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ESTADO LAICO volume 1

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um programa legal 
que fornecia apoio financeiro a escolas elementares e secundárias não 
públicas por meio de reembolsos do custo de salários de professores, de 
livros texto e de materiais de instrução em matérias seculares especificadas. 
45 Há outra norma constitucional que diz respeito à religião: o Artigo VI, 3, o qual dispõe que “ne-
nhum teste religioso será requerido como qualificação para qualquer emprego ou fé pública nos Esta-
dos Unidos”. Dadas as limitações do presente trabalho, essa norma não será examinada.
36 Ministério Público - Em Defesa do Estado Laico
Rhode Island havia adotado uma lei sob a qual o estado pagava diretamente 
a professores em escolas elementares não públicas um suplemento de 15% 
sobre seu salário anual. Em ambos os casos, o auxílio foi dado a instituições 
educacionais relacionadas a igrejas. A SCOTUS decidiu que ambas as leis 
eram inconstitucionais. 
Na fundamentação, a SCOTUS recuperou e sintetizou diferentes 
regras positivadas em diversos precedentes anteriores versando sobre a 
Cláusula do Estabelecimento e, como resultado disso, formulou um teste 
que passou a exercer grande influência para o tema: o chamado “Lemon 
test”, ou “teste de Lemon”. Segundo esse teste, uma lei deve satisfazer três 
critérios (ou “pontas”) a fim de resistir a um ataque com fundamento na 
cláusula do estabelecimento (isto é, não ser declarada inconstitucional): “em 
primeiro lugar, a lei deve ter um propósito legislativo secular; em segundo 
lugar, seu efeito principal ou primário deve ser um que nem promove nem 
inibe a religião; finalmente, a lei não deve incentivar ‘um embaraçamento 
governamental excessivo com a religião’” (SULLIVAN; GUNTHER, 2010).
Conservando em mente os critérios do teste de Lemon, pode-se 
passar ao exame de precedentes específicos. Algumas situações típicas 
ganharam destaque na jurisprudência da SCOTUS sobre a cláusula do 
estabelecimento, a saber: o uso público de rituais ou símbolos religiosos, 
a prece em escolas públicas, a religião no currículo de escolas públicas, a 
exibição pública de símbolos religiosos fora de escolas, o auxílio financeiro 
público a instituições religiosas, a inclusão da religião nos subsídios públicos 
e, por fim, a acomodação da religião.
A maioria dessas situações será analisada no que se segue. No entanto, 
cabe ressalvar que, em função das limitações inerentes a um trabalho desta 
dimensão, não será possível analisar a jurisprudência referente à inclusão da 
religião nos subsídios públicos, nem à acomodação da religião – entendida 
esta última como compreendendo as acomodações legais permissíveis 
no interesse de valores do livre exercício, o que apresenta problemas de 
tensão recorrentes entre os objetivos das cláusulas de livre exercício e do 
estabelecimento (SULLIVAN; GUNTHER, 2010). Tal exame poderá ser feito 
oportunamente em trabalho próprio.
2.1 Uso Público de Rituais ou Símbolos Religiosos
O primeiro precedente relevante é Illinois ex rel. McCollum v. Board 
of Ed. of School Dist. No. 71, Champaign Cty., 333 U.S. 203 (1948), em que a 
SCOTUS abordou o poder de um estado para utilizar seu sistema de escolas 
37Ministério Público - Em Defesa do Estado Laico
públicas, custeado pelos impostos, para auxiliar na instrução religiosa, na 
medida em que tal poder pudesse ser restringindo pela Primeira e Décima 
Quarta Emendas46 à Constituição Federal.
No caso, a SCOTUS invalidou a prática de uma comissão escolar 
que permitia aos estudantes participar de aulas sectárias ocorridas dentro 
das escolas públicas durante as horas escolares por instrutores escolares 
paroquiais. A opinião da maioria da SCOTUS identificou dois problemas 
nisso: em primeiro lugar, prédios escolares públicos eram usados para o 
propósito de fornecer educação religiosa e, em segundo lugar, o programa 
proporcionava a “grupos sectários um auxílio inestimável, na medida em 
que ajudava a fornecer pupilos para suas classes religiosas por meio do 
uso da máquina de escolas públicas compulsórias do estado” (SULLIVAN; 
GUNTHER, 2010).
