(JLF)A Mina de Ouro - Agatha Christie
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(JLF)A Mina de Ouro - Agatha Christie


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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por
dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."
 
Título do original inglês:
The Golden Ball and Other Stories
© 1924, 1926, 1929, 1934, 1971 by Christie Copyrights Trust
 
Capa
Rolf Gunther Braun
 
Tradução
Milton Persson
 
Revisão
A. Tavares
 
Direitos adquiridos com exclusividade, para o Brasil, pela
EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A.
Rua Maria Angélica, 168 - Lagoa - CEP. 22.461 - Tel.: 286-7822
Endereço Telegráfico - NEOFRONT
Rio de Janeiro - RJ
 
Proibida a exportação para Portugal e países
africanos de língua portuguesa
Índice
A Mina de Ouro
O Mistério de Lord Listerdale
A Moça do Trem
A Bravura de Edward Robinson
Jane Procura Emprego
Um Domingo Frutífero
A Esmeralda do Rajá
O Canto do Cisne
O Cão da Morte
A Cigana
O Lampião
O Estranho Caso de Sir Andrew Carmichael
O Chamado das Asas
Flor de Magnólia
Não Fosse o Cachorro
A mina de ouro
George Dundas estava parado em plena City* pensando. (Área financeira de Londres.)
De todos os lados, simples funcionários e gente empenhada em ganhar dinheiro surgiam e
passavam como avassaladora maré. Mas George, impecavelmente vestido, as calças muito
bem frisadas, nem prestava atenção. Só procurava encontrar uma forma de sair daquela
situação.
Não era para menos. Entre ele e o tio rico (Ephraim Leadbetter, da firma Leadbetter &
Gilling) tinha-se travado o que as classes inferiores chamam de \u201cbate-boca\u201d. A bem da
verdade, diga-se que o bate-boca havia partido quase que exclusivamente de Mr. Leadbetter.
As palavras jorravam de seus lábios numa torrente incontida de revolta e indignação, e o fato
de no fundo se resumirem também quase que exclusivamente em repetições nem parecia
perturbá-lo. Limitar-se a dizer uma coisa apenas uma vez, de modo bem claro e conciso, não
figurava entre os lemas de Mr. Leadbetter.
A causa era bem simples: o estouvamento e a irresponsabilidade criminosa de um rapaz
que, tendo de trabalhar para ganhar a vida, se ausenta do emprego no meio da semana sem se
dignar a pedir licença. Mr. Leadbetter, depois de dizer tudo o que lhe veio à cabeça, e boa
parte já pela segunda vez, parou para tomar fôlego e perguntar o que George pretendia com
aquilo.
George respondeu simplesmente que tinha sentido vontade de tirar um dia de folga. Umas
férias, para ser mais exato.
E o que, quis saber Mr. Leadbetter, vinham a ser as tardes de sábado e os domingos? Sem
falar na festa do Espírito Santo, há pouco tempo, e no feriado bancário de agosto, que não
tardaria a chegar?
George frisou que não gostava de tardes de sábados, nem de domingos ou feriados
bancários. Queria ter um dia de verdade, quando fosse possível encontrar algum lugar ainda
não invadido por metade da população londrina.
Mr. Leadbetter declarou, então, que havia feito todo o possível pelo filho de sua finada
irmã \u2014 ninguém poderia dizer que não lhe tivesse dado uma oportunidade. Mas,
evidentemente, de nada adiantava. Assim, para o futuro, George disporia de cinco dias de
verdade por semana, além do sábado e do domingo, para fazer o que bem entendesse.
\u2014 Rapaz, você teve nas mãos uma mina de ouro \u2014 acrescentou, num toque final de
retórica, \u2014 e não soube aproveitar.
George retrucou que, na sua opinião, era justamente isso que tinha feito e Mr. Leadbetter,
trocando a retórica pela cólera, ordenou que se retirasse.
Eis, pois, George... perdido em cogitações. O tio voltaria atrás ou não? Sentiria no íntimo
