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Faça Fortuna Com Ações (2017) (Decio Bazin)

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toda) – Suponhamos que, após
o estudo de um papel, cheguemos à conclusão de que a empresa precisará
chamar subscrição. A questão é saber quando e em que condições. Como
nenhuma empresa chama subscrição sem amenizá-la com desdobramento,
que é o que mais nos interessa, o assunto se torna transcendental.
Ficamos “cutucando” as pessoas ligadas à empresa para saber detalhes
e obter confirmação.
AUTOR – Para isso vocês precisam ser bem relacionados.
ANALISTA – E somos. Sou sócio de muitos clubes. Comprei um título
do Pinheiros só para fazer amizade com um frequentador que é contador-
chefe de uma empresa que nos interessava. Ele agora é meu amigo. Estou
até namorando a sua filha. Ajuda muito a amizade com pessoas certas.
Alguns amigos meus são diretores de fundos de pensão e encarregados
das carteiras de ações. No Clube Harmonia quase diariamente eu me
encontro com pessoas que estão inside. As informações fluem
naturalmente no meio de uma conversa ou de um carteado. Ninguém se
compromete. Às vezes recebo uma informação relevante que o informante
finge não perceber que deu. Eu sei que ele me usa, mas eu também o uso.
É uma recíproca.
AUTOR – Você tira proveito dessas informações?
ANALISTA – Pessoalmente não, mas os clientes da firma são muito
favorecidos. Eu passo as informações aos corretores que as repassam aos
clientes. Há três meses fiquei sabendo que o Bradesco estava interessado
na Metal Leve. Compramos tudo o que apareceu do papel. Por fim o
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Bradesco comprou um block-trade e entramos vendendo. Foi uma
“cacetada”. Enchemos o baú.
AUTOR – Pelo que vejo o seu trabalho é estratégico.
ANALISTA – É isso. Temos históricos de todos os papéis da Bolsa.
AUTOR – Há mais alguma coisa?
ANALISTA – Sim, há. Vivemos farejando pechinchas. Na Bolsa há
ações tão largadas quanto mulheres velhas repudiadas pelos maridos.
Agora mesmo estamos fazendo uma relação das ações que não se movem
há mais de trinta dias. Elas ficaram esquecidas devido as coisas
“ligeiramente” anormais, como prejuízos. Os gráficos estão em dia.
AUTOR – Pensei que vocês não trabalhassem com gráficos.
ANALISTA – De fato, não usamos os gráficos da maneira como outros
usam. Acontece que os gráficos são bons para a visualização do
comportamento do papel. Veja aqui este gráfico da Cofap. Se você
descontar a inflação, não sobra nada. Está visível que o papel foi deixado
às traças. Mandaremos comprar a ação quando ela der sinal de vida.
Há Especuladores que usam gráficos específicos. Num canto da sala de
uma corretora, vejo isolado o João Trombudo, que está entretido no exame
de uma “língua” de papel com a altura de um metro. Vejo linhas de gráficos
de barras.
Os gráficos costumam avançar vagarosamente no sentido horizontal, mas
esse cresce na vertical, em lances rapidíssimos, toscamente representado
por linhas riscadas sobre papéis colados uns em cima dos outros de forma
desordenada.
Os preços, pelas “esticadas” frenéticas, só podem ser de prêmios do
mercado de opções. E são. Também há ali traçados e anotações a lápis,
interpretativos. Noto pontos de suporte e resistência, mas os gaps são muito
acentuados e apresentam claros intrigantes.
É o que acontece graficamente, por exemplo, quando um preço, depois de
cair de 80 para 60, pula para 100 e continua a subir.
AUTOR – Hum, isso sim é que é evolução. Alguns meses atrás ninguém
pensava em fazer gráficos com prêmios de opções.
TROMBUDO – De fato. Este sistema é adaptado dos gráficos comuns,
que todavia são quase tão parados quanto uma geladeira. Este aqui é
para jovens. De cinco em cinco minutos eu ponho nele uma linha. Sem
este gráfico eu não me situo. Como Especulador preciso estar sempre bem
aparelhado. O gráfico é meu instrumento de trabalho.
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AUTOR – Mas eu sempre soube que os gráficos devem ser feitos depois
do pregão, quando já estão conhecidos os preços de abertura, o máximo,
o mínimo, o médio e o do fechamento, para o analista raciocinar com
frieza.
