO)  é  uma  das  enzimas  responsáveis  pela  degradação  das  catecolaminas  e  da
serotonina (ver Capítulo 5). Portanto, a  inibição desta enzima causa o acúmulo destes neurotransmissores na
fenda sináptica. Embora a  inibição da enzima ocorra  rapidamente, o efeito antidepressivo não é  imediato; há
necessidade  de  uso  contínuo  dos  IMAO  por  vários  dias  ou  semanas  para  que  o  efeito  antidepressivo  seja
observado, como anteriormente comentado. Este é um fato relevante, que deve ser avisado ao proprietário do
animal.
Vários IMAO foram introduzidos em terapêutica para uso na espécie humana a partir da década de 1950.
Muitos foram abandonados devido aos efeitos colaterais e tóxicos consequentes do seu mecanismo de ação. De
fato, a inibição da MAO pode causar aumento súbito da pressão arterial, com risco de hemorragia intracraniana,
em indivíduos que consomem alimentos que contêm tiramina (queijos fermentados e vinhos). A tiramina é em
geral  inativada  pela  MAO  intestinal  e  hepática,  porém,  quando  a  enzima  se  encontra  inibida,  grandes
quantidades  de  tiramina  ganham a  circulação  e  atingem as  terminações  nervosas  simpáticas,  promovendo  a
liberação de norepinefrina. Esta,  por  sua  vez,  não  sendo degradada pela MAO, promove o aparecimento de
efeitos simpatomiméticos de grande intensidade.
A tranilcipromina (Parnate®) é um IMAO disponível no mercado para ser usado como antidepressivo, porém
está sendo abandonado, devido ao aparecimento de outros grupos farmacológicos mais eficientes e com menos
efeitos colaterais.
A  selegilina  (ver  Figura  16.2)  também  é  um  IMAO  e  é  o  mais  amplamente  empregado  em  Medicina
Veterinária; esse antidepressivo  inibe especificamente a MAO do  tipo B, e não a MAO do  tipo A, que é mais
frequentemente  encontrada  no  intestino.  A  selegilina  é  utilizada  principalmente  na  síndrome  da  disfunção
cognitiva  em  cães  idosos,  embora  venha  sendo  também  empregada  em  cães  jovens  que  apresentam
hiperatividade,  ansiedade,  transtornos  do  sono  e  comportamentos  estereotipados.  A  selegilina  é  também
utilizada em gatos senis com déficit  cognitivo e com alterações de sono  (narcolepsia). O Quadro 16.2 aponta
posologias e especialidades farmacêuticas da selegilina para gatos e cães.
O início de ação da selegilina com doses apropriadas em alguns animais ocorre tardiamente, podendo levar
de 4 a 8 semanas para alcançar o efeito terapêutico. Mesmo que a melhora não seja observada após 1 mês de
uso,  deve­se  continuar  o  tratamento  por  até  2  meses.  Efeitos  adversos  são  incomuns,  contudo  altas  doses
podem  induzir  excitação  e  comportamento  estereotipado  em  cães.  É  possível  que  estes  efeitos  sejam
decorrentes dos compostos sabidamente gerados após a biotransformação da selegelina a L­anfetamina e a L­
metanfetamina.
Um fato importante que reduz o risco de intoxicação medicamentosa é não prescrever selegilina em animais
tratados com o antiparasitário amitraz, que também é um inibidor da MAO; caso o animal tenha sido banhado
com  produtos  à  base  amitraz,  deve­se  aguardar  um  período  de  2  semanas  antes  de  administrar  o
antidepressivo IMAO. A associação da selegilina com o amitraz desencadeia a síndrome serotoninérgica que é
uma  condição  potencialmente  fatal  caracterizada  por  diarreia,  hipertermia,  ataxia,  agitação,  tremores
musculares, convulsões e coma. O uso de selegilina e de agonistas α2­adrenérgicos,  fenotiazínicos e opioides
também deve ser evitado, uma vez que estes afetam os níveis de monoaminas.
