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Sebenta Socio-Antropologia


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Beatriz Cruz 
1 
 
FREQUÊNCIA DE SÓCIO-ANTROPOLOGIA DA SAÚDE 
 
O problema do conhecimento nas ciências sociais 
Todas as ciências têm como objectivo o conhecimento da realidade social. As ciências, no 
seu processo de conhecimento dos “objetos reais”, dos objetos de que o mundo realmente se 
compõe, criam “objectos de conhecimento”, objetos que são definidos por conceitos e valores 
construídos pela própria ciência: produção científica do conhecimento e diferente do real em 
si. 
O que é dado a conhecer é uma construção de conceitos e ideias que é diferente da 
realidade, uma apropriação do real, uma interpretação social, uma leitura da realidade. 
 
Como conhecer cientificamente a realidade social? 
A produção e a aceitação de conhecimentos científicos nas ciências sociais defronta-se com 
obstáculos e resistências específicas: 
 
1º: A realidade social parece-nos “familiar”, “evidente” 
A realidade social apresenta-se-nos na experiência vulgar como susceptível de ser 
imediatamente apreendida e compreendida e, participando nela quotidianamente, sentimos 
que já estamos familiarizados e julgamos, portanto, conhecê-la. 
Qualquer pessoa se mostra capaz de falar sobre a sociedade e o que nela se passa, 
reproduzindo explicações “naturais”, espontâneas sobre o social que parecem evidentes. 
 
2º: O uso do mesmo vocabulario 
 
3ª: As interpretações do senso comum 
As concessões do senso comum dão, na prática, não um conhecimento mas um 
“reconhecimento” do mundo a que se pertence. Legitimam a nossa maneira de ver o mundo e 
funcionam como ideologia. 
 
“A explicação do social pelo social” (E. Durkheim) 
Não podemos descrever e interpretar o social em termos não sociais. Não podemos explicar a 
tradição de uma sociedade em termos naturais ou metafísicos. A sociedade é explicada pela 
própria. O facto de ser usar turbante ou de se casar não pode ser explicado pela biologia ou 
pela anatomia, mas sim pelos hábitos daquela sociedade específica. 
 
O conhecimento científico sobre a realidade: 
 É sempre uma produção/construção elaborada por um grupo/sociedade 
 Implica provas e fundamentos que pode ser corroborados 
 Conhecimento generalizado 
 Aplicação de um método 
 Conhecimento objetivo 
 
 
O SENSO COMUM 
O senso comum é um conhecimento não fundamentado que se apresenta como uma verdade 
dogmática (afirmação sem provas), não absoluta com preconceitos, ou seja, préadquiridas. O 
senso comum generaliza em exagero, bastando apenas pequenos casos para ser regra. É útil 
para os indivíduos, é cómodo porque dá uma justificação imediata de algo de acordo com os 
valores. É um conhecimento subjetivo c/ opinião particular. 
 
 Beatriz Cruz 
2 
 
1. Senso Comum Naturalista 
explica os comportamentos como se se tratassem de biologia, genética, inato, 
natural. 
Ex: como é rapariga, gosta de cor-de-rosa 
 
2. Senso Comum Individualista 
explica os acontecimentos dizendo que o sucesso individual de cada um depende 
dele próprio, seja a nível de saúde, escola ou trabalho 
PER SI (“cada um por si”) – logo quando acontece-nos algo, a culpa é nossa 
A nossa sociedade utiliza mais este senso comum pelo facto de termos livre arbítrio 
e possibilidade de escolhas 
O grande problema deste senso comum é que não podemos culpar o própria 
indivíduo por tudo que lhe acontece pois ele está condicionado pela economia, 
ambiente, sociedade e família. O sujeito não controla tudo o que o rodeia. 
Ex: o facto de ser obeso pode também depender da indústria alimentar que coloca 
alimentos com calorias a mais que o normal, e não apenas do indivíduo 
 
3. Senso Comum Etnocêntrico 
avalia comportamentos de outras culturas a partir da própria, considerando que os 
outros fazem mal e “nós” é que fazemos o certo. 
envolve a desclassificação do outro 
Ex: etnocentrismo de género - machismo; etnocentrismo geracional; etnocentrismo 
racial; etnocentrismo religioso. 
 
PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO E PAPÉIS SOCIAIS 
 
O ser humano como ser social: 
A socialização torna o individuo apto a viver em sociedade, capacitando-o a interagir como 
ser social e a participar no grupo a que pertence – Integração social. 
 
Interação Social: acção recíproca de ideias, actos ou sentimentos, entre pessoas, entre grupos 
ou entre pessoas e grupos. A interacção implica modificação do comportamento das pessoas 
ou grupos que dela participam. É a base da vida social e é responsável pela socialização dos 
indivíduos. Na interacção social, as acções de uma pessoa dependem das acções do outro e 
vice-versa – pressupõe que haja comunicação, partilha, entendimento mútuo 
 
SOCIALIZAÇÃO 
Aquisição de maneiras de agir, pensar e sentir próprias dos grupos, da sociedade ou da 
civilização em que o indivíduo vive. Processo de aquisição de cultura, que se inicia desde que 
se nasce e que ao longo da vida do sujeito lhe permite adaptar-se, integrar-se e comunicar 
com o grupo, funcionando de forma integrada na sociedade. 
É a socialização que permite ao Homem de ser um ser social e isso é evidenciado pelo 
exemplo dos meninos selvagens, os quais foram privados de socializar 
 
Socialização Primária: 
 Aquela que acontece nas crianças 
 Tem lugar sobretudo na família 
 Aprendizagem inquestionável dos comportamentos e valores 
 Incorporação da cultura de classe/ grupo de pertença 
A socialização primária é feita por identificação-emoção 
 
 Beatriz Cruz 
3 
 
Inclui a interiorização que é a apreensão ou interpretação imediata de um acontecimento 
objetivo como dotado de sentido. É o assumir o mundo no qual os outros vivem, como nosso 
mundo. 
A socialização primária é a de maior importância e costuma ter para o indivíduo o valor mais 
importante. A criança não recebe apenas o “mundo”, como recebe também os valores que o 
seu grupo dão a esse mundo. Este mundo recebido (dos pais) é incontestado e único! 
Ex: estudo que viu as diferentes interpretações de “homem valente” em crianças de classe alta 
e de classe baixa, através do desenho 
 
 
Socialização Secundária: 
 Qualquer processo subsequente que introduz um indivíduo já socializado em novos 
sectores do mundo objectivo da sua sociedade 
 Aprendizagem das regras e linguagem dos vários grupos a que o sujeito vai 
pertencendo 
 A socialização secundária é, na maior parte do tempo, um processo de aprendizagem 
de papéis 
 
Papel social: conjunto de direitos, obrigações e expectativas culturalmente definidas que 
acompanham cada posição (estatuto) que o indivíduo tem na sociedade. 
Ex: papel social de pai, professor, enfermeiro, aluno 
As interacções decorrem eficazmente dentro de uma certa ordem social, num sistema de 
papéis em que os comportamentos são expectáveis. 
 
Comportamento desviante: que não corresponde às expectativas da sociedade ou de um 
grupo determinado dentro dela, face a um determinado papel. Comportamento que se afasta 
das normas adoptadas. 
O desvio social é uma violação das regras sociais e acontece quando alguém quebra os 
valores e as normas amplamente aceites. 
 
A CULTURA E A SOCIEDADE 
 
Abordagem Interacionista da Cultura 
A cultura é o sistema de símbolos que uma população cria e usa para se organizar, facilitar a 
interacção e os modos de organização social. 
A cultura é o todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, direito, 
costumes e outras capacidades e hábitos adquiridos e produzidos pelo homem como membro 
da sociedade. 
 
 A cultura compreende os padrões de ideias, valores e crenças comuns a um grupo 
particular de pessoas 
 A cultura de um grupo diferencia-o de outros grupos, distingue. 
 A cultura contém os significados, atribui os significados ou sentidos às coisas. 
 
