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ESTADO LAICO volume 1

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explicação da teoria da evolução ou 
meramente proíbe ensinar que a teoria é verdadeira” (393 U.S. 97, 111). Mas 
a SCOTUS concluiu que, em qualquer uma das duas interpretações, a lei não 
poderia subsistir, devendo ser invalidada.
52 Espécie de juramento à bandeira dos EUA, apresentando o seguinte teor: “Juro fidelidade à bandei-
ra dos Estados Unidos da América e à República que ela representa, uma nação sob Deus, indivisível, 
com liberdade e justiça para todos”.
42 Ministério Público - Em Defesa do Estado Laico
Em Edwards v Aguillard, 482 U.S. 578 (1987), a SCOTUS ocupou-
se mais uma vez com a controvérsia evolucionismo versus criacionismo. A 
questão colocada foi se a lei “Tratamento Balanceado para Ciência da Criação 
e Ciência da Evolução na Instrução das Escolas Públicas” (Lei Criacionista) 
do estado de Louisiana era abstratamente inválida por ser violadora da 
Cláusula do Estabelecimento. A Lei Criacionista proibia o ensino da teoria da 
evolução em escolas públicas, a menos que fosse acompanhada de instrução 
na “ciência da criação”. Nenhuma escola era requerida a ensinar evolução ou 
ciência de criação. No entanto, se qualquer uma das duas fosse ensinada, a 
outra também deveria sê-lo. As teorias da evolução e da ciência da criação 
eram definidas pela lei como sendo as “evidências científicas para (criação 
ou evolução) e inferências a partir dessas evidências científicas” (482 U.S. 
578, 581).
Os apelados, que incluíam pais de crianças frequentando escolas 
públicas em Louisiana, professores de Louisiana e líderes religiosos, 
questionaram a constitucionalidade da lei. A justiça federal em primeira 
instância decidiu que a Lei Criacionista violava a Cláusula do Estabelecimento, 
ou bem porque proibia o ensino da evolução, ou bem porque exigia o ensino 
da ciência da criação com o propósito de promover uma doutrina religiosa 
particular (482 U.S. 578, 582). O tribunal de apelação federal manteve a 
decisão, e a SCOTUS confirmou-a.
2.4 Exibição Pública de Símbolos Religiosos fora de Escolas
Neste âmbito, observa-se que a SCOTUS tem sido mais tolerante 
com a exposição de símbolos religiosos. Nenhum membro da SCOTUS 
questionou seriamente, por exemplo, a permissibilidade do lema “In God 
We Trust” na moeda nacional (isto é, no dólar), ou a recitação da expressão 
“uma nação sob Deus” no Pledge of Allegiance (SULLIVAN; GUNTHER, 2010). 
Desse modo, a SCOTUS rejeitou a maioria das impugnações feitas em casos 
desse tipo.
Em McGowan v. Maryland, 366 US 420 (1961), por exemplo, a 
SCOTUS rejeitou a demanda de que leis que determinavam o fechamento do 
comércio aos domingos (inclusive com sanções penais) violavam as cláusulas 
sobre religião. Se, por um lado, a SCOTUS disse que não havia “disputa que 
as leis originais lidando com trabalho aos domingos haviam sido motivadas 
por forças religiosas” (366 US 420, 431), afirmou, por outro lado, que “à 
luz da evolução de nossas Leis de Fechamento aos Domingos ao longo dos 
séculos, e de sua ênfase mais ou menos recente em considerações seculares, 
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não é difícil discernir que como presentemente escritas e administradas, 
a maioria delas, no mínimo, são de um caráter secular e não religioso e 
que, presentemente, não guardam relação com o estabelecimento de uma 
religião no modo em que tais palavras são usadas na Constituição” (366 US 
420, 444). A Corte adicionou: “O propósito e efeito atual da maioria delas é 
fornecer um dia uniforme de descanso para todos os cidadãos; o fato de que 
esse dia é domingo, um dia de importância particular para as seitas cristãs 
dominantes, não barra o estado de alcançar seus propósitos seculares” (366 
US 420, 445). Por fim, consignou: “domingo é um dia separado de todos os 
outros. A causa é irrelevante; o fato existe” (366 US 420, 452).