Antidepressivos tricíclicos
Os antidepressivos tricíclicos têm uma relevância na história dos medicamentos utilizados como “estimulantes do
humor”, uma vez que foram uma das primeiras classes de medicamentos utilizadas para tratar a depressão em
seres  humanos  na  década  de  1950. Desde  então, modificações  em  sua  fórmula  química  ao  longo  dos  anos
levaram ao desenvolvimento de outras classes de antidepressivos que desencadeiam menos efeitos colaterais,
fazendo com que estes venham sendo gradativamente substituídos. Por outro  lado, em Medicina Veterinária,
devido ao baixo custo, à eficácia e à boa tolerância ao tratamento, os antidepressivos tricíclicos vêm sendo os
mais empregados na clínica de pequenos animais para o tratamento de transtornos comportamentais.QUADRO 16.2 Posologias e especialidades farmacêuticas dos antidepressivos empregados para cães e
gatos.
Antidepressivos Especialidades farmacêuticas Posologia
Inibidor da monoamina oxidase (IMAO)
Selegilina Deprilan®, Jumexil®, Niar® Gato: 0,25 a 0,5 mg/kg, 12 a 24 h, VO (iniciar com 0,5 mg/kg) – indicação para
senilidade e demência
Cão: 0,5 a 1 mg/kg, 24 h, por 6 a 8 semanas
Tricíclicos
Amitriptilina Amytri®, ℓ Tryptanol® Gato: 0,5 a 2 mg/kg, 12 a 24 h VO (iniciar com 0,5 mg/kg, 12 h)
Cão: 1 a 2 mg/kg, 12 a 24 h, VO; 0,75 a 2,5 mg/kg,12 h,VO
Aves: 1 a 5 mg/kg, a cada 12 h, VO
Clomipramina Anafranil®, CLO®, Clomicalm®V* Gato: 0,5 mg/kg, a cada 24 h, VO (caso não haja resposta após 4 semanas, aumentar a
dose para 1 mg/kg, a cada 24 h); ou 1 a 5 mg/animal, a cada 24 h
Cão: 1 a 3 mg/kg, a cada 12 h, VO (iniciar com 1 mg/kg por semana), com dose de
manutenção de 2 mg/kg, a cada 12 h (total de 8 semanas de tratamento)
Aves: 3 a 5 mg/kg, 12 a 24 h, VO
Imipramina Tofranil®, Imipra® Gato: 0,5 a 1 mg/kg, 12 a 24 h, VO, (iniciar com 0,5 mg/kg, a cada 12 h)
Cão: 2,2 a 4,4 mg/kg, 12 a 24 h, VO
Inibidores seletivos da recaptura de serotonina (ISRS)
Fluoxetina Prozac®, Daforin®, Depress®, Fluoxetina®,
Fluxene®, Psiquial®, Verotina®, Zyfloxin®,
Reconcile®V*
Gato: 0,5 a 1 mg/kg, a cada 24 h, VO, por 6 a 8 semanas
Cão: iniciar com 0,5 mg/kg e aumentar para 1 mg/kg, a cada 24 h, VO, por 6 a 8
semanas
Aves: 1 a 4 mg/kg, a cada 24 h, VO
Fluvoxamina Luvox® Gato: 0,25 a 0,5 mg/kg, a cada 24 h, VO, por 6 a 8 semanas
Cão: 1 mg/kg, 24 h VO, por 6 a 8 semanas
Paroxetina Aropax®, Cebrilin®, Deeplin®, Depaxan®,
Paxil®, Paxtrat®, Pondera®, Praxetina®,
Roxetin®, Zyparox®
Gato: 0,5 mg/kg, a cada 24 h, VO, por 6 a 8 semanas
Cão: 1 mg/kg, 24 h, VO, por 6 a 8 semanas
Aves: 1 a 2 mg/kg, 12 a 24 h, VO
Sertralina Zoloft®, Dielof®, Sered®, Serolift®, Tolrest® Gato: 0,5 mg/kg, 24 h, VO, por 6 a 8 semanas
Cão: 1 mg/kg, 24 h, VO, por 6 a 8 semanas
Inibidor de recaptura de serotonina e antagonista α1-adrenérgicos (IRSA)
Trazodona Donaren® Cão: 2 a 5 mg/kg (podendo chegar a 10 mg/kg), a cada 12 h, VO
VO: via oral. V*Produto veterinário não disponível no Brasil.