A pluralidade dos contextos de interacçãoexplica o carácter plural e instável de toda a 
cultura e também os comportamentos aparentemente contraditórios de um mesmo indivíduo 
por meio desta abordagem. Torna-se possível pensar a heterogeneidade de uma cultura em 
vez de se tentar a todo o custo, descobrir a sua homogeneidade ilusória, e é aqui que entra o 
conceito de subcultura. 
 
 
conjunto de traços identificáveis e que são 
comuns e caracterizam um grupo, dando-lhe 
uma certa homogeneidade dentro da cultura 
mais vasta a que pertencem 
 Beatriz Cruz 
4 
 
Características que compõem a cultura 
 tudo o que é produzido pelo ser humano 
 estabelece os limites em que se desenvolve a acção social 
 construída e compartilhada pelos membros de uma sociedade 
 apresenta elementos materiais e imateriais 
 manifesta-se por meio de diversos sistemas (linguagem, tecnologia, valores, crenças, 
normas, conhecimentos) 
 
A cultura raramente é um recurso neutro. Inclina-nos para uma forma de 
pensar/julgar e agir. 
Os símbolos culturais influenciam a nossa visão das coisas, as nossas ações no 
mundo, as interações com os outros e ditam os comportamentos sociais. 
 
 As ideias, valores, e crenças de um grupo, têm profunda implicação na 
motivação das pessoas agirem de certa forma. 
 As ideias, valores, e crenças de um grupo, são representadas em símbolos e 
artefactos 
 A cultura é aprendida. Transmitida de geração em geração. Os indivíduos 
interiorizam as ideias, valores, e crenças do seu grupo de tal modo que se 
tornam como “uma segunda natureza”, parecem-lhe naturais. 
 A cultura é arbitrária. Depende das condições de vida dos diferentes grupos. 
 Cultura como sinónimo de ideologia. A cultura dominante na sociedade é a da 
classe dominante 
 
ACULTURAÇÃO 
 
“A ACULTURAÇÃO é um conjunto de fenómenos que resultam de um contacto contínuo e 
direto entre grupos de indivíduos de culturas diferentes e que acarretam transformações dos 
modelos (patterns) culturais iniciais de um ou dos dois grupos” 
 
 A aculturação pode produzir-se em situações de dominação e de subordinação, por 
exemplo, em pessoas que emigram. A aculturação não acarreta forçosamente o 
desaparecimento dessa cultura (original) nem a modificação da sua lógica interna que 
pode continuar a predominar. 
 
Existem diferentes níveis de aculturação – Reinterpretação: 
Processo através do qual significações antigas são atribuídas a elementos novos ou através 
do qual novos valores transformam a significação cultural de formas antigas 
 
TIPOS DE CULTURAS 
 
1. CULTURAS POPULARES 
Constroem-se numa situação de dominação e são culturas de contestação 
Cultura comum das pessoas comuns feita nos quotidianos 
Assente nos consumos, nos usos do consumo, nas maneiras de lidar com os 
consumos 
Culturas ambivalentes: ao mesmo tempo de aceitação e de negação 
 
 
 Beatriz Cruz 
5 
 
2. CULTURA DOS IMIGRADOS 
Expressão aparece em France nos anos 70 
usada com uma representação específica e errónea que remete quase sempre para 
a “cultura de origem” dos imigrados, ou seja, para a cultura dos seus países de origem. 
A “promoção das culturas imigradas” não passa de uma promoção dos aspetos mais 
folclóricos dessas culturas, como a música, danças, cozinha tradicional,... 
 
 Confunde-se “cultura de origem ” com cultura nacional como se a cultura do pais de 
origem fosse homogénea e como se fosse imutável, quando é essencialmente o 
contrário. 
 O imigrante não pode ser o representante da cultura do seu país nem sequer da sua 
comunidade particular 
 A chamada “cultura dos imigrados” é, portanto, na realidade, uma cultura definida 
pelos outros. É uma cultura construída por antítese 
 É impossível aos imigrados permaneceram completamente impermeáveis à 
cultura da sociedade ambiente. 
 As culturas dos imigrados são culturas próprias , especificas destes grupos, não 
são as culturas de origem. 
 
3. CULTURA DE MASSAS 
 (Cultura de consumo, cultura global) 
modo de produção desta cultura assenta nos mesmos esquemas da produção 
industrial de massa 
Consumo da cultura dos mass media que produz um nivelamento entre as classes 
sociais, um certo efeito de uniformização 
 
MAS , não é pelo facto de uma massa de indivíduos receber a mesma mensagem que essa 
massa passa a constitui um conjunto homogéneo. Por muito “padronizado” que possa ser o 
produto de uma emissão, a sua recepção pode não ser uniforme e depende muito das 
particularidades culturais de cada grupo, bem como da situação que cada grupo conhece no 
momento da recepção. 
 
4. CULTURAS DE CLASSE 
Os modelos de valores, os modelos de comportamento e os princípios de 
educação variam sensivelmente de uma classe para a outrA 
Estas diferenças culturais podem observar-se até mesmo nas práticas 
quotidianas mais comuns, como a alimentação 
 
A NOÇÃO DE HABITUS 
 O habitus é aquilo que caracteriza uma classe ou grupo social por comparação com 
outros que não partilham as mesmas condições sociais. 
 Às diferentes posições num dado espaço social correspondem estilos de vida 
diferentes que são a expressão simbólica das diferenças inscritas objectivamente nas 
condições de existência. 
 Explica porque é que os membros de uma mesma classe agem, a maior parte das 
vezes, de modo semelhante sem terem necessidade de se concertarem a esse 
respeito. 
 O habitus é , portanto, aquilo que permite aos indivíduos orientarem-se no espaço 
social que é o seu e adoptarem práticas concordantes com a sua pertença social 
 Esquemas inconscientes de percepção, pensamento e ação 
 Beatriz Cruz 
6 
 
DO BOM USO DO RELATIVISMO CULTURAL 
 
Não há cultura que não tenha significado para os que nela se reconhecem. 
 
RELATIVISMO CULTURAL – ambiguidade 
 Teoria segundo a qual as culturas são absolutamente separadas, completamente 
distintas umas das outras, o que não é verdade! 
 Relatividade cultural como princípio ético: afirmação do valor intrínseco de cada 
cultura. 
 Muitas vezes o relativismo ético não passa de uma atitude elegante do forte frente ao 
mais fraco, uma certa condescendência perante a alteridade. 
 O direito à diferença pode cair na imposição da diferença. 
 
As culturas não são isoladas e não são blocos fechados que se devem manter intocáveis. A 
culturalização é permeável! 
 
Como a sociedade atual respeita as diferenças culturais? 
Remetemos-nos à esfera privada, ou seja, no espaço dele podem fazer o que quiserem. Porém, 
nas instituições devem ser respeitadas as regras. 
Ex: Sarcozy proibiu o uso de véu por meninas islâmicas na escola, dizendo que nas escolas 
primárias francesas ninguém usa véu, podendo usar os mesmos noutros locais mais privados. 
As culturas dos emigrantes são sempre dominadas, sendo-lhes imposta a cultura do país. 
 
DESIGUALDADES SOCIAIS 
 
As desigualdades sociais não dizem respeito às diferenças naturais dos indivíduos (idade, 
género….) mas às desigualdades de acesso e oportunidades socialmente estruturadas. 
É uma desigualdade socialmente condicionada no acesso a recursos e a oportunidades. 
Sendo que estes recursos detêm uma importância estratégica na vida das pessoas. 
Uma desigualdade social deverá resultar, sobretudo, de um grau desigual de acesso a bens, 
serviços ou oportunidades, cuja raíz explicativa se encontre nos próprios mecanismos da 
sociedade. 
 
“É a esta divisão das sociedades em camadas ou classes desigualmente favorecidas que se 
aplica corretamente a noção de ESTRATIFICAÇÃO: repartição desigual dos direitos, dos 
poderes, das riquezas e de todas as outras vantagens ou desvantagens entre as diversas 
frações da população” (Girod, 1984) 
 
Estratificação social 
divisão das sociedades em classes ou camadas desigualmentefavorecidas, sendo que os 
seus ocupantes têm acesso desigual a oportunidades sociais e recompensas. 
 
 A sociedade não coloca todos os indivíduos com acesso igual ao mesmo tipo de bens e 
oportunidades, as pessoas ocupam posições de acesso diferenciados a esses bens 
Ex: sistemas de ordem, sistemas de castas, regime apartheid, escravatura 
 
Estrato: conjunto de pessoas que detêm o mesmo “status” ou posição social. 
 
 
 
 Beatriz Cruz 
7 
 
Os sistemas de estratificação podem ser mais ou menos estanques (fechados, rígidos) ou, 
pelo contrário, abertos, permitindo mobilidade social (ascendente ou descendente). Contudo, 
os estratos sociais mais privilegiados tendem sempre a procurar a manutenção dos seus 
privilégios e, portanto, têm uma atitude de fechamento. As mais fechadas são, por exemplo, 
os sistemas de ordens ou de castas. As mais abertas é, por exemplo, o sistema de classes, 
porém as transições são de curto alcance. 
 
