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ESTADO LAICO volume 1

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diversa daquela encontrada na Alemanha e Itália. 
Entretanto, a garantia da liberdade ideológica, na vertente coletiva, 
também se manifesta no âmbito interno da empresa e, consequentemente, 
repercute no contrato de trabalho de seus empregados, em especial daqueles 
incumbidos de tarefas vinculadas diretamente a sua ideologia. Os conflitos 
entre duas normas fundamentais exigem a modalização dos direitos, tanto 
do trabalhador, como da empresa a fim de que a solução proposta extraia o 
máximo do exercício das liberdades públicas para ambas as partes. Como 
disse Quadra-Salcedo: “A licitude da empresa de tendência e sua liberdade 
de criação exigem não apenas o direito de criá-la, como também a garantia 
de proteção da tendência mesma que está na base da atividade”.10 Explica 
esse autor que a proteção deve se coordenar e compatibilizar com os direitos 
das pessoas que prestam serviços a tais empresas de tendência, sem, 
contudo, importar ao extremo de degradar a sua dignidade com a renúncia 
dos seus direitos fundamentais, a perda de sua intimidade ou a submissão 
absoluta à empresa.
10 QUADRA-SALCEDO Y FERNANDEZ DEL CASTILLO, T. La clausula de conciencia: un godot cons-
titucional (II), op. cit., p. 52.
17Ministério Público - Em Defesa do Estado Laico
O conceito de empresa de tendência aplicado pela doutrina e 
jurisprudência espanhola é uníssono em reconhecê-la em qualquer 
organização que seja instrumento ou meio de exercício da liberdade de 
manifestação do pensamento de um conjunto mínimo de pessoas agrupadas 
em torno a objetivos comuns.11 A finalidade ideológica da empresa deve ser 
publicamente reconhecida, ou seja, não se trata de um critério subjetivo 
interno à empresa. Ela deve configurar um fato externamente constatável. 
A empresa deve parecer ao exterior como defensora de uma ideologia 
concreta.12 São consideradas empresas de tendência os sindicatos, os 
partidos políticos e as congregações religiosas.
“A liberdade religiosa tem como objeto a fé ou a ausência de fé, 
entendida como ato e como conteúdo de dito ato compreendendo a prática 
da religião em suas mais variadas manifestações, sejam estas individuais, 
associadas ou institucionalizadas, públicas ou privadas.”13 A concepção, 
positiva e negativa, dessa liberdade (art. 16 CE) segue os mesmos moldes 
da linha adotada pelo Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas em 
sua Observação Geral do art. 18 do Pacto Internacional de Direitos Civis e 
Políticos14: “O artigo 18 protege as convicções teístas, agnósticas ou atéias, 
assim como o direito de não professar nenhuma religião ou convicção. Os 
termos “convicção ou religião” são interpretados em sentido amplo.”15As 
ordens religiosas na Espanha estão reguladas pela Ley Orgánica de 
Libertad Religiosa e são consideradas empresas de tendência ao representar 
o exercício coletivo da liberdade religiosa.
A Constituição espanhola garante a liberdade de ensino (art. 27.1 CE) 
como o principio fundamental do sistema jurídico, fruto da projeção, no 
campo educativo, da liberdade de expressão e do pluralismo ideológico e 
religioso reconhecido (STC 5/1981, de 13 de fevereiro).
“Com esta premissa, o Tribunal (Constitucional) não duvidou 
em reconhecer a natureza constitucional do direito do titular 
11 BLAT GIMENO, F. R. Relaciones Laborales en Empresas Ideológicas. Madrid: Centro de 
Publicaciones, Ministerio de trabajo y Seguridad Social, DL, 1986, p. 70.
12 GORELLI HERNÁNDEZ, J. Libertad de expresión, ideario de la empresa y despido (en torno a la 
STC 106/1996, de 12 de junio, BOE de 12 de julio). In: Actualidad Laboral, n. 6/3 – 9 Febrero, 1997, 
p. 113.
13 VALDÉS DAL-RÉ, Fernando. Libertad ideológica y contrato de trabajo: una aproximación de dere-
cho comparado, op. cit., p. 2.