Os  antidepressivos  tricíclicos  receberam  esta  denominação  por  apresentarem  três  anéis  de  carbono  e
hidrogênio  na  sua  estrutura  química  (ver  Figura  16.3);  são  moléculas  quimicamente  semelhantes  aos
neurolépticos fenotiazínicos. Por  isso, podem causar efeitos sedativos, cuja  intensidade correlaciona­se com a
afinidade  por  receptores  histaminérgicos  do  tipo  H1;  apresentam  propriedades  atropínicas  (atividade
antimuscarínica), causando midríase, taquicardia, secura na boca (sialosquese), constipação intestinal, retenção
urinária e, ainda, confusão mental e delírio se associado com os fenotiazínicos; e bloqueiam também receptores
α1­adrenérgicos, induzindo, no homem, hipotensão postural e retardo do orgasmo.
Os antidepressivos tricíclicos bloqueiam a recaptura neuronal de norepinefrina e serotonina. Os tricíclicos de
cadeia  lateral que contêm amina terciária (amitriptilina, clomipramina e  imipramina)  inibem mais eficazmente a
recaptura de serotonina e ainda a de norepinefrina, enquanto as aminas secundárias (nortriptilina e maprotilina)
inibem principalmente a recaptura de norepinefrina (ver Figura 16.3).
Assim, pode­se considerar que os antidepressivos tricíclicos apresentam três efeitos principais: bloqueiam a
recaptura de aminas cerebrais, possuem efeito anticolinérgico e produzem sedação.
Dentre os antidepressivos  tricíclicos, a clomipramina, a amitriptilina e a  imipramina são os mais estudados
em Medicina Veterinária. A clomipramina é o mais potente inibidor de recaptura de serotonina e norepinefrina,
dentre  os  tricíclicos;  seu metabólito  desmetilclomipramina,  mesmo  que  em menor  extensão,  também  inibe  a
recaptura de norepinefrina.
No  Brasil,  não  existem  produtos  veterinários  com  propriedades  antidepressivas  licenciados  para  uso  em
animais,  enquanto  nos  EUA,  o  Clomicalm®  (cloridrato  de  clomipramina)  foi  licenciado  para  uso  em  cães  em
1998.  Em  função  disto,  estudos  farmacocinéticos  da  clomipramina  em  cães  foram  realizados  com  maior
detalhamento.  Sabe­se,  por  exemplo,  que  quando  se  comparam  cães  alimentados  e  em  jejum  tratados  com
clomipramina, a taxa de absorção é de 1,18 hora em cães alimentados e de 1,31 hora em cães em jejum; há
aumento de 25% na biodisponibilidade em cães alimentados; e o tempo de meia­vida em cães alimentados é de
2 a 9 horas e de 3 a 21 horas em cães em jejum. Considerando a biotransformação, observou­se que a relação
clomipramina/desmetilclomipramina em cães é alta  (3:1), enquanto em seres humanos é baixa  (1:2,5),  sendo
esse fato associado a um menor efeito anticolinérgico e menor efeito na transmissão noradrenérgica em cães
quando comparado aos efeitos em seres humanos.
A  indicação de uso da clomipramina  tem sido para  facilitar os programas de manejo comportamental, em
especial  nos  casos  de  ansiedade  de  separação  em  cães. O  uso  de  clomipramina  tem  se mostrado  eficiente
também nos casos de  transtornos compulsivos, como perseguir a cauda, e na dermatite acral por  lambedura.
Resultados  insatisfatórios  têm  sido  obtidos  no  controle  de  cães  agressivos  desencadeados  por  conflitos
hierárquicos.