GRUPOS DE DESIGUALDADES (classes) 
 Indivíduos que dispõem de atributos idênticos (rendimento, escolarização, poder, 
posição de prestigio, acesso ao mercado de trabalho…) 
 Uma dimensão comum: a posse de determinados condicionantes objectivos (explo: 
dinheiro, escolaridade), leva a uma comunhão de interesses, estilos de vida, 
linguagens, padrões de comportamento, atitudes políticas, gostos pessoais, ou seja de 
uma identidade própria, uma identidade comum 
 Partilham “oportunidades de vida” idênticas 
 
EXCLUSÃO SOCIAL 
 Identificação de uma situação “normal”, ou média, abaixo da qual podemos considerar 
os indivíduos como “excluídos” ou desfavorecidos 
 A situação de exclusão pode ser definida como o oposto de “integração social”. 
 A impossibilidade em participar nas principais organizações e instituições da sociedade 
representa uma “exclusão social” 
 Num sentido amplo, a noção de exclusão pode abranger a ausência de vários direitos 
de cidadania 
 
A definição mais habitual de definição de exclusão acontece em relação ao 
rendimento, ou nível económico de vida – POBREZA. 
 
 
POBREZA – falta de um conjunto de recursos tal que as pessoas, famílias ou categorias 
abrangidas, tendem a estar excluídas das formas mais simples dos modos de vida, hábitos e 
actividades considerados normais nos seus países 
Pobreza absoluta = falta de requisitos básicos para ter uma existência fisicamente eficiente do 
corpo. 
Pobreza relativa = falta de recursos considerados necessários para a manutenção de um 
padrão de vida considerado “normal” na sociedade. 
 
TEORIAS DA ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 
 
1. KARL MARX: Teoria Macrossociológica 
A dimensão económica é a base da estratificação 
 
Classes sociais 
 Relação das classes com os meios de produção 
 São o “resultado” de um modo de produção (capitalista) 
 Na sociedade capitalista, de forma geral, podem-se distinguir maioritariamente duas 
classes sociais: burguesia e proletariado 
 
Burguesia: composta pelos proprietários dos meios de produção 
Proletariado: composta por aqueles que, não dispondo dos meios de produção , têm de 
vender ao mercado a sua força de trabalho 
 Beatriz Cruz 
8 
 
As classes constituem um sistema de relações em que cada uma pressupõem a existência da 
outra. 
O que marca a relação de classes é o conflito: “Classes médias” – entre a burguesia e o 
operariado, como é exemplo os pequenos comerciantes. 
 
2. MAX WEBER 
Considera que uma única característica da realidade social (como a classe social, 
com base no sistema de relações de produção) não define totalmente a posição de 
uma pessoa dentro do sistema de estratificação. 
Afirma que a poisição de uma pessoa no sistema de estratificação reflete a 
combinação da sua: 
 Classe sociais (esfera económica/profissão rendimentos) 
 Grupos de status (prestigio social, estilos de vida) 
 Partidos políticos (poder, participação política) 
 
Classes sociais 
Grupo de pessoas que se encontra em igual posição de classe, ou seja: 
 possui níveis idênticos de rendimentos/habilitações profissionais 
 têm os mesmos consumos - estilos de vida 
 têm oportunidades de vida semelhantes 
 
ESTRUTURA DE CLASSES E MOBILIDADE SOCIAL 
 
Classes: categorias sociais cujos membros, em virtude de serem portadores de montantes e 
tipos de recursos semelhantes, tendem a ter condições de existência semelhantes e a 
desenvolver afinidades nas suas práticas e representações sociais, ou seja, naquilo que fazem e 
naquilo que pensam. 
 
Estruturas de Classe: sistemas duradouros de diferenças, a esses vários níveis, entre indivíduos 
que ocupam distintos lugares de classe 
 
Mobilidade Social: movimentos ascendentes, descendentes ou estacionários percorridos por 
indivíduos, famílias ou grupos entre posições diferentes da estrutura de classe.. 
 
 
 Pode ser de longo alcance ou de curto alcance, sendo que a de curto é a mais comum 
 Existindo a possibilidade de alterar a condição social de origem, a desigualdade de 
oportunidades é persistente 
 A origem de classe condiciona o estatuto social futuro 
 A mobilidade ascendente é sempre favorecida por períodos de crescimento 
económico e nos períodos de crise assiste-se a maiores probabilidades de mobilidade 
descendente 
 
 
 
 
 
 
 Beatriz Cruz 
9 
 
TIPOS DE DESIGUALDADE 
 
Desigualdades sociais de raça, género e idade 
Existem outros factores de descriminação e desigualdade social para além do factor 
económico, prestígio social ou poder. A raça, o género e a idade podem ser também de 
factores de descriminação, contudo, o mais frequente é eles acrescerem, ou tornarem-se 
cumulativos com o factor económico. 
 
 
1. DESIGUALDADES DE RAÇA/ETNIA 
 Configuram agrupamentos humanos identificados por características externas 
– quer sejam culturais (modos de vida, de falar, hábitos, costumes) – quer 
sejam físicas ou hereditárias (cor da pele, traços fisionómicos). 
 Quer o conceito de raça (típicos físicos) quer o de grupo étnico 
(comportamentos, culturas), só se tornam sociologicamente relevantes na 
medida em que recai sobre estes grupos um conjunto de expectativas sociais e 
de comportamentos baseados em estereótipos, provocando (re)acções e 
gerando atitudes diferenciadas e diferenciadoras, tais como: preconceito, 
discriminação, grupo minoritário. 
 
Grupos Minotários 
Um grupo minoritário (minoria) é um conjunto de pessoas que pelas suas características 
físicas ou culturais, se diferenciam dos outros membros da sociedade em que vivem e recebem 
um tratamento diferenciado e desigual. 
Um grupo minoritário é geralmente um grupo dominado (subordinado, cujos membros se 
encontram em desvantagem, com menos poder ou controlo das suas próprias vidas, do que o 
grupo dominante). 
 
Preconceito 
Julgamento do outro baseado num estereótipo preconcebido ou numa generalização. 
Consiste numa ideia, atitude, pensamento ou opinião desfavorável que um indivíduo ou 
grupo demonstra em relação a outros indivíduos ou grupos. 
O preconceito é uma atitude negativa em relação ao outro. 
 
Discriminação 
É uma acção deliberada e intencional de tratar um grupo social de maneira injusta e 
desigual. 
 
PRECONCEITO E DISCRIMINAÇÃO 
Geralmente os dois aspectos estão conjugados, mas tal pode não ser assim. O preconceito 
refere-se a uma atitude, um sentimento interior. Discriminação é o comportamento adoptado 
face ao outro. 
 É possível ser preconceituoso, mas não traduzir o preconceito numa acção de 
discriminação. E a discriminação pode ocorrer sem um sentimento de 
preconceito. 
 O preconceito e a discriminação levam a que os indivíduos a que a eles são 
sujeitos sejam excluídos dos direitos e privilégios que os demais membros da 
sociedade possuem, restringindo a sua participação e integração como 
cidadãos de pleno direito.Beatriz Cruz 
10 
 
2. DESIGUALDADE DE GÉNERO 
 
Género: relativo a comportamentos socialmente construídos diferencialmente atribuídos a 
mulheres e homens. O género referencia, portanto, variações de papéis culturalmente 
contextualizados, mutáveis, aprendidos no processo de socialização. 
Os estereótipos do que significa ser homem e do que significa ser mulher são muitas vezes 
vertidos para a divisão sexual do trabalho, sendo que na divisão mais tradicional era sobretudo 
desqualificante para as actividades femininas. O trabalho das mulheres era socialmente menos 
valorizado e remunerado. 
 
 O facto biológico da diferença de sexos é tornado socialmente numa diferença não 
biológica de género, podendo ser factor de desigualdade social. 
 Actualmente, na nossa sociedade, as desigualdades sociais assentes na diferenciação 
dos géneros são muito menos comuns e inaceitáveis do ponto de vista dos valores, 
mas as práticas podem ainda ser discriminatórias. 
 