Em Marsh v. Chambers, 463 U.S. 783 (1983), a SCOTUS manteve 
a “prática do Legislativo de Nebraska de iniciar cada dia legislativo com 
uma prece feita por um capelão pago pelo estado”. Nesse caso, a SCOTUS 
não aplicou o teste de Lemon; no lugar disso, apoiou-se na história para 
sustentar a prática, em que pese o fato de que o cargo de capelão havia 
sido ocupado por 16 anos por um presbiteriano, que o capelão era pago por 
dinheiro público, e que todas as preces eram na “tradição Judaico-Cristã” 
(463 U.S. 783, 793). Nesse caso, no lugar do teste de Lemon, a SCOTUS 
voltou sua atenção para características específicas da prática impugnada à 
luz de uma longa história de aceitação de preces legislativas e outras preces 
oficiais (SULLIVAN; GUNTHER, 2010).
Um dos precedentes mais significativos sobre o tema foi o caso Lynch 
v. Donnelly, 465 U.S. 668 (1984). Os fatos do caso eram estes: a cada ano, 
em cooperação com a associação de comerciantes de varejo do centro da 
cidade, a cidade de Pawtucket, Rhode Island, erguia uma exposição de Natal 
em observância à temporada do feriado de Natal. A exposição era situada 
em um parque de propriedade de uma organização sem fins lucrativos e 
localizada no coração do distrito comercial. A exposição era essencialmente 
como uma dessas que se encontram em centenas de cidades ou povoados 
ao longo da nação (EUA) – frequentemente em território público – durante 
a temporada de Natal. A exposição de Pawtucket compreendia muitas das 
figuras e decorações tradicionalmente associadas com o Natal, incluindo, 
entre outras coisas, uma casa do Papai Noel, renas puxando o trenó do Papai 
Noel, postes listrados, uma árvore de Natal, coristas, figuras recortadas 
representando tais personagens como um palhaço, um elefante e um urso de 
pelúcia, centenas de lâmpadas coloridas, uma grande faixa com os dizeres 
“SEASONS GREETINGS”53, e o presépio questionado. Todos os componentes 
da exposição eram de propriedade da cidade (465 U.S. 668, 671).
53 No contexto, poderia ser traduzido por uma expressão como “FELIZ NATAL”.
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O presépio, que havia sido incluído na exposição por 40 anos ou 
mais, consistia das figuras tradicionais, incluindo o menino Jesus, Maria 
e José, anjos, pastores, reis e animais, todos com tamanho variando entre 
aproximadamente 12 centímetros a 1,5 metro. Em 1973, quando o presépio 
foi adquirido, custou à cidade U$ 1.365,00; em 1984, valia U$ 200,00. A 
montagem e desmontagem do presépio custava à cidade em torno de U$ 
20,00 por ano; despesas nominais eram geradas pela iluminação do 
presépio. Nenhum dinheiro havia sido gasto na manutenção do presépio 
pelos 10 anos anteriores (465 U.S. 668, 671).
A justiça federal de primeira instância decidiu que a inclusão pela 
cidade do presépio na exposição violava a Cláusula do Estabelecimento. 
O tribunal federal, por maioria, manteve a decisão. A SCOTUS reformou. 
Nos fundamentos da decisão, a SCOTUS enfatizou a história contínua de 
reconhecimento oficial por todos os três ramos do governo do papel da 
religião na vida estadunidense, desde, no mínimo, 1789 (465 U.S. 668, 
674). Nessa conexão, foi feita referência ao reconhecimento de feriados 
com significado religioso, ao lema nacional “In God We Trust”, presente na 
moeda americana, e ao Pledge of Allegiance (465 U.S. 668, 676).
A SCOTUS referiu também o teste de Lemon; contudo, afirmou que 
“nós temos repetidamente enfatizado nossa relutância a ser confinados a 
qualquer teste ou critério único nessa área sensível” (465 U.S. 668, 679). 
Ainda assim, a SCOTUS concluiu que a ação governamental, nesse caso, 
possuía propósitos seculares legítimos (465 U.S. 668, 681) – satisfazendo, 
portanto, a primeira ponta do teste de Lemon. A SCOTUS concluiu que as 
outras duas pontas também estavam satisfeitas, pelo que não havia violação 
à Cláusula do Estabelecimento.
Após Lynch, a SCOTUS retornou ao tema em um julgamento conjunto 
de dois casos: Allegheny County v. Greater Pittsburgh ACLU, 492 US