A amitriptilina, para seres humanos,  tem sido  indicada para amenizar estados de depressão, ansiedade e
para  certos  tipos  de  dor  neuropática  ou  dor  crônica. Age  inibindo  a  recaptura  de  serotonina  e  norepinefrina;
como também apresenta alguma atividade anti­histamínica, pode ser útil nos casos em que se busca amenizar
prurido  e  um  efeito  sedativo.  Em  cães  ela  tem  sido  indicada  no  tratamento  da  ansiedade  de  separação,
comportamento  agressivo  e  comportamento  compulsivo  de  automutilação. Para  gatos  a  amitriptilina  tem  sido
utilizada para o controle da alopecia psicogênica e para estados de marcação urinária, uma vez que apresenta
ação  em  receptores  β2;­adrenérgicos  presentes  na  musculatura  lisa  da  bexiga,  o  que  favorece  o  seu
relaxamento. Por  este motivo  é  também  indicada na dose de 5  a  10 mg de amitriptilina  por  gato  com cistite
intersticial, mesmo não estando esclarecido se a melhora se deve à modulação do comportamento ou ao efeito
analgésico que este medicamento promove. Em aves é indicada para aliviar os sintomas de medo, ansiedade de
separação  e  aqueles  ligados  à  ansiedade  generalizada. Seu  efeito  começa  a  ser  percebido  dentro  de  2  a  4
semanas  do  início  da  administração.  A  amitriptilina,  por  ter  um  gosto  amargo  e  provocar  sensação  de
queimação na boca, pode não ser de fácil aceitação pelos animais a longo prazo. Em gatos, relatos de efeitos
adversos causados pela amitriptilina são: ganho de peso, sonolência e diminuição de autolimpeza.
A  imipramina  tem  maior  atividade  serotoninérgica,  pouco  efeito  anticolinérgico,  moderada  afinidade  por
receptores  histaminérgicos  do  tipo H1  e  baixa  atividade  adrenérgica.  Para  cães  a  imipramina  é  indicada  nos
casos de ansiedade de separação e em estados eufóricos com micção  involuntária  frequente. Além disto, um
estudo verificou que a administração diária, por via oral, de altas doses de imipramina (10 mg/kg) após 14 dias
promoveu melhora significativa no comportamento do tipo depressivo em cães da raça Beagle.
Quanto  à  toxicidade  dos  antidepressivos  tricíclicos,  a  arritmia  cardíaca  fatal  pode  ocorrer  nos  casos  de
ingestão acidental de dose alta (acima de 15 mg/kg); preconiza­se atender o animal prontamente (óbito ocorre
dentro  de  duas  horas),  fornecendo  terapia  de  suporte/descontaminação  do  trato  gastrintestinal  (fluidoterapia
com bicarbonato de sódio,  lavagem gástrica, administração decarvão ativado e uso de um catártico que não
contenha sais de magnésio) e monitoramento da pressão arterial, bem como a realização de eletrocardiograma
até  a  melhora  dos  sintomas.  Este  efeito  cardiotóxico  não  deve  ser  atribuído  aos  efeitos  colaterais
anticolinérgicos  ou  antiadrenérgicos,  mas  pelo  fato  de  que  alguns  antidepressivos  tricíclicos  agem  como
bloqueadores de canais de sódio. O uso de um antiarrítmico que não afete a condução, como, por exemplo, a
lidocaína, é  indicado, enquanto a procainamida e a quinidina são contraindicadas. Caso exista a  indicação de
uso  de  antidepressivos  tricíclicos  em  animais  cardiopatas  é  recomendado  avaliar  o  risco  antes  do  início  da
terapia.  Além destes  efeitos  cardiotóxicos,  já  foram  também  relatadas,  em  cães,  convulsão  e  agranulocitose.
Vale ressaltar ainda que os antidepressivos tricíclicos são contraindicados nos casos de ceratoconjuntivite seca
e glaucoma.
O  Quadro  16.2  mostra  posologias  e  especialidades  farmacêuticas  dos  antidepressivos  tricíclicos
empregados em gatos e cães.
Inibidores seletivos da recaptura de serotonina (ISRS)
Os  medicamentos  pertencentes  ao  grupo  dos  inibidores  seletivos  da  recaptura  de  serotonina  (ISRS)  foram
desenvolvidos  a  partir  de modificações  nas moléculas  dos  antidepressivos  tricíclicos  descritos  anteriormente;
esta mudança trouxe maior especificidade no mecanismo de ação. Como o próprio nome do grupo define, são
medicamentos que agem por meio de sua maior afinidade pelo bloqueio da  recaptura de serotonina e menor
afinidade  por  receptores  adrenérgicos,  colinérgicos  e  histaminérgicos.  Esta  característica  contribui  para  a
diminuição de efeitos colaterais e maior afinidade pelo bloqueio das proteínas de recaptura da serotonina.