3. DESIGUALDADE DE IDADE (VELHICE) 
 Com o avanço da medicina e a melhoria da qualidade de vida em muitas partes do 
mundo, o envelhecimento da população tornou-se um fenómeno mundial 
 Houve um queda das taxas de fecundidade e uma diminuição da percentagem de 
crianças na população 
 Problema do envelhecimento: representações sociais que desvalorizam o idoso 
 
A taxa de fecundidade é o número de nados vivos durante o ano, referido ao efectivo médio 
de mulheres em idade fértil (entre os 15 e os 49 anos) desse ano. Normalmente, expressa-se 
em número de nados vivos por 1000 mulheres em idade fértil. 
 
ENVELHECIMENTO BIOLÓGICO = Processo natural 
 
 
 SOCIAL = Idade da reforma 
 
O índice de envelhecimento é a relação entre a população idosa e a população jovem, 
definida habitualmente como o quociente entre o número de pessoas com 65 ou mais anos e o 
número de pessoas com idades compreendidas entre os 0 e os 14 anos. 
 
PROBLEMA SOCIAL DA VELHICE 
 As transformações que ocorreram nas sociedades industrializadas e o gradual 
envelhecimento das suas populações proporcionam as condições para que 
socialmente se começasse a considerar a velhice como situação problemática a 
necessitar de apoio social 
 A velhice tornou-se um problema social 
 Passou a mobilizar meios (reformas, cuidados de saúde, etc) 
 Associada à pobreza ou à escassez de meios materiais, à solidão, à doença, e ao 
isolamento 
 
 
 
Aparecimento de um novo campo científico: Gerontologia 
 
 Beatriz Cruz 
11 
 
IDOSOS E POBREZA 
“População idosa é a mais pobre entre os pobres” 
 
A população idosa é dos grupos mais vulneráveis à pobreza e à exclusão social pois tem, 
normalmente, baixos rendimentos, baixos níveis de instrução, menos condições de acesso aos 
cuidados de saúde, assim como a alojamento ou bens que lhe permita algum conforto. 
 
 
DESIGUALDADES SOCIAIS EM SAÚDE 
 
 São as diferenças de saúde, doenças, morbilidade e mortalidade entre os grupos 
sociais, diferenças essas que reproduzem a divisão entre ricos e pobres, favorecidos e 
desfavorecidos, independentemente das diferenças individuais, hereditárias, 
fisiológicas e psicológicas. 
 A saúde-doença é afectada por factores exteriores ao individuo, ou seja pelo 
ambiente,em que as pessoas vivem: 
o Ambiente natural: condições físicas e climáticas, geografia, condições 
do ar, da água 
o Ambiente físico construído: tipo de habitação, local trabalho, estradas 
o Ambiente sócio-económico: disponibilidade de recursos básicos e de 
conforto, educação, informação, tipo de trabalho, consumos 
 
Todos esses factores interferem com a vida individual, aos vários níveis biológico, 
psicológico e social, afectando a probabilidade de viver com saúde ou doença, de morrer mais 
cedo ou ter uma vida mais longa. 
 
 O desenvolvimento sócio-económico reflecte-se nos perfis de saúde das populações. 
Aos países menos desenvolvidos correspondem as maiores taxas de mortalidade. 
 Aos grupos socialmente mais desfavorecidos correspondem sempre os piores 
indicadores de saúde. 
 As pessoas das categorias sócio-económicamente mais desfavorecidas morrem, em 
média, mais cedo do que as das classes médias e altas. 
 
 
“A saúde é principalmente determinada pelas condições materiais de existência 
 (alimentação, água potável, habitat e condições de trabalho). A acessibilidade aos serviços e 
bens de saúde é importante mas os seus resultados só se fazem 
sentir se estiverem asseguradas as condições de vida básicas (OMS)” 
 
A mortalidade infantil é um indicador de saúde que reflecte as condições de vida das 
famílias. Em Portugal (1992-1996), a taxa de mortalidade infantil das crianças filhas de mães 
analfabetas ou sem frequência de instrução básica foi mais de oito vezes superior à das filhas 
de mães com curso superior (Ministério da Saúde, 1997). 
 
COMO EXPLICAR ESTAS DESIGUALDADES EM SAÚDE? 
 Explicações pelo artifício 
 Explicações materialistas 
 Explicações pela selecção natural 
 Explicações culturalistas 
 
 Beatriz Cruz 
12 
 
1. Explicações Materialistas 
 Atribuem às desigualdades em saúde as aspectos materiais das classes 
sociais. A menor rendimentos correspondem piores condições de trabalho, 
alojamentos, higiente, alimentação, ... 
 As condições de vida das pessoas afetam a sua saúde e também 
condicionam o uso que fazem dos serviços disponíveis para prevenir a 
doença e para se tratar. 
 Não só o acesso físico aos serviços é diferente para os grupos sociais, como 
também se verifica um atendimentos diferencial da parte dos profissionais de 
saúde (tipo de linguagem, conhecimentos técnicos,...) 
 
2. Explicações Culturalistas 
 Diferentes crenças, valores, atitudes e comportamentos face às situações de vida e 
de saúde/doença 
 As pessoas das classes trabalhadoras manuais têm atitudes menos preventivas em 
relação aos riscos para a saúde e usam menos os serviços fora de situação de 
doença do que as pessoas das classes médias 
 Para as classes baixas torna-se mais difícil fazer escolhas saudáveis e essas escolhas 
não anulam os riscos derivados da sua condição sócio-económica 
 
POBREZA E SAÚDE 
 
Pobreza: indisponibilidade de recursos económicos e materiais necessários para se fazer face 
às exigências da vida quotidiana. 
 
As pessoas que vivem em situação de pobreza estão, em maior ou menor grau, excluídas das 
atividades dominantes na sociedade (nível médio de vida, uma vida normal – conforto da casa, 
higiente, refeições equilibradas,...). 
A noção de pobreza é relativa ao contexto sócio-económico em que se vive 
 
1. Pobreza Absoluta : falta de meios de sobrevivência física 
2. Pobreza Relativa: refere-se aos níveis de conforto médio 
 
Pobreza pode ser uma situação episódica, circunstancial, mas na generalidade é uma 
situação permanente e “transmitida” de pais para filhos. 
 
O indicador geral de privação material baseia-se num conjunto 9 itens à cerca das 
necessidades económicas e de bens, considerando-se em privação todos os indivíduos que não 
têm acesso a pelo menos 3 dos seguintes itens: 
1. Capacidade para assegurar o pagamento imediato, sem recorrer a empréstimo, de 
uma despesa inesperada próxima do valor mensal da linha de pobreza 
2. Capacidade para pagar uma semana de férias, por ano, fora de casa, suportando a 
despesa de alojamento e viagem para todos os membros do agregado 
3. Capacidade para pagar sem atraso as rendas, as prestações de crédito e as despesas 
correntes da residência principal, e outras despesas não relacionadas com a residência 
principal 
4. Capacidade para fazer uma refeição de carne ou de peixe, pelo menos de dois em dois 
dias 
5. Capacidade para manter a casa adequadamente aquecida 
6. Disponibilidade de máquina de lavar a roupaBeatriz Cruz 
13 
 
7. Disponibilidade de tv a cores 
8. Disponibilidade de telefone fixo, ou pelo menos um membro com telemóvel 
9. Disponibilidade de automóvel 
 
A intensidade da privação material corresponde à quantidade de itens a que a pessoa não 
tem acesso. 
 
 
AS DIFERENTES INTERPRETAÇÕES DO CORPO, SAÚDE E DOENÇA 
 
De acordo com as condições de vida em que as pessoas são socializadas e com os valores e 
as práticas do seu grupo de pertença, as pessoas dos diferentes grupos da sociedade tendem a 
interpretar diferentemente a razão de ser daquilo que lhes acontece, a valorizar diversamente 
o que é mais ou menos importante, a agir de formas distintas face a situações aparentemente 
equivalentes. 
 
Estilos de Vida 
Pressupõe-se que, no geral: 
 Pessoas com uma situação profissional semelhante têm um grau de instrução 
semelhante, condições de trabalho e salário equivalentes, o que se reflecte nas 
condições de habitação e aos outros recursos em geral. 
 A condições materiais semelhantes correspondem modos de vida do quotidiano com 
limitações e oportunidades também semelhantes que condicionam as escolhas e os 
hábitos e, portanto, a saúde. 
 O convívio social tende a estabelecer-se entre pessoas de grupos semelhantes. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Diferentes representações sobre o corpo, a doença e comportamentos face à doença 
1. -Eu nunca estou doente. 
-Mas há pouco disse-me que tem dores nas costas… 
-Ah! Isso tenho! Não me posso abaixar, nem estar muito tempo de pé. 
(Excerto de diálogo, no norte de Portugal, em 2002, com mulher de 60 anos, trabalhadora manual.) 
 