14 Artigo 18, “Toda pessoa terá direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião. Esse 
direito implicará a liberdade de ter ou adotar uma religião ou crença de sua escolha e a liberdade de 
professar sua religião ou crença, individual ou coletivamente, tanto pública como privadamente por 
meio do culto, da celebração de ritos, de práticas e do ensino”.
15 SOUTO PAZ, J. A. La libertad de pensamiento, conciencia y religión), op. cit., nota 22.
18 Ministério Público - Em Defesa do Estado Laico
(do centro de ensino) a estabelecer um ideal. A faculdade de 
orientar ideologicamente uma instituição docente – com as 
necessárias limitações derivadas dos arts. 20.4 e 27.2 CE – 
formaria parte da liberdade de criação de centro, já que, ape-
nas com este conteúdo, a citada liberdade poderia adquirir um 
caráter ideológico que a distinguisse do simples direito cívico 
de liberdade de empresa”.16
A Lei Orgânica do Direito à Educação (LODE) reconhece o direito à 
implantação de uma linha ideológica própria em todos os centros privados 
(art. 22.1), inclusive aqueles subsidiados pelo Estado (chamados concertados 
– art. 52.1).17
A liberdade de informação está assegurada no art. 20.1, “d”, CE e 
determina o controle parlamentar dos meios de comunicação, respeitando 
o pluralismo da sociedade e das diversas línguas na Espanha (art. 20.3 
CE). O pluralismo nos meios de comunicação é uma das ferramentas 
para preservação da democracia na sociedade e, portanto, de garantia das 
liberdades individuais. A garantia da liberdade de informação abrange 
inclusive a interpretação dos fatos segundo determinada linha ideológica. 
A caracterização como empresas de tendência é conveniente aos meios 
de comunicação, ainda que tenha um caráter mais atenuado que àquela 
relativa a um sindicato, a uma associação religiosa ou a um partido político. 
Como adverte Tomás Quadra-Salcedo, sua escala de tendência dependerá 
dos objetivos fixados na sua fundação:
“será máxima em um jornal de partido ou religioso e menor 
em um meio que se pretenda puramente profissional; mas 
em todo caso sempre haverá um certo nível de tendência, 
pois sempre haverá algumas convicções pessoais, religiosas, 
políticas, sindicais, etc., e tais convicções condicionam sen-
sivelmente a forma de ver ou de interpretar as notícias, os 
fatos.” 18
Incluídos os centros de ensino e as empresas de comunicação no grupo 
das empresas de tendência, fica a pergunta sobre a possibilidade de outras 
empresas (científicas, culturais, artísticas e o Estado) se caracterizarem como 
16 CALVO GALLEGO, F. J. Contrato de Trabajo y Libertad Ideológica: Derechos fundamentales y 
organizaciones de tendencia, op. cit., p. 120.
17 Esta seria a única hipótese de disciplina específica sobre as empresas de tendência no ordenamento 
espanhol. Anotação de Blat Gimeno sobre a doutrina de Rodríguez Piñero (BLAT GIMENO, F. R. Re-
laciones Laborales en Empresas Ideológicas, op. cit., p. 69).
18 QUADRA-SALCEDO Y FERNANDEZ DEL CASTILLO, T. La clausula de conciencia: un godot cons-
titucional (II), op. cit.,, p. 52.
19Ministério Público - Em Defesa do Estado Laico
organizações ideológicas. Calvo Gallego defende o caráter exemplificativo 
deste elenco de organizações e, em razão da natureza excepcional deste 
tipo de empresas, exige que o empresário seja obrigado a comprovar o 
caráter ideológico ou de tendência de sua entidade.19 Esse posicionamento 
se aproxima do Tribunal Constitucional ao reconhecer a possibilidade de 
outras empresas apresentarem esse caráter ideológico (STC 106/1996, de 12 
de junho):
“Faz-se necessário salientar que este Tribunal apenas se refe-
riu ao conceito de “ideal do Centro” em relação aos centros de 
ensino privados, o que não significa, desde logo, que existam 
outros tipos de empresas, centros, associações ou organizações 
que possam aparecer externamente como defensoras de uma 
determinada opção ideológica. Nosso ordenamento carece de 
uma legislação expressa que se refira às mesmas e, portanto, 
não existe uma delimitação a priori deste

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