Dentre os  ISRS  têm­se:  fluoxetina, paroxetina, sertralina e  fluvoxamina. A  fluoxetina  (ver Figura 16.4),  na
forma  de  produto  veterinário,  é  comercializada  nos  EUA  desde  de  2007  com  o  nome  de  Reconcile®  (não
disponível  no Brasil),  na apresentação de comprimido mastigável  e  sabor de  carne,  para uso em animais de
companhia.
A fluoxetina é bem absorvida após administração oral (72%) e é biotransformada no fígado pelo citocromo
P­450, dando origem à norfluoxetina; este é um metabólito ativo e equipotente, o que contribui para a eficácia
deste medicamento, mesmo na administração de 1 vez/dia. Os estudos farmacocinéticos da fluoxetina em cães
mostraram que a meia­vida varia de 3 a 13 h, enquanto a de seu metabólito, a norfluoxetina, é de 33 a 64 h.
Esta  meia­vida  longa  diminui  a  chance  de  ocorrência  de  efeitos  colaterais  percebidos  para  outros
antidepressivos quando da descontinuidade de tratamento; entretanto, se faz necessário um intervalo de 14 dias
após  o  término  da  administração  da  fluoxetina  para  se  iniciar  qualquer  tratamento  com  inibidores  da  MAO,
como, por exemplo, a selegelina e o amitraz (antiparasitário).
A fluoxetina tem sido indicada para o controle de ansiedade de separação, comportamentos compulsivos e
comportamento  agressivo  causado  por  diferenças  de  hierarquia  em  cães.  Os  ISRS  são  empregados  com
sucesso  nos  casos  de  crises  de medos/fobias  crônicas  ou  agudas,  sendo  que  o  resultado  tem  se mostrado
melhor quando associado a outros medicamentos de ação mais  rápida. Neste sentido, estudos mais  recentes
buscam a associação de medicamentos, como, por exemplo, quando se propôs o uso de fluoxetina (1 mg/kg a
cada 24 h por 10 semanas, por via oral) associada ao BZD clorazepato (1 mg/kg a cada 24 h, por 4 semanas,
por via oral), aliado a um programa comportamental (de recompensa) para o tratamento de crises de ansiedade
em cães agressivos ou não agressivos. Ao final de 70 dias de tratamento, não se observaram diferenças entre
machos  e  fêmeas,  nem  entre  cães  mais  novos  e  mais  velhos;  entretanto,  cães  mais  agressivos  mostraram
melhora significativa dos sintomas em relação aos cães não agressivos.
Em gatos o uso de ISRS é indicado nos estados de marcação urinária, comportamento agressivo, alopecia
psicogênica e para amenizar o apetite compulsivo por coisas não comestíveis.
Para  aves,  em  particular,  as  da  família  dos  psitacídeos,  o  ISRS  que  apresenta melhor  benefício  para  o
controle de fobias e comportamentos compulsivos, como por exemplo, o distúrbio de arrancamento de penas, é
a paroxetina.
A paroxetina em cães tem menor meia­vida quando comparada à fluoxetina. Além disso, pode causar sinais
anticolinérgicos como constipação intestinal e sialosquese, tanto em cães como em gatos. Após administração
crônica,  a  paroxetina  deve  ser  descontinuada  gradativamente  para  se  evitarem  reações  de  descontinuidade,
como aumento da ansiedade.
A  sertralina  apresenta  características  semelhantes  às  da  paroxetina  e  o  único  efeito  adverso  descrito  foi
diarreia, que pode ser evitada iniciando o tratamento com a menor dose e gradativamente aumentando a dose a
cada 2 semanas.
Quanto à  fluvoxamina, há poucas  informações acerca dos efeitos benéficos e/ou adversos em animais de
companhia.
Em  relação  ao  citaprolam,  um  ISRS  de  uso  frequente  em  seres  humanos,  um  estudo  de  neuroimagem
realizado  em  cães mostrou  haver  boa  correlação  na melhora  do  comportamento  agressivo  impulsivo  com  o
índice  de  ligação  do  citalopram  nos  córtices  pré­frontal  e  occipital  em  receptores  5­HT2A  após  administração
diária, por via oral, na dose de 1 mg/kg por 6 semanas. Por outro lado, o citalopram mostrou toxicidade em um
estudo realizado em 10 cães, com a dose de 8 mg/kg/dia de Celexa®, causando óbito em 50% dos animais após
17 a 31 semanas de tratamento, devido à cardiotoxicidade.