2. “Doente, doente, não. Tenho apanhado umas gripes, umas constipações, às vezes 
tenho dores de cabeça, de estômago, de garganta, já me queimei com água a ferver, 
mas por causa disso nunca fui ao médico.” 
(Mulher 46 anos, aldeia Norte de Portugal 2000) 
 Beatriz Cruz 
14 
 
3. “O doutor mandou-me descansar. Se calhar ele pensa que a minha vida é igual à dele. 
Com tanto gadinho para tratar e as terrinhas para trabalhar, se me deitasse a dormir, 
não morria da doença e morria da cura, à fome.” 
(Mulher, 68 anos, reformada por invalidez, Minho 2000) 
 
SÍNTESE: 
 A saúde/doença é sempre também uma questão social. Só pode ser interpretada de 
modo contextualizado, isto é, os contextos materiais e imateriais de vida dos 
indivíduos e dos grupos interferem de forma directa e subjectiva no seu bem estar. 
 A pobreza e desigualdades sociais de grande número de pessoas no nosso país é um 
factor importante no que diz respeito à doença. 
 Os profissionais de saúde devem procurar conhecer os contextos de vida, redes e 
representações que os diferentes grupos possuem, na medida em que eles são 
importantes para perceber as situações de doença. 
 Os profissionais de saúde, confrontados com grupos de desigualdades têm de procurar 
vias de interacção que funcionem para o diálogo, criando uma acção favoreça uma 
aproximação aos grupos mais desfavorecidos. 
 
 
VIVÊNCIAS DO CORPO, DA SAÚDE E DA DOENÇA 
As representações sociais da saúde e da doença 
 A imagem do corpo e a interação social 
 Comportamentos de saúde/doença 
 
O que significam para nós a saúde e a doença? 
Que significados lhe atribuímos? 
 
A doença é um facto fisiológico universal. MAS: 
A resposta que é dada à doença é social e culturalmente definida, variável no tempo e no 
espaço 
 A sua natureza e a sua distribuição são diferentes segundo as épocas históricas, as 
sociedades, as classes sociais e as condições de vida 
 A doença só é “ressentida” pelo indivíduo quando os sinais que percebe em si 
correspondem a sintomas reconhecidos socialmente como indicadores de doença 
 
LOGO 
 
 
A doença é, também, um facto / fenómeno social 
A variação dos modos de entender a doença começa pela própria definição de doença. 
A atribuição do estatuto de normal/patológico é socialmente construída: 
 Depende do valor que é atribuído às manifestações da doença 
 Da capacidade tecnológica de detectar sintomas que não percepcionados pelo próprio 
doente 
 Dos efeitos que a doença tem sobre o corpo social 
 
A interpretação social da doença atribui-lhe uma causa e define procedimentos e actores 
com legitimidade para intervir sobre ela. 
 
 
 
 Beatriz Cruz 
15 
 
É feita uma distinção clássica entre: 
1. O pensamento mágico das sociedades “primitivas” que associava a doença a agentes 
sobrenaturais e preconiza a acção sobre esses agentes como forma de cura 
 
2. O pensamento empírico-racional das sociedades modernas que atribui à doença causas 
fisico-naturais, passíveis de conhecimento científico e intervenção científica por 
profissionais credenciados 
 
Na nossa sociedade, a principal abordagem da saúde e da doença é fornecida pelo modelo 
médico! MAS: 
 
 Esta não é a única leitura que os indivíduos possuem 
 Não é partilhada por todos de igual modo 
 Existem outras interpretações da saúde e da doença, assentes em sistemas de 
referência diferentes 
 A abordagem médica da doença não introduz um corte com os significados sociais 
 
 O QUE É ENTÃO A DOENÇA? 
É um desvio a um conjunto de normas que representam a saúde ou a normalidade, 
sendo que há duas classes de desvio que figuram: a biológica e a social. 
Ao “desvio biológico” (DOENÇA) corresponde um “desvio social “ (ESTIGMA). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Representação social da saúde e da doença 
 Os conceitos de doença não são universais mas reflectem uma maneira particular de 
entendimento do mundo e da sociedade 
 Saúde e doença são definidas por um conjunto de valores e normas sociais e culturais 
que determinam as suas imagens/representações sociais. A sociedade atribui-lhes 
significados ou sentidos próprios 
 Cada indivíduo retira dos significados socialmente disponíveis aqueles que lhe servem 
para interpretar a sua saúde e a sua doença. 
 
 
 
 Beatriz Cruz 
16 
 
Há uma representação social da saúde, da doença e do corpo, na medida em que o 
conjunto de valores, de normas sociais e modelos culturais de cada sociedade e de cada grupo 
social determina as imagens e os significados atribuídos ao corpo, à saúde e à doença. 
 
Saúde, doença, corpo são moldados socialmente. Adquirem significados diferentes 
consoante a sociedade/cultura de que o indivíduo faz parte. 
 
1. A sociedade e a sua cultura definem e tipificam o que é a saúde e a doença 
Relatividade cultural do conceito de alteração biológica 
- exemplos “povos primitivos” 
- exemplos outras épocas históricas 
- exemplos actuais 
 
2. A sociedade e a sua cultura atribuem significados/sentidos às doença 
 Causa natural / azar 
 Castigo divino / punição 
 Transgressão de uma norma moral 
 Destino do homem dada a sua natureza 
 Dom divino para alcançar a salvação 
 
3. Cada sociedade e a sua cultura criam o seu próprio contexto terapêutico 
 O que as pessoas fazem por si mesmas para solucionar os seus problemas de 
saúde 
 O que cada sociedade considera “medicina oficial”a que se tem suporte 
legal/institucional 
 Outras formas de curar “não oficiais” mas que estão disponíveis na sociedade 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Beatriz Cruz 
17 
 
As representações mentais que cada pessoa tem não são apenas individuais mas, 
em grande parte, constituídas pela cultura da sociedade em que vive: 
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS 
 
 
Formas colectivas de entender a realidade, percepções, muitas vezes não conscientes, 
que moldam a nossa forma de pensar, de sentir e de reagir. 
 
Claudine Herzlich, estudo em França na década de 60: 
 A doença é algo que atinge o indivíduo – abordagem exógena A doença corresponde à perda de equilíbrio, o oposto da saúde/bem-estar 
 A doença remete para o recurso ao médico 
 A inactividade surge como a noção e experiência mediadora entre o estar e não estar 
doente 
 Saúde e doença definem comportamentos, são identificadas por comportamentos. 
 
J. Pierret (1984), região de Paris, operárias e empregadas, quadros médios e superiores – 
sentido dado à noção de saúde: 
 Saúde como norma 
 Saúde como instrumento, riqueza que se possui para poder trabalhar, cuidar das 
crianças, ... 
 Saúde como produto, resultante das condições de vida, dos comportamentos 
individuais 
 Saúde como instituições 
 
As classes trabalhadoras dão da saúde uma visão mais negativa (ausência de 
doença) e funcional (aptidão para trabalhar) do que as pessoas das classes médias em 
que a definição é mais positiva (bem estar) e expressiva, emocional (satisfação, 
felicidade, capacidade para lidar com o quotidiano). 
 
Claudine Herzlich, estudo em França na década de 60: 
Três concepções de doença: 
 Doença destrutiva - inactividade, dependência, perda de papéis, incapacidade, 
sentimento de impotência, de desvalorização … 
 Doença libertadora - ruptura do ritmo quotidiano e das obrigações sociais, nova vida, 
novos valores …. 
 Doença profissão - doente como um lutador, adaptação, aprendizagem … 
 
 
SABER POPULAR E SABER LEIGO SOBRE A DOENÇA E SAÚDE 
 
SABER LEIGO 
Conhecimentos sobre saúde e doença das pessoas comuns, sendo não profissionais ou 
especialistas 
O saber leigo não é o oposto do saber científico na medida em que muito do conhecimento 
da ciência já faz parte do conhecimento das pessoas comuns que o utilizam nos seus 
raciocínios e nas suas práticas 
 
 
 
 Beatriz Cruz 
18 
 
SABER POPULAR 
Remete para a herança de saber acumulado, experiências transmitidas, conhecimentos e 
crenças, …muitas vezes erradas. 
É um saber global à cerca das diversas coisas 
 
O saber popular organiza o sentido da experiência individual da doença: 
 Situa as causas da doença no quadro de vida do individuo, no contexto do seu meio 
social próximo e do seu universo social mais amplo: atribuição de significados e 
procura de sentidos para a doença. Isto a medicina não faz!! 
 