TROMBUDO (com ar de superioridade) – Não, não. Os prêmios
saltitam muito. Opções é mercado moderno, da Era da Computação.
Gráficos de opções são para pessoas dinâmicas, que precisam de um
instrumento exato para poderem agir com a rapidez do relâmpago. Sou da
nova geração de Especuladores, pô. Minhas decisões são tomadas em
questão de segundos.
AUTOR – Presumo então que você esteja ganhando muito dinheiro com
essas especulações.
TROMBUDO (dando um sorriso superior) – Ainda não. Tenho muito o
que aprender. Deixe-me explicar. Hoje comprei neste ponto...
AUTOR – Comprou por 50, a cotação agora é 30. Você está perdendo.
TROMBUDO – Perder faz parte do jogo. Ainda estou me
“calibrando”. Hoje perdi menos do que ontem e menos ainda do que
anteontem.
AUTOR – Mas está perdendo, de qualquer modo. Se perde tanto, você
poderá ficar descapitalizado.
TROMBUDO – Aí você se engana. Minhas operações são todas de day-
trade. Não ponho dinheiro, e só acerto pelas diferenças. Estou esperando
o dia em que possa levar dinheiro para casa sempre. Aí me considerarei
um profissional.
AUTOR (com ironia disfarçada) – O corretor deve tratar você muito,
bem, não?
TROMBUDO – Temos bom relacionamento. Hoje vou almoçar com ele
no intervalo do pregão.
Estou ao lado de um Especulador, no terminal da corretora.
ESPECULADOR – Há boatos sobre bom lucro da Telebrás. Comprei
por 12 a OTC4 com exercícios de 75, não vendi quando chegou a 16
porque os gráficos diziam que ia subir mais, e o papel caiu para 11...
Veja! Agora está caindo ainda mais. Se atingir 9 eu vendo em dobro,
porque aí é o sinal do desmoronamento final do Mercado.
AUTOR – Se vender a 9, em dobro, você leva prejuízo na compra que
fez e ainda fica a descoberto. Não é perigoso ficar “vendido” quando se
aproxima a data do exercício?
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ESPECULADOR (não responde, dá meia-volta excitado e manda o
corretor vender a 9 e em dobro. E volta, alegre) – Fique olhando o vídeo.
Todo mundo passou a vendedor. E o índice está caindo para o nível de
suporte. Êpa! Está furando... Furou! Agora tenho a certeza de que não
haverá exercício e que tudo vai para o ralo.
De fato, tudo despenca, uma ação atrás da outra, como as mercadorias de
uma prateleira: os prêmios e as principais ações do mercado à vista. Eu e
ele saímos para tomar café num bar. O Especulador está muito confiante em
que suas previsões vão dar certo. Ninguém ousará levantar novamente os
preços, uma vez que os gráficos o proíbem.
Depois voltamos e ficamos no salão da corretora. De repente vejo que
ele fica alvoroçado. Surpresa! Tudo volta a subir. O Mercado parece um
foguete. Será que se confirmou o boato dos bons lucros da Telebrás?
A operação de opções vendida a descoberto por 9 está agora em 12. Meu
amigo vai trêmulo para a mesa do corretor e manda “torrar” tudo.
Por agir depressa, ele se considera Especulador mais rápido que o
gatilho. Seu prejuízo nesse dia foi de 12 milhões. Usando o mesmo método,
no dia anterior tinha ganho 16 milhões.
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LEITURA COMPLEMENTAR
DIA DE LEÃO E DIA DE CERVO
(Transcrito de BALANÇO FINANCEIRO, agosto de 1989) Recente trabalho publicado
pela Bolsa de Valores de Nova York revelou que 72% dos Especuladores pessoas
físicas perdem dinheiro em Wall Street.
Essa notícia faz-me lembrar de pesquisa que realizei há alguns anos, em busca de
dados para a GAZETA MERCANTIL. Ao consultar os fichários da corretora de um
amigo meu, notei que 70% dos clientes operavam às cegas, como quem atira no
escuro. Ao longo do tempo, perdiam feio.
Eu já tinha visto algo semelhante no livro THE STOCK EXCHANGE – A SHORT
STUDY OF INVESTMENT AND SPECULATION, edição de 1948, da Oxford
University Press (London, New York, Toronto), de autoria de Francis W. Hirst.
Especuladores aparecem ali como indivíduos desequilibrados, que, por terem
monstruosos números fictícios girando na cabeça, acabam perdendo todo contato
com a realidade e toda noção do
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