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Produtos naturais bioativos

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e vesículas de sucção (Utricularia). 
As espécies do gênero Drosera, possuem lâminas foliares profusamente 
cobertas de pêlos glandulares semelhantes a tentáculos, constituídos de 
um pedúnculo longo, de ápice dilatado, revestido de duas camadas epi-
dérmicas externas, separadas da camada interna por outra intermediária. 
Entre o ápice dilatado e a base do tentáculo, há células diferenciadas que, 
sob estímulos mecânicos, exsudam água, a fim de diluir o líquido viscoso 
originário da capa secretora, cujo odor se assemelha ao do mel. As glândulas 
digestivas situam-se na lâmina foliar e na base dos tentáculos. As presas, 
em geral moscas e formigas, atraídas pela cor e pelo odor, tocam os tentácu-
los, que prontamente se curvam sobre o inseto, que, por sua vez, passa a se 
debater, estimulando a liberação de enzimas digestivas. As plantas do gê-
nero Drosera levam cerca de cinco dias para completar o processo digestivo. 
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Conforme Castro e Machado (2006), as enzimas digestivas são produzidas 
por tricomas glandulares em Dionaea, Drosophyllum, Pinguicula e Nepen-
thes, e por emergências vascularizadas em Drosera, sendo que esterases, 
fosfatases ácidas e proteases predominam sobre as peroxidases, amilases, 
lípases e invertases.
Tricomas de defesa
A síndrome do carnivorismo (Guimarães et al., 2003) evidencia-se por 
meio de caracteres anatomo-morfológicos encontrados nas armadilhas. 
Todavia, se tomados isoladamente, de modo algum esses caracteres são 
exclusividade de plantas carnívoras. Existem muitas outras plantas que, se 
não chegaram ao estágio de digerir e absorver o conteúdo de suas presas, 
ao menos possuem dispositivos similares: Passiflora adenopoda apresenta, 
na superfície de suas folhas, tricomas agudos e curvados capazes de pun-
cionar as resistentes couraças de besouros fitófagos, que morrem pelo total 
extravasamento de seu conteúdo líquido; espécies do gênero Nicotiana ta-
bacum produzem alcaloides letais para afídeos sugadores (pulgões); muitas 
espécies do gênero Solanum são dotadas de pêlos glandulares tetralobados 
que, ao serem rompidos pelos movimentos dos afídeos, derramam dois 
componentes distintos que se combinam para formar uma substância ade-
siva que fixa inexoravelmente esses insetos à superfície foliar; espécies do 
gênero Roridula, originárias do sul da África, possuem tricomas mucilagi-
nosos estruturalmente idênticos aos das espécies de Drosera e, portanto, são 
capazes de capturar e matar insetos, embora não estejam bem aparelhadas 
para absorver o conteúdo de suas vítimas. 
Além disso, há os tricomas presentes em plantas pertencentes à Eu-
phorbiaceae, como em espécies do gênero Croton (Secco, 2009; Guimarães; 
Secco, 2010), à Hydrophyllaceae, em cuja Wigandia urens Santana e Oyama 
(1994) encontraram tricomas urticantes. Em Loasaceae, Bovini e Giordano 
(2005) verificaram que algumas espécies do gênero Loasa apresentavam 
tricomas glandulares nos ramos e nas folhas, causando sensação pegajosa 
e urticante. Os autores observaram também que as Urticaceae produzem 
uma secreção que causa reação alérgica. 
O tricoma é formado por uma única célula vesiculosa na base e ligeira-
mente afilada em direção ao ápice. Quando o tricoma é tocado, rompe-se o 
ápice ao longo de uma linha predeterminada, e o líquido que está sob pres-
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24 LOURDES CAMPANER DOS SANTOS • MAYSA FURLAN • MARCELO R. DE AMORIM (ORGS.)
são no seu interior é introduzido. Esse mecanismo funciona como elemento 
de defesa dessas plantas contra predadores (Romaniuc-Neto et al., 2009).