 Pela tripla função de significação, interpretação e explicação, o saber popular dá 
sentido não só aos sintomas mas também aos acontecimentos, às circunstâncias, às 
terapias ou às instituições ligadas à doença. 
 
É em função do saber popular com as suas lógicas próprias que as pessoas decidem os seus 
comportamentos e é nesse sistema de informação que a informação que a ciência quer fazer 
passar tem de ser integrada. 
 
 Em todas as culturas os seres humanos procuram explicações para a existência da doença. 
Não para o que ela é mas para o que significa: porquê o mal, o sofrimento? Porquê a mim? 
 Todas as sociedades atribuem à doença uma causalidade social, no sentido em que 
encontram para a doença uma razão de ser que está para além da etiologia específica com 
que se preocupa a medicina. 
 
Explo: 
O Africano acusará o feiticeiro ou um vizinho responsável pelo mau olhado. O Francês auto-
acusa-se pelo seu comportamento (ter fumado, p.ex), acusa outra pessoa (pela influência que 
exerce) ou a sociedade (é a sociedade moderna que torna o mundo stressado e depressivo). 
 
O SABER POPULAR é um saber prático no sentido que responde à necessidade de dar sentido 
aos acontecimentos, interligado com crenças, conhecimentos e acontecimentos. 
 
“Modelos Explicativos da Doença” 
São os conjuntos de crenças e concepções que procuram dar conta de uma determinada 
experiência pessoal de doença (ilness), explicando as suas causas e as suas manifestações. 
São os discursos dos doentes sobre as suas doenças, que procuram dar sentido ao 
acontecimento. 
 
“Tenho muitas dores nas costas. É dos anos que dormi no chão….” 
(Mulher cigana, residindo em barraca, 50-55 anos) 
 
Modelos etiológicos populares, ou teorias explicativas das doenças pela origem das suas 
causas (Helman, 2000): 
 O mundo sobrenatural 
 O mundo social 
 O mundo natural 
 O próprio doente 
 
“Há gentinha que adoece por tudo e por nada. Até parece que apanham a doença que 
anda no ar, não têm resistência nenhuma!” (Mulher agricultora reformada, 68 anos) 
 Beatriz Cruz 
19 
 
“Foi desde então (divórcio violentamente litigioso) que isto (cancro) apareceu. A ele lhe 
fico a dever esta morte lenta que os médicos não curam”. 
(Mulher, professora, cerca de 40 anos) 
 
 No entendimento popular, a doença remete para uma “rede de significações” 
que traduzem as cargas simbólicas que o indivíduo estabelece entre as suas 
experiências de vida e que dão um sentido à doença. Liga os símbolos da 
cultura com os valores veiculados pela sociedade e as emoções vividas pelo 
indivíduo, ou seja, permite ligar o simbólico ao afectivo e ao fisiológico, a 
experiência social à doença. 
 
EX: “O QUE CAUSA O CANCRO?” – categorias de causas: 
 A evolução do mundo moderno (poluição, stress, ambiente, radiações) 
 Acontecimentos da vida (desgostos, desemprego, tristeza) 
 A usura (busca de lucro, ganância) 
 Fatalidade, maus hábitos, desleixo com a saúde, hereditariedade, contágio … 
 
Ao falar na população em geral, as pessoas referem sobretudo “o mundo moderno” e os 
“hábitos de vida”. 
Quando se referem a si próprias, são as categorias “acontecimentos da vida” e “usura” que 
dominam as explicações. 
 
 
A IMAGEM DO CORPO 
 
 As questões da saúde e da doença estão intimamente ligadas com o corpo, onde se 
percepciona o mal estar - esta percepção é influenciada pela cultura em que a pessoa 
foi socializada e em que a pessoa vive. 
 Assimilamos/apreendemos uma determinada imagem corporal e as formas de 
expressão corporal consideras normais 
 
“A noção de imagem corporal tem sido usada para descrever todas as formas em que, 
consciente e inconscientemente, os indíviduos conceptualizam e percepcionam o seu corpo” 
 
Imagem Corporal  crenças sobre a forma e o tamanho do corpo, incluindo vestuário e 
acessórios. O corpo e a forma como se apresenta comunicam informação sobre a posição 
social da pessoa: género, classe etária, estatudo, ocupação,... 
*Cada cultura tem uma imagem corporal ideal criada pela mesma 
 
 As fronteiras do corpo (ideia da distância íntima) – não é estático porque quanto mais 
chegados às pessoas, menor distância íntima; “esfera privada de cada pessoa”; pode ser também 
considerado o carro e casa 
 A estrutura interna do corpo 
 O funcionamento do corpo (equilíbrio/desequílibrio) 
 
 
Compara-se, muitas vezes, o corpo a 2 coisas: 
1. Corpo visto como um modelo de tubagem 
estrutura e funcionamento do corpo é pensada à semelhança de canalizações 
 
 Beatriz Cruz 
20 
 
2. Corpo visto como uma máquina 
estrutura e funcionamento do corpo compara-se a um carro ou a um computador 
 
Estas comparações estão relacionadas com a cultura das pessoas e, por vezes, aparecem 
também no discurso médico. Ex: transplantação como uma troca de peças 
 
Existe, portanto, um corpo social (representado culturalmente) que se sobrepõe ao corpo 
realidade física e que orienta as nossas percepções e ações sobre o mesmo. 
Do ponto de vista sociólogo, o corpo é uma representação, um objeto construído. 
 
O corpo no espelho do social: 
 O corpo objetivo de valores 
 O corpo deficiente, estigmatizado 
 As apareências 
 
COMPORTAMENTOS DE SAÚDE/DOENÇA 
 
Comportamentos de Saúde 
 Comportamentos destinados a promover a saúde 
 Referem-se grosso às atitudes e práticas das pessoas em resposta ou reacção ao facto 
de se saberem doentes 
 Incluí tudo o que respeita ao processo de compreensão e de reacção face à doença, ou 
seja, à acção que a pessoadesenvolve quando se confronta com a eventualidade de 
uma doença – os processos de decisão sobre as acções a tomar e as acções que toma, 
processo de compreensão da doença e saberes que o sustentam. 
 São diferentes consoante a cultura dos povos 
 Nas sociedades de cultura ocidental, sublinha-se a importância dos comportamentos 
individuais para a preservação e melhoria da saúde (expl. lavar os dentes, exercício 
físico, alimentação…) 
 Ideologia do saudável como responsabilidade que compete a cada um dos indivíduo. 
Cada um deve zelar pela promoção da sua própria saúde 
 Os comportamentos de saúde ligam-se com as representações sociais que temos 
sobre saúde e sobre a ciência 
 
Comportamentos de saúde são todas as práticas recomendadas pela medicina e pelas 
disciplinas associadas a ela (nutricionismo, fisioterapia…). Mas são também todos os outros 
comportamentos que as pessoas executam por sua auto-convicção baseada na própria 
experiência ou na experiência colectiva condensada e transmitida pela sabedoria popular 
 
 
 
 
 
 
 
 
 O senso comum pactua com a informação mas adapta-a aos conhecimentos práticos, 
relativizando-lhe a importância: está de acordo com ela na teoria mas não a põe em 
prática. 
 São também comportamentos de saúde as práticas populares de prevenção da 
doença, muitas de tipo religioso (promessas) e outras apelidadas de superstições. 
As ideias leigas sobre as causas das doenças tendem a dar mais ênfase aos fatores biológicos do que 
comportamentais. (A doença “apanha-se”) 
Explo: a realidade do dia-a-dia mostra que muitas pessoas que têm cancro não são todas fumadoras e 
outras que o são não o têm. 
Desconfiança, incredibilidade em relação às informações científicas (alimentação, vacinas, poluição….) 
 Beatriz Cruz 
21 
 
“A laranja de manhã é ouro, de tarde é prata, e de noite mata” 
“Quem canta seus males espanta” 
“Para as constipações avinha-te e abafa-te” 
 
Comportamentos de Doença 
Duas realidades: 
 
1. Disease 
é a “doença do médico”, o processo patológico que se passa nos órgãos ou no seu 
funcionamento e que a medicina procura diagnosticar e curar 
 
2. Illness 
é a “doença do doente”, refere-se ao mal estar tal como ele é percebido pela 
própria pessoa e pelos que a rodeiam . É a doença que nos incomoda e que nos impõe 
limitações. 
Corresponde à experiência subjectiva tal como a sentimos, como a interpretamos, 
como a explicamos. È a doença percebida pelo próprio e pelos outros. Inclui as 
reações, os medos, a ansiedade, a leitura dos membros da família e as suas atitudes, 
etc. 
 