O Quadro 16.2 aponta posologia e especialidades farmacêuticas dos ISRS empregados para gatos e cães.
Inibidores de recaptura de serotonina e antagonistas a1-adrenérgicos (IRSA)
Os  inibidores  de  recaptura  de  serotonina  e  antagonistasα1­adrenérgicos  (IRSA)  são  chamados  também  de
antidepressivos atípicos ou de segunda geração. Dentre os membros deste grupo, a trazodona (Donaren® – ver
Figura 16.5) é a mais utilizada em Medicina Veterinária. Foi sintetizada primeiramente na Itália, em 1966, e sua
eficácia terapêutica para o tratamento de estados depressivos em seres humanos tem se mostrado comparável
à de outros antidepressivos. Apesar de seu mecanismo de ação não estar completamente elucidado, sabe­se
que  atua  como  antagonista  de  receptores  5­HT2A,  inibindo  a  recaptura  de  serotonina;  é  também um potente
bloqueador de  receptores pós­sinápticos α1­adrenérgicos e antagonista  fraco de  receptores adrenérgicos pré­
sinápticos  do  tipo  α2.  Seu  metabólito,  m­clorofenilpiperazina,  é  um  agonista  de  receptor  serotoninérgico.  A
trazodona  não  apresenta  ação  anticolinérgica,  entretanto  atua  moderadamente  com  atividade  anti­
histaminérgica e pode ser uma alternativa para animais intolerantes aos efeitos colinérgicos dos antidepressivos
tricíclicos.
Em  um  estudo  farmacocinético  de  dose  única  de  trazodona  em  6  cães  observou­se  que,  quando
administrada por via oral, induziu sedação leve sem efeitos colaterais evidentes.
Existem alguns  relatos de diarreia,  vômito  e  sedação  sobre o  início  do  tratamento  com  trazodona,  o  que
pode ser evitado com o aumento gradativo da dose, até alcançar a dose máxima indicada.
Dentre  os  antidepressivos,  a  trazodona  é  o  medicamento  com  menor  risco  de  convulsão  e,  em  cães
anestesiados  e  tratados  com  ela,  foram  observados  efeitos  muito  brandos  na  função  cardíaca  quando
comparada com doses equivalentes de imipramina.
A  indicação  de  uso  da  trazodona  é  para  animais  que  sofrem de  fobias moderadas,  em especial,  fobia  a
trovoadas.  Seu  uso  tem  sido  indicado  tambémcomo  terapia  sinérgica,  sendo  associada  a  outros
antidepressivos, como os tricíclicos e ISRS. Em um estudo retrospectivo de 12 anos realizado com 56 cães, a
trazodona  se  mostrou  mais  eficaz  para  o  tratamento  dos  transtornos  de  ansiedade  quando  utilizada  em
associação com outros antidepressivos, como os tricíclicos e ISRS, do que isoladamente, além de ser também
muito  segura. Por  outro  lado, mesmo em altas doses  (10 mg/kg),  trazodona parece não  ser  eficiente para o
tratamento de estados depressivos em cães.
Em um estudo  realizado  com 36  cães,  foi mostrado  que  a  trazodona  utilizada  no  período  pós­operatório
imediato de cirurgias ortopédicas promoveu uma resposta positiva em 89% dos cães em relação à tolerância ao
confinamento.
O Quadro 16.2 aponta posologia e especialidade farmacêutica da trazodona empregada para cães.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A eficácia do tratamento com medicamentos empregados nos transtornos de comportamento animal, quer seja
o medicamento usado isoladamente, em associação ou integrado aos programas comportamentais, dependerá
de diversos fatores, os quais contribuem de forma importante para a expressão dos sinais clínicos observados
nesses  transtornos.  Tais  fatores  vão  desde  o  espaço  físico,  o  agrupamento  social,  a  persistência  do  fator
desencadeante do comportamento e, não menos importante, o comprometimento do proprietário a longo prazo
com a terapêutica definida pelo médico­veterinário.
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