algum afeto pelo sobrinho ou apenas uma indiferença brutal?
Nesse momento exato ouviu uma voz \u2014 a mais inesperada de todas.
\u2014 Olá!
Parado no meio-fio a seu lado estava um carro esporte, vermelho, de capô quilométrico,
trazendo ao volante aquele fino e popular ornamento da nossa melhor sociedade, Mary
Montresor (segundo a descrição dos jornais que lhe publicavam a fotografia pelo menos uma
vez por semana). E sorria de um modo irresistível para George.
\u2014 Nunca imaginei que um homem pudesse lembrar tanto uma ilha \u2014 disse. \u2014 Quer dar
uma volta?
\u2014 Nada me agradaria mais \u2014 respondeu George, sem hesitar, saltando para o assento
vizinho.
Avançaram lentamente porque o tráfego não permitia outra coisa.
\u2014 Cansei disto aqui \u2014 declarou Mary Montresor. \u2014 Vim só para ver como era. Vou
voltar para Londres.
Não se atrevendo a corrigir-lhe a imprecisão topográfica, George respondeu que lhe
parecia uma ótima ideia. Foram indo, às vezes devagar, outras com súbitos acessos de
velocidade, quando Mary Montresor encontrava oportunidade de ultrapassar alguém. George
teve impressão de que era meio otimista nesse sentido, mas consolou-se com a ideia de que
ninguém morre mais que uma vez. Achou melhor, porém, não puxar conversa. Preferia que a
sua bela motorista concentrasse a atenção no que estava fazendo.
Foi ela quem recomeçou a falar primeiro, escolhendo o momento em que descreviam uma
curva alucinada em torno de Hyde Park Corner.
\u2014 Você não quer casar comigo? \u2014 perguntou com a maior naturalidade.
George engoliu em seco, reação que talvez se pudesse atribuir a um ônibus enorme que
parecia disposto a esmagá-los. Orgulhou-se da prontidão de sua resposta:
\u2014 Adoraria \u2014 disse, com a maior facilidade.
\u2014 Pois olhe \u2014 retrucou Mary Montresor, vagamente. \u2014 Qualquer dia destes talvez você
case.
Entraram na reta, sem acidentes, e no mesmo instante George avistou novas manchetes
reproduzidas com destaque à entrada da estação de metrô de Hyde Park Corner. Espremidas
entre GRAVE SITUAÇÃO POLÍTICA e CORONEL LEVADO AOS TRIBUNAIS, numa se lia
MOÇA DA SOCIEDADE CASA COM DUQUE e na outra O DUQUE DE EDGEHILL E MISS
MONTRESOR.
\u2014 Que história é essa de Duque de Edgehill? \u2014 inquiriu George com firmeza.
\u2014 Entre mim e o Bingo? Nós noivamos.
\u2014 Mas então... o que você disse agorinha mesmo...
\u2014 Ah, aquilo \u2014 retrucou Mary Montresor. \u2014 Sabe o que é, ainda não resolvi com quem
vou casar realmente.
\u2014 Então por que noivou com ele?
\u2014 Foi só pra ver se eu conseguia. Todo mundo vivia dizendo que seria tremendamente
difícil, e não foi nem um pouco!
\u2014 Que azar para... o Bingo \u2014 disse George, vencendo o constrangimento de chamar um
duque autêntico pelo apelido.
\u2014 Não vejo por quê \u2014 disse Mary Montresor. \u2014 Vai ser até bom para ele... embora eu
duvide que haja alguma coisa que possa ser boa para o Bingo.
George fez outra descoberta \u2014 novamente com o auxílio de um cartaz colocado de
maneira estratégica.
\u2014 Mas claro, hoje é dia de corridas em Ascot. Como se explica que você não tenha ido?
Mary Montresor deu um suspiro.
\u2014 Estava precisando de umas férias \u2014 disse, em tom de queixume.
\u2014 Pois eu também \u2014 exclamou George, encantado. \u2014 E só consegui que meu tio me
botasse no olho da rua, para passar fome.
\u2014 Quer dizer, então, que se nós casarmos, as minhas vinte mil libras anuais talvez venham
a calhar?
\u2014 Não há que negar que nos proporcionariam certos confortos domésticos \u2014 admitiu
George.
\u2014 Por falar nisso \u2014 lembrou Mary, \u2014 vamos dar uma volta aí pelo interior para ver se
se encontra uma casa que dê para a gente morar.