A disease, doença-patologia, e a illness, doença mal-estar, nem sempre coincidem: 
 Pode haver poença-patologia sem que o indivíduo tenha consciência de estar doente, 
sem se sentir mal 
 Pode haver doença mal-estar sem que haja doença biológica ou fisiológica 
 A doença mal-estar enquanto experiência de doença é sempre uma construção 
cultural: é uma resposta comportamental/cultural e societal à doença-patologia 
 
A decisão de recorrer à medicina 
A experiência de se “sentir doente” é distinta da de se aceitar quese “está doente”, de 
reconhecer como sintoma de doença os sintomas ou transformações que se percebem no 
corpo ou mente, e aceitar que essa doença que se reconhece justifica o recurso à medicina e 
ao papel de doente. 
Há uma componente moral no processo de resistência a “estar doente” 
Nos estudos de comunidade, a maior parte das pessoas referem ter no momento, sintomas 
de mal-estar/doença, mas só cerca de metade dessas pessoas têm alguma acção dirigida a 
esses sintomas, sem recorrerem a serviços médicos. 
 
“Doente, doente, não. Tenho apanhado umas gripes, umas constipações, às vezes tenho dores 
de cabeça, de estômago, de garganta, já me queimei com água a ferver, 
mas por causa disso nunca fui ao médico.” 
 
Porquê esta atitude de “menosprezar” a doença? 
 real ignorância da gravidade indicada pelos sintomas 
 falta de atenção ao agravamento dos sintomas com que a pessoa se foi habituando a 
viver 
 falta de tempo na rotina do dia-a-dia 
 medo de saber a verdade 
 preocupação de não “ocupar” o médico e os serviços com queixas de pouca dimensão 
 
 
 
 Beatriz Cruz 
22 
 
A decisão de procurar um médico tem por base a interpretação que a pessoa faz dos sintomas 
que sente, do significado que lhe atribui. Esta interpretação varia ou é condicionada por 
diversas variáveis: 
 Posição social / profissão / nível educacional 
 Estilos de vida 
 Género 
 Religião 
 Cultura 
 O próprio tipo de sintomas 
 Hierarquização das necessidades 
 Acessibilidade aos serviços 
 
O comportamento na doença é grandemente condicionado pelo sistema leigo de 
referência - todas as pessoas procuram a opinião de quem os rodeia e isso também no que diz 
respeito aos sintomas (o que será, o que fazer, valerá a pena ir ao médico, etc). 
 
 A decisão de recurso à medicina em caso de doença aparece como uma etapa 
avançada na forma de lidar com os sintomas. 
 Recorre-se ao médico quando se instala a dúvida relativamente ao autodiagnóstico 
e à capacidade para lhe responder mediante os auto-cuidados 
 Recorrer aos serviços constitui um processo dinâmico que em cada momento 
actualiza as questões associadas à decisão de consultar e de “obedecer” às 
recomendações médicas. 
 
Comportamentos do Doente 
Estratégias paradoxais dos doentes  discrepância aparente entre a perceção que se tem da 
sua doença e os comportamentos que se adotam para lhes fazer face. 
A lógica interpretativa do doente pode motivar um comportamento 
incoerente com a lógica terapêutica (por exemplo, ir à consulta mas 
não se submeter ao tratamento). 
 
Porque é que as pessoas recorrem às medicinas alternativas? 
 Capacidade de escolha 
 Critica à medicina convencional 
 “Medo” dos efeitos secundários 
 Ideia de que são “mais naturais” e mais “holísticas” 
 Uso complementar (à medicina convencional) 
 
 
COMPETÊNCIA CULTURAL 
 
Tornou-se um conceito na moda entre os profissionais de saúde, visto que a cultura é um 
elemento importante na clinica: os fatores culturais são cruciais para o diagnóstico, 
tratamento e cuidados. Eles moldam as crenças relacionadas com a saúde/doença, os 
comportamentos e os valores. 
 
PROBLEMAS DESTE CONCEITO: 
1. Pensar-se que a cultura pode ser reduzida a uma competência técnica para a qual os 
profissionais podem ser treinados e tornarem-se experts. 
Na área médica, cultura é muitas vezes entendida como sinónimo de 
etnicidade, nacionalidades e língua. 
 Beatriz Cruz 
23 
 
Explo: os “pacientes chineses” ou “os pacientes ciganos”, são pensados como 
tendo um conjunto de comportamentos ou crenças fixas à sua etnia – esta ideia é 
rejeitada pela antropologia – estereótipos! 
 
2. Os fatores culturais não são sempre centrais para um determinado caso. 
Explo: pode-se pensar que determinadas mães deixam de amamentar cedo ou 
não amamentam de todo por razões culturais quando na verdade não o fazem por 
questões de necessidade de disponibilidade para o trabalho 
 
3. Historicamente nos cuidados de saúde o conceito de cultura remetia apenas para o 
doente e sua família e comunidade. Contudo, os cuidados de saúde são influenciados 
pela cultura do médico, dos enfermeiros… 
 
O HOSPITAL COMO ORGANIZAÇÃO 
 
O Hospital pode ser visto como uma organização com aspectos em comum com outras 
organizações das sociedades modernas – escolas, prisões, exército, empresas: 
 dispõem de uma hierarquia clara de funções (tipo piramidal) 
 cada grupo profissional que o integra tem as suas próprias funções 
 cada posição profissional está especificada de forma clara quanto às suas funções 
profissionais 
 
O perigo é que, embora a standartização possa ser um ganho em termos deeficiência , pode 
também conduzir à despersonalização. 
 
O hospital pode ser dividido em 4 grandes grupos de indivíduos: 
 Gestão/administrativos 
 Corpo clinico 
 Enfermagem 
 Doentes 
É importante denotar que cada grupo tem as suas próprias ideologias, necessidades e 
objetivos. 
 
Goffman – Hospital como uma instituição total 
Uma instituição total é um lugar onde um grande número de pessoas se encontram e onde 
estão relativamente separadas do resto da sociedade. 
Ao ser-se admitido numa instituição total, o individuo é “despido” dos seus anteriores 
valores, hábitos, sendo introduzido num novo regime onde assume outro papel 
 
Scambler - 3 efeitos da Hospitalização: 
1.Stress 
2.Despersonalização 
3.Institucionalização 
 
Posto isto, será útil falar com os doentes mais e mais vezes. Dar explicações claras na 
admissão do doente sobre o que vai suceder e como funciona o hospital. 
 
 
 
 
 
 Beatriz Cruz 
24 
 
Antropologia 
 
As interrogações do homem sobre si mesmo e sobre a sociedade sempre existiram, ou seja, a 
necessidade de observar outros homens para os compreender é muito antiga 
 
o Enquanto disciplina é relativamente recente 
o Séc. XVIII e XIX – constitui-se enquanto saber cientifico 
 
O que a Antropologia faz? 
Volta-se, resignada para as outras ciências sociais, trabalhando no campo da sociologia 
comparada 
Vai em busca de uma nova área de investigação: o camponês, o universo rural, enquanto 
reminiscência do selvagem 
Afirma a especificidade da sua prática, não mais através de um objeto empírico constituído, 
mas através de uma abordagem epistemológica - o homem como um todo (biológico, 
económico, religião, poder) e o homem na sua diversidade (histórica, geográfica, genética) 
 
 Capacidade de “estranhamento”, romper com as “evidências” 
 Experiência da alteridade 
 Revolução do olhar 
 
 
O ESTUDO DO HOMEM E A SUA DIVERSIDADE 
 
A Antropologia não é apenas o estudo de tudo o que compõe a sociedade. É o estudo de todas 
as sociedades humanas, das suas culturas como um todo nas suas diversidades históricas e 
geográficas. 
Mas, como se estuda a humanidade, os homens, as sociedades? 
Como se constitui o projeto antropológico? 
 