Laticíferos
De acordo com Lewinsohn e Vasconcellos-Neto (2000), latex significa 
fluido em latim. Trata-se de uma suspensão ou emulsão aquosa de substân-
cias químicas variadas, produzidas por células especializadas. O que o dis-
tingue de outras secreções não é sua composição química, mas o fato de ser 
mantido em estruturas vivas e ativas, capazes de regular sua produção. Tais 
estruturas originam-se a partir do meristema fundamental ou do procâm-
bio e constituem um sistema ramificado em fase secretora desde o início de 
sua formação nos diferentes órgãos. Essas estruturas só liberam o látex se a 
planta for injuriada (Rio et al., 2005; Demarco et al., 2006). 
Os autores relatam que as paredes dos laticíferos são exclusivamente 
pectocelulósicas, e suas características químicas provavelmente se alteram 
durante seu desenvolvimento. Os laticíferos dos órgãos vegetativos ocor-
rem em todos os tecidos do caule e da folha, com exceção da epiderme e do 
parênquima medular. Na flor, eles são encontrados em todas as peças flo-
rais, exceto no parênquima medular do pedicelo e nos óvulos. O látex tem 
função de proteção contra herbivoria e infecções microbianas e propicia o 
sucesso das espécies em diferentes ambientes. Lewinsohn e Vasconcellos-
-Neto (2000) observam que tais ductos podem ser lineares ou formarem 
redes, com distribuição diversificada na planta. Aparência do látex geral-
mente é leitosa e, entre os compostos mais comuns, encontram-se terpenos, 
carboidratos, resinas, óleos essenciais, alcaloides, ceras, proteínas, enzimas 
proteolíticas, cristais, taninos, amido, cardenolidas e outras substâncias. 
Muitas delas são instáveis, uma vez que um laticífero é rompido, o látex ex-
suda, aumenta de viscosidade e de densidade em contato com o ar e termina 
solidificando-se. 
Preparação de amostras para análises anatômicas em 
microscopia de luz (ML)
Segundo Johansen (1940), para estudos anatômicos, os tecidos vegetais 
devem ser colocados em um fixador FAA 70% (1:1:8 formaldeído, ácido 
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acético glacial e álcool etílico 70%) e posteriormente desidratados em série 
etílica e infiltrados em resina plástica (Leica Historesin). Em micrótomo 
rotativo, os blocos serão seccionados (5 a10 μm de espessura), e as secções, 
coradas, por exemplo, com azul de toluidina (Sakai, 1973). As secções 
coradas do material serão montadas em resina sintética “Entellan”, em 
lâminas permanentes, para serem investigadas por meio de microscopia de 
luz (ML).
Preparação de amostras para análises anatômicas em 
microscopia eletrônica de varredura (MEV)
Procedimentos metodológicos específicos devem ser empregados no 
preparo do material botânico. No geral, as amostras são fixadas em glu-
taraldeído, desidratadas na série acetona, passando à secagem ao ponto 
crítico, metalizadas e colocadas em suporte metálico para serem observadas 
em MEV.
Princípios ativos das plantas medicinais
Considerando que plantas estão sujeitas a inúmeras ameaças, em espe-
cial à herbivoria, e que não podem fugir delas, elas lançam mão de compos-
tos químicos para se defenderem, em especial compostos do metabolismo 
secundário. Tais produtos não servem só à guerra química, mas também 
atuam como atratores (odor, sabor, cor) para polinizadores e agentes de 
dispersão e como mediadores nas interações planta-planta, bem como nas 
simbioses (Gershenzon; Engelbrth, 2010). 
Embora sintetizados em qualquer órgão do vegetal, com maior ênfase 
nas folhas, muitas vezes as plantas produzem esses compostos em estrutu-
ras secretoras ou ductos, como descrito anteriormente. Uma ampla gama 
de grupos bioquímicos está presente nessas estruturas, com novos produtos 
anunciados diariamente pelas modernas técnicas de análise.
No final dos anos 1920 e durante toda a década de 1930, desenvolveu-
-se um grande número de trabalhos sobre isolamento e identificação

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