No entanto, em Zorach v. Clauson, 343 U.S. 306 (1952), decidido 
apenas quatro anos após McCollum, a SCOTUS decidiu que liberar crianças 
durante as horas escolares para participar de aulas sectárias fora da escola 
pública não violava a cláusula de estabelecimento.
2.2 Prece em Escolas Públicas
Impõe-se começar pelo exame do caso Engel v. Vitale, 370 U.S. 421 
(1962). Nesse caso, a comissão escolar do estado de Nova Iorque havia 
preparado uma prece “não-denominacional” para uso nas escolas públicas, 
com este teor: “Deus todo-poderoso, nós reconhecemos nossa dependência 
de Ti e pedimos Tua benção para nós, nossos pais, nossos professores e 
nosso país”. Uma comissão escolar municipal determinou que a prece fosse 
recitada diariamente em cada turma. A prática foi questionada pelos pais 
de certo número de estudantes, que argumentaram que ela era “contrária às 
crenças, religiões ou práticas religiosas deles mesmos e de suas crianças” (370 
U.S. 421, 423). O tribunal estadual manteve a prática, sob a condição que as 
escolas não compelissem nenhum estudante a unir-se à prece, em havendo 
objeção dos pais. A SCOTUS decidiu que a prática era “completamente 
inconsistente com a Cláusula do Estabelecimento” (370 U.S. 421, 424) e que 
a Cláusula do Estabelecimento “deve ao menos significar que não é parte 
dos negócios governamentais compor preces oficiais para qualquer grupo 
de pessoas americanas recitarem, como parte de um programa religioso 
conduzido pelo governo” (SULLIVAN; GUNTHER, 2010).
46 Ver discussão sobre a Décima Quarta Emenda em conexão com Everson, adiante, incluindo a tra-
dução do trecho relevante do texto constitucional.
38 Ministério Público - Em Defesa do Estado Laico
Um ano depois, em Abington School Dist. v. Schempp, 374 US 203 
(1963)47, a SCOTUS estendeu os princípios de Engel para além de preces 
compostas pelo estado, determinando que a Cláusula do Estabelecimento 
proibia leis e práticas estaduais “exigindo a seleção e leitura na abertura do 
dia escolar de versos da Bíblia Sagrada e a recitação da Oração do Senhor48 
pelos estudantes em uníssono”. A lei do estado da Pensilvânia dispunha: 
“no mínimo dez versos da Bíblia Sagrada serão lidos, sem comentários, 
na abertura de cada escola pública em cada dia escolar. Qualquer criança 
poderá ser dispensada de tal leitura da Bíblia, ou de presenciar tal leitura 
da Bíblia, mediante requisição por escrito de seus pais ou guardiões”. 
A família Schempp era composta por membros da Igreja Unitária, e eles 
questionaram com sucesso tais práticas de prece da Oração do Senhor e de 
leitura de versos bíblicos (SULLIVAN; GUNTHER, 2010).
Mais de 20 anos depois, o tema voltou à SCOTUS no caso Wallace v. 
Jaffree, 472 US 38 (1985). A Corte invalidou uma lei do estado de Alabama 
autorizando as escolas a dedicarem um minuto no começo de cada dia 
“para meditação ou prece voluntária”. A lei já era uma alteração de uma 
lei anterior que havia autorizado um período de silêncio de um minuto em 
todas as escolas públicas “para meditação”.
Na sua decisão, a SCOTUS aplicou o teste de Lemon, já exposto neste 
trabalho. A decisão da SCOTUS salientou que “a liberdade de consciência 
individual protegida pela Primeira Emenda abarca o direito de selecionar 
qualquer fé religiosa, ou nenhuma” (472 US 38, 53). No caso, a lei do estado 
de Alabama “não era motivada por nenhum propósito claramente secular” 
(472 US 38, 56), assim violando a primeira ponta do teste de Lemon. Violada 
a primeira ponta, a SCOTUS não precisou examinar as outras duas pontas 
para decretar a invalidade da lei estadual.
Em Lee v. Weisman, 505 U.S. 577 (1992), o diretor de uma escola 
intermediária pública de Providence49 convidou um rabino para fazer preces 
na cerimônia de graduação da escolar, em conformidade com o costume 
existente