 
ARQUIVO DA HUMANIDADE 
 
 
O PROJECTO ANTROPOLÓGICO 
Através de um processo de distanciamento e ao mesmo tempo de estranhamento, cujo 
encontro vai levar a uma modificação do olhar que se tinha. 
O projeto antropológico consiste, portanto, no reconhecimento, conhecimento, juntamente 
com a compreensão de uma humanidade plural. 
Isto supõe ao mesmo tempo a rutura com a figura da monotonia do duplo, do igual, do 
idêntico. 
 
 
 
 
 
 Beatriz Cruz 
25 
 
Dificuldades na Abordagem Antropológica 
 Diz respeito ao grau de cientificidade que se atribui à antropologia. O homem está em 
condições de estudar o homem, isto é, um objecto que é da mesma natureza do 
sujeito? 
 
 Provém da relação ambígua que a antropologia mantém desde a sua génese com a 
história. Esta preocupação de separação entre as abordagens histórica e 
antropológica está longe de ser unânime 
 
 Diz respeito ao facto da antropologia ser plural, ou seja, estudar o homem como um 
todo pertencente a um todo – o estudo da totalidade. Ou seja, estar atenta para que 
nada lhe escape. No campo tudo deve ser observado, anotado, vivido, mesmo que 
não diga respeito diretamente ao assunto que pretendemos estudar. 
 
Sociologia 
 
O que é a Sociologia? 
Disciplina relativamente nova (finais séc. XIX) que surgiu com o objetivo de sistematizar o 
estudo dos fenómenos sociais. 
A passagem de uma sociedade rural para uma sociedade industrializada faz desenvolver nas 
sociedades estruturas sociais mais complexas e um conjunto de mudanças sobre as quais era 
importante refletir, em termos das suas causas, relações e consequências. 
A Sociologia estuda a dimensão social da conduta humana, as relações sociais que a ela 
estão relacionadas. 
 
 
 
 Instrumentos que utiliza: 
 Saberes comuns 
 Ideias implícitas e correntes 
 
POSTO ISTO, A SOCIOLOGIA é o estudo ciêntifico da sociedade e da sua influência sobre o 
comportamento humano, das relações humanas e das interações sociais. 
 
 
“Há investigações sociológicas cuja orientação predominante é o estudo de regularidades 
sociais, e outras que se colocam sobretudo numa perspetiva de análise de singularidades 
sociais. Ambas são susceptíveis de contribuir para conhecer melhor a realidade social” 
 
“Mas, em geral, o que a sociologia faz é combinar, de forma cognitivamente produtiva, a 
análise das regularidades e das singularidades sociais” 
 
 
 
 
 
 Beatriz Cruz 
26 
 
A CONVERGÊNCIA ENTRE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA 
 
Para um antropólogo, pode ser de enorme utilidade a elaboração de uma grelha de análise 
de conteúdo, para dar conta, por exemplo, de certos temas da imprensa diária, ou 
accionar ainda inquéritos por questionário para fins contabilísticos ou para detectar 
regularidades e clivagens nas populações estudadas. Porém, para um sociólogo, recorrer à 
observação (directa ou participante) revela-se de enorme utilidade, em especial para 
confrontar as práticas declaradas (o que os atores dizem que fazem) e as práticas efectivas (o 
que eles fazem realmente). 
 
A antropologia tem iluminado os passos da sociologia do domínio dos princípios simbólicos – 
é da máxima importância a abordagem antropológica da cultura, da sua relatividade e 
singularidade 
 
De notar ainda a convergência de ambas as disciplinas na procura de “teorias de síntese” 
sobre a acção social, recorrendo frequentemente aos trabalhos dos mesmos autores. 
 
Coloca-se então a questão: 
1. Como distinguir a antropologia da sociologia? 
2. Quais os domínios de cada uma? 
 
Em primeiro lugar, as fronteiras disciplinares não se devem tornar sagradas; Em segundo 
lugar, a diversidade de temas de estudo permite a selecção dos que mais se adequam às 
especificidades disciplinares; Finalmente, actualmente é mais importante saber se o tipo de 
pesquisa social emergente é interessante e bem dirigida do que delimitar com precisão os 
seus territórios. 
 
O ESTUDO DA SOCIEDADE E DA VIDA SOCIAL 
 
 Para o sociólogo, e para todos os que pensam sociologicamente, o comportamento 
humano é ordenado, padronizado e estruturado sociologicamente e, assim, passível 
de um estudo sistémico. 
 A sociologia permite a identificação do que não é evidente, do que não parece claro e 
quais os padrões e as influências do comportamento social: 
 
Problema Social / Problema Sociológico 
 
 
 Aparece como evidente e óbvio Menos evidente e mais complexo 
 
Ex: mortalidade devido às ondas de calor, divórcio, etc.  Conexão entre as dificuldade dos 
indíviduos e os problemas socias  IMAGINAÇÃO SOCIOLÓGICA 
 
 
 
 
 
 
 
 Beatriz Cruz 
27 
 
“Imaginação Sociológica” (Wright Mills) 
Conexão entre a vida quotidiana dos indivíduos e os problemas sociais 
Relação entre o indivíduo e a sociedade mais ampla 
Os indivíduos, envolvidos com as atribulações da vida diária, adquirem frequentemente uma 
consciência falsa das suas posições sociais 
O indivíduo só pode compreender a sua própria experiência e avaliar o seu destino e 
possibilidades de vida localizando-se dentro do seu período e por comparação do grupo a que 
pertence, das pessoas que partilham condições de vida semelhantes às suas 
 
 IMAGINAÇÃO SOCIOLÓGICA 
 
 BIOGRAFIA DO INDIVÍDUO HISTÓRIA DA SOCIEDADE E GRUPO DE PERTENÇA 
 
A Abordagem Sistémica dos Fenómenos Sociais 
 
Sistema: conjunto de elementos integrados que sofrem influência recíproca. Há uma 
interdependência entre as partes de um sistema, de tal modoque a alteração em uma das 
suas partes provoca efeitos nas outras. 
As sociedades humanas formam um sistema social. 
 
 Ao sistemas sociais constituem-se sistemas abertos que sofrem influências externas, 
sejam de outros sistemas sociais, sejam do meio ambiente. 
 
 As acções quotidianas reflectem o todo ou são por ele influenciadas. 
 
 Problemas pessoais vs. Estruturas sociais (explicação sociológica do suicídio – Émile Durkheim) 
 
Principais Paradigmas Teóricos 
 
1. Abordagem Funcionalista (Durkheim, Spencer, Malinowski, Robert Merton, Talcott 
Parsons) 
2. A Perspetiva do Conflito Social (Karl Marx, Escola de Frankfurt) 
3. Interaccionismo Simbólico (Blumer, Escola de Chicago, Herbert Mead) 
 
Abordagem Funcionalista / Funcionalismo 
 É uma corrente de pensamento que considera que uma sociedade é uma totalidade 
orgânica, na qual os diferentes elementos se explicam pela função que preenchem, 
pelo papel que desempenham e pelo modo como estão ligados uns aos outros no 
interior desse todo 
 Estuda os fenómenos sociais a partir das funções que desempenham na sociedade. 
 Pressupõe que o sistema social como um todo é composto de partes interrelacionadas 
e interdependentes, cada uma preenchendo uma função necessária para a ordem e 
harmonia social – para o bom funcionamento do todo/sociedade 
 
 
 Beatriz Cruz 
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Teorias do Conflito Social 
 O conflito, e não a estabilidade, é o processo social mais importante, aquilo que marca 
as sociedades. A sociedade é constituída por elementos em conflito (de interesses, de 
poder….) 
 Processo dialético: por meio do conflito surge algo de novo. As forças antagónicas em 
confronto dão origem a novas formas sociais 
 
Interacionismo Simbólico/Teorias da Ação 
 Privilegia a acção como interacção comunicativa 
 Importância dos símbolos e das interacções individuais 
 O comportamento humano fundamenta-se nos significados do mundo; a fonte dos 
significados é a interacção social; e a utilização dos significados ocorre por meio de um 
processo de interpretação. 
 
A sociedade é entendida como um sistema de significados. É esta partilha de significados 
que torna previsíveis os comportamentos. 
 
Métodos de Pesquisa Sociológica 
Ligados às diferentes abordagens teóricas, objetos de estudo, objetivos. 
Podem ser: 
 Quantitativos: instrumentos “fechados” 
 Qualitativos: instrumentos “abertos”